Dramione - Side Effect
29 Foi o Malfoy!
Notas iniciais
Já passava e muito da hora marcada, meu joelho estava doendo, meus braços reclamavam, cansados de me sustentar sobre as armações de madeira. Draco ainda não tinha aparecido e um Malfoy nunca se atrasava. Então, concluí que, provavelmente, ele havia chegado antes de mim, mas se cansou de esperar. Eu não era exatamente a pessoa mais rápida no momento. E saiu para a ronda sozinho. Comecei a mancar escada acima, no que costumava ser nossa rota usual, na esperança de alcançá-lo, mas no segundo lance de escadas rumo ao terceiro andar eu já estava suando. Parei para respirar por um segundo e vi que aquilo não ia dar certo. Então, decidi que Draco Malfoy podia muito bem terminar a ronda sozinho, já que tinha decidido começar assim. Eu nem estaria nessa situação deplorável, dependendo do apoio de muletas e me sentindo uma completa inútil que não conseguia nem andar sem ajuda, se não fosse por ele. Manquei de volta para meu dormitório espumando de raiva.
Mesmo exausta após ter rodado mais de meio castelo me equilibrando nas malditas muletas, não estive nem perto de sentir sono de verdade. Não sonhava com a guerra, as mortes desde… desde que tinha dormido com Draco na Sala Precisa. Constatar aquele estranho poder do sonserino sobre mim, aquela capacidade absurda que ele tinha de me acalmar, fazer-me sentir segura, só me deixou ainda mais irritada, e, é claro, ciente do quão desconfortável eu estava naquele momento, sem ele por perto. Eu devia estar dormindo apenas 2, no máximo 3 horas de sono por noite. Os pesadelos com as paredes do castelo desmoronando sobre Fred, os corpos de Tonks e Lupin de mãos dadas, estirados no salão principal, dividiam espaço com imagens de Ronald em uma das camas do St. Mungus, repetindo coisas sem sentido, amarrado por uma camisa de força. Esse último sonho, em especial, me fez desistir de subir para o dormitório e me instalar em uma das poltronas em frente à lareira durante a longa madrugada.
Quando os primeiros raios de sol entraram pela janela da torre, eu sabia que devia estar mais parecida com a Murta que Geme do que com Hermione Granger. Meu corpo reclamou com estalos altos ao ser obrigado a deixar sua posição encolhida no sofá. Suspirei derrotada e decidi que apesar de ainda ser praticamente madrugada, era hora de acordar Gina e me trocar.
— Srta. Granger. — com o susto, derrubei o livro que tinha nas mãos em cima do meu pé direito, o da perna que ainda funcionava. Obriguei o gemido de dor a fazer o caminho de volta pela minha garganta, antes que escapasse por entre os meus dentes trincados. Mas deixei o livro no chão, onde parou após quicar algumas vezes pelo piso de pedra. Nada de bom poderia levá-la até ali aquela hora da manhã. Por isso, tentei parecer o mais sonolenta possível quando me virei para encarar Minerva McGonagall, parada logo após o buraco na parede, atrás do quadro da mulher gorda. — Que bom que já está acordada. A srta. divide o dormitório não a srta. Patil não é mesmo? Pode chamá-la para mim, por favor?
Não acredito que a bruxa tenha realmente reparado em mim, ou no meu péssimo estado. A urgência em sua voz e a expressão assustada que empalidecia seu rosto não eram típicos dela. Não combinavam com seu porte elegante, mas ao mesmo tempo ameaçador. Com sua segurança inabalável. Então, balancei a cabeça de forma positiva e manquei escada acima o mais rápido que pude para fazer o que ela me pediu. Meu cérebro trabalhava o mais furiosamente — após uma noite de completa privação de sono — nas possibilidades. Parvati desceu ainda de pijamas com Gina e eu em seus calcanhares. A diretora não pediu que nos retirássemos, e também não fez cerimônia para dizer o que aconteceu. Como a própria McGonagall afirmou uma vez, sempre que alguma coisa acontecia em Hogwarts Harry, Ronald e eu estávamos envolvidos. Mas não era o caso, não desta vez.
Apesar das semelhanças, eu sabia exatamente o que, ou quem, tinha acontecido à Ronald. Já Padma foi encontrada desacordada, por Filtch, em um dos corredores do terceiro andar, durante as primeiras horas da madrugada. Só que ao contrário do meu amigo ruivo, Madame Pomfrey já havia tentado várias poções e feitiços, mas a gêmea não reagia a nada. Não era possível dizer nem mesmo se ela tinha desmaiado sozinha ou sido atacada. “É como se estivesse presa em um sono profundo, uma espécie de coma”, Minerva explicou.
— Consegue se lembrar se Padma reclamou de alguma coisa, algum sintoma que po-
— Foi o Malfoy!
— Senhorita, esta é uma acusação muito grave. Não há sinais aparentes de um duelo. O último feitiço realizado pela varinha foi um Lumus. Não temos pro-
— Ele é um Comensal da Morte. Eu não preciso de provas. — a pele de oliva da garota adquiriu um tom arroxeado. Ela esbravejava e gesticulava na direção da diretora, que se manteve impassível. — Vários pais vinham expressando preocupação com o fato de a senhora tê-lo trazido de volta a Hogwarts, colocando em risco a vida dos alunos de bem. E como se isso não fosse suficiente, a senhora o nomeou monitor, deu a ele liberdade para passear pelos corredores e atacar quem quisesse com a desculpa de estar aplicando uma punição disciplinar. Eu vou me reportar ao Ministério. Ele precisa ser preso imediatamente.
— HEY! Não gostar de alguém não é suficiente para acusar essa pessoa sem provas.
Se o discurso inflamado e cheio de ódio de Patil ainda não tinha acordado metade da torre, meu grito, com certeza se encarregou do serviço. Ela parou de atacar verbalmente a diretora e arregalou os olhos na minha direção, mortalmente ferida.
— Chega a ser ridícula essa sua mania de acreditar sempre no melhor das pessoas, Granger.
— É muito simples esclarecer isso. — Gina interveio. Sua voz era suave e conciliadora. Fruto de anos de experiência mediando as incontáveis discussões dos irmãos Weasley. — Vamos chamar Malfoy e perguntar onde ele estava no horário em que tudo aconteceu. Alguém pode confirmar a história e ficará provado que não foi ele.
— Ótima ideia srta. Weasley. — Minerva parecia espantada por não ter pensado nisso ela mesma. E, especialmente, agradecida. Desde que resolveu convidar os alunos que deveriam ter cursado o sétimo ano a terminar os estudos de maneira apropriada, incluindo filhos e sobrinhos de comensais, a diretora vinha enfrentando a ira de alguns pais. As críticas e reclamações ao Ministério eram constantes, como ficou claro em nossa última conversa. Ela não acreditava estar assumindo um risco. E, se minha opinião valia alguma coisa, eu também acahva que não estava. — Por favor, peça ao Prof. Slughorn que vá buscar sr. Malfoy e me encontrem na minha sala.
Gina deve ter voado pelos corredores, porque estava de volta, com um Slughorn de cara amarrotada e olhos inchados e um Malfoy mal humorado, em menos de 15 minutos. Ele usava as mesmas roupas do jantar da noite anterior, calça preta, camisa de gola preta e o casaco de feltro. Com tanto negro era difícil notar as diferenças entre uma peça e outra, mesmo nos dias normais, mas tudo no loiro já me era familiar. Quando registrou minha presença, Draco deixou cair a expressão fechada por alguns segundos. Entretanto, os anos de treino o ajudaram a se recompor.
— Seu imbecil, filho de uma puta! Seu comensal de merda! — apesar do ataque verbal, Parvati não se atreveu a se levantar da cadeira.
— Controle-se, srta. Patil! Ou terei que pedir que se retire.
Draco arqueou uma sobrancelha para mim, ignorando totalmente a explosão da outra garota e perguntou com uma voz entediada.
— Bem, já estou aqui. Qual é a razão de todo o desespero e da recepção tão calorosa?
— Há alguém que possa confirmar que o senhor passou a noite em seu dormitório? E que só saiu agora, quando foi chamado pelo prof. Slughorn?
Algo no tom da voz de Minerva fez com que Draco abandonasse a abordagem de aparente desinteresse e desprezo. Ele desfez a cara amarrada e quando falou, seu tom era quase de desculpas.
— Acredito que não.
— Eu disse! Foi ele!
Parvati foi silenciada por um olhar ameaçador da professora.
— Sr. Malfoy, tem certeza? Não passou por nenhum aluno no salão comunal antes de ir se deitar ontem? Algo muito grave aconteceu esta madrugada e precisamos saber onde o senhor estava no horário em questão.
Draco negou com a cabeça e a diretora apoiou uma das mãos na mesa, procurando se segurar, de maneira quase imperceptível. Quase! Vi quando os olhos cor de tempestade de Draco registraram o gesto. Assim como eu, ele também notou que a cor começava a deixar as bochechas descarnadas da bruxa.
— Passei a noite na Sala Precisa. Fiquei lá a noite toda e voltei ao dormitório poucos minutos antes do professor Slughorn aparecer. E foi só isso. Gostaria de poder ajudar mas não sei de nada. O que quer que tenha acontecido, não estou envolvido. Sinto muito, diretora.
Apesar de se dirigir a McGonagall foi para mim que Draco olhou enquanto contou sobre sua noite. A verdade por trás dos olhos cor de tempestade era clara, quase transparente, quando se sabia como ver através deles.
— Acredito em você, sr. Malfoy. Mas, infelizmente terei que pedir que entregue a sua varinha para averiguação.
— O que o Draco está dizendo é verdade.
A frase saiu meio estrangulada. Como se não houvesse ar suficiente nos meus pulmões. Como se alguém estivesse apertando a minha garganta e tentando impedir as palavras de sair. E eu precisei reunir a pouca coragem que ainda possuía para dizê-la. Não sei se os olhares assustados lançados na minha direção diziam respeito ao fato de eu ter interrompido a diretora, ou usado o primeiro nome do sonserino.
— Como pode ter tanta certeza, Granger?
— Porque eu estava lá com ele, Patil. Ou não percebeu que eu também não passei a noite no nosso dormitório?
Já tinha acontecido uma vez. Até poucos dias atrás poderia muito bem ser verdade.
Acho que o queixo de Patil poderia ter atingido o chão se ela não tivesse levado as mãos à boca. McGonagall desistiu de tentar disfarçar e colocou as duas mãos na mesa atrás de si, procurando por apoio. Parecia que ela ia desmaiar. Eu podia ouvir os estalos no cérebro dela enquanto as peças iam se encaixando. Enquanto ela se dava conta de que não me pegou saindo do dormitório, e sim chegando. Enquanto ela olhava para mim de cima a baixo e examinava minhas roupas, depois as de Draco, e concluía serem as mesmas que usamos durante o jantar na noite anterior.
— Saiam todos! Preciso falar a sós com a Srta. Granger e o Sr. Malfoy!
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