Dramione - Side Effect
31 Essa é a graça da magia!
Notas iniciais
Com tudo o que a sexta-feira de Halloween prometia não foi surpresa nenhuma as horas terem se arrastado preguiçosamente no dia anterior. À noite, mesmo aconchegada junto a Draco na cama de dossel da Sala Precisa, confortável e segura, sono foi algo fora de questão. Estávamos muito agitados para dormir, a ansiedade era um monstro arranhando as paredes do meu estômago com suas unhas afiadas, rasgando minhas entranhas, desesperado com o que ia acontecer. Draco traçava desenhos com a ponta dos dedos nas minhas costas de forma errática. Um gesto automático e inconsciente que refletia a aflição e a impaciência represadas dentro dele.
Devo ter cochilado em algum momento durante a madrugada, porque acordei assustada quando o fogo na lareira fez a madeira estalar um pouco mais alto que o normal. Fiquei ainda mais angustiada quando percebi que Draco não estava ao meu lado. Corri os olhos pelo aposento, mas não havia sinal dele em lugar algum. Foi então que notei um pergaminho dobrado sobre o travesseiro ao meu lado.
Hermione,
Perdoe-me por sair antes de você acordar.
A espera estava me matando, então, resolvi seguir para o Instituto e encontrar minha mãe antes da… antes de vermos Lucius pela última vez.
Devo estar de volta até a hora do baile. Guarde uma dança para mim!
D.M.
McGonagall liberou todos das aulas por causa das comemorações da noite. Ninguém ia prestar atenção a qualquer coisa que os professores dissessem mesmo. Então, eu não precisava me preocupar com o horário. Dexei-me cair de volta nos travesseiros e agarrei o que estava ao meu lado, inalando o cheiro reconfortante de âmbar, sândalo, musgo de carvalho e Draco Malfoy. Fechei os olhos e uma lágrima solitária escorreu pela minha bochecha, molhando a fronha. Meu coração parecia comprimido. Sem espaço o suficiente para bater da forma como deveria, ele doía no peito. E eu sabia que a sensação não me deixaria até que Draco estivesse de volta. Perto de mim.
Não sei por quanto tempo fiquei ali deitada, imaginando onde estaria Draco, o que estava fazendo e, principalmente, sentindo. Até que finalmente me dei conta de que aquilo não o ajudaria, ou mudaria nada. Então, desci para procurar por Harry e Gina e me oferecer para ajudar em qualquer coisa em que pudesse ser realmente útil. A ruiva coordenava a montagem de mesas no salão principal, enquanto Harry, ela me disse, cuidava dos últimos ajustes da segurança junto aos aurores. Ajudei-a com a decoração, que incluía abóboras esculpidas e iluminadas por velas flutuando acima das nossas cabeças, uma fonte de chocolate em forma de trasgo e caldeirões transbordando doces no centro das mesas.
— Pensei em colocar duas esculturas de dementadores de guarda na porta de entrada do salão, mas acho que Harry não ia gostar da piada.
— Com certeza, não. Mas um hipogrifo deitado comendo abóboras e doninhas ou um testrálio de asas abertas certamente fariam sucesso!
— Ou quem sabe um cão de três cabeças…
— Talvez isso possa magoar o Hagrid! Sabe que ele nunca superou a partida abrupta do Fofo! Digo para deixarmos apenas metade ou até menos dos archotes acesos e colocar candelabros nas mesas de servir. E uns morcegos pairando sobre uma travessa de comida ou outra.
— Perfeito!
Exclamamos juntas após terminar o serviço. Acabamos optando por colocar o testrálio perto no palco, então, a escultura de Bicuço ficou sozinha na entrada. Mas o animal era imponente o suficiente por si só. Agora eu precisava de uma desculpa para dispensar Gina e checar os detalhes do pedido de casamento.
— Srta. Weasley, srta. Granger!
O chamado foi tão inesperado e inoportuno que num primeiro momento achei que estava imaginando coisas. Então, ela chamou de novo. Troquei um olhar exasperado com Gina antes de terminarmos de nos virar. Annie Potins estava parada na porta de entrada do salão com um sorriso no rosto, examinando cada detalhe do que acabávamos de fazer.
— Que bom encontrar vocês. Precisam me contar todos os detalhes do que vai acontecer aqui hoje! Estou tão animada. Esta é a festa do ano…
Minha cabeça doeu só de imaginar a sabatina de perguntas a que ela nos submeteria. Então, antes que qualquer uma das duas pudesse processar o que estava acontecendo peguei Potins e Gina pelo braço e levei até a entrada do salão.
— Gina responderá a quantas perguntas você quiser. Isso tudo aqui é obra dela. Foi ela quem escolheu cada detalhe.
— Na verdade, foi Hermione quem sugeriu o tema da festa! — Gina me fuzilou com o olhar.
— Além do mais, ela precisa de um descanso, está nisso desde cedo. — fiz um gesto amplo, totalmente exagerado e desnecessário, mostrando o salão atrás de nós. — Pode ir tranquila Gina, eu cuido de tudo por aqui. Já estamos quase acabando mesmo.
Ela fez uma careta para mim, mas acompanhou Potins rumo ao jardim. Assim que as duas sumiram nas escadas corri na direção contrária. Simples como era, Harry não quis nada de muito suntuoso para o momento do pedido e, exatamente por isso, eu queria que cada detalhe fosse perfeito. Repassei com a banda o momento em que deveriam começar a tocar a canção combinada e o que eu precisava que eles fizessem. Na cozinha, os elfos corriam de uma lado para o outro terminando de preparar as milhares de travessas de comida e doces e os litros e litros de sucos e ponches. Winky veio me receber coberta de farinha até as orelhas e com um sorriso tímido garantiu que tudo estava dentro do planejado. Agradeci, fazendo o minúsculo sorriso desaparecer de seu rosto marcado e ela sumir em meio ao formigueiro de fronhas velhas e orelhas pontudas.
Não sei precisar quanto tempo se passou, mas quando reencontrei Gina, ela estava da mesma cor dos cabelos e eu achei que cairia dura para trás quando seu olhar fulminante me atingiu. Ela se recusou a responder minhas perguntas, e depois de uma última passada silenciosa pelo salão subimos para nos arrumar.
— Muito obrigada por me empurrar diretamente para as garras da harpia do mal! Eu sou uma mulher grávida e indefesa. Faz ideia do que tive que aguentar?
— Indefesa?! Conta outra, Gina! Milhares de perguntas chatas e repetitivas sobre o baile, o instituto, seu relacionamento com Harry, a carreira do seu irmão no Departamento de Aurores… Esqueci alguma coisa?
— O que eu achava da execução de Lucius Malfoy ter sido marcada para o mesmo dia de nosso baile beneficente!
Engoli em seco e parei de descalçar meus sapatos para encará-la. Gina meneou a cabeça e suspirou antes de responder.
— Uma coincidência infeliz. Foi o que eu respondi. E completei dizendo que isso ia na contramão do que o Instituto e o baile significam para nós.
— Obrigada!
— De nada. Eu ia te mostrar os vestidos agora, mas você não merece! Vai ficar curiosa por mais algumas horas… Precisa aprender uma lição!
— Ah, Gina! Quando foi que eles chegaram? Onde eles estão? Eu quero ver!
— Hoje de manhã. Mas como a senhorita não dorme mais “em casa”… não tem como saber o que acontece por aqui.
Fiquei vermelha até a raiz dos cabelos com a declaração. Será que até Gina já estava achando que Draco e eu…
— Nunca aconteceu nada!
— Eu sei. Você não estaria viva se já tivesse feito e não me contado. Mas tenho que dizer, não sei como você consegue deitar na mesma cama que aquilo tudo e simplesmente dormir.
— GINA!
Minhas bochechas queimavam e eu estava ligeiramente tonta.
— Isso nem me passou pela cabeça nos últimos dias. Quer dizer, a ansiedade que experimentamos não deixou lugar para mais nada. Eu já pensei sobre isso em outras ocasiões, é claro. Muitas ocasiões, para ser sincera. Mas Draco é uma pessoa experiente e eu…
— O que quer dizer com isso? Ele não está te pressionando, está?! Por que se…
— Não, não, não… Não é nada disso! Pelo contrário, ele nunca insistiu, não fica tocando no assunto. Me respeita de verdade.
— Então, com certeza a experiência não importa para ele. Desencana, para de pensar nisso e vai acontecer naturalmente.
— Falou a voz da experiência!
Juro que tentei, mas não consegui segurar o riso, mesmo com a piada ruim. Gina agarrou uma toalha e jogou em mim.
— Vai tomar banho logo! Temos que ser as primeiras a chegar!
Ainda tínhamos tempo, então aproveitei a sensação da água quente caindo nas minhas costas, relaxando os músculos tensos e deixei minha mente vagar até Draco novamente. Aquela hora ele já devia estar no Ministério com Narcisa, esperando por… Minha mente se recusava a formular a palavra e absorver a realidade por trás daquilo. Em algumas horas, Lucius Malfoy não estaria mais entre nós. O pai de Draco seria retirado dele e da mãe. Como retirou dezenas de pais de outros filhos, e filhos de outros pais! Não achava que aquele ciclo vicioso — “Olho por olho, dente por dente”, no ditado trouxa que papai odiava — pudesse realmente nos levar à algum lugar, mas infelizmente eu era minoria. E mesmo depois de quase ter morrido, depois de perder amigos, ser torturada e tornar-me apenas um fragmento opaco da pessoa que fui um dia, por causa dele, eu chorei por Lucius Malfoy. Eu não o conhecia, cresci desconfiando dele e até mesmo odiando-o em vários momentos, mas as lágrimas misturaram-se com a água do chuveiro ainda assim. Por que eu podia imaginar o que Draco estava sentindo e era como ser atingido por um dos galhos do Salgueiro Lutador. A dor não permite que seus pulmões se encham de ar, seu coração perde o ritmo e luta para não parar. O mundo gira ao seu redor e não existe nada a fazer, a não ser tentar manter-se de pé e continuar seguindo. Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha tentando controlar a torrente de lágrimas. Eu precisava ser forte, por ele. Escovei os dentes devagar, concentrando-me em ficar calma. E quando saí do banheiro, já estava melhor.
Gina havia transformado o quarto em um verdadeiro salão de beleza. Cremes, perfumes, maquiagem, pincéis, apetrechos de cabelo, brincos, colares e anéis estavam espalhados por todos os lados. Ela me lançou um sorriso insolente quando passou por mim em direção ao banheiro.
— Será que já posso ver meu vestido! Quer dizer, como vou saber que cor de maquiagem usar?
— Não! Não pode. Use algo neutro, talvez marrom com perolado. Tem que ser bem discreto.
— O que significa que o vestido não é nada discreto! Eu vou te matar, Gina. Não! Quer saber? Melhor, se eu não gostar vou usar o seu! Ainda temos praticamente o mesmo corpo!
Ela suspirou teatralmente antes de se virar e entrar no banheiro. Escolhi um hidratante com perfume discreto e me demorei na tarefa de espalhá-lo pelo corpo. Então parti para a maquiagem. Depois de finalizar a máscara de cílios analisei minha imagem no espelho. Acabou ficando bastante parecido com o que Gina sugeriu, mas era como eu gostava — sóbrio e discreto. Usei a varinha para secar meus cabelos e levantei as sobrancelhas para a Hermione refletida na minha frente. Puxei os cabelos para cima e analisei minha imagem de perfil. Talvez uma trança… Droga! Eu precisava mesmo ver aquele vestido! Espiei por sobre o ombro e a porta ainda estava fechada. Então, peguei minha varinha sobre a mesa de cabeceira.
— Accio vestido!
Fiz um giro completo em volta de mim mesma analisando o quarto, mas nada estava se mexendo, nada tinha mudado.
— Accio vestido!
Girei mais uma vez e parei no meio do caminho quando encontrei Gina com a varinha na mão me fuzilando da porta. Ela marchou até mim e puxou a varinha das minhas mãos sem nenhuma delicadeza.
— I.NA.CRE.DI.TÁ.VEL! Não podia esperar mais 15 minutos, Hermione?
— Eu só queria saber o que fazer com meu cabelo! — protestei e dei de ombros, corando sob o olhar acusador da ruiva.
— Eu vou fazer o seu cabelo. Senta aí!
— Mas você precisa se arrumar!
— Eu te ajudo, você me ajuda! Anda logo!
Obedeci e, antes de começar, ela cobriu o espelho. Revirei os olhos para o gesto. Onde ela queria chegar com aquilo tudo? Rindo, Gina se posicionou atrás de mim e senti meus cabelos serem puxados, torcidos, esticados. Quando, apenas minutos depois, ela deixou escapar uma exclamação de contentamento eu soube que estava pronto. Levei às mãos à cabeça e recebi uma tapa como castigo. Suspirei e me levantei para trocar de lugar com ela.
— Não precisa!
Com um aceno de varinha, ela fez seus cabelos ruivos e muito lisos se encaracolarem. Depois, passou as mãos no meio deles e bagunçou um pouco. Meneei a cabeça e ela riu.
— Vou buscar os vestidos.
— E sua maquiagem?
— Nada de maquiagem para mim. Fique aqui e, por favor, quando eu voltar, não olhe!
Sentei na cama encarando a porta. Segundos depois escutei ela gritar “Feche os olhos!” e obedeci. Acompanhei com atenção seus passos se aproximarem da cama. Minhas mãos já estavam suando com a ansiedade.
— Fique de pé! Sem abrir os olhos!
— Gina, o que vai fazer? Não posso me vestir de olhos fechados.
— Ah, Hermione. Essa é a graça da magia. Você não precisa fazer nada, a não ser levantar os braços.
Senti o tecido suave escorregar pelo meu corpo e se ajustar sozinho. Corri os dedos pela saia e percebi pequenas pedrinhas incrustadas no que devia ser uma renda fina. Meu coração espancava meu peito.
— Já posso abrir? Já posso abrir? Por favor!
— Abra. — ela sussurrou.
Obedeci e pisquei para minha imagem no espelho sem acreditar no que via.
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