Dramione - Side Effect
25 Aconteceu ou não aconteceu?
Notas iniciais
Abri os olhos, piscando para a claridade. Aquilo era uma das coisas que eu mais adorava na mágica: como um cômodo secreto, no meio de um castelo, podia me fazer sentir como se luz da manhã entrasse por uma janela? Draco ressonava baixinho com a cabeça apoiada na minha barriga, na mesma posição em que adormeceu. Apesar de seus pés penderem para fora do divã, ele parecia confortável em seu sono. Eu também não podia reclamar. A lareira acesa ao nosso lado e o corpo de Draco tão próximo ao meu me mantiveram aquecida e o sofá era aconchegante. E não houve pesadelos!, constatei feliz. Observei o sonserino sereno e entregue e não pude resistir a acariciar seus cabelos loiros.
Sob o meu toque, Draco se mexeu e abriu os olhos. Quando me encarou, suas íris estavam lívidas, quase transparentes . Ele piscou tentando se ajustar à claridade e, então, sorriu. Era tão raro ver o rosto de Draco com aquelas feições: as minúsculas rugas no canto externo dos olhos, a curvatura dos lábios finos; que meu peito se aquecia nas poucas vezes em que eu presenciava acontecer. E eu sempre me pegava pensando em como fazer acontecer mais vezes. Não me lembrava de tê-lo visto sorrir daquela maneira antes da guerra. Sua expressão fechada e misteriosa era muito atraente, mas não se comparava ao sorriso sincero, o que chegava aos olhos e os enchia de brilho.
— Bom dia!
— Você ficou…
— Eu disse que-
Fui interrompida por um beijo cálido. Quase um selinho.
— Obrigada, Hermione. Não sabe o que a sua companhia neste momento significa para mim.
Eu só podia mesmo imaginar pelo que Draco estava passando. Uma mistura de medo, angústia, incerteza, revolta… foi isso o que senti quando Sirius quase recebeu o Beijo do Dementador no terceiro ano.
— Estou aqui para o que precisar, Draco. Sabe disso.
Aquilo era o mínimo que eu podia fazer. Ele não tinha mais ninguém para apoiá-lo, ajudá-lo a passar por tudo, superar o que aconteceu e o que ia acontecer. Mas eu não estava ali com Draco pura e simplesmente porque era uma pessoa boa e altruísta. Pelo contrário. Ficar longe dele me causava uma dor física, imobilizante, como se algo crescesse dentro de mim, esmagando meu coração e me impedindo de respirar adequadamente. Eu também precisava de Draco ao meu lado.
— Mas… precisamos nos apressar para as aulas. — eu disse.
— Algumas coisas nunca mudam!
Ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar. Corei ao lembrar de como deveria estar horrível: os cabelos emaranhados, o rosto amassado, os olhos vermelhos. Enquanto Draco estava, simplesmente, lindo. Devo ter feito uma careta quando pensei nisso, porque ele levantou uma sobrancelha para mim, inquirindo.
— Eu devo estar horrível. — levei a mão ao cabelo, amassando-o contra a cabeça.
— Desculpe, mas isso é impossível. Não me lembro de ter acordado com uma visão mais bonita na vida…
Soltei o ar pesadamente e balancei a cabeça, puxando-o em direção ao lugar onde a porta surgiu ontem.
— Espere. Pode ter alguém no corredor. Eu saio primeiro.
Ter contado a Harry e Gina sobre nós pareceu suficiente à Draco. Ele não insistiu que eu revelasse o namoro para mais ninguém e vinha sendo discreto e cuidadoso. Observei a porta aparecer e Draco se esgueirar por ela. Esperei por um feitiço de aviso, um Patrono talvez, mas ouvi apenas uma batida ritmada na parede. Quando saí, ele já estava na metade da escada. Corri em direção à Torre da Grifinória, torcendo para que todos ainda estivessem dormindo. Diminui para a caminhada e tentei parecer o mais casual possível enquanto passava pela Mulher Gorda. Felizmente, o salão comunal estava vazio.
— Hermione Jean Granger.
Estaquei com o pé no primeiro degrau da escada que levava ao dormitório. Gina surgiu de trás da poltrona vermelha de espaldar alto que ficava em frente a lareira.
— Quer me matar de susto, Ginevra? E fale baixo… pode acabar acordando alguém.
— Acordar alguém? Tem noção de que horas são? Todos já devem ter terminado o café a esta altura. Onde você esteve? Não… nem precisa dizer, eu posso imaginar. Eu menti e disse que você chegou tarde, então, decidiu não descer para o café para dormir mais 20 minutos, mas Harry está desconfiado. Ronald,. então, nem se fala. Podia ter me avisado. Se quer que eu continue acobertando você, precisa me contar as coisas, assim posso pensar em desculpas melhores.
Ela não precisava de detalhes para me acobertar, mas para satisfazer sua curiosidade sem limites.
— Tudo bem, Gina. Mas preciso trocar de roupa. Então, venha me ajudar e eu te conto.
Ela bateu palmas de excitação e veio atrás de mim saltitando. Enquanto eu jogava minhas roupas no chão e entrava no uniforme às pressas, Gina apenas ficou sentada na cama me encarando. Eu fiz um relato do que aconteceu na noite passada, e ela emitiu sons como: “Oh!”, “Merlin!”, “Não!”, “Sim”. Antes mesmo de eu terminar a narrativa, ela me encheu com perguntas. E Graças a Merlin a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas ainda não estava cheia quando entramos, porque ela questionou em alto e bom som:
— Ah. Meu. Merlin. Hermione… Vocês dormiram juntos?
Apertei o braço dela que estava entrelaçado com o meu.
— Gina!
— O que? Aconteceu ou não aconteceu? Qual é problema Hermione? Todo mundo faz isso.
— Nós dormimos juntos. — eu sussurrei. Ela gemeu e arregalou os olhos para mim. — E foi só isso. Nós simplesmente dormimos.
— Já é alguma coisa!
— Merlin! Se eu fizesse a linha amiga má, diria que com essa atitude, até que demorou para você engravidar.
— Shhhhh! Fala baixo! Apesar de não sair do meu pé, Parvati ainda não espalhou a fofoca para Hogwarts inteira e eu quero que fique assim… Pelo menos até não dar mais para esconder.
— Sinceramente, não entendo qual é a dela. E toda aquela história de aposta sobre o sexo dos bebês?
É por isso que Simas parecia tão desinteressado quando questionou o estado de Gina naquela noite. Ele não sabia a verdadeira razão que levou a ruiva até a enfermaria. Apesar de tudo, Parvati não tinha dado com a língua nos dentes ainda, mas era só uma questão de tempo.
— Talvez ela tenha descoberto que, melhor do que contar para todo o castelo o que descobriu, é possuir uma informação privilegiada para usar como moeda de troca. Quer dizer, ela quer sempre ser incluída nas coisas, faz de tudo para aparecer. Pode ter mudado de tática. E, além disso, a história não ia colar de novo depois da fofoca falsa sobre a sua gravidez.
O raciocínio de Gina era bem lógico. E se Parvati tinha decidido ficar de boca fechada isso me isentava do plano de assumir o namoro com Draco para ofuscar a gravidez de Gina. O que era bom.
— Mas voltando ao assunto principal… Quando é que vocês vão assumir?
Era como se ela tivesse lido a minha mente. Eu odiava como minhas emoções ficavam explícitas no meu rosto.
— Bem… Não é tão fácil assim, Gina. Quer dizer… você aceitou tudo numa boa e Harry está tentando fazer o mesmo, mas metade do mundo mágico ainda não pode nem ouvir falar o sobrenome Malfoy.
— Está com medo do que as pessoas vão pensar? Justamente você?
— Não. Não estou. Bem, talvez um pouco. — admiti pela primeira vez. — E eu me odeio por isso. Mas, o principal, estou com medo do que pode acontecer com ele. Seu irmão vai começar a Terceira Guerra Bruxa só para colocá-lo na cadeia se descobrir.
— Meu irmão é um idiota. — Gina disse no mesmo instante em que Harry entrou na sala, acompanhado de Neville. Logo atrás deles vinha Ron, de braços dados com Parvati. A ruiva lançou um olhar de nojo para o “casal”. — Como você pode ver!
Depois de tudo o que aconteceu durante a guerra, as aulas de DCADT eram, no mínimo, estranhas de se frequentar. É claro que alguém experiente como Estúrgio Podmore tinha muito a nos ensinar, mas nem todos pensavam assim. Para aqueles que acreditavam que o mundo bruxo estava finalmente à salvo e em paz, eram horas desperdiçadas. Havia também alunos que se sentiam mal quando descobriam algo que poderia ter salvo a vida de alguém, como eu. E, infelizmente, havia também aqueles que estiveram na frente de batalha da guerra e por isso achavam que não tinham mais nada a aprender, como Ronald. Esses, na maioria das vezes, conversavam o tempo todo e faziam piadinhas irritantes.
Podmore estava no meio da explicação sobre como gostaria que nos dividíssemos para o exercício sobre o que iria ensinar hoje, quando Draco entrou na sala correndo. Quase todas as cabeças se viraram, mas ele levantou o queixo — uma sombra do ar superior que costumava demonstrar perpassando seu rosto — e piscou para mim. Gina sufocou uma risadinha depois que dirigi a ela meu melhor olhar assassino.
— Que bom que resolveu se juntar à nós, senhor Malfoy!
— Sinto muito, prof. Podmore.
— É só isso? Sem desculpas esfarrapadas para justificar seu atraso?
— Eu perdi a hora. Não vou mentir. Vai aceitar minhas desculpas e me deixar assistir a aula?
— Desta vez sim. Mas se houver uma próxima, seu destino será a detenção. Ah, e antes que eu me esqueça, 20 pontos a menos para a Sonserina. E já que está atrasado, pode me ajudar a demonstrar aos seus colegas o que quero que façam.
— Tudo bem.
— Acredito que algumas pessoas nesta sala já estão familiarizadas com o encantamento que vamos começar a aprender hoje. De qualquer maneira, gostaria que todos praticassem. Primeiro quero que pensem na lembrança mais feliz que conseguirem, façam com que ela esteja vívida em sua mente.
Um sorriso tímido tomou conta do rosto de Harry quando ficou claro o que o professor iria ensinar. Os olhos de Draco captaram o gesto e ele perdeu o pouco de cor que possuía.
— Agora, com isso em mente, repitam comigo… Nada de varinhas por enquanto! Expecto Patronum!
Os alunos repetiram em coro. A varinha de Harry iluminou dentro do bolso e uma coluna de fumaça começou a sair dele, eu e Gina precisamos abafar nossos risos. Draco encarou os próprios pés, os lábios fechados em uma linha fina.
— Muito bem, muito bem! Quem pode me dizer mais sobre o Patrono?
— Patronos são feitos de esperança, felicidade e desejo de sobrevivência. Esse é o único feitiço conhecido que pode repelir Dementadores e Mortalhas-vivas. Quando realizado com sucesso, o Patrono assume a forma de um animal prateado. Essa forma está ligada ao bruxo, como os seus gostos e seus sentimentos. Por isso, é comum a forma do Patrono ter a ver com quem a pessoa mais ama. Os patronos também podem ser usados para enviar mensagens. E como nenhum é igual ao outro, o patrono fala com a voz da pessoa que o conjurou.
— Muito bem, senhorita Granger. 10 pontos para a Grifinória!
Eu sei, eu sei. Às vezes eu era irritante. Mas eu não conseguia evitar responder quando os professores perguntavam, geralmente, eram coisas tão simples. Gina revirou os olhos para mim e imaginei se ela sabia o que eu estava pensando.
— Podem sacar suas varinhas agora. Se importa de demonstrar o exercício sr. Malfoy?
Draco segurava a varinha com tanta força que achei que ela iria quebrar. Ele ainda encarava os próprios pés.
— Sr. Malfoy?
Ele levantou a cabeça e encarou Podmore. Seus olhos estavam duros. Draco ergueu a varinha e respirou fundo antes de dizer sem muita segurança.
— Expecto Patronum!
Nada aconteceu. Foi como se ele nem tivesse aberto a boca. Nenhum fiapo de fumaça, nenhum resquício de luz. A varinha parecia morta. Risos vindos da direção onde estavam Ronald e Parvati encheram a sala.
— Querem compartilhar com sala, sr. Weasley?
Podmore deve ter achado que a frase intimidaria os dois.
— Patil estava apenas me lembrando que Malfoy é um filhote de comensal.
— Hã?
Por um momento eu quis que as aulas ainda fossem de “Artes das Trevas”. Seria muito bom poder praticar algumas Maldições Imperdoáveis nos dois sem ser expulsa da escola.
— O que eu disse, na verdade, — Patil soava divertida, segurando-se para não começar a rir no meio da frase. — é que ele não deve ter lembranças felizes o suficiente para realizar um encantamento desses, professor.
Eu sabia que ter Lucius Malfoy como pai não devia ter sido muito agradável, mas não podia nem imaginar algo assim. A mistura de angústia e ódio crescia no meu peito novamente. Uma lágrima caiu atingindo o braço de Gina e ela se virou para mim com um olhar cheio de simpatia. Ronald e Parvati caíram na gargalhada mais uma vez e pelo canto do olho, vi quando Draco atravessou a sala a passos largos em direção à porta.
— Own, acho que você o magoou!
— Quem sabe depois do Halloween as coisas não melhoram.
Foi a gota d’água.
— Estupefaça!
Não pensei no que estava fazendo, apenas levantei a varinha e gritei com todo o ódio que ardia em mim. O jorro de luz vermelha atingiu a garota no peito e ela foi jogada para trás, atingindo Ronald no caminho e levando os dois para o chão com um estrondo.
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