Pov. Mione.

Os dias começaram a passar naquele lugar. Eu nunca tinha me sentido como um animal enjaulado, como eu me sentia agora. A mulher que gostava de viajar o mundo, trancafiada num cômodo 4 por 4... Era frustrante.

Eu sempre sentia fome, Jeovane e Simas dividiam dia após dia a refeição deles comigo, mas era muito pouco e eu não podia deixa-los passar fome por minha causa. A mulher da comida sempre descia com um carrinho, era muito bonita, devia ter no máximo trinta anos, tinha os cabelos negros, mas num corte curto no meio do pescoço. Eu tinha a leve sensação de conhecê-la de algum lugar, seu rosto era muito conhecido para mim.

Ela duas vezes ao dia com o carrinho daqueles que as camareiras usavam em hotéis, e entregava duas marmitas pelo buraco da cela. Nunca falava nada, apenas nos olhava com o canto da boca contorcido num sorriso, como se dissesse “Eu sinto muito” e voltava empurrando o carrinho em silêncio... Eu me apegava aos detalhes para não me abater, reparava em cada auror novo que descia pelo corredor, cada palavra dita pelos meus companheiros, procurando me ocupar, tentando ocupar minha mente e meu coração.

Não era a fome ou a fraqueza que me deixava chateada ou debilitada, era a saudade... Saudade de Enzo e Sophia, saudades de Harry, Rafael, Gina, Rony, todos os Weasley e até mesmo do Blásio... Saudades do Draco...

Eu tentava não me permitir pensar neles, por isso eu me apegava aos outros detalhes, tentava me concentrar em qualquer coisa que não fossem ligadas a lembranças, porque se eu continuasse me martirizando assim não era a fraqueza por causa da fome que iria me derrubar, era a saudades daqueles que eu mais amo.

Walisson também estava esgotado como capanga, ele não vinha nos visitar e uma das ultimas vezes que veio resolvemos que na hora que o estoque acabasse ele iria se entregar, não podia continuar sendo outra pessoa por tanto tempo e achamos que fazer a poção polissuco aqui, na nossa cela não seria arriscado demais. Assim que o estoque dele acabasse se juntaria a nós, e eu só rezava todos os dias para que antes disso os aurores conseguissem nos achar, Melgaço não ia conseguir ficar nada contente em saber que foi enganado durante tanto tempo, e mesmo não verbalizando esses pensamentos eu sabia que meus parceiros pensavam o mesmo que eu.

Todos os dias os convites de Melgaço chegavam, um no almoço e um no jantar e eu recusava todos. Tanto para mim, quanto para Simas e Jeovane, jantar com ele poderia ser mais perigoso do que podíamos imaginar, Melgaço parecia ter uma certa obsessão em relação a mim e isso foi provado com o decorrer dos dias que ficamos naquele inferno particular.

Seria comum um bandido ver seus reféns, mas no caso de Melgaço não, não era nada comum porque ele não tinha necessidade para fazer isso, e mesmo assim fazia. Ele não vinha quando estávamos acordados. Começou no terceiro dia que estávamos aqui, quando Jeovane acordou para ir ao banheiro e se assustou com a figura de Melgaço parado do lado de fora da cela me olhando, já que eu deitava na parede de frente para as grades, entre Simas e Jeovane.

Foi um susto para todo mundo, Jeovane me acordou e consequentemente acordou Simas, Melgaço assim que Jeovane acordou saiu andando para longe, mas não antes de eu vê-lo saindo pela grande porta de carvalho.

Não sabíamos o porquê de ele fazer isso, o porquê dele simplesmente ficar me olhando dormir, o porquê dele simplesmente não me deixar em paz. Ele não falava nada, ficava parado me olhando e quando eu dormia aquela sensação de estar sendo vigiada me incomodava bastante. Com o passar do tempo, seus atos noturnos passaram a ser diurnos, na parte da manhã ele vinha para cá, se encostava na parede e ficava ali, me olhando.

Eram por poucos minutos, mas aquilo era tão incomodo que acabou me dando medo de dormir. Era como se a qualquer momento ele pudesse invadir a cela e tentar algo comigo, ou me matar...

Eu realmente estava no inferno... Sem comida, e parecia que cada vez ela vinha em quantidade menor conforme eu ia negando os convites insistentes. Ele não me fazia o convite pessoalmente, eram todos escritos em pergaminhos caríssimos e envelopes sofisticados com as iniciais F.M em dourado. Simplesmente patético ele desperdiçar tanto pergaminho com alguém como eu.

IIIIIIIIII

No décimo dia de inferno, os capangas desceram para avisar Jeovane que ele iria finalmente levar o primeiro pedido de troca. Eu não estava gostando nada daquilo, entregaram um muda de roupas iguais a que eles usavam e deram um tempo para ele se arrumar junto com uma mochila que assim que eles viraram as costas, eu e Simas reviramos enquanto ele se arrumava.

Continha muita água engarrafada e comida, Jeovane tirou uma marmita para mim e Simas dividirmos e comemos em poucos minutos tudo. Era muito estranho aquilo, pra que tanta comida e bebida? Simas havia dito que era apenas duas horas de jato até Londres, então porque comida suficiente para cerca de seis dias? Mesmo ali tento comida para ele e Isaac, ainda sim era comida o suficiente para três dias para os dois.

Nos despedimos e tudo que escutamos, discutimos e falamos naqueles dias foram passados para Jeovane contar aos outros. Já sabíamos o que eles queriam em troca para soltar Natalia, só que eu não sabia se o Ministério estava disposto a entregar dois comensais em troca de uma pessoa. As trocas não estavam tão justas como devia ser, dois por uma.

A pergunta que nos assolou naqueles dias, e que agora Jeovane iria debater com os aurores longe daqui era o que Fabricio Melgaço queria com Lucio Malfoy e Avery, dois comensais da morte...

Eu tinha certeza que Jeovane ia fazer muita falta. Ele era um homem muito maduro, não precisava me esforçar muito para conversar e explicar as coisas para ele, além dele ser o ponto de equilíbrio aqui dentro da cela, havia se tornado meu amigo, uma pessoa querida que tudo que queria era continuar aqui, apenas para a sua esposa ser libertada antes.

Walisson voltou naquela noite para nos avisar que Jeovane e Isaac já haviam sido levados, e que Melgaço adicionou um bônus a negociação: Simas. Não era mais apenas Natalia em troca dos dois, era Natalia e Simas em troca de Lucio e Avery. Justo? Não. Não quando Simas não estava disposto a ir.

–Eu não vou, se eles mandarem os comensais vão ter que se contentar apenas mandando Natalia. Eu não vou te deixar sozinha aqui com eles. Falou Simas acariciando o seu joelho que estava quase bom, pelo menos ele estava cicatrizando o osso no lugar.

Eu e Walisson discutimos com ele durante poucos minutos e assim que Walisson saiu, eu continuei com essa discursão, mas ele estava irreversível. Não queria saber, e não ia me deixar aqui sozinha nessa cela.

Podia parecer egoísmo da minha parte, e mesmo eu tentando convencê-lo que na hora certa ele deveria ir com Natalia, eu não queria que ele fosse... Não queria ficar sozinha naquele inferno, porque Simas era meu amigo... Sem alguém para me deixar forte, o alicerce que me mantinha firme despencava, e eu despencava junto.

Na parede da minha cama, desde quando eu chegue aqui eu riscava os dias com uma pedra. Tanto eu quanto Simas, cada um tínhamos nossos risquinhos contando os dias que passávamos ali, e sonhando com o dia em que aqueles que nos amávamos iriam entrar por aquela porta de carvalho e iria nos salvar de uma vez por todas. Clichê? Conto de fadas? Não quando não se tem mais opções, Draco podia não ser um príncipe, mas eu realmente esperava por ele.

Eu continuava contando os dias que se arrastavam, enquanto a fome me consumia, não podíamos comer apenas um por dia... Sem Jeovane, eu não quis pegar mais de Simas e deixa-lo ainda com mais fome, eu comia metade do que eu comia antes, o que já não era muita coisa.

IIIIIIIIIIIIIII

Decimo quinto dia de inferno, acordei muito cedo, o sol penetrava as minúsculas grades do corredor. Eram grades pequenas que provavelmente eram encostadas no chão lá em cima e não dava para passar nem as nossas cabeças, apenas para iluminar um pouco durante o dia.

Esfreguei meus olhos e estiquei os braços, estava dormindo de frente para a parede e assim que acordei me virei... Lá estava a assombração Melgaço. Acordei furiosa e fingi não vê-lo como sempre fazia, ele apenas acenou com a cabeça e não retribui.

Ele estava como nos outros dias, uma calça social sem terno e gravata, mas mesmo assim muito elegante. A diferença é que dessa vez ele não saiu andando assim que eu acordei, ficou parado, um capanga de cada lado me olhando entrar no banheiro pra fazer minha higiene pessoal.

–Você ainda está aí? Perguntei assim que sai.

Ele apenas deu um sorriso de lado e continuou me observando, eu odiava isso porque me sentia como um animal. Aqueles de zoológico em que as pessoas ficavam observando o bicho dormir, ou até mesmo comer e isso era muito frustrante e irritante.

Peguei uma coberta e joguei sobre minhas pernas as cruzando e pegando um livro, dos muitos que tinha na minha mochila é claro (como se eu não carregasse sempre), e comecei a ler. Ele deve ter ficado quase meia hora me observando e se não fosse um dos capangas dele o chamando na porta de carvalho por causa de algum problema ele continuaria ali, me observando como se eu fosse um leão numa jaula.

Simas continuou dormindo feito uma pedra o tempo todo e só acordou quando eu fui olhar o joelho dele. Em vista do dia que o osso tinha saído do lugar estava muito melhor, ele já conseguia colocar o pé no chão, mas ainda sim precisava de ajuda para se manter em pé principalmente quando meu estoque de remédios se tornou muito escasso até finalmente acabar a grande maioria.

–Ele veio hoje? Perguntou enquanto eu desenrolava a faixa para lavar.

Detalhe muito estranho: nunca ficávamos sem nada de higiene, Graças a Merlin. Sempre havia produtos de limpeza e higiene. Vez ou outra a mulher da marmita levava nossas roupas no almoço e trazia na janta junto com novas roupas de cama limpas, Simas vestia os “uniformes” dos capangas e sempre eram levados para lavar por ela. Menos minhas roupas íntimas, isso eu não mandava de jeito nenhum.

–Veio, acordei e ele estava parado com dois capangas – respondi depois de alguns segundos já lavando a faixa – Mas ele estava diferente hoje, não foi embora quando acordei, ficou parado me olhando até seus capachos o chamarem.

–Você deveria ter me acordado, vai que o maluco resolvesse te pega a força. Falou Simas pensativo.

–Não sou de porcelana, esta se esquecendo que quem troca suas fraldas sou eu. Brinquei e ele bufou.

–Cala a boca.

Ri dele e enrolei a faixa molhada em sua perna. Ajudei a se sentar e ele pegou um dos meus livros para ler.

–Acha que Jeovane está bem? Perguntou Simas depois de mais de uma hora de silêncio.

–Acho que sim – falei – pelo estoque de comida, ele já deve ter chegado aos aurores há um, dois dias. A pergunta é: Como os aurores vão entregar os comensais?

Na verdade o que mais me incomodava não era isso, o que mais me incomodava era como Draco ia se sentir ao ter que libertar o pai. Eu sabia o quanto ele o odiava, nunca entrou muito em detalhes sobre isso, mas eu o conhecia o suficiente para saber o quanto aquilo deviria significar para ele.

Se para mim estava sendo difícil, para Draco deveria estar sendo muito pior. Ele estava lidando com tudo sozinho, principalmente com Enzo e Sophia... Enzo e Sophia, eu não sabia como eu podia ficar tanto tempo longe deles, a saudade era o que me deixava mais infeliz aqui.

Eu não estava escutando suas perguntas inteligentes demais para crianças com sete anos de idade, eu não estava vendo mais Draco se assustar ou se meter em confusões quando eles lhe colocavam em algumas enrascadas com suas perguntas curiosas que o deixava constrangido...

Meu medo era de Lucio, se não bastassem Melgaço, agora tinha Lucio Malfoy para colocar meus filhos em mais perigo fora a minha relação com Draco. Lucio nunca vai aceitar que eu e o filho dele ficássemos juntos, nunca permitiria que o sangue puro Malfoy ficasse com uma sangue ruim, ainda mais que a sangue ruim se chamava Hermione Granger...

Almoçamos em silêncio, a quantidade reduzida novamente, e com certeza aquilo não era um erro de medida da moça da marmita. Aquilo era proposital e de certa forma, eu e Simas sempre notávamos até quando vinha uma colher a menos devido a fome que nos perseguia.

Deitamos em silencio após o almoço, a pouca comida não foi o suficiente para tirarmos a barriga da miséria, mas era alguma coisa. Não sei por quanto tempo dormimos, mas quando acordei o sol parecia estar quase se pondo do lado oposto conforme a luz das janelas do corredor.

–Sabe o que eu sonhei essa tarde? Perguntou Simas fazendo uma careta ao acordarmos.

–Um prato de arroz, feijão e um bife extremamente grande? Perguntei.

–Como você sabe?

–Estou tendo esse sonho durante varias noites.

O ajudei levantar e ele tirou as calças ficando apenas de cueca para eu ajuda-lo a banhar. O engraçado é que eu não conseguia ver malicia em Simas, tínhamos pegado uma amizade e ele parecia me respeitar muito mesmo a gente já tendo transado há muito tempo atrás. Ele passou o braço pelo meu pescoço e eu apoiei o peso do seu corpo para leva-lo ao banheiro e ajuda-lo.

Liguei a agua gelada e ele se escorou na parede para tomar banho enquanto eu apenas o vigiava para não cair, o ajudei a se sentar no vaso e ele esfregou os próprios pés indicando que poderíamos começar a fazer alguns exercícios com aquele joelho. Assim que ele terminou entreguei outra cueca para ele e sai do banheiro (se eu o visse pelado, seria uma mulher morta pelo Draco Malfoy, com certeza absoluta). Quando ele terminou o ajudei a sair e a vestir o restante da roupa.

–Acho que podemos começar a fazer alguns exercícios com sua perna quando eu terminar de banhar, pode ser? Perguntei.

–Acha que já está boa?

–Boa por completo não, mas eu tenho algumas teorias formadas sobre nós bruxos – falei separando minha roupa da mochila – Mesmo não tomando nenhuma poção, ainda temos sangue bruxo correndo nas nossas veias, nos saramos um pouco mais rápido. Por exemplo, demoraria muito tempo para seu osso “colar” se você fosse trouxa, mas você é bruxo... O tempo se divide ao meio, apesar de que se tivemos uma varinha ou uma poção seria muito mais rápido e em questão de minutos ela estaria boa.

–Sabe tudo Mione voltou com tudo. Ele brincou e eu revirei os olhos.

Essa agua gelada era a treva! Eu já havia banhado algumas vezes assim, mas foram pouquíssimas já que nas barracas bruxas temos agua quente, bem que aqui podia ter também. Mais alguma exigência Granger? Sim comida. Brinquei mentalmente sem humor algum.

Vesti uma calça de moletons preta, uma regata branca e prendi o cabelo em um coque, olhei no espelho no chão apenas por habito, eu estava horrível. Tinha algumas olheiras abaixo dos olhos devido ao sono e expressamente havia perdido algum peso.

–E aí campeão, vamos começar a fisioterapia? Falei saindo do banheiro, não queria mais me ver ali.

–Me senti uma criança com cinco anos indo ao dentista. Bufou Simas.

–Meus pais eram dentistas. Falei sorrindo e ele revirou os olhos rindo em seguida.

Eu não era formada naquilo, muito menos em medibruxaria ou curandeira, mas eu sabia poucas coisas e se o pouco que eu sabia estava mantendo a perna de Simas no lugar, era sinal que eu estava indo bem, não era? Tentei não verbalizar minhas duvidas e o esperei deitar na minúscula cama.

Não é que eu reclamo demais daqui, mas é que era um luxo desnecessário para algumas coisas, mas para outras era terrível. O ajudei a esticar e erguer a perna um pouco e comecei com movimentos bem lentos para ajuda-lo, enquanto conversávamos tentando distrair as dores deles, só que não o impedindo de praguejar alguns palavrões.

–Já reparou que até agora não chegou convite? Perguntou Simas fazendo uma careta horrorosa quando tentei, com fracasso, dobrar seu joelho um pouco mais do que antes.

–Eu nem me toquei, acho que nem para o almoço veio – falei despreocupada – Quem sabe eu tenho sorte e ele desiste de mim. Ele sabe que não vai conseguir nada comigo, eu sou um peso morto. Posso morrer aqui, e mesmo assim não vou aceitar que me troquem por Enzo ou Sophia.

Simas acenou e eu continuei fazendo alguns movimentos leves para ajuda-lo a ganhar um movimento melhor com a perna. Escutamos o barulho da porta de carvalho abrir e eu suspirei.

–Chegou o convite da janta. Falou Simas rindo.

Revirei os olhos e continuei segurando a perna dele para o alto fazendo um pequeno movimento de dobrar o joelho que apesar dele ter reclamado no começo, parecia nem se importar muito agora. Parei assim que notei que havia um movimento demorado no corredor, a porta havia sido aberta, mas não fechada e nem a pessoa tinha descido.

Desci a perna de Simas e lhe estendi a mão para ajuda-lo a se sentar, fui até as grades e olhei para a porta estranhando aquela movimentação. Havia dois capangas ali, e pouco tempo depois seis vieram numa formação bagunçada, o que não era nada comum para eles que sempre andavam alinhados.

Walisson vinha na frente com Alexandre um pouco atrás, enquanto os outros quatro pareciam carregar algo muito pesado. Eles desceram até nossa cela e pela primeira vez eu pude ver o que eles estavam carregando.

Era um homem.

Cada braço e perna dele eram segurados e ele era carregado suspenso no ar quase que arrastado. Meus olhos se arregalaram em ver algumas manchas de sangue que havia se espalhado por onde eles desceram.

Walisson abriu a nossa cela e eu sabia que ele estava tentando dizer alguma coisa, mas não podia.

–O coloquem lá dentr...

Walisson foi interrompido pelas portas sendo abertas de novo. Melgaço estava com uma calça preta e a camisa social azul clara com a manga dobrada até os cotovelos, seu maxilar estava trancado. Ele desceu muito rápido sendo seguido pelos seus capangas de uma forma também desorganizada.

–Eu quero falar com esse maldito antes. Falou Melgaço.

Os homens ao redor abriram espaço para ele se aproximar, pela primeira vez eu vi a varinha de Melgaço eu nem ao menos tinha certeza que ele tinha uma, parecia ser de um material muito resistente e era tão bonita e detalhada que eu podia jurar que ele mesmo a fez pessoalmente, o que era bem provável.

Ele não nos olhou, seus olhos estavam presos no homem ensanguentado no chão com tanta raiva que até eu fiquei meio retraída, com certeza não o enfrentaria naqueles momentos.

–Levante-o. Ordenou.

Dois capangas colocaram o homem de pé, mas eu não pude vê-lo direito devido ao ângulo que eles estavam.

–Seu bastardo, eu cuidei de você todos esses anos, te dei um lugar, um cargo, dinheiro... E você me traiu – falou calmamente, mas o tom calmo dele era o que mais me apavorava – Eu quero o nome de cada traidor, cada um que aceitou a se juntar a você.

O homem tossiu e eu jurava ter escutado ele rir, um riso baixo quase um gemido de dor, mas ainda sim um riso.

–Sabe que eu não vou falar nada dessa vez, eu apenas cansei, sete anos jogados completamente no lixo – respondeu o homem – Pra mim já deu, você não é o Lorde das Trevas, você é apenas um maluco que se acha Merlin.

O movimento da varinha foi tão rápido e silencioso, que levei alguns segundos para ver que o homem já estava no chão novamente se contorcendo de dor e que a pessoa que o torturava era Fabricio Melgaço. Eu reconhecia aquele feitiço, eu reconhecia aquela maldição, porque eu já havia passado por ela uma vez...

–Você vai ficar aqui até abrir sua boca, eu quero uma relação de nomes caso contrario não sairá da daqui e não receberá o meu perdão.

–Não quero mais o seu perdão – soou fraca a voz do homem – Você já me perdoou uma vez, e eu estou aqui de novo. Estamos num ciclo vicioso, não acha?

Os dentes de Melgaço rangeram com uma fúria tremenda, seus homens estava todos rígidos perto do patrão. O corpo do homem se retorceu novamente e eu tive medo do que poderia acontecer com ele. Nenhum capanga fazia nada, muito menos o ajudava. Eu sabia que Melgaço era o tipo de homem que gostava de se vingar pessoalmente, e eu sentia dó daquele que se contorcia, mesmo não o conhecendo.

–Você vai apodrecer aqui Dore. Dessa vez sua punição vai ser maior, vamos ver quanto tempo sua língua vai demorar pra se soltar até você morrer, se a fome não te matar, eu te mato pessoalmente.

–Chefe porque não o deixamos na prisão? Perguntou Alexandre cuidadosamente e retraído.

–Eu não confio nele, quero Dore perto de mim, só assim para ele não fugir – respondeu Melgaço e se virou para o homem no chão – Pense bem no que vai me dizer. Enquanto não fala... Crucio...

Os gritos do homem escapuliram, eu sabia que aquele tinha sido ainda mais forte porque eu podia escutar os estalos do corpo se contorcendo no chão. O desespero tomou conta de mim, tentei sair da cela, mas os braços de François me pegaram.

–Para com isso, por favor. Pedi.

O homem se contorceu ainda mais, as lembranças da minha tortura estavam tão vividas que eu podia sentir a cicatriz da lembrança dolorida se abrindo na minha mente. Soltei-me de François e corri até onde a varinha de Melgaço ainda estava apontada para o homem.

–Para com isso, por favor. Pedi ofegante.

Melgaço me olhou estranho, mas parou.

–Por que está pedindo para eu parar?

Respirei fundo e meus braços foram segurados para não fazer nada com o chefe deles.

–Por que... Porque eu já passei por isso... Por favor, não faça mais isso com ele – pedi e tentei controlar minha respiração – Tem outras formas de machucar, mas não use essa... Já está bom por hoje...

Algumas risadas foram ouvidas, mas pararam assim que a mão de Melgaço se levantou mandando-os parar e o outro me soltar.

–Leve-o para a cela.

Seus capangas o obedeceram, enquanto os olhos tão parecidos com o do Enzo me olhavam curiosos.

–Você não retribui meus convites. Falou guardando a varinha e mudando de assunto tão rápido que demorei um tempo para assimilar.

–Eu não tenho vontade de ir. Respondi.

Ele deu quatro passos para chegar até mim e estendeu sua mão, relutantemente eu estendi a minha.

–Você está tremula e suada – falou passando o polegar na palma da minha mão – Você tem trauma... Por causa da maldição... – falou pensativo e curioso, me odiei por parecer fraca perto dele, era a primeira vez que minha guarda estava baixa – Eu não deveria ter feito isso na sua frente, me desculpe.

–Como se você se importasse comigo. Falei num fio de voz, como ele conseguia mudar de personalidade tão rapidamente?

Num minuto ele estava furioso, no outro completamente controlado.

–Eu me importo com você Hermione Granger...

–Então deixe meus filhos em paz e me deixar ir embora.

Ele riu, não um riso debochado, mas um sorriso calmo.

–Não posso, eu preciso deles para conseguir o que quero. – falou Melgaço – Você está muito magra, acho que a comida do seu amigo não está sendo suficientes para vocês dois. Eu te avisei minhas condições, sinto muito que não quis lidar com ela. Mas eu quero que aceite meu convite para jantar hoje.

–Eu não vou jantar hoje com você, tem um homem ferido na minha cela. Falei firme.

–Você nem o conhece.

–Não preciso conhecê-lo para ajuda-lo. Respondi seca.

–É isso que mais gosto em você, tão doce e firme ao mesmo tempo. Suas qualidades me impressionam sabia? Mesmo assim eu encisto, eu não quero ser malvado com você, mas te limitar comida é a única forma que tenho de ter sua companhia. Eu adoraria conversar com você sobre esse seu trauma, melhor dizer assim.

–Não gosto de falar isso com estranhos. Falei puxando minha mão.

– Então poderemos conversar sobre outras coisas! Podemos fazer um acordo amanhã, sobre... Sobre as suas refeições comigo, almoce comigo e eu posso deixar que coma aqui, na cela com seu amigo. Enquanto ao bastardo, não se preocupem com ele, ele vai morrer de qualquer forma, se derem comida para ele vão estar desperdiçando e apenas tardando mais a morte dele, e eu quero que seja lenta. Assim que ter tudo dele, eu vou terminar o serviço. Vai aceitar almoçar comigo?

Novamente uma mudança brusca de assunto. Olhei para trás e Simas que estava encostado nas grades sem encostar o pé no chão, ele me olhou preocupado e eu sabia que sua resposta era “você que sabe, mas eu acho melhor não”.

Respirei fundo, e me virei para Melgaço.

–Eu aceito.

–Isso é ótimo, te esperarei amanhã por volta de meio dia.

Ele pegou a minha mão a beijando de novo e aquilo me deu náuseas ainda maiores. Virou as costas para mim e saiu andando na frente com seus capangas atrás enquanto Alexandre me dava alguns cutucões para eu voltar para a minha cela.

–Não se apega não sangue ruim – falou Alexandre trancando a cela – Esse aí tem no máximo trinta dias de vida, a morte dele vai ser lenta e dolorosa.

–Idiota. Espero que a sua seja assim. Cuspi com raiva.

–Merlin! A santinha Granger desejando minha morte. Alexandre disse debochado.

–Já imaginei mil e uma formas dela, e acredite, eu estou participando de todas.

Ele saiu rindo com o Walisson/ Marciano o mandando andar logo e eu segui até o homem que estava jogado no chão da cela.

–O conhece? Perguntei.

–Ele é o Dore, o cara que eu te falei. Melgaço deve ter descoberto o que ele estava fazendo. Respondeu Simas.

– E pelo visto não é a primeira vez que ele estava fazendo isso – falei me abaixando – Me ajuda a coloca-lo na cama e a cuidar dele.

Simas fez uma careta desnecessária e eu ri dando um tapa na sua cabeça. Com dificuldade o levantamos e colocamos na cama que estava vazia, e que tinha sido de Jeovane. Ele era um homem da altura de Simas, só que mais definido. Tinha os cabelos negros e a pele muito clara e apesar de alguns hematomas ele realmente muito bonito e poderia mesmo ter a minha idade, ou ate mesmo ser mais novo.

Tirei seus coturnos deixando apenas de meia e desabotoei seu sobretudo para deixa-lo mais a vontade. O sangue do corredor vinha de um corte no lábio inferior e principalmente do nariz que já havia estancado e não estava quebrado. Peguei uma blusa branca de algodão minha e molhei no pouco álcool que tinha na minha maleta de primeiros socorros para limpar seu rosto dos hematomas. Ele não me era estranho, eu tinha certeza que já tinha o visto de algum lugar... Simas se sentou no chão com suas pernas esticadas segurando a maleta quase vazia que restava.

–Simas, você não sabe mais sobre ele? Ele não te parece meio... Meio conhecido?

–Acho que não. Ele deu de ombros.

Terminei de limpar seu rosto, que estava vermelho na bochecha e um olho começava a se arroxear. Abri mais o sobretudo, quase o tirando, e assim que fui erguer sua camisa uma mão segurou a minha, me assustando.

–Hermione Granger querendo ver meu tanquinho. Falou uma voz fraca por trás de um sorriso.

–Só estou querendo ver se o tanquinho não está quebrado.

A mão dele soltou a minha e eu ergui sua camisa, Simas se levantou com mais facilidade e ficou em pé olhando para o rapaz que parecia ter aberto os olhos.

–Acho que eles te deram alguns chutes – falei passando o pouco álcool no hematoma da costela – Mas não quebraram nada. É como dizem vaso ruim não quebra.

–Quebra sim, você quebrou duas costelas do Alexandre. Riu Simas e eu o acompanhei.

–Eles sempre fazem isso. – o homem falou tentando se levantar, mas eu o impedi – Não posso me levantar doutora?

–Não, acho melhor ficar deitado. Seu corpo deve estar muito dolorido por causa da maldição.

–Foi você que pediu para ele parar não foi? – ele perguntou me olhando e eu dei de ombros – Foi você sim, eu me lembro de ouvir uma voz de mulher pedindo para ele parar... Mas por que você fez isso?

–Porque sim, quando você ver uma pessoa torturando outra, você faz o que? Perguntei me levantando e jogando as cobertas em cima dele.

–Nada? Ele perguntou cínico.

–Decididamente não, você tenta ajudar. E eu conheço bem essa maldição – respondi me virando para enxaguar a blusa na pia – Dorme um pouco, vai ficar melhor.

–Você é a esposa de Draco Malfoy, não é? Quem diria que Hermione Granger e Draco Malfoy fossem fica juntos? – ele perguntou rindo – Decididamente a obsessão dele em provocar o trio de Ouro na escola, tinha um nome e bonitas curvas.

–Como sabe disso? Perguntei saindo do banheiro.

Ele gemeu de dor, colocando a mão na costela dolorida e se esforçou para se sentar, não o impedi dessa vez.

–Draco reclamava de você o tempo todo, não tinha como não escuta-lo xingando como a sabe-tudo era uma sangue-ruim, desculpe pelo termo, arrogante e metida a besta – respondeu o homem e seu sorriso ficou engraçado aliado ao seu olho arroxeado – Sinto falta daqueles tempos.

–Você era amigo do Draco? Perguntei.

–Draco Malfoy, foi uma das poucas pessoas que realmente me entendia. Nós dois fomos levados para o lado errado pelos nossos pais, Blásio teve sorte, não chegou a se tornar um comensal, enquanto Crabbe e Goyle eram estúpidos demais para o Lorde das Trevas os quererem, já eu e o Draco erámos mais... Talentosos... – falou o homem – Me tornei depois dele, no sétimo ano por pedido do meu pai.

–Eu sabia que seu rosto era conhecido – falei me sentando na beirada da cama de Simas, Draco certa vez mencionou que não era o único adolescente, apenas outro havia se tornado comensal tão cedo como ele – Você é Theodore Nott, não é mesmo?

Ele apenas acenou e eu dei um tapa no braço de Simas que estava sentado ao meu lado.

–O que foi? Ele perguntou.

–Porque não me disse que o cara que você falou era Theodore Nott?

–Eu não sabia uai.

–Estudamos com ele Simas, não lembra? Perguntei.

Simas deu de ombros.

–Eu não te reconheci quando te vi cinco anos depois da guerra, vou reconhecer um sonserino?

Revirei os olhos e me virei para Nott.

–O que você está fazendo aqui sendo um capanga de Melgaço?

–Meu pai morreu após a guerra, Melgaço já tinha sido apresentado para mim e meu pai pelo Lorde das Trevas, vamos dizer que eu era um tanto inteligente e ele se interessou por mim depois de tudo. Tem alguns que já foram comensais aqui, que participaram da guerra mais fugiram, nem todos tinham a aberração da marca negra, mas eles ainda sim eram do lado de Voldemort – contou Nott – Então viemos para cá.

–E por isso você veio trabalhar para o monstro? Acusei.

–Eu não tive opção. Não fale como se fosse fácil decidir por essa escolha.

–Não me fale isso Nott, você teve opção sim. Draco conseguiu reverter o jogo.

–Mas ele sempre foi uma pessoa boa, só não sabia disso. Respondeu com os dentes trincados.

Encarei o homem na minha frente, Nott não parecia ser uma pessoa ruim e parecia ter o mesmo complexo de “eu sou ruim” que Draco tinha.

–O que você fez para ser pego? – perguntei – O modo como você falou, parece que não é a primeira vez que você contraria o seu chefe.

–E não é... – Nott passou o dedo num pequeno corte que estava no seu lábio pensativo e encarou Simas e eu – Eu não sou uma pessoa boa, mas também não sou um monstro tá bom? Eu passei sete anos nesse lugar, eu vi as piores coisas acontecer, eu perdi as contas de quantas vezes eu vi ou tive que matar uma experiência que deu errado. A primeira vez que eu me rebelei foi há três anos, não estávamos nessa ilha, era outra no sul da Austrália, eu era importante... Era um dos três que sabiam da localização. Não tínhamos tantas pessoas do nosso lado, e eu acabei me achando um monstro por participar de tudo isso. Reuni um grupo consideravelmente grande, eu e a Novaes erámos responsáveis por isso. Ela era uma das poucas capangas mulheres que tinha, e era a mais importante delas e era a terceira no comando e piloto. Melgaço confiava na gente, mas não concordávamos com ele e tentamos soltar as cobaias, estava quase tudo pronto, Novaes pilotaria o jato e com o plano pronto começamos uma pequena rebelião na ilha da Austrália, a primeira que ele já enfrentou. Era para dar certo, mas alguém nos denunciou, a pirralha da irmã da Novaes era louca para assumir um posto importante e acabou nos entregando, entregando a própria irmã.

“Ficamos presos numa cela como está, só que na outra ilha durante quase cinco meses e quando transferiram nossa cede para essa ilha, que só Merlin sabe onde, Melgaço veio com o papo de segunda chance. Me rebaixou para a segunda casta, comandando apenas um grupo pequeno de cinco idiotas e ficamos de segurança no laboratório, meu grupo é o mais imbecil de todos, o resto que sobra e nenhum dos outros querem. Para Novaes foi ainda pior, coitada, muito talento desperdiçado, devo admitir que ela era fera com feitiços e ate com maldições se necessário.”

–Ela morreu? Perguntei preocupada.

–Não... Ele deu outra chance para ela, ela tem apenas 30 anos e ele não poderia fazer isso porque apesar da desgraçada da irmã dela ter nos denunciado, pediu pela irmã. Ele respondeu.

–E onde ela está? Perguntou Simas.

–Melgaço é vingativo, quis rebaixar a coitada dizendo que é apenas o que ela merece. Eu não sei como ela entrou nessa, mas ela é uma pessoa boa, então ele a rebaixou de líder piloto, para apenas empregada e cozinheira.

–A moça da marmita? Perguntou Simas.

–Ela sim.

Agora eu entendia os olhares de desculpa dela, quem diria que aquela mulher que parecia tão simples, já tinha sido importante aqui?

–E por que você foi pego hoje? Perguntou Simas.

–Eu estava reunindo um grupo para tentarmos fugir daqui, já faz algum tempo e eu tenho meus aliados, não são muitos, mas felizmente são pessoas legais que incluem desde um integrante do meu grupo, até alguns cientista do laboratório. Sua amiga Natalia está comigo de certa forma, e mais uma enfermeira também... Os cientistas alguns são ambiciosos e com esses eu nem falei, mas outros, quatro deles pelo menos, querem ir embora daqui porque assim como nós eles não podem sair quando quiserem – ele contou cansado – Não tínhamos nenhum plano de fuga por hora, mas estávamos cuidando dos que estão presos... Os que a medibruxa morta tentou ajudar. Eles estão trancafiados na prisão até hoje e eu estava sendo responsável por conseguir comida para eles. Não estava nada fácil levar comida até lá, mas eu tenho dois aliados lá dentro também e estava conseguindo levar pelo menos um pouco de comida para o grupo.

“ Por isso que Melgaço quer tanto que eu fale a lista de traidores, eu fui pego no pulo... Não fui muito cuidadoso, acho que eles já desconfiavam de mim e estavam de olho. Assim que eu entrei na prisão fui pego e reviraram minha sacola viram o tanto de comida e ai me pegaram. Mais cedo ou mais tarde eles iam descobrir, e se eles acham que vou entregar alguém estão enganados. Tem muita gente no meu esquema, não são numerosos quanto eles, mas uma quantidade bem razoável levando cerca de 34 pessoas para mais de 210 funcionários leais dele, e se eles realmente me matarem, esses 34 ainda podem conseguir alguma coisa aqui né? Quem sabe um dia eles consigam fugir? Eu só espero que consigam e que não sejam pegos, confio neles, mas não a ponto deles não entregarem os outros quando tiverem sendo pressionados.”

Nott gemeu um pouco de dor, e eu pude ver que ele estava bem cansado. Não tinha sido uma boa ideia deixa-lo se sentar.

–Você está cansado Nott, precisa dormir. Falei me levantando.

–Ainda me acha desprezível, Hermione?

Eu sorri para ele.

–Não, você só foi mais um que não teve escolhas, mas pelo menos tentou se redimir arriscando sua própria vida. Quando sairmos daqui, não vamos deixar eles te prenderem Theo.

–Já estamos íntimos – ele riu por chama-lo de Theo, pra mim Theodore era um nome muito grande assim como o meu, mas seu sorriso ficou sério muito rapidamente. – Vocês têm esperanças de sair daqui?

–É a ultima que morre. Falou Simas fingindo animação.

–Espero que cheguem antes de me matarem. Theo disse.

–Acha que eles vão continuar te seguindo? Perguntei.

–Alguns eu tenho certeza.

–E acha que eles são confiáveis?

–Eu sou confiável? Retribuiu minha pergunta.

Olhei para Theodore Nott, o homem com um olho roxo, que tinha uma história tão parecida com a de Draco, só que diferente dele não conseguiu seguir depois da Guerra. Os olhos verdes me encararam esperando uma resposta e eu sorri, eu não sabia se era possível ou se iria me arrepender...

–Sim.

Ele sorriu de lado e seu sorriso me lembrou o do Draco, ele realmente era um sonserino.

–Eu confio na sua amiga Natali, ela é dura na queda e parece não ter medo dos capangas do laboratório. E confio também na Novaes, ela pode nos ajudar ou facilitar quando seus amigos vierem.

–Então nós confiamos nela. – Simas disse com um sorriso bobo e Theo o olhou com uma sobrancelha erguida.

–Ele tem uma queda pela menina da marmita. Eu fingi sussurrar.

–Tenho nada – ele falou cruzando os braços – Aline só me falou o nome dela uma vez, não trocou mais nenhuma palavra comigo.

–Aline? Perguntei.

–Primeiro nome dela – respondeu Theo rindo da cara de Simas – Ela não é de conversar muito. A chamo de Novaes por respeito ao que ela já foi, os outros a chamam de outros apelidos desagradáveis.

–E essa irmã dela? – perguntou Simas – O que aconteceu com ela?

–Ela é uma vadia de uns vinte anos. Mostra as garrinhas desde que tinha treze e como o pai delas morreram Melgaço as deixaram ficar aqui. Agora ela trabalha para ele, deve ser uma das mais jovens.

Aline Novaes... Eu ainda pensava nesse nome, era como se eu já tivesse ouvido algo parecido. Minha mente fez um click.

–Qual o nome da irmã da Aline? Perguntei.

–Espera, eu tenho que me lembrar... Nunca falei muito com aquela vadia... É um nome fácil.

–Alice? Sugeri.

–Isso... É Alice, ela está numa missão para ele em algum lugar há quase oito meses, veio aqui faz uns dois meses pela ultima vez.

Meu sangue ferveu e meus dentes trincaram com raiva. Não era coincidência! Se antes eu odiava Alice agora então...

–O que foi Mione? Perguntou Simas.

–Agora tudo faz sentindo – falei furiosa – Agora eu sei como Melgaço sabe sobre os gêmeos, sabe sobre mim e o Draco. Alice era infiltrada, ela que foi mandada para procurar os gêmeos e se infiltrou entre nós. Por isso Melgaço sabia que meu casamento com Draco era fachada no começo, por isso ela sabia que Figg era próxima a mim, ela estava lá para comandar as investigações dos gêmeos e se infiltrou na vida do Draco quando descobriu que iriamos adota-los. Vadia.

–Calma Mione. – pediu Simas – É aquela da despedida de solteiro?

Apenas acenei.

–Então vocês já conhecem a flor e pessoa? Zombou Theo.

Lancei um olhar mortal para ele que arregalou os olhos de um jeito engraçado e se deitou com dificuldade.

Se Melgaço estava no primeiro lugar da lista das pessoas que eu odiava, Alice estava em segundo lugar com certeza. Alexandre que se contentasse com o terceiro.

Ainda com raiva deixe-me sorrir, lembrando-me do que havia dito a Alexandre mais cedo...

–Eu não estou gostando desse seu sorriso – falou Simas – O que você está pensando em fazer?

–Eu? Estou pensando em mil e uma maneiras diferentes de acabar com a Alice – respondi com os dentes trincados – Aquela vadia vai me pagar por se meter comigo. Escrevam o que estou falando...