Pov. Hermione Granger

Os meus olhos percorreram por toda a imensa sala dos Malfoy, eu me lembrava de cada detalhe daquele lugar que tanto aterrorizou meus sonhos. Caminhei pela sala devagar sentindo o piso em que fui jogada e o local que onde fui torturada, nunca consegui me esquecer daquilo, nem um único dia sequer.

Mesmo a casa estando diferente, mais clara e aberta, ainda sim era aquele local que passei um dos piores momentos da minha vida. Agachei-me encostando um joelho no chão e passei a mão no assoalho que tanto me contorci, o assoalho que minhas lágrimas escorriam enquanto meu corpo inteiro sofria com a maldição Cruciatus lançada por Bellatrix.

Era tudo tão vivido que eu tinha certeza que se fechasse os olhos podia ser levada através do tempo para aquele mesmo local. Eu poderia ouvir Bellatrix me xingando, gritando no pé do meu ouvido, os gritos desesperados de Rony chamando pelo meu nome preocupado comigo enquanto era levado junto com Harry para o calabouço.

A dor que senti naquele dia foi a pior que se podia sentir. Da guerra era essa minha pior lembrança junto com a morte de Fred, Remo e Tonks. Nunca me senti tão humilhada e nunca senti tanto orgulho de ser nascida trouxa como senti naquele dia, porque nada que Bellatrix fizesse ou falasse mudaria o que eu era de verdade. Sim eu sou uma Sangue Ruim. Mas sou a sangue ruim que ajudou derrotar Voldemort ao lado do mestiço e do traidor de Sangue.

A cicatriz em meu braço pareceu queimar ao me lembrar daqueles momentos, da maldição destroçando meu corpo, o revirando do avesso enquanto aquelas palavras eram escritas a força em meu braço: Sangue Ruim.

Eu sempre levarei essa palavra com orgulho, mas a dor que senti naquela noite nunca vai ser superada. Não foi uma maldição de dois minutos, foram várias por vários e vários minutos seguidos atingindo meu corpo até o momento que pensei em desistir de tudo e enfim apareceram meus amigos. Nunca fiquei tão feliz em ver Rony e Harry como naquele momento. Foi ali que mais os amei, porque foram eles que me livrou daquele momento, que me libertou das dores que percorriam meu corpo.

Abri meus olhos assim que senti duas mãos tocarem o meu resto, duas mãos gordinhas cada uma tocando um lado limpando as lágrimas que eu nem sabia que tinha escorrido.

—Eu amo vocês – Falei.

—Também te amamos mamãe – Falaram juntos.

Beijei a palma da mão de cada um e me levantei, meu rosto já estava seco, os dois fizeram questão de limpar. Mais um motivo para amar Harry e Rony, se eles não tivessem me salvado eu nunca passaria por aquele momento, eu nunca teria Enzo e Sophia ao meu lado.

—Mamãe precisa falar com a vó de vocês. Fiquem com a Maria e logo vamos embora.

—A senhora vai ficar bem? – Enzo perguntou todo protetor.

—Eu estou bem.

A contra gosto os dois voltaram para a cozinha. Me senti uma idiota por deixa-los me ver naquele estado, tão exposta, tão frágil... Eu não era nada disso. Aquele lugar arrancava apenas as minhas piores lembranças. Passei a mão pelos meus cabelos e prendi num coque improvisado, quando senti outra mão tocar meu ombro, uma mão grande e conhecida.

—Hermione – Draco me chamou, sua voz rouca preocupada – eu não sabia que seria tão difícil para você voltar aqui.

—Não tem nada de difícil aqui – Menti.

Olhei para a mulher parada na porta do escritório e vi que ela me encarava de novo muito séria como sempre. Não era com olhares de nojo ou contragosto, eu via nos olhos duros de Narcisa muita culpa e mesmo eu querendo consola-la e pedir a ela para não se importar com o passado, eu não conseguia.

Um homem baixo com um bigode enorme entrou correndo pela sala chamando nossa atenção para ele e desviando meus olhos dos de Narcisa.

—Me desculpe Sra. Malfoy eu não queria atrapalhar, mas caiu dois salgueiros na estrada. Tentamos tirar com feitiços, mas há muito neve – o homem disse – Pedi ajuda por causa do carro do seu filho sair, mas vai ser impossível saírem hoje daqui.

—Já chamou reforços? – Perguntou Draco.

—Sim Sr. Malfoy, mas vamos demorar muito para liberar a estrada. Eu sinto muito.

Eu não estava gostando nem um pouco do caminhar dessa história.

—Recomendaram todos ficarem dentro de casa — ele continuou – a nevasca tomou conta de tudo.

—Pode se retirar Mauricio, qualquer novidade da estrada nos avise.

O homem arrumou as luvas e o cachecol e saiu para enfrentar o frio do inverno.

—Eu sinto muito, não foi o que planejei – Narcisa falou sem graça – Eu sei que não gosta daqui Hermione, mas na situação atual acho que vocês não tem alternativa a não ser passar a noite aqui.

Bem que eu tentei arrumar outra solução mentalmente, mas não consegui pensar em nenhuma. Eu não gostava de estar ali, só que deixar Sophia e Enzo e aparatar na minha casa não era uma das minhas melhores escolhas.

—Tudo bem Narcisa, acho que vamos ter que ficar aqui mesmo hoje – falei cansada – Já que vamos ter mais tempo, será que podemos deixar para conversar amanhã eu não estou me sentindo bem e queria me deitar um pouco.

—Está passando mal Mione? – Perguntou Draco imediatamente.

—Não, não... Só estou me sentindo indisposta.

—Eu vou pedir para uma elfa arrumar o quarto do Draco para você se deitar – Narcisa nos ofereceu o sofá – Sente-se um pouco.

Narcisa foi até a cozinha e eu me sentei no sofá, realmente não estava me sentindo bem. Era como se o mundo tivesse pesando em minhas costas, como se eu pudesse dormir e ficar assim durante vários dias seguidos. As lembranças me deixaram cansada porque apesar de serem apenas lembranças, eram doloridas demais.

Assim que a elfa nos avisou que o quarto estava pronto, Draco me levou até ele, era grande e espaçoso com cores verdes e pratas em cada um dos detalhes.

—Quer que eu te faça companhia? – perguntou.

—Não precisa, fique com as crianças elas vão ficar arrasadas por não irmos ao restaurante, ficaram a viagem inteira falando de lá.

—Olha Mione, em relação a mansão...

—A lareira funciona? – Perguntei o interrompendo.

Eu não queria falar com ele sobre isso porque na época ele também estava aqui na mansão, do outro lado, o lado de Bellatrix e a única pessoa que eu queria falar naquele momento era com Harry.

—Funciona sim, quer que eu traga algo para você jantar?

—Pode deixar, eu vou descer para jantar com as crianças.

Vi que Draco estava preocupado, e gostava daquele lado protetor dele que estava me mostrando agora, só que eu queria ficar sozinha. Precisava descansar, me deitei e cai num sono profundo.

Pov. Draco Malfoy

A deixei deitada e desci as escadas. Eu não devia ter a chamado para vir aqui, sabia o que aquela maldita mansão significava para ela, eu mesmo vi parte da tortura e nunca me perdoei por não fazer nada para ajuda-la.

As lembranças daquela noite nunca foram tão forte como agora depois de vê-la tão vulnerável, tão frágil. Sentia-me um verdadeiro idiota por estragar tudo assim, devia ter recusado o convite da minha mãe e marcar de encontrar com ela em outro lugar, mas não, eu tinha que trazer ela justo para o lugar responsável por um dos piores dias da sua vida.

—Tio tivemos uma super ideia? – Enzo se sentou em meu colo.

—É mesmo? – fingi animação, ele parecia tão animado – Qual?

—Vovó Narcisa disse que mamãe não estava se sentindo bem e que não vamos poder ir embora hoje, então vamos fazer um jantar para ela que nem no restaurante que a gente ia – falou animado.

—Ótima ideia – falei rindo – Querem ajuda?

O garoto me puxou para a cozinha onde até minha mãe, do jeito dela, fazia planos para o jantar. Fiquei apenas sentado na cadeira próxima á mesa enquanto todos, inclusive os gêmeos, trabalhavam incansavelmente para realizar o jantar. Tomei um banho no quarto que Sophia e Enzo iriam dormir e depois de me arrumar, os ajudei.

Agora eu entendia porque Mione demorava horas para arrumar os dois, eles tinham aprendido nas televisões trouxas como se vestir e desde que Mione os conheceu que bancava as roupas deles tornando-os dois monstrinhos com muito bom gosto. Assim que os vesti com as roupas que a mãe deles havia colocado nas mochilas para irmos ao restaurante, o que não ia acontecer, eles desceram as escadas para se encontrarem com minha mãe. Ambos tinham simplesmente adorado ela, e eu gostava disso. Ela agia diferente com eles, como se os conhecesse.

Fui até meu antigo quarto e vi que Mione já estava de pé usando um vestido curto e vermelho com uma fita branca na cintura, o mesmo que ela usaria para ir ao restaurante. Ela estava perto da lareira e a cabeça que saia de lá eu já conhecia, Harry. Não peguei a conversa tudo, apenas parte dela.

—... Você é a pessoa mais idiota que eu conheço Hermione, o que você tinha na cabeça quando decidiu ir ai? – Harry falou mais alto que o normal.

—Eu já te falei que é por causa dos gêmeos...

—Não importa – ele interrompeu – Devia ter me avisado, eu ia com Draco e você ficava aqui com a Gina. Agora vocês vão ter que ficar aí até amanhã.

—Eu estou bem Harry, relaxa. Foi só a lembrança no começo, foi tão vivido sabe? Como se eu realmente tivesse passando por tudo aquilo de novo.

Harry da lareira bufou soltando algumas brasas.

—Sinto muito, me desculpe por gritar com você. Não tem como vocês usarem as lareiras?

—Só servem para se comunicar. — Ela se sentou.

—Já sabe que se Rony souber que você está aí ele vai te buscar e matar seu marido. Aquela noite mexeu com ele, Mione, só de pensar em você aí eu me lembro dos seus gritos e dos...

—Dos gritos de Rony – ela completou – Eu também me lembrei dos gritos dele, naquela hora da dor os gritos dele era a única coisa que não me deixou desistir e sucumbir.

—Por favor, nunca mais fale isso – pediu Harry – Se tivesse acontecido algo com você, nunca nos perdoaríamos. De toda a nossa viagem essa foi a pior parte de todas. O motivo principal por não querer levar vocês comigo no começo.

—Não se preocupe Harry, eu já estou bem melhor. Eu descansei, coloquei a cabeça no lugar e estou bem, foi só uma fraqueza minha me deixar levar pela situação e pelas lembranças.

—Para de dizer que foi fraqueza Mione! Você não foi fraca, e você estando ai depois de tudo só torna você a mulher mais forte que conheço – Falou Harry com carinho – Agora vai comer alguma coisa, não quero minha irmã desnutrida.

Os dois riram.

—Eu vou jantar na Toca amanhã se tudo der certo, espero ter notícias e algumas respostas. Preciso ver como estão os gêmeos, eles já devem estar deixando Draco maluco.

—Vai sim, eu estou indo para a casa de Neville e Luna com Ted e Gina. Qualquer coisa me avisa.

—Pode deixar. Te amo Harry.

—Também te amo Mione, se cuida.

A chama da lareira se apagou e eu desci as escadas correndo, ela iria odiar saber que escutei a sua conversa. Só que tudo aquilo me incomodou bastante, queria que ela tivesse conversando comigo sobre aquilo, queria conhecê-la melhor. Estávamos a quase dois meses casados e não sabíamos nada um do outro.

Juntei-me aos outros na mesa e quando ela desceu as crianças gritaram Feliz Natal nos fazendo rir. Mione ficou radiante e se sentou ao meu lado na mesa, parecia bem melhor, talvez a conversa com Harry tinha feito bem a ela.

Finalmente ela e minha mãe pareceram se dar bem conversando sobre coisas tão banais que nem prestei atenção. Após jantarmos os presentes chegaram com as corujas e os gêmeos colocaram debaixo da árvore para abrirmos no Natal. Maria convenceu as crianças de irem dormir mais cedo, assim mais cedo elas abriam os presentes e funcionou.

—Vinho? — minha mãe ofereceu.

—Claro – Respondemos juntos.

O vinho era realmente muito bom.

—Então como vocês se reconheceram? – Perguntou Narcisa já bem mais animada do que o habitual e eu a estranhei.

—Eu procurei um emprego no Ministério, Harry e Kingsley me arrumaram esse cargo de auror e adivinha quem era meu parceiro? – Mione respondeu de melhor humor.

—Só assim mesmo, Draco me falava muito de você quando estudavam...

—Mãe!

—O que? Mas você falava. É claro, sempre irritado dizendo que você era uma insolente sabe-tudo da escola, e quando você deu o soco nele? – minha mãe riu e eu quase me afundei no chão de vergonha – Ele ficou com tanta vergonha, falou que tinha que admitir que você tinha força.

Mione e a Sra. Narcisa (que gosta de matar o filho de vergonha) não paravam de rir.

—E aquela vez...

—Mãe já deu – a cortei, eu nem queria imaginar o que minha mãe ia dizer – Desse jeito a senhora está dando a entender que eu era obcecado por ela quando era mais novo.

—E não era?

—Mãe – Falei me levantando, é sério, minha mãe estava me matando de vergonha enquanto a Hermione se divertia a minhas custas – Acho que já falou o que não devia.

—Calma Draco – divertiu-se Mione – Ela só está me contando sua infância.

—Eu ainda não te mostrei os álbuns – elas só podiam estar brincando com a minha cara – Tem dele quando era um bebê, dele crescidinho, na primeira aula de piano...

—Você toca? – Ela me perguntou e eu fiquei rígido.

—Não.

—Claro que sim, e muito bem a última vez que ele tocou...

Ela parou de falar, eu me lembrava da última vez que tinha tocado para ela, foi na mesma noite que ganhei a maldita marca negra, a pior lembrança da minha vida. A dor, o fogo... Sacudi a cabeça e olhei para a minha mãe, ela também se lembrava daquilo tanto quanto eu afinal ela tinha passado por aquilo duas vezes, na dela e na minha porque mesmo não concordando com meu pai, ela esteve ao meu lado em cada segundo daquele dia nessa maldita mansão.

—Tem algum piano aqui? — Mione perguntou, parecendo notar o clima.

—Tem sim – Respondeu Narcisa, o olhar dela apenas me fazia odiar ainda esse aquele lugar.

—Draco será que você pode buscar Enzo e Sophia para descerem? – Pediu Mione – E les ainda devem estar acordados.

—Claro.

Subi as escadas e ela ficou conversando com a minha mãe, dito e certo, Enzo e Sophia estavam conversando e assim que escutaram meus passos fingiram dormir, me fazendo rir mesmo com a sensação de mil agulhas na minha marca por causa da lembrança.

—Muito bonito – acendi – Não precisam fingir que estão dormindo, a mãe de vocês estão os chamando.

Os dois caíram na gargalhada e descobriram o rosto tirando as cobertas.

—Estamos sem sono – Enzo com um sorriu travesso.

—Não tem problemas, vamos descer e calcem as pantufas, está muito frio lá em baixo.

Sophia calçou e esticou os bracinhos para mim pega-la, nem se eu quisesse eu podia resistir, essa menina me tinha nas palmas das mãos enquanto Enzo bufou por calçar as pantufas.

Minha mãe e Mione não estavam mais na mesa de jantar, estavam paradas no pé da escada e minha mãe sorria como há muito tempo eu não via, ela abriu os braços para Enzo que tratou de ir e o pegou no colo também.

—Vamos abrir os presentes mamãe? – Perguntou Enzo animado.

—Não, vamos fazer o que eu e meus pais sempre fazíamos nas vésperas de Natal quando chegávamos do restaurante – ela sorriu e mostrou algo que não estava na sala quando eu subi.

Aquele objeto já esteve ali nos melhores tempos da minha vida, o tempo em que Voldemort ainda estava escondido no quintos dos infernos, que era o lugar dele.

—Eu não vou tocar Mione – falei olhando para as duas mulheres na minha frente – Nem adianta vir com essa ideia maluca...

—Eu não te pediria isso, tem coisas que a gente só pode fazer quando estamos pronto – ela me olhou com todo o mel dos seus olhos – Eu vou tocar, só quando você estiver pronto ou o dia que você tiver pronto, você toca.

Tá! Por essa eu não esperava, eu não sabia que ela sabia tocar. Mione foi até o piano e se sentou ereta, o vestido vermelho deixava aquela cena ainda mais surreal e me deixou hipnotizado, ela pegou seu cabelo castanho comprido e fez um coque improvisado que apenas lhe deu um ar mais charmoso.

Sophia e Enzo correram para perto do piano e se sentaram no carpete, os dedos dela começaram a tocar tão delicadamente que até me assustei com o toque suave que nem ao menos pareciam tocar o piano, a tatuagem dela atrás da orelha ficou exposta e agora para mim ela tinha ainda mais significados.

Ela tocou maravilhosamente bem a música When I Look At You, de uma forma diferente e delicada. Enzo e Sophia ficaram hipnotizados e seus sorrisos mal cabiam nos rostos dos dois, ela tocou as últimas notas suavemente e no tom perfeito e a sala se rompeu em aplausos, até a nova empregada da minha mãe e o caseiro estavam no canto da porta da cozinha escutando.

—Que lindo mamãe! – Sophia brilhou encantada – Me ensina um dia a tocar assim?

—Claro meu amor.

Mione se inclinou e beijou o rosto da garota, percorrendo a mão por sua bochecha corada.

—Só mais uma mamãe – Enzo insistiu – só mais uma, por favor.

—A última e vocês dois vão dormir, e dessa vez a vovó Narcisa que vai coloca-los na cama para garantir que vão realmente dormir. – Ela falou olhando para minha mãe que ficou radiante.

Novamente os dedos dela tocaram o piano de uma forma gentil, só que mais animada. A boa e velha canção de Natal, Enzo e Sophia começaram a cantar fora de tempo a letra da música e minha mãe tentava os ajudar com uma taça de vinho na mão.

Depois de tanto tempo eu nunca me imaginaria num Natal tão bom. Nem parecia que eu estava na Mansão Malfoy, tanto para mim quanto para Mione, aquela véspera de Natal estava apagando tudo de ruim que um dia aconteceu nesse lugar, ou pelo menos escondendo, o que já era suficiente.

Não sei o que me motivou, se era a alegria que Enzo e Sophia traziam para aquela, se era o sorriso e felicidade da minha mãe ou se era por Mione tocando, a única coisa que sei foi que quando eu vi, já estava ao lado dela ajudando-a a tocar enquanto três pessoas cantavam fora de tempo a música e eu e Mione riamos.

Eu sentia meus dedos ainda duros e sem jeito, já fazia muito tempo, mas era igual a andar de vassoura, não se esquece nunca. Tocamos a mesma canção duas vezes porque sempre que tocávamos o finalzinho Enzo e Sophia voltavam para o começo, juntos tocamos as últimas notas, o cheiro dela ali tão perto de mim era inebriante e assim que terminamos senti braços curtos me abraçando por trás, Enzo.

—O senhor promete que vai me ensinar tio Draco? – perguntou Enzo quando eu o coloquei no meu colo – Eu quero tocar que nem o senhor, pra pode tocar com a mamãe.

—Pode deixar, vou comprar um piano pra te ensinar.

—Mas por enquanto, vamos nos contentar em dormir – falou minha mãe – E dessa vez, dormir mesmo.

Os dois se despediram de nós e subiram as escadas um de cada lado da minha mãe, me deixando na sala com Mione.

—Obrigado. – Agradeci.

—Pelo que? – perguntou franzindo a testa.

—Por tudo, você acha que eu estou fazendo um favor para você e as crianças, mas são vocês que estão fazendo esse favor para mim.

—Eles gostam de você, acho que mesmo que fosse qualquer outro cara a...

—Você quer dizer o Rafael.

—Pode ser, mesmo que fosse o Rafael, eles não iam ama-lo como amam você – ela disse com um lindo sorriso – E acho que você está começando a ama-los também.

Ela estava errada, mas não falei nada apenas coloquei mais vinho para nós dois, eu não estava começando a amar Enzo e Sophia, eu já estava os amando.

Tomamos toda a garrafa de vinho e subimos as escadas para meu antigo quarto, acendi a lareira e ela ficou sentada na poltrona se aquecendo.

—Eu não trouxe roupas para nós, só para as crianças – ela falou séria – Eu devia ter me prevenido, mas onde eu ia imaginar que ia dormir justo aqui?

—Eu não preciso de roupas, ainda tenho algumas aqui – abri meu armário onde as roupas estavam divididas entre pretas, brancas e cinzas – Pode usar essa camisa minha, é de quando eu tinha uns 15 anos, deve servir.

Entreguei a ela uma camisa menor branca sem mangas compridas, já que a maioria que estava ali era da minha época de comensal e depois dessa época, Adeus liberdade de usar roupas sem mangas compridas em público.

Aproveitei quando ela entrou no banheiro e vesti meu velho calção preto e uma camisa qualquer cinza. Joguei-me na cama por cima das cobertas, a lareira aquecia completamente o quarto naquele frio de inverno.

Ela demorou muito e acabei adormecendo...

—Draco... Eu preciso da coberta.

—Mione o quarto está aquecido – Falei de olhos fechados, eu estava dormindo num sono tão bom.

—Então chega pra lá, você está no meio da cama.

Arrastei-me para o outro lado e ela se deitou virando duas vezes para cada lado inquieta provavelmente por causa do vinho, abri os olhos furioso.

—Que Merda está acontecendo... – parei assim que me levantei e olhei para ela, o braço no rosto, a camisa com três botões abertos enquanto seus seios cobertos pelo fino tecido subiam e desciam numa respiração lenta, uma perna reta e do lado de lá dobrada, aquela era a cena mais sexy que já vi na vida – Acho que deveria nos embrulhar.

—Você sabe que a nossa terapia vai ser daqui a seis dias e eu não sei quase nada de você. — se virou para mim e se apoiou no cotovelo de lado.

Virei de barriga para cima para não olha-la, eu estava praticando muito esse auto controle nesses quase dois meses juntos, sem falar que eu estava a quase um mês sem sexo depois da dedo duro, vulgo Alice.

—Eu também estava pensando isso mais cedo. — Pedi tentando me concentrar nos desenhos abstratos do teto – Tagarele para mim sobre sua vida hoje e depois a gente fala sobre a minha.

—Minha cor preferida é vermelho...

Ela começou a contar as coisas mais básicas sobre ela e mesmo estando com sono antes, ainda sim me interessei pelo assunto e a escutei atentamente. Descobri que além de piano ela tocava violão, que a primeira vez que fez tirolesa tapou os olhos e que decidiu fazer porque queria superar o medo de voar de vassouras, que sua música preferida era The Climb além outras coisas básicas como melhor viagem, Fernando de Noronha, o lugar mais lindo que ela já foi, Deserto de Atacama no Chile, e a primeira exposição da sua vida, em Nova York.

—...E lá estava eu descendo as escadas do ateliê de exposição com minhas fotos emolduradas me segurando no corrimão para não cair – Ela me contou e nós dois rimos, nessa hora já estávamos de frente um para o outro, mas distantes.

—E já sabe quando vai ser a próxima?

—Vai demorar um tempo ainda para eu terminar, um amigo do Rafael está querendo que eu exponha no ateliê dele, e eu recebi mais duas propostas uma na Irlanda e outra na Escócia.

—Acha que esqueceu alguma coisa? – Perguntei me virando, eu realmente estava interessado em saber mais dela.

—Acho que eu já falei quase tudo – ela falou virando de barriga para cima também – Me esqueci! Meu primeiro beijo foi com Victor Krum no quarto ano, no dia do baile. E perdi a virgindade com Rony, depois da guerra aos dezenove anos na casa dos Dursley quando Harry estava morando lá durante um tempo.

—Eu pensei que você perdeu antes. – Falei surpreso.

—Ao contrário do que a maioria pensa eu e Rony só começamos namorar no dia da Guerra, não antes.

—Eu imaginava que desde quando ele terminou com a Lilá que vocês já transavam.

—Não, foi bem depois. Desde quando perdemos nossa virgindade tenho uma vida sexual ativa, eu nunca traí Rony nos nossos dois anos, eu sempre o respeitei durante o tempo que a gente ficava junto.

—Você ainda gosta dele.

Era para soar como pergunta, mas eu não consegui, a resposta estava na pergunta.

—Eu já o amei antes, mas agora não – ela falou me surpreendendo – A gente se despediu, na noite da despedida de solteira.

—Então vocês realmente transaram aquela noite.

Eu apenas desconfiava, nunca tive certeza nem coragem de perguntar.

—A gente se despediu, é diferente. Eu sei que ainda vai ser difícil vê-lo casando daqui a alguns dias, mas agora eu tenho certeza que nada mais vai acontecer entre a gente porque rompemos essa barreira naquela noite. Cada um vai seguir um rumo diferente e acho que com o tempo vamos conseguir nos aproximar de novo como antes de namorarmos.

—Eu sinto muito. – Menti, na verdade eu achava muito bom eles não ficarem mais.

—Valeu. Ele foi o meu único namorado de verdade, sabe? Talvez o Rafael, mas eu não o colocaria na lista de relacionamento sério, sempre foi apenas companheirismo e sexo, muito sexo...

—Me poupe desses detalhes Hermione.

Affs, eu odiava aquele cara.

—Eu só estou te contando minha vida, não queria saber? – ela perguntou dando de ombros – E graças a Merlin ele faz parte dela. E você tem que se acostumar com ele, você vive transando por ai, eu não vou ficar um ano sem transar e não vou cometer nenhum deslize correndo risco de perder meus filhos. Eu queria que você o tratasse bem, Rafael só vai estar me fazendo um favor.

—É deve ser muito difícil para ele fazer esse favor. – Retruquei com ironia.

Virei para o outro lado, não me incomodava quando ela falava de Rony, entendia a história deles e era muito bonita até. Mas não suportava Rafael de nenhuma forma possível.

—Você quebrou sua própria regra Draco.

—Do que você está falando, Hermione? – Perguntei sem me preocupar em ser grosso.

—Sem ciúmes. Você mesmo ditou essa regra idiota e está ai com ciúmes do meu amigo colorido – cuspiu com raiva.

Virei-me de barriga pra cima, incrédulo.

—Olha aqui Hermione Granger Malfoy, eu não estou com ciúmes de você. Se você quiser transar com aquele troglodita idiota então transa, só toma cuidado para ele não te esmagar.

—Eu não sou tão frágil – Ela falou irritada.

—Você é uma Olivia Palito, Mione. Impliquei.

Escutei ela bufar nervosa e eu nem fiz questão de segurar o riso.

—Você não devia ter dito isso. – trincou os dentes.

Nem deu tempo de olhar para o lado, apenas senti as pernas dela se entrelaçando nas minhas e suas mãos segurando as minhas prendendo-as na cabeceira da cama. Tentei mexer tentando me soltar, mas não consegui as mãos e pernas dela estavam firmes e não me permitia nem virar nem me soltar dela.

—Ficou maluca?

—Só estou te mostrando que não sou tão frágil assim.

—Deu mesmo para perceber. – Falei tentando me mexer, mas não consegui, ela era mais forte do pensei.

Ela soltou as minhas mãos e assim que foi sair de cima de mim segurei em uma de suas pernas e inverti as posições, com uma mão segurei as duas dela na cabeceira, a outra segurando a perna sem deixa-la se mover enquanto minhas pernas a prensava na cama.

—Mãos interceptadas, pernas imobilizadas – falei sentindo a respiração dela muito próxima ao meu rosto – Tronco impossibilitado. Tsc Tsc Tsc Hermione Malfoy, não tem como você soltar. Ponto para mim.

—Aí é o que você se engana.

—Não tem nada que possa...

Não tive tempo de terminar, ela levantou um pouco a cabeça e os lábios dela tocaram os meus, me pegando de surpresa.

—Tá vendo – ela falou soltando as mãos – Eu consigo me defender soz...

Dessa vez fui eu que a interrompi, minha mão esquerda desceu para sua nuca enquanto a direita segurava firme sua coxa, puxando-a mais ainda para mim como se nossos corpos pudessem se fundir a qualquer momento. Minha língua invadiu sua boca dando espaço e tempo apenas para revezarmos a hora de sentir o gosto um do outro.

Minha mão deslizava pela macia pele clara que se arrepiava com o toque mesmo eles sendo firmes. Meu membro já estava tão absurdamente rígido que eu tinha certeza que se eu não entrasse dentro dela, se eu não a sentisse... Ele explodiria de excitação.

O maldito ar, aquele que tudo que eu não importava naquele momento faltou e aos poucos tivemos que ir nos afastando. Os olhos dela estavam com tanto desejo que me perdi completamente neles enquanto meu corpo só pedia para estar dentro dela.

—Eu quero você. – Falei desesperado.

—Eu também te quero.