Dramione - Fotografias
30 A Importância do Sangue

Pov. Mione
Por incrível que pareça Melgaço havia mandado uma marmita para mim também naquela noite, menos para Theo. Qual era o problema de Fabricio Melgaço? O babaca parece que tinha prazer em deixar os outros com fome.
Não foi Aline que levou a comida, François que havia trazido. Theo disse que estava bem e que havia comido mais cedo, mas mesmo assim eu me preocupei com ele, estava muito fraco por causa da maldição.
Quase não preguei o olho naquela noite, tudo ainda muito fresco na minha mente... Principalmente Alice... Eu não me confundia com aqueles nomes porque para mim, mesmo sem conhecer Aline, ela e sua irmã tinham personalidades completamente diferentes.
Alice era uma vadia, uma bandida manipuladora que de santa só tinha a cara de boa moça e o ar de adolescente. Aline era uma mulher boa, que apesar de tudo sacrificou sua “carreira” para salvar a vida de algumas pessoas, e mesmo não conseguindo ainda merecia o mérito pelo que fez.
No meio da noite um bater de dentes me despertou dos poucos minutos de sono e eu me levantei, verifiquei a temperatura de Theo e sua testa parecia queimar feito brasa. Molhei bem a mesma blusa que eu havia passado nos seus hematomas e coloquei sobre a sua testa lhe dando o resto que eu tinha de “dipirona” sem ele ao menos acordar. Peguei meu coberto e joguei sobre ele e me sentei com os joelhos encolhidos nos pés da minha cama para vigia-lo caso ele desse alguma convulsão noturna.
Levantei apenas mais duas vezes após isso... Eu me lembrava das dores que percorreram pelo meu corpo quando eu estava no chalé de Gui e Fléur depois que fui torturada por Bellatrix. Fléur tinha feito a mesma coisa comigo e me enrolado em alguns cobertores, Rony havia ficado ao meu lado dormindo na poltrona do quarto durante algum tempo enquanto Harry cavava a cova de Dobby. Eu havia dado febre, Fléur, na época, não sabia o que havia acontecido, mas havia me feito um chá de ervas enquanto um pano molhado ficava sobre a minha testa... Talvez fosse isso que eu estivesse aqui, tão preocupada com uma pessoa que eu pouco conhecia.
Ou talvez, fosse o fato de Theodore Nott me lembrar tanto Draco Malfoy... Os dois eram sangues puros, filhos de comensais que não tiveram escolhas. Apesar de Theo parecer mais bem humorado, ele me trazia a sensação boa de Draco, era como se eu tivesse um pedacinho dele comigo agora...
Era estranho pensar nele, eu não sabia o que estava acontecendo lá durante todo esse tempo.
Draco. Como foi que eu passei a gostar tanto assim dele? Theo estava certo, erámos tão opostos.
Quando mais nova, nunca reparei nem senti nada por ele que simbolizasse paixão. Apenas a mesma repulsa que ele parecia sentir por mim na época, talvez se eu tivesse voltado para Hogwarts para terminar o sétimo ano o sentimento fosse diferente, mas assim como Rony e Harry, eu fugi de lá enquanto ele voltou.
Draco foi corajoso, enfrentou o próprio veneno de cabeça erguida, o cara preconceituoso havia se tornado o cara que sofria o preconceito... Ele mudou. Isto era obvio e eu pude notar desde os primeiros dias que nos reencontramos, mas alguma coisa em nós tinha dado errado, ou certo demais dependendo o ponto de vista.
Toda aquela rivalidade, toda aquela oposição que sentíamos um pelo outro se tornou algo forte, atração. A pessoa que eu não gostava se tornou a pessoa que eu confiava meus bens mais preciosos... Enzo e Sophia. Falar deles, pensar deles era doloroso.
Como eu podia ficar tanto tempo longe dos dois pequenos? Aquela dor no meu peito parecia não ter tamanho nem fim, eles estava tão longe de mim... Eu não os tinha nos meus braços, não, eles estavam nos braços de Draco e apesar de tudo era isso que me dava certo conforto. Eu sabia que ele os protegeria, eu sabia que Enzo e Sophia ficariam seguros com ele, porque assim como eu, Draco mataria e morreria pelos dois.
Abri os olhos e senti as grossas lágrimas sobre meu rosto escorrerem, eu nem havia percebido que estava chorando dormindo até aquele momento. Olhei para frente e nem me assustei em ver Melgaço ali, me encarando como se fosse uma assombração.
Sustentei meu olhar, ele franziu o cenho como se quisesse falar alguma coisa. Escutei Theo gemer. Levantei-me e molhei novamente a minha blusa, ele ainda estava com febre, não era mais tão alta, mas mesmo assim era febre.
Ajoelhei-me ao seu lado da cama e coloquei a blusa na sua testa, sobre os olhos vigilantes de Melgaço. Aquilo era tão estranho, mas já não me incomodava mais. Tirei uma coberta de Theo e desabotoei o sobretudo que ele havia abotoado antes de deitar, ele estava suando e de certa forma era um avanço.
Melgaço continuou me encarando por mais alguns minutos até eu me sentar e me embrulhar com a coberta que havia retirado de Theo. Em seguida ele apenas acenou com a cabeça e subiu com seus dois capangas.
O que ele queria com isso, ou o porquê dele fazer isso eu não sabia. O sol já havia despontado e eu não escutei meu novo companheiro de cela gemer nenhuma vez. Virei um pouco rosto e senti as lagrimas saindo novamente, eu não devia ter ficado a madrugada inteira pensando tão longe, sentindo saudades de casa e das pessoas que eu amava, porque eu simplesmente não conseguia parar depois de um tempo era como uma avalanche, eu sentia agora e não controlava depois.
–Obrigada.
Virei-me para a pessoa que havia falado e ela estava meio ereta sentada, enxuguei meu rosto rapidamente apenas acenando.
Theo se levantou e foi até o banheiro, parecia estar melhor e eu o agradeci mentalmente por não me fazer perguntas. Saiu do banheiro depois de Simas acordar, com os cabelos molhados, seus olhos estavam um pouco vermelhos assim como aparentava estar um pouco pálido, mas em vista da noite anterior ele estava muito melhor do que antes.
O silêncio na cela não foi incomodo como eu pensei que seria por estar junto de um desconhecido, eu e Simas havíamos nos acostumado com silêncio quando estávamos com Jeovane. Mas com Theo parecia ser tão fácil quanto com ele. Não havia muito o que fazer ali, na verdade não havia nada para fazer a não ser ler e dormir.
Desci da cama e me sentei no chão frio, aquele dia estava um pouco mais quente do que nos anteriores e eu tentei ao máximo pegar alguns raiozinhos que passavam pelas frestas das janelas para me aquecer. Não demorou muito até meus companheiros de cela se juntarem a mim no chão, encostados nas grades.
–Você está horrível. Comentou Simas com as pernas esticadas.
–Obrigado pela sinceridade, o espelho está me falando a mesma coisa e você não está nenhum galã de novela.
Ele riu e me deu um empurrão leve com o ombro.
–Eu quis dizer que você está cansada sua burra, só isso – ele disse – Não quer dormir antes do almoço com Melgaço?
–Não estou com sono agora.
–Teve algum pesadelo? Insistiu.
–Não...
–Ela ficou a noite inteira cuidando de mim – interrompeu Theo nos olhando – Por que você fez isso? Você não me conhece, nem tem a necessidade de fazer isso... Lembra do que eles disseram ontem? Eu sou um desperdício de tempo, se seus amigos aurores não invadirem aqui eu vou morrer, e apesar de tudo, eu não tenho esperanças como vocês.
–Apenas tenha esperança e já vai valer a pena. Disse Simas.
–Você estava com febre, fiquei com medo de ter alguma convulsão por causa dela. Não quero ter que te arrastar pra fora daqui quando os aurores chegarem. Respondi dando de ombros.
–O modo como vocês falam até chega a ser cativante – riu Theo – Valeu por cuidar de mim, fico te devendo essa e pode cobrar.
–Vocês sonserinos sempre fazem algo em troca de alguma coisa? Perguntei de melhor humor.
–Basicamente. Respondeu.
–O que o Snape ensinava para vocês naquela época? Brincou Simas.
–Ei, nem todos os vilões são sonserinos. Retrucou Theo fingindo estar ofendido.
Nós três rimos.
–E mesmo? Me diga um? Pediu Simas.
–Fabricio Melgaço.
Simas e eu olhamos para ele sem rir. Como assim?
–Como assim? Perguntou Simas.
–Eu sei que ele é herdeiro de sangue direto de Gryffindor, mas acho que ele não se encaixa em estudante de Hogwarts... Ou se encaixa? Perguntei me levantando para ficar de frente para Theo.
–Ele estudou lá, se é o que quer saber, há muitos anos atrás... Tipo, muitos anos mesmo – ele falou brincando, mas ao ver nossa cara parou de rir – O que foi? Não fizeram a lição de casa? Melgaço estudou em Hogwarts a mais de cem anos atrás. Antes mesmo de Dumbledore nascer pelo que ele contou certa vez num jantar a uns cinco anos atrás, ele era da casa da Grifinória, mas brincou dizendo que o chapéu ficou em duvida entre Sonserina e Corvinal também... Azar ou sorte, ele acabou indo para a Grifinória.
–Mas ele não é Albanês? Perguntou Simas.
–É, nasceu e cresceu lá, mas optou por estudar em Hogwarts devido ao seu laço sanguíneo com um dos fundadores. Estudou lá até o quinto ano e enjoou do lugar, então partiu para outra escola que não me recordo o nome.
–Juro que se eu fosse escritora, escreveria um livro sobre a vida desse homem.
Realmente Melgaço me surpreendia, ele devia ter tido uma vida muito interessante, e se não fosse tão odioso e nojento eu gostaria mais de conhecê-lo, afinal de contas, eu ainda sim era uma pessoa curiosa.
–O que você sabe sobre esse lugar Theo? Perguntei.
–Não muito... Sei que é uma ilha muito grande, maior do que a que estávamos alguns anos antes. Não existe mais ninguém aqui além de nós, eu quero dizer, que todo mundo que “vive” aqui tem algo haver com Melgaço. Não tem família, nem casas, é uma ilha apenas dele. Eu nunca o vi ficar tanto tempo seguido aqui e acho que o motivo disso é você, ele sempre fica apenas uma semana para trazer suas pesquisas, estudos e novas experiências e volta para o Japão onde ele também tem um grande negocio de contrabando de produtos ilegais e até mesmo de pessoas – contou Theo – É impossível entrar ou sair daqui sem o consentimento dele, apenas as três pessoas de confiança deles sabem a localização exata da ilha, por isso os capangas só saem daqui com um dos três ou Melgaço para poderem voltar.
“ Aqui temos dois galpões, um para as cobaias e onde fica o laboratório e outro mais distante onde ficamos, bom eu ficava, perto da prisão. Melgaço pensa em tudo, artigos trouxas não funcionam aqui, devido a um feitiço que o próprio criou. Apenas coisas ligadas á magia funcionam.”
–E o jato? Perguntei curiosa, essa era uma coisa que eu realmente queria saber e estava curiosa á tempos.
–Os jatos... – corrigiu-me – São mais de um, são quatro... Eles funcionam com combustível a base de magia, uma espécie de solução magica, uma poção se assim dizer. Eu não sei exatamente... Tudo que ele cria é muito complicado até mesmo para mim, e olha que sou inteligente, sem falsas modéstias.
–Isso explica alguma coisa. Falou Simas.
–Algo mais sobre esse lugar?
–As celas... As celas desse lugar funcionam de um jeito complexo. Somente os capangas podem abri-la, os capangas mais importantes do grupo de confiança de Marciano, Joseph confia em Marciano, Marciano comanda seus capangas, por isso eles podem liberar essas celas, ele é como um quarto líder aqui, não sabe a localização, mas comanda os capangas quando Joseph não está o que é quase sempre já que Joseph fica a maioria das vezes nas missões fora da mansão, no recrutamento e treinamento de novos capangas.
–Então se quisermos sair daqui, melhor dizer, para a cela ser aberta precisamos da varinha de algum dos capangas de Marciano? Perguntei.
– Se eu não me engano são 10 capangas responsáveis por vocês aqui dentro, eles que fazem a liderança dos turnos dos que vigiam a cela do lado de fora ao redor da mansão devem ser uns 30 homens que estão pela casa apenas para assegurar que os prisioneiros da casa fiquem presos, por isso estou aqui, Melgaço não confia em mim e ele sabe que sou um risco. Poucas pessoas ficam presas aqui, apenas àqueles que significam uma ameaça e digamos que nós três somos uma grande ameaça já que estamos aqui.
“Simas por consegui-lo enganar e ser um auror, e você... Por ser você. Melgaço simplesmente tem um fascínio em tudo que envolve você, todos os funcionários daqui comentam isso, nunca o vimos tão interessado e preocupado com alguém. Para ele, se tem uma pessoa que pode conseguir fugir daqui, essa pessoa é você, por isso tanto reforço. Devem ter reparado que de quase 300 homens que trabalham aqui, apenas esses dez tem permissão por serem de confiança e serem os únicos a liberarem a cela com suas varinhas que funcionam como chaves.”
–Eu era um desses dez, correto? Perguntou Simas.
–Exatamente, agora é outro rapaz. Respondeu.
–Você disse que já tiveram outros nessa cela. O que aconteceu com eles? Perguntei já sabendo a resposta.
–Morreram aqui, quando entra aqui não sai, Hermione.
Apenas maneei a cabeça pensativa, mais do que nunca eu tinha que convencer Simas a ir com a Natalia. Se os aurores não viessem aqui, eu não iria conseguir sobreviver... A troca nunca seria feita, eu nunca iria para casa e deixaria os gêmeos aqui, então eu iria morrer e não queria que Simas morresse comigo.
–Você vai com a Natalia. Falei firme.
–O que? Perguntou Simas.
–Você vai com a Natalia. Repeti.
–Não vou não...
–Vai sim Simas, olha o que ele acabou de dizer... Temos 40 capangas só nessa casa nos vigiando. Não temos chances de sair daqui, e qual é a probabilidade deles nos acharem? Não vou tirar de você a chance de sair daqui, você vai com a Natalia e se eu der sorte saio com o Theo e o Walisson daqui na hora certa.
–Eu não vou mais discutir isso com você. Eu vou ficar aqui, não só por você, mas pelo Harry, Rony e até mesmo pelo Draco... Você e Walisson não podem ficar sozinhos aqui.
–Eles estão mandando dois comensais em troca de dois reféns, Melgaço vai ter que te entregar. Falei já com raiva.
–Não importa! Assunto encerrado, Natalia vai como refém e explica que eu não quis ir, eles vão nos encontrar, estamos falando de Harry Potter o menino que derrotou Lorde Voldemort, e Draco Malfoy o sonserino mais cabeça dura que existe, nenhum dos dois vão desistir de te encontrar e nós três vamos de carona com você quando eles chegarem aqui colocando essa ilha á baixo.
Revirei os olhos e bufei, aquela conversa não estava encerrada. Era incrível como tudo parecia estar voltando ao passado, me sentia como uma adolescente de novo, passando por todos aqueles sacrilégios que passei naquela época. Eu e Simas ficamos nos encarando, ambos teimosos demais para desistir e ceder, eu era cabeça dura e ele também. Parece que todo mundo ao meu redor é cabeça dura demais, será porque ele simplesmente não poderia ver que eu estava certa?
–Quem é Walisson?
A voz de Theo, nos fez vacilar por alguns segundos.
–Oi? Perguntou Simas desviando a atenção.
–Walisson, você falaram da Natalia, a auror que está trabalhando de medibruxa, mas falaram também de Walisson... Quem é Walisson? Ele está aqui? Espera um minuto... Você tem mais um infiltrado aqui? – falou Theo contente e se levantando – Uau, como você conseguiram enganar Melgaço durante tanto tempo? Isso é demais.
–Não é tão demais assim, foi sorte ele não ter feito nada contra Simas ao descobrir que ele é um traidor, temos medo do que ele pode fazer com Walisson quando descobrir que foi enganado todo esse tempo.
Já fazia um tempo que eu temia isso, Melgaço podia até ter aliviado Simas porque viu nele a oportunidade de tentar ser “justo”, mas no caso de Walisson ele nunca iria perdoa-lo e nem aceitar ser passado para trás, não depois de tanto tempo sendo enganado.
–Eu prefiro não saber por hora quem é o infiltrado, quero descobrir sozinho para provar eu sou mais rápido que Melgaço. – falou Theo percebendo a inquietação minha e de Simas.
Apenas acenamos e ele foi se deitar na cama dele pensativo, nos dando um pouco de tempo até eu mesmo quebrar o silêncio.
–Você sabe o que Melgaço quer com meus filhos? Perguntei.
–Sinceramente não. Eu conheço a história deles, mas apenas alguns comensais sabiam o que Voldemort iria fazer com os filhos dele...
–Meus filhos com Draco. Corrigi séria.
–Seus filhos com Draco – corrigiu-se – Eu não sei o que pode ser, sinceramente, se eu soubesse lhes contava.
–Mas podemos deduzir, está certo? Perguntei e ele acenou.
–É claro o velho é cheio de segredos, hora ou outra temos que acertar.
Tentei voltar minha mente desde o dia que Narcisa me falou sobre ele. Ela estava certa em quase tudo, ele realmente era uma espécie de cientista, extremamente perigoso e violento, era o avô biológico dos gêmeos, rico e importante para Voldemort na época e que agora queria os gêmeos. O que ela errou naquela época que me deixou um pouco cismada no dia que o vi pela primeira vez...
Melgaço era um homem bonito, seria mentira minha falar que ele era feio e Narcisa já havia nos falado sobre isso, mas foi uma surpresa ver que ele não aparentava ter os trinta anos que ela disse, ele minimamente tinha envelhecido mesmo ela dizendo que ele não podia envelhecer. Não era muita coisa, cerca de cinco anos no máximo...
Xinguei-me mentalmente por não ter me aprofundando nesse pensamento e somente a menção da palavra de Theo, “velho” tenha me despertado para uma teoria. Assim que abri a boca para começar a debater minhas ideias a porta da cela se abriu, Alexandre desceu com mais três capangas com uma carranca formidável.
–Melgaço pediu para lhe entregar isso. Falou a contra gosto.
Era o convite e nem perdi meu tempo abrindo.
–Podem ir, eu vou. Falei de mal humor.
–Eu vou te esperar sangue ruim, ande logo.
–Que eu saiba Alexandre sua mãe pode ser sangue puro, mas o seu pai... tsc, tsc, tsc, não é nem sangue ruim já que era um caminhoneiro trouxa que pegou sua mãe e deixou de lado. Disse Theo.
Eu nunca vi Alexandre tão afetado na minha vida, mesmo o conhecendo há pouco tempo. Os outros tiveram que segura-lo para ele não entrar na cela e arrebentar Theo.
Tomei um banho escutando os palavrões desferidos por Alexandre, nem a agua gelada me incomodou tanto quanto antes. Vesti um vestido branco solto com flores brancas e calcei a mesma rasteira que eu usava aqui na cela. Penteei meus cabelos e os deixei soltos mesmo, sinceramente estava pensando em corta-lo, mas quando eu o olhava tão comprido... Desistia na hora.
Sai do banho e a discursão parecia ter finalmente chegado ao fim. Simas estava encostado na parede e Theo em pé no meio da cela, ambos com os braços cruzados e muito sérios.
–Boa sorte. Falou Theo.
–Tome cuidado.
Simas me abraçou e retribui Theo apenas com um aceno de cabeça. Subi pelo corredor algemada e sendo guiada pelos capangas idiotas que seguiam ordens de um maluco. Não fomos para a sala de jantar como eu esperava, saímos da mansão e aquela luz do sol, mesmo não sendo tão forte, incomodou um pouco a minha visão.
Demos a volta pela mansão e eu pude ver os capangas posicionados por todos os lados ao redor dela. Seguimos para um jardim dos fundos onde estava uma mesa média com muita comida em cima, meu estomago roncou alto ao sentir os mais variados e deliciosos cheiros.
–Vejo que cumpriu sua palavra de vir almoçar hoje comigo Srta. Granger.
Eu nem havia reparado no homem em pé perto da mesa, já que minha atenção estava apenas para a comida. Nunca o vi tão despojado como agora, vestia uma camisa polo branca, calça jeans azul escuro e sapatênis escuro, seu cabelo estava penteado para o lado e devo admitir que ele estava bonito e que qualquer mulher, que não fosse eu que o odiava veemente, se sentiria atraída.
–Eu disse que viria. Falei seca.
–E estou feliz por isso – falou sorridente, mostrando todas aquelas fileiras brancas de dentes – Parece que cada vez que a vejo está mais linda Hermione, como pode isso ser possível?
–Não sei, talvez é apenas miopia mesmo da sua parte.
–Sempre um amor de pessoa. Falou irônico.
–Sempre tão falso que me dá vontade de te dar uns tabefes e te mandar agir de verdade. Devolvi com um sorriso forçado.
–Vejo que seu mau humor está apenas piorando. Espero que melhore até o final do nosso almoço.
–Não crie muitas esperanças em relação a isso.
Ele não falou muito e comemos na maioria do tempo em silencio enquanto minha barriga fazia alguns sons baixos que apenas eu podia ouvir, mas que era de certa forma engraçados. Após o fim do almoço ele me fez perguntas quaisquer que apesar de não ter muita vontade, eu respondi algumas. A maioria era sobre mim e minha vida pessoal antes de tudo, desde a minha época de escola, minha amizade com Harry até chegar as minhas viagens, ele parecia querer me rodear cada vez mais e com o tempo, passei a pensar melhor nas minhas respostas.
Sobre ele, era impossível arrancar alguma coisa, apenas o que ele queria dizer. Aquele assunto sobre ele ter sido da Grifinória surgiu sem que eu tocasse, ele parecia ter orgulho de ter pertencido àquela casa mesmo eu achando que ele não merecesse e que foi o pior erro do chapéu coletor.
Ele me contou que os aurores britânicos aceitaram a troca e que ele teria que ficar um tempo fora para resolver alguns negócios no Japão. Nesse período, ele sugeriu um acordo, mandaria para mim comida enquanto ele estivesse fora, e quando chegasse eu teria que jantar com ele todas as noites. Eu não aceitei, mas também não neguei. Teria alguns dias de comida extra e quando ele voltasse, poderia dar um jeito de manter minha vida mais prazerosa, bem longe dele!
As suas olhadas em mim eram sempre furtivas e intensas ao mesmo tempo. Os cotovelos apoiados na mesa agora quase vazia, a não ser pelas taças de bebidas, dava a ele um ar ainda mais elegante e de certa forma também parecia Draco. Era sempre assim, eu sempre buscava nos outros, até mesmo em Melgaço alguma semelhança com Draco.
Draco era muito elegante devido sua formação e família, ele parecia não perceber o quanto era assim e essa era uma semelhança entre o loiro que eu amava e o moreno que eu odiava.
–Hermione... Hermione...
Sacudi a cabeça e os olhos azuis claros que beirava o verde me fitava curioso.
–Eu estava te perguntando sobre Dore. Falou Melgaço.
–Eu estava viajando aqui.
–Isso lhe deixa sempre mais interessante – ele falou tão baixo que eu não tinha certeza se era para eu escuta-lo – Eu estava lhe perguntando sobre sua amizade repentina com Dore, esta cansada, ficou a noite cuidando dele?
Apenas afirmei.
–Por que fez isso? Eu lhe avisei que é uma perda de tempo, ele vai morrer, os dias dele estão contados, assim que ele não ser mais útil irei dar um fim naquele traidor.
–Eu cuidei dele porque ele estava precisando ser cuidado. Não importa o que aconteça com ele depois, eu tenho o mesmo destino dele, eu também vou morrer aqui não é? Enzo e Sophia não vão ser trocados por mim, eu e Draco nunca permitiríamos isso e eu vou me tornar apenas um peso morto até você decidir me matar.
–Eu tenho certeza que vou ter meus netos comigo Hermione, enquanto a você, eu não lhe matarei nem se isso acontecesse.
–Por quê? Perguntei confusa.
–Porque eu gosto de você, você é uma mulher muito bonita e inteligente... – eu abri a boca para manda-lo a merda com a falsidade dele, mas sua mão se ergueu pedindo para continuar – Não é só sua inteligência, é sua força, a sua teimosia... Você é encantadora Hermione Granger, extremamente encantadora e merece algo melhor do que Draco Malfoy, um moleque mimado de 25 anos. Você merece um homem de verdade, você merece o mundo aos seus pés e eu estou disposto a lhe dar esse mundo.
–Muito obrigado pela proposta, mas eu recuso. Falei me levantando, mas sua mão segurou meu branco.
–Deixe-me provar que posso ser melhor que ele, você não está enxergando as coisas como deve enxergar. O que Draco Malfoy pode lhe oferecer? Uma casa, uma família com duas crianças que não lhe pertence realmente? Eu posso lhe oferecer bem mais do que isso, eu posso lhe oferecer a vida eterna.
–Só falta você me dizer que é Edward Cullen e é um vampiro. Zombei com raiva.
–Eu não sou um vampiro – ele falou sorrindo e sua outra mão segurou meu queixo – Mas eu posso te oferecer uma vida de rainha para sempre.
–Eu não quero viver para sempre, eu quero morrer na hora certa. Quero ficar velhinha num chalé, sentada ao lado do homem da minha vida, com meus netos brincando no jardim e meus filhos, Enzo e Sophia, ao nosso lado segurando a minha mão e a de Draco. Isso é tudo que eu quero, e ai sim eu vou morrer feliz, viver para sempre nunca foi minha intenção.
Era aquilo que eu queria, o que a maioria das pessoas deveriam querer para o fim das suas vidas. Será que ele não entendia?
–Isso não vai acontecer, Enzo e Sophia são meus, Hermione... Eles foram concebidos por minha causa e me pertencem.
–ELES NÃO SÃO ANIMAIS – gritei com raiva e a mão dele que segurava meu queixo se fechou no meu outro braço com muita força – Me solta...
–Você não está entendendo Hermione, esse seu sonho infantil não vai acontecer, você não vai tê-los com você porque eles são minha propriedade – Nunca vi Melgaço falar tão alto e respirar tão ofegante – Não tem nada que possa fazer, a não ser quando eles forem mandados a mim, você pode continuar aqui para ficar com eles enquanto eles estiverem...
–Não ouse falar a palavra “vivos”.
–Mas é isso, foi para isso que eles foram concebidos. Para morrerem na hora certa!
–EU TENHO NOJO DE VOCÊ – as lagrimas já saiam pelos meus olhos – Eles são filhos da sua filha, como você pode querer mata-los? Isso é nojento e cruel!
–Vai ser a coisa mais difícil que eu vou fazer, mas vai ser para um bem maior!
Toda a raiva que eu tinha estava transcorrendo pelo meu corpo, soltei meus braços com força ignorando a dor e as marcas dos seus dedos e o empurrei para se afastar de perto de mim enquanto dei mais passos para trás. Seus capangas ficaram todos tensos com as varinhas erguidas, mas ele apenas pediu para eles abaixarem.
–Me desculpe se eu te machuquei. Ele falou olhando para as marcas nos meus braços.
–Para o inferno com suas desculpas – cuspi entredentes – Estamos discutindo aqui sobre o bem maior – falei irônica – Você é um monstro doente e psicótico.
–Eu sou um homem de visão, um dia você vai entender.
–Eu não quero entender! Eu te odeio! É tão difícil assim entender isso?
Ele estava completamente reto, como se nada tivesse lhe acontecido enquanto eu tinha certeza de estar um pouco descabelada e marcas arroxeadas e dormentes nos braços. Mas aquelas palavras que eu falei derrubou um pouco a mascara dele e seu rosto se contorceu em algo parecido com descontentamento.
–Não é difícil entender, porque a cada palavra que sai da sua boca isto fica claro. Você tem que tentar entender Hermione Granger, é que eu não sei por que, mas eu me importo com você... Quero você ao meu lado para ser minha companheira de vida.
–ÓH claro, porque você é um sangue puro descendente de Gryffindor. Acha mesmo que eu vou acreditar que você se preocupa com comigo, uma sangue ruim?
–Eu também me pergunto isso todos os dias quando te observo naquela cela. Por que me preocupar com uma sangue ruim? Não era para eu estar tão interessado em alguém como você, mas estou disposto a lavar seu sangue ao te dar a vida eterna ao meu lado.
–Fique com sua vida eterna para você e soque lá onde o sol não bate. – falei cruzando os braços com força no peito, eu queria testar minhas teorias e tinha que ser agora – É para isso que quer os gêmeos não é, o sangue deles pode te dar a vida eterna.
Ele me olhou surpreso por alguns segundos, talvez pela minha mudança de assunto, ou talvez por ter acertado.
–Isso não vem ao caso no momento. Ele falou curto e grosso.
–Vem sim, estamos falando dos gêmeos... É por isso que você os quer, haviam me falado que você era muito velho – falei esse termo para irrita-lo e consegui – mas aparentava ter no máximo trinta anos, você não aparenta ter no máximo 30, aparenta ter no mínimo 35 e isso quer dizer que o que você estava usando todo esse tempo está falhando agora, você está envelhecendo e quando percebeu isso buscou as soluções.
Melgaço me encarava muito sério até eu terminar de falar, quando terminei ele sorriu de lado. Um sorriso frustrado, que me deixou feliz e triste ao mesmo tempo.
–Marciano, espalhem-se por outros lugares. Eu quero falar a sós com ela.
Virei-me pela primeira vez para seus homens, todos estavam quase hipnotizados na nossa conversa. Era obvio que ele nunca deixaria isso acontecer, ele não queria parecer fraco perto dos seus subordinados.
Alexandre acenou e todos aqueles que estavam perto de nós saíram se espalhando mais distantes, com um pequeno acenou rápido de varinha, Melgaço lançou um feitiço não verbal que reconheci sendo Abaffiato.
–Você realmente é muito mais perigosa do que pensei. Falou Melgaço.
–Eu sou perigosa? Não sou eu que estou atrás de duas crianças para mata-las e nem sou eu que tenho duzentas pessoas presas num galpão como se fossem ratos de laboratório.
–Depende do ponto de vista – falou dando de ombros – Mas eu não digo perigosa que possa me oferecer ameaças físicas, estou dizendo perigosa com sua inteligente, você tem uma facilidade em ligar os pontos, uma facilidade que eu pouco conheci durante meus 176 anos de vida.
Devo admitir que aquele número me impressionou um pouco... Pouco não, Muito. Pra que ele queria viver mais? 176 anos já está de bom tamanho! Eu me contento em viver até os 80 anos.
–O que você estava usando, não está mais funcionando então? Perguntei.
– Eu havia criado uma poção que retrocedeu meus anos quando eu tinha 54 e me permitiu continuar sempre jovem. Com o decorrer do tempo o meu sistema começou a se acostumar com ela, isso passou a acontecer a mais de 40 quando eu percebi que estava envelhecendo, muito lentamente, mas estava envelhecendo.
–Eu provavelmente não conheço essa poção? Falei o encarando.
–Dificilmente, eu mesmo a criei.
–Mas mesmo assim, você ainda vai demorar muito para morrer, você envelhece o que? Cinco anos a cada quinze?
–Quase – ele falou com um sorriso satisfeito – Cinco anos em vinte.
–E pra que quer mais?
–Por que não querer mais? O ser humano é limitado demais, ainda mais àqueles que têm tanto a oferecer, duas coisas apenas importam no mundo para os que têm visão: poder e tempo. E aos poucos eu estou conseguindo os dois, minha cara Hermione.
–Como você quer usa-los? Pra que você quer usa-los?
–Eu descobri um feitiço há muito tempo, uma espécie de ritual de magia negra que produz um elixir – ele falou e meus pelos se eriçaram assim que soou “magia negra” – O que eu uso atualmente é uma poção, criada por mim e por isso ela acaba perdendo o efeito conforme o tempo, o sistema imunológico que “combate a velhice” vai enfraquecendo, mas com esse ritual de magia eu vou poder viver para sempre.
–Como? Perguntei num fio de voz.
–O quatro criadores de Hogwarts são os bruxos mais poderosos que existiram desde então. Nicolau Flameu conseguiu usando a Alquimia e Cabala para criar a formula da pedra filosofal, pedra esta que foi destruída a pedido de Dumbledore – explicou Melgaço – A pedra produzia o elixir da vida, além de outros atributos ligados a ela.
–Então você quer criar outra pedra? Mas por que os gêmeos?
–Não é que eu queira construir outra pedra Hermione, a pedra filosofal produzia o elixir para prologar a vida quase a mesma coisa que a poção que criei, só que a pedra era mais eficiente. O ritual é algo maior, e assim como usei as pesquisas de Nicolau Flameu para criar a poção, vou usar para o ritual – ele explicou de forma cativante, para ele, porque para mim era simplesmente abominável – O ritual produz um elixir de vida eterna, aliando o sangue de quatro bruxos extremamente poderosos minha querida, isso vai me deixar mais poderoso ainda.
–Como você sabia que ia nascer gêmeos?
–Não sabia, mas isso é apenas mais elixir. Eu posso ganhar trilhões com isso, os sangues dos dois produzirá o equivalente a oito elixires!
–Eu tenho nojo de você. Não sente nada por eles? Eles são seus netos Melgaço, tem seu sangue nas veias deles.
–Tem o sangue de quatro grandes nas veias dele. Eles foram criados para isso Hermione, eles não podem significar nada para mim. Assim como Melissa foi concebida para isso também, o plano desde o começo sempre foi eu e o Lorde Voldemort tomarmos as doses de elixir e escolher o que fazer com o restante, não contávamos com oito e isso é apenas uma vantagem a mais e estou disposto dar uma dose a você, se ficar comigo.
Mesmo sentindo as lagrimas escorrendo pelo meu rosto, eu gargalhei alto.
–Prefiro morrer agora do que viver pra sempre sabendo que sacrifiquei a vida de duas pessoas para isso.
–Hermione... Minha cara Hermione, eu vou te ter minha querida. – disse se aproximando de mim e me afastei mais – Por hora você ainda não vai entender, ainda está envolvida pelos meus “netos”, mas quando eles se forem e você perceber que Draco Malfoy não é homem para você, vai me entender melhor e vai voltar atrás de mim, e eu realmente vou esperar por você.
–Sentado de preferencia.
–Que seja! Eu ainda vou te esperar, você ainda vai aprender Granger sobre a importância do sangue.
Eu não fiquei para escutar mais, na verdade eu não queria escuta-lo... Apenas segui andado de volta para a mansão sem que precisassem me arrastar para a minha cela, eu não iria sair dali mesmo, já conhecia o caminho sozinha. Minhas esperanças bem mais escassas do que antes. Será que toda a minha proteção e proteção de Draco seria suficiente para manter Enzo e Sophia longe dele? Eu realmente esperava que sim, para isso eu tinha esperanças que sim. Mas outra esperança estava se apagando dentro de mim, a de sair viva daquela ilha maldita.
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