Drama em que morri

1 Mundo mental em caos


Notas iniciais
Durante uma madrugada alguém me sugeriu que escrevesse minha história, eis que aqui está.

Meu nome é Pedro. Onde moro, minha idade ou que faço é irrelevante. Também vamos cortar o papo sobre gostos e minha aparência. Isso tudo é desnecessário! Porque essa não é uma aventura, um conto romântico ou ficção científica. Essa é a história de como eu morri. Tudo que você precisa saber é que existe um modo de morrer sem parar de respirar, sou um cadáver ambulante e invisível. Sou uma dessas pessoas vazias que existem pelo mundo todo, que passam por você sem brilho nos olhos, mas você não nota, porque está ocupado demais tentando lembrar se desligou o gás ou porque está com pressa demais para a reunião/escola/trabalho/almoço. Sou dessas pessoas sem identidade e sem futuro... Ando com meus fones de ouvido com uma trilha sonora mórbida tal como meu humor.

Quero que entenda antes de me julgar, se é que já não o fez, não ando por aí com a chamada cara de bunda porque quero, apenas não tenho mais motivo para sorrir, sou como o defunto autor ou autor defunto de Machado de Assis. Não encontro dentro de mim motivação parar levantar os dois cantos dos lábios e expressar um sentimento bom. Se tentar rir, tenho quase certeza vou parecer um daqueles maníacos que fazem rituais em esquinas nas sextas à noite.

Se por um acaso esbarrei em você na rua gostaria de me explicar, não quero que comece essa história já com antipatia com o protagonista, que no caso sou eu. Quero que saiba porque pareço não enxergar quando caminho nas ruas sujas da cidade. Enquanto troco passos estou naquele famoso momento em que minha vida toda passa diante dos meus olhos sem que eu possa mudar ou deixar de ver. Vivo infinitamente o momento da minha morte até parar de respirar.

Tenho algumas advertências antes de começar a descrever meu fim: essa não é uma história com final feliz. Você pode me achar dramático demais durante o percurso. Não sou o melhor escritor do mundo e por último, mas não menos importante, Estou dopado, como o filho da puta que adora superdosagens de antidepressivos que sou.

Dados os recados, quero que saiba que nunca me considerei uma pessoa viva desde que deixei o ventre de minha mãe. Até uma certa tarde, nunca notei minha existência até aquela tarde. Porque pra mim alguém só está vivo quando se da conta de sua vida, antes disso a pessoa apenas existe como poeira no caminho de sol da janela no fim da tarde. Não foi um dia especial, era só um livro do Pinóquio e eu, no fundo de casa. Foi nesse dia que aprendi que ,às vezes, as pessoas são de mentira, mas não tem nenhum problema porque elas servem para distrair-nos. Como agora você pensa que eu sou um personagem e quer se entreter com minha história. Nesse dia também aprendi a atuar, a fingir ser aquelas pessoas que são só imaginação. Nesse dia comecei a construir meu mundo mental no qual vivi por anos.

Os próximos grandes acontecimentos da minha vida aconteceram apenas no meu mundo mental, vivi como um espectro em sua realidade. Comia, dormia, estudava, toma banho e falava de forma mecânica e fora do que consideram "comum". Arrumei amigos imaginários, que posso jurar que via andando ao meu lado como você vê sua família. Minhas histórias de fantasia se misturavam com esse plano e eu nada podia fazer para parar. Ninguém nunca notou isso, caso esteja se perguntando se frequentei algum psiquiatra durante esse período. Aliás, uma das coisas que quero que saiba é que fui sozinho durante quase toda vida e por isso devo ser tão sem graça. Nunca aprendi a ser sociável e amável. De certa forma nunca estive de fato vivo como acredito que você está.

Mas sem mais delongas quero que saiba que em um momento entre meu existir confuso e mundo de fantasias aterrorizantes eu a encontrei. A pessoa que me matou sem me deixar desencarnar! A criatura que me prende a esse plano como imãs de polos invertido, como caos e o diabo.

Era uma dessas manhãs cinzas em que as pessoas parecem ainda mais apáticas e preguiçosas. O vento frio fazia meu rosto arder por mais que tivesse devidamente vestido. Sair de casa foi erro, imperdoável erro! Ah, se eu soubesse que ali eu iria a conhecer, nunca teria tirado meu corpo daquela cama quente naquela manhã gelada. Mas ainda sou um humano e ainda sou desses que vivem presos a regras tolas e injusta.

Quando a vi confesso fiz pouco caso, virei a cara, não dei importância. Minha única e "grande" história de amor começa com um roubo, um efêmero assalto sem armas. Lembrando que ainda me considerava vivo nessa época. Sai de casa com o gorro mais chamativo que encontrei, estava tudo tão sem cor que me irritava. Hoje só visto roupas pretas, opto pela ausência de cor. Enfim, ela atrevida e sem muitos modos me roubou o bendito gorro chamativo. E eu claro fiquei puto! Queria esfregar aquele narizinho empinado no asfalto frio.

Nem a conhecia e lá estava ela puxando meu gorro e desfilando por aí como se eu não tivesse mais direitos sobre ele. Minutos depois descobri que ela era a nova namorada do meu melhor amigo, Caio, o único que eu tinha, devo acrescentar. Fui obrigado a engolir todos os xingamentos direcionados a ela. Mas nada me faria ser gentil ou algo assim, mesmo porque eu nem saberia ser.

Foram exatos sete dias tendo de conviver com ela todas as manhãs até o pior acontecer: eu a amar. Ainda fazia cara feia quando a via, não perdoava o roubo de meu gorro, mesmo que ele tivesse sido devolvido. No entanto intimamente eu sabia que aquela implicância nada mais era do que afeto. Ter afeto por alguém não me assustou, eu vivia sentindo isso, mesmo sem transportar as pessoas para meu mundo mental. Eu era um ser empático. Eu nem vi isso como um problema, ela era namorada do meu amigo, era normal eu sentir algo por ela, estranho seria ser totalmente indiferente.

Foi numa terça-feira, não tem como esquecer, ficou marcada na alma como tatuagem. Ela e o Caio haviam brigado, não a via durante a manhã inteira. Um pequeno incomodo ia desde o meu estomago até perto da boca e voltava de minuto em minuto. Outras vezes era como se alguém estivesse me cutucando as costelas. Minha cabeça trabalhava de forma errada, tudo parecia ter amanhecido ao avesso. Até meu mundo mental estava afetado. Eu não saberia nomear o que me ocorreu, mas foi ali que tudo começou a ruir.

Eu a vi perto da hora do almoço, eu não sentia fome, ela sim. Roubava lanches de colegas como a cleptomaníaca que era. Em um segundo eu enxergava tudo ainda sem cor através das lentes sujas de meus óculos e no segundo seguinte algo brilhou, uma luz dourada entrou em meu campo de visão, ela. E não digo uma luz no sentido figurado, eu realmente a vi brilhar! Naquele momento eu soube que não era afeto, não era empatia, não era comum, não podia ser.

Eu queria poder a colocar em uma caixinha de vidro e impedir que o mundo apagasse aquele brilho maravilhoso. Fiquei mais do que confuso. Eu não poderia sequestrar a namorada do meu melhor amigo, de forma alguma. Se eu tive uma reação decente? obviamente não. Eu passei de confuso a apavorado em uma velocidade que corredores invejariam se pudessem correr em igual velocidade.

Fiz o que julguei certo, sai logo de perto dela e de Caio, por dias, semanas. Eu precisava reordenar meu mundo mental e descobrir o quanto daquele encantamento que sofri podia ser fruto da fantasia. Eu nessa época conseguia vagamente separar os dois planos, meu mundo mental era bem mais colorido e encantado do que o plano real. Mas ela parecia não pertencer a nenhum dos dois.

Meu mundo mental estava de novo em perfeito estado, graças a uma quantia absurda de comprimidos para dor em um mix não tão inofensivo com antidrepressivos e mais os remédios que eu encontrasse. Meu corpo mal tinha lugar para a marca com as laminas.

De novo sinto que posso estar sendo julgado por você, pode ser que você seja um desses que dizem "se automultila para chamar atenção", mas gostaria de lhe lembrar que sem Caio e sem ela não havia mais ninguém na minha vida, não tinha a quem chamar atenção.

Os cortes aconteciam quase no automático, Eram minha formula secreta para não enlouquecer de vez. Uma atitude infantil? Talvez, mas eu também não possuía mais do que uma dezena e algumas unidades de anos. Preciso explicar-lhe como funcionava meu método. Tomava alguns comprimidos, entrava em meu mundo mental em desordem e organizava o que dava. Quando os compromissos do plano da realidade me chamavam eu usava a fina lamina que gerava um ardor prazeroso, um pouco de sangue jorrava e então eu voltava para a realidade junto com o vermelho. E se tinha dúvida de em qual plano estava bastava apertar um dos cortes, se doía: mundo real, se nada acontecesse: mundo mental.

Foi assim por todo o tempo em que estive afastado. Demorou muito para o incomodo no estomago passar e eu voltar a minha vida social fracassada, minha amizade com Caio. O namoro deles estava funcionando muito bem, e eu virei um espectador. Tudo o que faziam juntos lá estava eu observando-a com uma admiração doentia que em algum momento batizei de amor.

Notas finais
comentários?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.