Drakons
1 Capítulo 1
Denebola
Tentei não ficar muito ansiosa, realmente tentei, mas minhas mãos suando e a dor de cabeça eram uma clara indicação de que eu não estava conseguindo me acalmar como devia e eu tinha que estar calma. Depois do milagre de ter passado na pré-seleção, de sabe-se lá quantos candidatos, e ficar entre os três possíveis assistentes de um grande CEO, acabado de sair da faculdade era mais que um milagre. E eu não ia estragar, eu não podia estragar.
Olhei para os dois outros candidatos, cada um sentando ao meu lado. Eu queria não ter esquecido minha bolsa dentro do carro, assim eu ao menos poderia fingir mexer em algo dentro dela, ao menos o celular, mas tudo havia ficado dentro do carro.
Não sei exatamente o que chamou minha atenção, mas olhei para o homem ao meu lado, ele estava pálido, os lábios levemente azulados. Olhei para frente, a recepcionista estava encarando-o também. Nós olhamos com a mesma expressão preocupada.
— Senhor? – Chamei tocando seu braço levemente, ele olhou para mim como se estivesse me focando, não como se não estivesse a centímetros dele. – O senhor está bem? – Perguntei apenas por perguntar, estava na cara que ele não se sentia bem.
— Eu… – ele respirou fundo – Eu estou bem. – Ele parecia mais estar se convencendo do que me respondendo. Olhei para a recepcionista, ela estava voltando de algum lugar com um copo de água.
— Senhor Hémery, o senhor não parece estar bem. – Ele disse entregando o copo d'água – O senhor não deve se apresentar dessa forma. Não seria bom para a primeira impressão que o Sr. Adriacci tenha sua. Acredite em mim. – Eu não conseguia ver a expressão dela, o cabelo longo escondeu sua face.
Por um minuto achei que ele diria que estava bem de novo, mas parece que a mulher que eu não lembrava o nome tinha conseguido colocar um pouco de juízo na cabeça daquele homem, já que ele levantou e entregou o copo para ela.
— Bom parece que somos só nos dois. – O outro homem disse com um meio sorriso. Fiquei momentaneamente sem reação, mas depois concordei com a cabeça. Ele estendeu a mão – Valentin Mallet.
— Denebola Riddle – Disse apertando a mão dele. O seu sorriso ficou um pouco mais arrogante e rezei internamente para que ele não conversasse comigo por que eu diria besteira ou seria rude ou pior, faria os dois e ainda não calaria mais a boca.
— Então… – Xinguei aquele imbecil em minha mente. – Nervosa para a entrevista? – Sorri da mesma forma que ele.
— O normal para o momento. – Falei tentando soar tão arrogante quanto ele, já havia aprendido na faculdade que falar como eles só piorava a situação, se teve uma coisa que aquele lugar me ensinou foi que todos agiam como se fossem os donos do mundo, por que na cabeça deles seria assim que conseguiriam ser de verdade.
Ele sorriu e aparentemente Valentin pensava da mesma forma. Olhando para ele, percebi que o padrão realmente não mudava: seguiam aquelas dicas de entrevistas à risca, sempre o cabelo engessado de gel, um terno preto, sapatos mais brilhantes do que algumas joias, postura confiante, mas eles esqueciam de não ser arrogantes. As únicas características que mudavam eram as físicas, e geralmente nem tanto assim.
— Bom, que o melhor consiga – Já dava até para ver na mente dele que eu não estava sendo nem considerada. Pela postura, ele devia ser machista também. Revirei os olhos, era só o que me faltava. Também podia ser por que, eu estava fora do padrãozinho que davam para a vestimenta feminina, eu não estava com uma saia lápis preto e nem com uma blusa social branca, nem mesmo com um scarpin negro. Se tinha aprendido algo com meu pai, é que grandes empresários atualmente queriam originalidade, se bem que eu estava tentando entrar para a parte administrativa de uma grife de joias, mas já estava aqui com um vestido azul-marinho, levemente largo, com uma meia calça preta, e um salto preto simples. Isso tinha que servir.
Estava começando a entrar em pânico interno novamente, mas a mulher que eu realmente não lembrava mais o nome nos chamou.
— O sr. Adriacci os receberá agora. – Ela disse sorrindo. – Boa sorte.
Respirei fundo, que bom que eu já tinha me preparado psicologicamente para essa possibilidade. Ser entrevistada por seu futuro chefe, ainda mais pelo dono de tudo, se eu não tivesse surtado já com essa possibilidade no meio de tudo, agora eu estaria tendo um troço.
Enquanto seguíamos para a porta a menos de cinco metros repassei tudo o que sabia do meu (tomará) futuro chefe. Nome completo é Avalon Damien Adriacci, tem 42 anos, pelas fotos que eu havia visto, você não daria essa idade, Avalon era bonito, elegante, pelas fotos, dava para perceber que era uma pessoa intimidante. As entrevistas que ele dava, as duas na verdade, era basicamente falando apenas da empresa, as poucas coisas que tinha relacionada ao lado pessoal dele diziam apenas o óbvio, um homem reservado, focado no trabalho, sem filhos, namorada e esposa, não tinha irmãos.
Na verdade, Avalon não tinha família, era filho único do ex-dono da Adriacci, que morreu em um acidente na Austrália, junto com a esposa, quando ele tinha 7 anos.
Nas raras vezes em que era visto em eventos sociais, não fazia grandes declarações para a impressa. Não se sabia muito do passado dele também, onde morou ou estudou, ele saiu das sombras quando assumiu a presidência aos 26 anos.
Olhei para trás, pensando por um momento em fingir passar mal, para poder ir embora, mas eu teria que ter um emprego decente em algum momento da minha vida e fugir desse não seria muito bom, já que era uma grande chance, e grandes chances não vem a nossa porta toda hora. Valentin abriu a porta, olhei para frente, e tentei parecer calma e confiante.
Minha calma, confiança e meu cérebro ficaram do lado de fora da sala. Quando fechei a porta e me virei para ele, com toda a certeza, as fotos não faziam jus. A primeira coisa que percebi foram os olhos completamente negros, o olhar dele era frio e completamente analítico em nossa direção, havia algo em sua expressão que indicava que ele não estava feliz em estarmos ali, talvez os cantos de sua boca que estavam levemente inclinados para baixo, o cabelo curto e escuro estava milimetricamente penteado e arrumado para trás, em um corte que estava na moda, mas olhando para ele, podia ter sido um corte criado especialmente para Avalon.
A seriedade exalava de cada poro, como se ele nunca fizesse piadas ou nunca sorrisse, o rosto dele apresentava traços angulosos, como se ele viesse de alguma família real, na verdade toda a postura indicava uma superioridade natural, já que ele estava apenas sentado atrás de sua mesa, com a cabeça apoiada na mão displicentemente, como se esperasse algo. Estava usando apenas um blazer azul marinho e uma camisa social preta, e diferente de Mallet, que estava mais “formal”. Avalon passava mais elegância do que algum dia o outro jamais passaria na vida
— Srta. Riddle, Sr. Mallet, gostariam de sentar-se? – Perguntou indicando as cadeiras que eu nem havia reparado a sua frente. A voz dele era grave e profunda, mas ainda assim seu tom era suave, até mesmo gentil. Obedeci, assim como Mallet. Avalon olhou para o relógio em seu pulso, franzindo o cenho minimamente. – Acredito que na pré-seleção vocês foram informados de todos os detalhes, e se foram aprovados pelo Reynolds para estarem aqui, são competentes o suficiente para ser desnecessário outro questionário. Então, esse momento será apenas para que eu veja qual de vocês me... – Ele pareceu procurar a palavra certa. – Qual de vocês me agrada mais.
Olhei para o lado, Valentin parecia ter perdido toda a postura arrogante. Na verdade, ele parecia uma casca vazia, como se sua mente tivesse ido embora. Mesmo olhando rapidamente, dava para ver o tom mais pálido, os olhos levemente arregalados. Será que aquele café que apenas eu recusei estava estragado?
— Como estou à procura de um assistente, e nessa função requer uma certa confiança entre ambos, seria bom que eu os conhecesse um pouco. – Ele se recostou na cadeira, com um pequeno sorriso que ao invés de ser tranquilizador, parecia ser cruel. – Se for algo que se incomodem, por favor, não será necessário que respondam, entendido?
— Sim senhor. – Respondemos juntos. Consegui ouvir o nervosismo na voz de Valentin e na minha própria. Algo completamente fora do esperado.
— Quantos anos tem? – Perguntou sem se referir a nenhum de nós em especial.
— 32 – respondeu Mallet.
— 24 – falei já pensando se ele consideraria a idade. Avalon assentiu olhando a tela do notebook a sua frente.
— Tem filhos? – Nos dois negamos. – Livro favorito? – Tentei não rir daquela pergunta totalmente inesperada.
— O príncipe de Maquiavel. – respondeu Mallet. Pensei um pouco.
— O morro dos ventos uivantes. – Pelo menos foi esse que li por último, nesses dias, e não me lembrava de mais nenhum. Isso sempre acontecia quando me perguntavam sobre livros, filmes e músicas que eu gostava, eu sempre esquecia na hora. Senti o olhar de Mallet sobre mim durante um segundo.
A “entrevista” seguiu assim, com perguntas que realmente revelavam sobre nossas personalidades. Como: Qual sua cor favorita? País que mais gostaria de ir, por que e se já foi? Como passa seu passatempo livre?
Realmente parecia mais interessado em nós, do que em nosso currículo. O que me fez relaxar um pouco. Melhor do que perguntar sobre experiências antigas.
Avalon nos lançou um pequeno sorriso, mas diferente do primeiro, esse era de felicidade mau contida. Se ele não queria fazer essa entrevista, por que ele fez? Fiquei me perguntando isso.
— Obrigada, logo irei me decidir. – Ele falou levantando para um breve aperto de mãos, ele a estendeu primeiro para Mallet. Não sei por que, mas não gostei disso.
Não sei exatamente o que aconteceu, sei apenas que Mallet bateu ou me empurrou ou algo do gênero, que me impulsionou para cima da mesa de Avalon. Fechei os olhos instintivamente, esperando o impacto, quando achei que bateria na mesa, senti duas mãos me segurando, abri um olho apenas para ver que o dono daquelas mãos usava um blazer azul marinho. Meu coração errou uma batida. Eu quase caí em cima da mesa do meu, talvez, chefe. E ele tinha me segurado.
Olhei para Avalon, e com isso percebi que tinha batido a cabeça no peito dele. Nesse momento acho que meu coração decidiu fazer hora extra. Avalon estava levemente inclinado sobre a mesa, enquanto me segurava pelos braços. Na verdade, ele ainda estava me segurando. Encarei seu rosto. E me arrependi. Ele me encarava com clara surpresa nos olhos, mas o sentimento predominante naquele olhar era irritação. Tentei pedir desculpas, mas meu cérebro esqueceu que tinha essa função, então fiquei apenas abrindo e fechando a boca.
Não sei quanto tempo exato se passou nessa posição, mas Mallet nos fez lembrar que estava na sala, tossindo levemente. Avalon me largou como se tivesse levado um choque.
— Desculpe Sr. Adriacci. – Consegui falar finalmente, olhando para todos os lugares da sala, menos para ele.
— Está tudo bem. – Ele disse. – Estão dispensados. – Avalon acrescentou de forma áspera.
Caminhei automaticamente até a porta, pensado na desgraça que eu havia conseguido fazer, ou que Mallet fez com que eu fizesse. Quando passamos pela porta, olhei com meu melhor olhar assassino para ele, que se dignou a se afastar um passo de mim.
— Desculpe, eu tropecei no tapete. – Disse erguendo levemente as mãos em frente ao corpo. Eu ia me virar e ir para casa. Estava claro que graças aquele incidente eu não iria ser a assistente de um grande CEO, mas quase que eu fiz mais burrada, por que me virei bruscamente quase batendo na tal recepcionista que eu não conseguia lembrar do nome, por sorte ela foi para trás o suficiente que eu não batesse nela. Ela soltou uma exclamação de susto, mas em seguida sorriu.
— Srta. Riddle, com essa pressa toda acredito que não esperará aqui o resultado, não é? – Perguntou de bom humor.
— Ainda sairá hoje? – Perguntou Mallet.
— Conhecendo o Sr. Adriacci, sim. No máximo em duas horas. – Ela disse.
— Você o conhece tão bem assim? – Perguntei esperando que eu não tivesse soado estressada. Ela inclinou levemente a cabeça.
— Não, mas ele é uma pessoa que decide o que quer com facilidade. – Falou como se isso explicasse tudo a respeito daquele homem.
— Não nos ligarão para informar? – Perguntou Mallet mudando de assunto.
— Sim, mas se ficarem podem discutir os detalhes ajustáveis do trabalho diretamente com Avalon. – Ela disse com tamanha certeza, que me fez pensar que o famoso Avalon Adriacci não fizesse nada naquele lugar.
Olhei para o relógio, eu não tinha nada para fazer. Podia esperar pelo não de uma vez, ao invés de ficar esperando uma ligação que talvez jamais ocorresse.
— Os dois irão ficar? – Assentimos apenas. – Ela sorriu. – Ótimo.
§
Depois de ir até meu carro, para pegar meu celular, passei provavelmente meia hora vendo Mallet conversar sobre coisas básicas da Adriacci com a recepcionista, que o nome era Lilian Ripert, Mallet falou em algum momento. Enquanto eles conversavam, fiquei pesquisando alguns livros para ler futuramente, ou filmes. Nesse momento estava me sentindo como se ainda tivesse sete anos, quando ia com minha mãe até o trabalho do meu pai.
Depois de uns quarenta minutos com eles conversando, a Sra. Ripert, como insistia em ser chamada, nos convidou a fazer um pequeno tour pelas partes acessíveis a visitantes. Aparentemente, eram feitas algumas visitas de escolas e universidades, alguma coisa de “conhecer diferentes áreas de trabalho" e "como uma empresa opera”. Realmente tentei prestar atenção, mais a cada lugar interessante que eu conhecia me deixava com o humor pior, saber que as chances de que eu conseguisse depois de cair, ou quase cair, mesmo que não fosse culpa minha, eram mínimas. A expressão naquele rosto de profunda irritação já dizia perfeitamente que não seria eu.
Enquanto andava atrás na “excursão”, acabei batendo nas costas de Mallet. Que ótimo. Ele olhou para mim por cima do ombro sorrindo de um jeito que eu achei muito estranho, murmurei um pedido de desculpas, e fui para o lado dele, a uma distância que não me incomodasse. Percebi que a parada foi por que a Sra. Ripert estava falando com alguém no celular.
— Com o que você disse ao Sr. Adriacci, como você conseguiu sequer ser chamada para uma entrevista? – Perguntou ainda com um meio sorriso no rosto. Nunca fui boa em detectar as emoções de pessoas, mas tenho certeza de que ele não estava interessado no meu currículo.
— Recomendação da universidade em que estudei. — Respondi esperando que a Sra. Ripert terminasse logo aquela ligação, tinha algo que realmente me incomodava naquele homem.
— Queria ter tido um orientador tão dedicado a mim dessa forma ou com tamanha influência. – Respira Denebola, geralmente eu tendo a entender tudo com um duplo sentido, ele pode não ter dito isso com esse significado.
— Na verdade, foi uma combinação das duas coisas – Falei por que ele continuava me encarando. – Meu orientador já trabalhou aqui a alguns anos e de vez em quando a Adriacci entra em contato com ele para saber de novos talentos. E eu sempre fui uma ótima aluna. – Expliquei o óbvio na minha opinião.
— Boa sorte então. – Mallet sussurrou enquanto a Sra. Ripert vinha em nossa direção.
— Srta. Riddle, o sr. Adriacci pediu para que você fosse a sala dele. – Ela disse. Acho que minha cara era de estar completamente perdida, por que ela acrescentou. – Você conseguiu a vaga. – Devo ter continuado com a mesma expressão, sem conseguir esboçar nenhuma reação. – Quer que eu mostre o caminho? – Apenas assenti.
Isso quer dizer que eu fui selecionada? Eu consegui um emprego? Me controlei para não sair saltitando atrás da sra. Ripert, mas acho que dei um pulinho. Ri internamente que nem uma doida varrida. Quando íamos dobrar um corredor, ela pareceu lembrar-se de alguma coisa.
— Sr. Mallet, lembra-se onde é o RH, não é? – Perguntou olhando para o homem que estava a poucos minutos me enchendo o saco, mas que agora eu mal lembrava que existia. Ele assentiu uma vez e virou na direção de um corredor próximo a ele. – Sabe, Mallet já tentou se candidatar para várias outras vagas aqui, mas sempre acontece algo, mas ele não passa das entrevistas. – Ela disse enquanto eu o olhava virar o corredor, a pergunta de “como ele sabe o caminho?” devia ser muito clara no meu rosto. – Ele sempre vai lá ver se há outra vaga disponível que ele se encaixe no perfil. – Ela falou mais algo referente a Mallet, mas acabei ignorando.
Voltei ao meu estado de felicidade absoluta. Onde eu sempre imaginava as nuvens sendo algodão doce e a lua como uma bala de limão gigante, mas parei quando vi que talvez eu devesse ter prestado atenção naquele tour, por que talvez eu precisasse ir de um setor ao outro na empresa e eu não fazia a mínima ideia de para onde ir. Mas aparentemente, pegamos um atalho, já que chegamos naquela antessala, que seria meio que o meu lugar aqui, bem mais rápido.
Quando olhei para aquela porta, meu nervosismo voltou. Eu ia encarar todo o dia, o homem lindo que me segurou para que eu não caísse, mas que me olhou como se eu fosse a maior desgraça que já havia aparecido em sua vida. Por um segundo, tive vontade de dizer “Mallet já tentou tanto, deixe ele ficar com a vaga”, mas isso seria mais que burrice. Respirei fundo. Abri a porta e acho que disse “com licença”.
Tentei evitar olhar para o homem que sentado atrás daquela mesa. Nem tinha reparado que a cor das paredes, a que ficava em frente a Avalon, era verde esmeralda. Cor incomum para um escritório. A maior parte da parede direita estava coberta de estantes de madeira escura, grande parte com livros, mas percebi que a parte central delas era coberta por plantas que faziam contraste com a cor ameixa da parede, alguns objetos de decoração e haviam alguns bustos com colares que me fizeram querer roubá-los daquela sala. A parede esquerda eram janelas que iam do chão ao teto, atrás dele, mau reparávamos na parede cinza, por que nela haviam miniquadros coloridos, estava tão nervosa que nem havia reparado naqueles quadros, no canto oposto a porta haviam dois sofás e três poltronas com uma mesa central da mesma cor que as estantes, os sofás tinham uma cor grafite, enquanto as poltronas eram completamente negras.
— Se já acabou de analisar minha sala. – Quase tive um ataque do coração, eu havia esquecido que Avalon estava ali.
— Desculpe. – Murmurei indo até ele ainda evitando olhá-lo.
— Acredito que saiba que foi a escolhida para o cargo. – Ele afirmou enquanto cruzava os dedos sobre a mesa e me olhava intensamente. – Por um motivo específico, e apenas por ele, você conseguiu esta vaga. – Eu prendi a respiração. Por que ele estava sendo tão dramático? – Sente-se. – Obedeci na hora. – Gosto de ser direto, mas já passei por isso outras vezes, sei que é necessário introduzi-la neste mundo. Poderia ficar em silencio enquanto exemplifico? Responderei qualquer duvida que tenha após. – Tenho certeza que eu estava tendo um mini ataque interno, mas assenti. – Já ouviu falar sobre histórias de dragões eu presumo? E se eu dissesse que eles realmente existem? Que há muito tempo houve uma grande guerra entre humanos e dragões? – Parei um minuto. Como é que é? – Existiam muitos antes dessa guerra, agora somos tão poucos que temos que viver escondidos em meio aos humanos.
— Desculpe, mas “somos”? Você é um dragão? – perguntei tentando não rir. Acho que dava para ver que eu estava me segurando, por que ele me olhou de um jeito assassino, muito pior do que aquele quando eu quase cai.
— Sim. Há muito tempo, quando os humanos surgiram, muito de nos queriam destruí-los de imediato, mas haviam os que eram contra, então foi decidido que para garantir paz entre as duas espécies haveria um vínculo entre nós, cada dragão teria um “parceiro” humano – Levantei a mão, e ele me olhou igual aos meus professores quando eu ia corrigi-los.
— Você é mesmo um dragão. – Não era isso que eu queria dizer, mas depois de pronunciar aquilo em voz alta, não consegui não sorrir feito uma criança. – Eu tenho um parceiro dragão. – Sussurrei para mim mesma. Levantei dando a volta na mesa e abracei Avalon durante uns dois segundos. Quando me afastei, ele me olhava como se eu fosse um alienígena.
— Você ...
— Meu avô dizia ter um parceiro dragão, sempre achei que fossem histórias dele para me divertir, mas o que você falou é igualzinho ao que ele me contava. – Quase dei uma pirueta de felicidade.
— Isso me poupa de toda a parte introdutória, vamos aos meus limites. – Ele disse levantando e se afastando de mim. – Nunca mais me abrace, em hipótese nenhuma. E diferente de você, eu não gosto de ter que ficar próximo dos seres que destruíram e mataram todos que eu conheci e amei. Sou obrigado a isso, então como irá trabalhar comigo, já preenchemos o requisito da parceira, proximidade, isso não quer dizer amizade. Você será minha assistente aqui dentro, sem comentários em relação a isto. – Avalon disse aquilo com irritação, não, aquilo não era raiva, aquilo era ódio. Aquilo acabou com meu sorriso e com minha alegria.
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