Dragões e Realezas
1 PRÓLOGO - Passavento
Era pra ser um entardecer comum na cidade de Passavento. A brisa salgada invadia as ruas com muita intrepidez, forçando os casais a se abraçarem enquanto aproveitavam o pôr do sol. Os cafés e bares já lotados, repletos de vida, entoavam os feitos de bravos pescadores do alto mar. As madames, sentadas em frente às suas residências, fuxicavam umas com as outras enquanto as crianças correm ao redor dos canteiros imitando seus herois favoritos. Sempre ao final do dia os pescadores eram convidados a ancorar seus botes e aos mercadores dava-lhes o desejo de voltar para suas casas. Seria um belo entardecer. A cidade portuária de Passavento foi projetada para ser a capital de Welt. O formato de Rosa dos Ventos que as ruas eram organizadas, era perfeito para o escoamento de mercadorias e turistas. Infelizmente a cidade sempre foi conhecida por ser centro de confusão, o que afastou as maiores famílias nobres da região. Cercada ao norte por uma floresta que vez ou outra trazia seus infortúnios, e ao sul, pelo mar que também não contava boas histórias, Passavento teve seu sonho abandonado.
Embora os poucos guardas tentassem indicar um caminho de segurança, suas vozes não alcançaram nem seus próprios ouvidos. Quem por sorte ouvia, logo era atropelado por um escarcéu que se espalhava como Durants do ninho. O motivo de tanto desespero estava na praça central, o marco-zero da cidade. Dois grandes dragões, com seus cinco metros de altura, esbravejavam no meio do povo. Olhares mais críticos diriam se tratar de Tyruntrum’s, mas ninguém, em sã consciência, ligaria para o nome. Eram maiores que os contados nos livros de histórias. O único a se contrapor entre as feras e a população era um raquítico guarda municipal, que pelo cheiro, parecia ter gasto toda sua coragem ali. Seu medo se manifestava na tremedeira de suas pernas que pareciam papel ao vento. Sua única ajuda vinha de um, também pequeno, Growlithe que se punha mais corajoso que seu parceiro. Latia com bravura invejável para os dois dragões à sua frente. O guarda tinha somente à sua disposição, um spray de pimenta, uma arma de choque e um cassetete que sacudia igual uma varinha de condão.
Mais afastado do caos central, carros de polícia amontoavam-se ao redor do prédio da prefeitura. Sirenes giravam em meio a gritos de desespero e de corajosos jornalistas. O prefeito acabava de sair de uma reunião com nobres e mercadores e já encontrava mais alvoroço do que imaginava. Ele usava um terno preto que os botões penavam para se manterem-se abotoados. Ao ver a cena a sua frente um grande arrepio percorreu sua larga espinha, passando por uma careca bem lustrada até ouriçar seus longos bigodes.
– Mais o que “berimbolas” está acontecendo nessa maldita cidade?! – esbravejou o prefeito.
Jornalistas espremiam-se entre policiais que faziam um muro para conter o polvoroso desespero do povo. Entre pedidos de abrigo e socorro, haviam “prefeito, prefeito…” e “nos dê uma resposta!”
Ao fundo, os dois grandes monstros continuavam urrando e destruindo tudo.
O prefeito era empurrado por sua escolta. Um velho, alto, com uma pança projetada para frente e vestido como um autêntico cowboy.
– Me responda, xerife, que confusão é essa? Por que a polícia ainda não fez nada? – perguntou o prefeito.
– Duas criaturas estão causando isso, prefeito! Não dá pra fazer muita coisa quando toda guarnição de plantão é deslocada para um único lugar!
– Ora essas, eu fiz investimentos na polícia, não é possível que só tenham esses “gato-pingado”.
– Lembre-se que hoje é feriado, prefeito.
O xerife tentava levar o gestor municipal para o carro, mas sair pela porta principal já era uma tarefa árdua naquele momento.
– Que “diacho” de bicho são esses que vocês sequer conseguem conter?
– Pergunte depois, preciso tirá-lo daqui. – respondeu o xerife empurrando vários jornalistas até chegar ao carro e enfiar a cabeça do prefeito dentro. – O senhor ficará bem agora.
— Para onde vai? Preciso que você me protej… – o xerife fecha a porta do carro com força na cara do prefeito.
— Eita “homi cabuloso”! – resmungou – Eu vou passar por cima de tudo! Cuidem do prefeito até que eu volte e chamem reforços! – O velho xerife não tinha mais paciência para as políticas dos burocratas, sua paixão sempre foi a agitação de ser policial. Após deixar o prefeito, bolou um plano de passar por cima daquela multidão. Arrumando a fivela lustrada do cinto, que se escondia debaixo de sua barriga avantajada, e alisando seu bigode que encaracolava nas pontas, empurrou umas três pessoas com os ombros para abrir espaço e puxou do bolso uma pokébola bem gasta. Um brilho vermelho saiu da mão do xerife e então uma criatura surgiu a sua frente .
– Meu parceiro de vigílias, faz muito tempo que não nos aventuramos. – o xerife convoca seu fiel companheiro, um Arcanine. A criatura já demonstrava sinais de velhice. Seus pelos eram esbranquiçados e compridos, caiam sobre os olhos escondendo a feição cansada. O bicho era bem gordo, de modo que a barriga não se sustentava mais sozinha, chegando a ralar no chão. Sua língua, sempre pendurada, mostrava que os dias de fôlego daquele animal estavam no passado.
– Meu jovem parceiro, chegou o momento de mais uma vez você brilhar! – Afagava o pobre animal que arfava ao carinho do dono.
Com dificuldades para montar, o xerife fez movimentos para que seu parceiro começasse a galopar, embora sua ideia fosse de pular entre as pessoas. O Arcanine, cansado, mal conseguia levantar as orelhas.
Os Tyrantrum’s não sossegaram, suas investidas, quase indefensáveis, quebravam as estruturas de granito como se fossem de papelão. Seu tamanho intimidava o mais corajoso de todos. O pequeno Growlithe conseguia desviar dos ataques e às vezes até arriscava um blefe, enquanto isso, seu parceiro tentava de alguma forma chamar a atenção dos invasores para longe do centro. A arma de choque que segurava já havia descarregado e o cassetete quebrado, nada do que tentava causava efeito nos dois monstros, a não ser irritá-los mais.
Não muito longe, distante da correria da população, um casal de mercadores se preparava para partir. As marcas da idade avançada eram perceptíveis nos dois, a calvície no homem e o esbranquiçar dos cabelos na mulher já haviam se apoderado. Sua loja, adaptada em um trailer no formato de um ovo, estava engatada numa caminhonete azul um pouco carcomida pela ferrugem. Vendiam especiarias, berrys e ovos incubados para treinadores iniciantes. Ainda que parecessem delicados por causa da ação do tempo, eram ágeis no recolhimento de suas mercadorias, mas o ímpeto da partida foi interrompido pela falta do neto.
“Cadê o Júlio?!” – falaram em conjunto.
Em sentido contrário a multidão, o som de um galope tornava-se cada vez mais audível. Um Gogoat, em uma corrida incansável, passava entre as passarelas e vielas da cidade, levando em seu lombo um rapaz não mais alto que ele e um saco de arroz que se mexia de forma estranha. O carneiro era irrefreável, latas de lixo, caixotes e bancas de venda viravam papel em seu caminho. Avistando um obstáculo, ao comando do seu conduzente, ele abaixava a cabeça e deixava seus grandes chifres fazerem o estrago. O rapaz gritava e balançava as rédeas na tentativa de ser mais rápido, contudo já estivesse no limite de sua velocidade. Tinha uma touca e um óculos de aviação antigo, provavelmente comprados recentemente, pois ainda carregavam etiqueta. Ainda que parecesse ridículo à vista dos outros, era uma excelente vestimenta para aquela velocidade. Sua expressão não mudava, há quem compare com um Gyarados enfurecido. Se toda aquela gritaria calasse, seria possível ouvir os pensamentos do garoto se confundirem em sussurros repetidos.
– Júlio, você precisa afastá-los daqui. – dizia a si mesmo.
Aproximando-se da praça, os urros dos Tyrantrum’s tornavam-se mais e mais altos, o que fez o saco de arroz que carregavam, além de se contorcer mais, berrar. Uma péssima notícia para quem queria esconder aquilo. Num esforço falho de conter a bolsa dançante, Júlio acaba abrindo a boca do invólucro e deixa sair a cabeça da criatura que carregava. Um jovem Tyrunt, cria dos outros infortúnios na praça.
Neste mesmo momento, o estafado e corpulento Arcanine aparece arfando como se estivesse a dias sem ver água. O xerife, gritando enlouquecidamente em cima do lombo arriado da pobre criatura, sacode um laço em direção aos dragões igual nos filmes de faroeste. Não era um grande problema para a criatura. Só foi necessário um puxão com a cabeça para lançar o destemido chefe da polícia no ar.
Júlio chega mais perto da praça fazendo os bichos perceberem o chamado do filhote e colocarem toda sua atenção no cavaleiro arrojado que vinha em sua direção. Foi a oportunidade perfeita para o inexperiente guarda jogar uma bomba de fumaça e mandar o Growlithe atacar.
— Wulf, lance Brasas! – ordenou o guarda.
O pequeno Growlithe acatou a ordem do seu parceiro e imediatamente mudou o foco para a criatura envolta em fumaça. O cãozinho abriu a boca revelando pequenas faíscas que saíam de dentro da sua garganta e, numa espécie de espirro, brasas saíram voando em várias direções. Uma das fagulhas atingiram a cortina de fumaça que se estendia desencadeando uma enorme explosão. A pressão foi forte o suficiente para empurrar o jovem guarda de perto da criatura. Parecia ter sido uma ideia excelente, se não fosse pelo fato de que ataques flamejantes não faziam efeito naqueles dragões. Isso só enfureceu mais os monstros. Mas não foi de todo mal, o choque desnorteou os Pokémon concedendo tempo suficiente para que Júlio passasse sem levar uma mordida.
– Preciso afastá-los daqui! – repetiu para si.
Em uma única sacudida de cauda, um dos Tyrantrum conseguiu apagar o fogo e qualquer destroço que lhe impedisse de recuperar sua cria, seguindo numa corrida desenfreada atrás do Gogoat que já corria longe.
A saída Noroeste da cidade foi a opção de Júlio. Não estava longe, apenas mais algumas quadras e já estariam na Rota 3. Ele a escolheu por ser considerada perigosa para muitos. Era a entrada para a Floresta Lunar, um denso matagal que abraçava a rota famosa pelas histórias de terror contadas para as crianças não se aventurarem lá. O maior perigo era se perder dentro dela, mas Júlio conhecia alguns lugares para despistar as feras que lhe perseguiam. Estava certo que conseguiria realizar se mantivesse o ritmo. Pouca gente se arriscava por ali. A região era a periferia da cidade. Casas e mercados eram bem espaçados uns dos outros, o resto era uma via livre para correr o quanto quisesse. Saber disso fez o coração do cavaleiro pular de excitação. Entretanto, seu entusiasmo duraria pouco e daria lugar a um grande temor. Enquanto corria, aproximando-se da saída, o chão sob o galope imparável começou a tremer. O choro do bebê Tyrunt tornou-se mais intenso. Foi quando Júlio percebeu que havia subestimado o oponente. Rochas brotaram do chão, tão altas quanto pinheiros e mais afiadas que uma espada, enquanto outras eram lançadas ao céu como flechas do tamanho de um carro. Desviar daquilo seria um milagre.
Rochas caíam e se estilhaçavam ao seu redor, no mesmo tempo em que tentava manobrar sua montaria para não ser arremessado ou partido ao meio pelas que surgiam debaixo. Júlio olhou para cima e percebeu que se continuasse daquela forma seriam esmagados antes que o sol dormisse. Uma imensa rocha do tamanho de um carro caía em sua cabeça.
– ORN, REDUZA! – gritou enquanto puxava com força as rédeas.
Num movimento brusco e quase involuntário, Gogoat levantou suas patas dianteiras, desequilibrando e caindo por cima de Júlio. O jovem Tyrunt foi arremessado para trás com a manobra, afastando-se poucos metros. Os Tyrantrum’s não pararam sua corrida colérica, atropelando tudo em seu caminho. Nosso cavaleiro viu aquelas enormes bocas com dentes super afiados abrirem em sua direção. Júlio era esmagado pelo peso do Gogoat, sentiu seu corpo estalar quando Orn passou por cima. Por um milagre os dragões se trombaram na ansiedade da perseguição a poucos metros antes de palitar os dentes com a carne magra de um humano. O filhote Tyrunt não interrompeu seu choro.
Aproveitando a situação, Júlio vai livrando seu corpo pouco a pouco. Em um movimento automático, respondendo aos movimentos do seu mestre, Orn pôs-se de pé, deixando Júlio pendurado de cabeça para baixo com uma das pernas presa ao estribo da sela. O Gogoat estava desorientado da queda, carangueijava de um lado para o outro. Júlio se esforçava para recuperar o pacote chorão, contudo, naquela posição, era difícil fazer algo, mas também não queria chamar atenção dos monstros. Em uma dessas bambeadas de Orn, ao esticar o braço, Júlio rela o dedo em uma das alças do saco e puxa para perto. Nessa hora o bebê morde o dedo de Júlio fazendo-o de chupeta e calando o choro.
– Orn, vamo correr! – falou num sussurro choroso quase inaudível. O carneiro, extremamente confuso, deita, frustrando Júlio.
Os dragões recobram a atenção para Júlio com a cria nos braços. Eles se aproximam e cheiram tanto o garoto quanto o Gogoat, urram no ouvido do rapaz que vê bem de perto aquela máquina de combate pré-histórica. O jovem Tyrunt larga o dedo já roxo de Júlio e urra em direção aos seus pais como se o protegesse. Os dois dragões se assustam e o filhote se desvencilha dos braços de Júlio e vai até seus pais. As criaturas brincam entre si, ignoram completamente a situação e seguem rumo à floresta deixando uma onda de destruição, um guarda calabreado de medo e um garoto sem entender nada. A silhueta daqueles monstros se perde na escuridão do portão Noroeste enquanto Júlio recobra as forças.
Júlio volta para seus avós. Preocupados dão vários sermões acompanhados de cascudos e seguem a noite.
Fale com o autor