Dragões e Camareiras

1 DRAGÕES E CAMAREIRAS


Faço do silêncio minha oração aos dragões que habitam minha pacata face perdida entre o ser e o tempo. Risos inaudíveis pelas esquinas dos caudalosos rios que cruzam onde eu não existo. O crime das trincheiras do desconhecido. O ralo do banheiro, amarelado, repugnante. O cuspe criminoso, o qual escapa pela tangência de uma boca mal aberta. E lá, o cabelo emaranhado com os sais de um corpo cadavérico em idade nova. Almejado grito e só um desafinado mugido interno, triste, facilmente desprezado. E as paredes, quietas, movimentando-se pelas manhãs quando vou escovar os dentes; arrastam-se, feito víboras camaleoas, cheiram meu corpo, minha voz estrangulada e a minha cara tristeza nata.

Batem na porta, tocam os risos e as campainhas; há quem convoque, há quem pergunte e o clima esquenta, como camareiras que buscam averiguar o quarto e dragões que buscam alimentar-se com o quê resta dalguma filosofia fatigada e fatídica. Crise — crise hídrica na alma.

Os dedos fétidos, escondendo por detrás da unha restos de dejetos, dalguma área mal lavada, afinal, quem deseja saber o quê coça, o quê arranha e o motivo do cobertor furado. Piada interna, anedótica na sua função anticômica, antimanicômica. Essas tentativas regulares de alcançar normalidade são pregas em mãos atadas e achatadas em cruzes de ferro, aquecidas em fel, com brasa quente dos dragões que tragam-me de manhã — de manhãzinha — para que eu passeie no cangote do que eu não fiz quando pude. E o pior, essa não é uma daquelas histórias de arrependimentos tardios do inconclusivo e rarefeito.

Mágica barata, como as baratas, as quais planam pelo meu teto e acordam-me pela noite afora, com certo dom característico de induzir repúdio e vontade plena de putrefação instantânea. Só ir, num rápido deteriorar insone; só para que cessasse tantas patas sobre a minha pele — e sob ela também.

A cor da dor é aquela que não se dá, afinal, mesmo adornada com inúmeros apetrechos, dor é dor e não importa muito a cor; ela é dada por alguma geração espontânea não comprovada cientificamente – no fim, sou um acadêmico.

“Calma”, é o quê dizem no telefone quando tento contatar meus sonhos amputados. Minhas flores evaporadas e os meus jipes sem terra, enferrujados. Preferível, acredite, mil picadas de vespas do mar em detrimento desse agudo fervor fragmentado, o qual me transmuta em trejeitos de epiléticos morais.

Guardei minha voz em fitas cassetes duma década inominada; quando eu caminhava com a minha mãe e conversávamos sobre a vida e de quando eu ria com o meu pai após cansar as pernas e os braços de tanto mentar com os músculos. Sim, eu admito, o foco é outro, porém, negar a saudade é uma das piores negações, pois, como se esconde uma montanha que cata entulho do chão sem abaixar-se?

Vai, vai cortando a via. Dobrando a avenida. Fazendo show em rua tardia. Que diga! Eu vou. Não importa o peso da porta, o número dos meus calçados e se a voz faltará quando eu pedir pão na padaria, cantar aos pássaros da rainha ou aguar as plantas dos eremitas. Que seja. Simplesmente: quando se conhece os infinitos cantos duma mesma cama, os rasgos mínimos e misteriosos do colchão, as rachaduras do teto, nomeadas e apontadas de olhos cerrados, há uma certa percepção, às vezes, impercebida – o universo está entre o quê almeja-se fazer e o quê realmente a vida há de ordenar depois das trincas duma porta de madeira oca e vísceras pouco apreensíveis.

Qual o verbo que “nomeia” dar nós? Fico na ignorância.

Há uma remota possibilidade que eu ao tentar atravessar o corredor veja as camareiras jogadas ao chão e expostas pelas paredes; os dragões esperando-me, afoitos, nas proximidades das janelas e as câmeras transmitindo minha derradeira vida nalguns programas para cacetadas. En-noar a fobia, o leito amanhecido e um passaporte vencido pode ser a ponte de nós que separa o só do sozinho.

Viajar nunca foi designado para verbos no passado. Enfobo minha fobia embrulhada em papel alumínio para que exploda no micro-ondas e destrua o meu passado refletido nos meus pratos sujos que nunca lavarei.

Uma antologia da minha casa – das minhas casas. Casa? Quem não descansa na rua e agita-se em casa? Um inferno não é caracterizado por encornados. Nem por vinho quente ou cerveja barata.

O inferno é quando até a morte dá sono e, desabafo, ando muito cansado. Mas, pelo menos agora, uma porta é só uma porta. Dependendo da perspectiva, sou mais um usuário de Starbucks ou um viciado em abstinência de palavra.

Seja padrão ou alternativo, não venha dizer-me que existe anestesia para dragões. Ou você queima-se ora sim, ora não, ou aprende a adestrar. Porém, será que dragões existem para serem adestrados? O fogo só para churrasco e especismo? E o caos um erro fatal matemático?

E as camareiras? Só bater na porta? Servir? Levar toalha e limpar sêmen?

É uma verdadeira desgraceira; um aguaceiro intenso, estridente, o qual até causa bruxismo nos capados dos dentes. Poxa, dragões têm filhotes e camareiras erram e amam. Já pensou numa camareira-dragoa? Nossa... Eu fui longe demais.

10 para às 4 e a cama convida. Não... De novo.

11/11/2017

FIM

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