Notas iniciais
Espero que gostem desse inicio!

PRÓLOGO

— Vamos, se já terminou de comer é a hora de ir para a cama! — a mulher, bela e de olhos amendoados, recolhe a mesa do jantar da pequena cabana da família, afastada e silenciosa.

— A senhora promete que me conta uma história antes de dormir? — eufórica, longe de sentir a mínima vontade de dormir, a pequena menina pula da cadeira saltitante, com sua camisola florida rodopiando em volta de si.

No canto da mesa, o anfitrião da família sorri, admirando a pequena obra de arte que ajudou a ser criada, com o amor da sua vida. A menina, com seus cabelos e os olhos estreitos da mãe, é uma perfeita junção de ambos em um.

— Sim, brotinho, conto a história pela milésima vez para você, se apresse e me encontre em sua cama, deitada e embrulhada. Vou apenas passar um pano na mesa.

Dando um gritinho estridente, a criança sobe as escadas correndo, se enfiando às pressas debaixo da coberta leve e afofando o travesseiro cheio antes de repousar a pequena cabeça sobre ele e aguardar pacientemente a mãe.

Após acabar de organizar a louça do jantar e dar um beijo no marido, a mulher sobe ao quarto da filha, sentando-se ao lado da menor e esperando ela se encolher ao seu lado aguardando ansiosa uma história que já ouviu inúmeras vezes.

Há muito, muito tempo, dois melhores amigos fundaram um reino em uma cidade de terra batida, lama nas estradas e mofo pelas paredes, um lugar esquecido pelos demais. Esse reino foi crescendo extremamente devagar, com colheitas pequenas durante estações longas e sofridas. Porém, cada vez mais seres chegavam, nasciam e cresciam nele, vindo de todo canto do nosso mundo, aumentando as bocas a serem alimentadas e as mãos de obra para construir a cidade e reconstruir o apodrecido pelo tempo.

— Muitos seres, mamãe?

A mulher assente, com face certeira.

— Sim, muitos e muitos. Ao longo dos anos houveram muitas misturas desses seres entre si e novas criaturas foram criadas dessa mistura. Os dois amigos, percebendo como o reino, de início minúsculo e pouco populoso, se tornou algo grandioso e crescente, partiram para regras, condutas e reinados. — com a voz séria, concentrada, a mãe narra para a pequena fazendo carinho nos cabelos macios dela — Mas surgiram desavenças. Ambos não estavam mais em harmonia, as ideias para seus comandos eram contrárias e nada os fazia concordar.

— Amigos tem que se ajudar, não é?

Ela assente novamente, continuando com o carinho com calma.

— Eles não queriam se ajudar, queriam cada um governar de um modo. E se separaram. Depois de anos de brigas, deixando seus súditos confusos, perdidos, sobre quem e o que deveriam obedecer ou seguir, um dos amigos se revoltou com o outro e foi para outro lugar. Além do mar, longe daqui, levando consigo os mais fortes daqueles seres que surgiram em nosso reino, deixando o outro com um reino recheado de seres que se achavam inferiores por não serem escolhidos para o outro reino. Com raiva, o rei que restou decretou inimizade total com o ex-melhor amigo, porém em respeito à quase irmandade deles, permaneceu quieto e tentando manter seus súditos em um bom estado.

Coitado dele, o irmão o abandonou, ele ficou sozinho e precisando se virar com um montão de gente.

— Sim, brotinho, ele deixou seu amigo sozinho e desamparado, com muita coisa para cuidar sem ninguém. E o outro lado do mar ficou para seu melhor amigo, que foi egoísta e ambicioso, julgando que nós, o que restou desse lado, somos inferiores àqueles que ele levou consigo.

Terminando a história omitindo a parte das guerras, das mortes dos entes queridos de ambos, das vinganças que duraram anos e de como o povo de Kristallys sofreu com as lutas sangrentas deles, mãe e filha cochilam agarradas uma à outra, idealizando um reino perfeito onde os dois amigos teriam criado algo grandioso desse lado do mar.