Durante aquela noite, Alex e Rebecca ficaram separados de Helena, ambos tinham considerado para os soldados expedicionários que aquela criança com a magia de titã poderia sim ser uma ameaça para o reino, mas que se ficasse ao lado de Rebecca e pela proteção de Forza, ele não faria mal algum para a cidade, todos concordaram que a criança, Tim, poderia ser contido pela magia de Forza caso saísse do controle, mesmo que isso fosse uma premissa de Rebecca para que ninguém colocasse suas mãos no garoto, ele só poderia se afastar da cidade caso fosse escoltado por Forza.

E foi naquela noite que novamente Alex teve um sonho estranho, ele quase nunca sonhava, mas quando sonhava parecia tudo tão real ao ponto de sentir quando era ferido, sentir seu toque no solo ou em cada uma das coisas em que ele colocava suas mãos. Ele estava dentro de uma casa, tinha acabado de sair do que parecia ser um quarto, Alex conhecia cada canto dessa casa, mesmo nunca estando nela antes, foi andando depressa por dentro da casa, ele parecia suar cada vez mais, sentia as gotas de suor descerem por seu rosto, colocou a mão em uma para parar o caminho que ela fazia por entre suas linhas faciais e a observou, mas não era nada do que ele estava pensando, aquilo não era suor que escorria de vários pontos de seu cabelo, mas sim sangue, sangue escuro o qual não era de ninguém menos que ele, normalmente ele entraria em desespero, mas parece que ele já sabia disso faz muito tempo, por isso não entrou nenhum pouco em pânico e continuou seu caminho. Abriu as portas da casa de uma vez e foi para o lado de fora do lugar, seus olhos vidraram no que ele viu, era um terreno chamuscado, repleto de armas como espadas e escudos jogados no chão e junto deles, vários e vários corpos, tanto pessoas que mais pareciam comuns quanto anômalos, pessoas que tinham o mesmo físico que pessoas normais, mas que tinha sua pele coberta de algo estranho, algum tipo de cobertura negra que envolvia seus corpos, aquele lugar pareia ser mesmo abandonado, isso se dava pelo fato que a batalha estava acontecendo logo adiante e o lugar onde ele estava agora foi apenas uma área anterior da batalha.

Mais adiante uma energia mágica fez com que ele começasse a ter dores de cabeça, olhou na direção da aura e viu um homem, já bem de idade, girando um tipo de cajado entorno de si mesmo, logo acima de sua cabeça, desse movimento, a terra começou a tremer, tremer ao ponto de fazer com que Alex perdesse o equilíbrio, ele então caiu de costas no chão e isso fez com que ele sentisse uma grande dor, levantou seu tórax e olhou novamente na direção do senhor, pode então ver que ele estava criando enormes mãos feitas de terra, essas mãos eram tão grandes e majestosas que de longe Alex pode sentir a grandiosidade dessa magia, elas ergueram-se no ar fazendo com que diversas pequenas pedras que antes faziam parte de seu corpo, se desfazerem aos poucos do principal e caíssem no chão como gostas de água, as mãos ergueram-se completamente, ficando retas em um ângulo de noventa graus para o céu e logo depois disso começaram a descer, em uma grande velocidade, antes mesmo de elas atingirem o solo Alex pode sentir dores em seus ouvidos e quando atingiram o chão, atacando dezenas de feras anômalas, Alex foi atirado longe, perdendo completamente sua audição, ele estava quase fechando seus olhos pela dor que sentia e quando os fechou aos poucos ele escutou uma voz. Uma voz que o chamava, “Alex”, “Alex” e então ele abriu seus olhos.

— O que aconteceu? – perguntou ele, olhando diretamente nos olhos castanhos de um menino bem na sua frente, era Tim.

— Não aconteceu nada, nós estamos parados aqui, os soldados dormindo, e você também estava, teve algum pesadelo? – respondeu Tim logo colocando em ênfase outra pergunta, Alex se ergueu e ficou sentado para poder falar melhor com o pequeno – só estou perguntando isso...você estava se debatendo demais, parecia estar sofrendo com alguma coisa, ou seja, pesadelo, meu tio sempre dizia, quando você tiver um pesadelo, acorda e vai tomar um pouco de água.

— Não, eu não estava tendo um....na verdade acho que era sim um pesadelo, mas não sei como, eu senti que não era algo meu, nunca passei por algo assim antes, nunca vi nenhuma das coisas que estavam no meu “pesadelo” – ele então se deitou, sacudindo-se um pouco nas roupas de cama que estavam naquela terra dura de acampamento – eu tenho sonhos de vez em quando, mas nunca sonho com algo da minha vida, nunca sonho com coisas que eu gosto, com meninas que eu gosto, com coisas que me dão medo, na verdade era como se fosse sonhos de outra pessoa – falou ele, viu que Tim se deitou ao seu lado, ficando um virado de frente para o outro – e você Tim, como está se sentindo aqui conosco?

— Tanto que eu fique perto de você e da tia Rebecca eu irei me sentir seguro, Alex, se você quiser pode segurar a minha mão, assim, se um de nós dois tivermos um pesadelo, um pode entrar no pesadelo do outro para ajudar – disse Tim logo depois de fechar os olhos.

Alex viu aquilo como uma piada, abriu seus olhos e viu a mão de Tim estendida em sua direção, por um momento hesitou, achou que aquilo não passava de uma piada, então fechou os olhos novamente, mas dessa vez durante muito tempo, sentiu um pouco de medo, ele pensou que aquilo não era uma visão de alguma batalha, de alguém que ele não conhece, mas sim uma visão do futuro, com certo medo ele segurou a mão da criança e se sentiu meio patético, quem era para ter medo de algum tipo de pesadelo era o Tim, que deveria ter seus dez anos e não Alex, com praticamente o dobro de sua idade, mesmo assim ele caiu no sono.

— Ei Alex, acorda Alex, soldados não dormem tanto assim – começou a gritar uma voz feminina em seu ouvido.

— O que foi, outro pesadelo? – fez uma pergunta retórica para quem o estava acordando que deveria ser Tim novamente, mas espera, a voz era outra, uma voz feminina, mesmo vozes de crianças do sexo masculino que ainda não se desenvolveram parecerem vozes femininas um pouco em sua concepção, ele abriu os olhos e viu as mechas morenas de Rebecca caindo sobre seu rosto, ela estava curvada bem perto dele.

— Que? Pesadelo? Já era para você ter acordado faz tempo, a senhora Forza já chegou aqui faz tempo e ela me falou que queria te treinar hoje – respondeu Rebecca.

— Se não fosse pela capitã você não iria me acordar assim tão fácil, eu não sou um soldado mesmo, lembra, cabeça colocada a prêmio por um aracnídeo gigante – respondeu Alex sorrindo enquanto se levantava, Rebecca sorriu de volta.

— Ei seu idiota, aqui no meio da terra não é hotel para idiotas, seu idiota – disse Forza que estava de pé de braços cruzados um pouco mais distante de Alex, mesmo assim ele podia ver que ela estava mais à vontade, ela usava uma camiseta preta, bem simples mesmo, mas é claro, não largava aquelas botas enormes para nada, devia ser estilo dela usar essas botas, ao seu lado estava Tim que falou de seu comentário.

— Mesmo sabendo que a terra é hotel para insetos? – perguntou o menino de cabelos castanhos.

— Ei seu pouca sombra, ninguém pediu a sua opinião, fica aí no seu cantinho... – disse ela fazendo Tim se irritar um pouco, mesmo assim ele era totalmente estável, não pareceria que seus poderes iriam sair do controle – ei Alex, vai vir treinar logo, ou vai tomar seu leitinho também, que nem fez a outra criança aqui?

Alex aprontou suas vestes de cama, comeu alguma coisa e já estava pronto para o tal treinamento da capitã Forza, Helena estava sentada sobre uma pedra bem grande, cruzando sua perna direita, quando ficava com dor nela, resolvia cruzar a outra, ela estava observando os soldados treinarem pontaria em um campo de treino logo na frente, do seu lado Tim estava sentado no chão mais parecendo um cachorro da Forza do que uma criança e Rebecca, junto dos outros soldados atirando de arco e flecha em grandes círculos vermelhos, famosos em vários lugares para se atirar.

Alex passou por ela, segurando um arco em suas costas, apoiado por uma de suas mãos e na outra, uma aljava de couro, segurando mais ou menos duas dúzias de flechas de pena vermelha, quando ele passou ela gritou por ele, parecia que ela não queria que ele fizesse esse tipo de treino. Ela então se lembrou que a rainha tinha falado apenas cinco dias para continuar em seu posto de capitã, na verdade agora quatro.

— Não, NÃO! Ei idiota, eu não chamei você aqui para ficar treinando pontaria não, seu treino vai ser um pouco mais intenso do que desses soldados – essas palavras irritaram alguns soldados, eles se sentiram inferiores de Alex pelas considerações da capitã – você vai treinar suas habilidades de combate contra outro adversário, acho que você conhece esse tipo de treino, Contraforte usa muito esse tipo de treinamento e como você era de lá, com toda certeza conhece, eu chamo esse tipo de treino de “Humilhe o mais fraco” – disse Forza fazendo um sorriso malicioso em seu rosto.

— Tudo bem capitã, vamos lutar então – disse Alex, ele segurou uma flecha na mão, na outra posicionou o arco e atirou uma flecha, sem nem olhar na direção em que atirou, com certeza essa flecha poderia acertar qualquer um, mas ela incrivelmente acertou em cheio uma das miras redondas, muitos se assustaram com a flecha, ele estava bem mais distante dos alvos que os outros soldados e mesmo sem olhar acertou, Tim ficou de boca aberta com tamanha habilidade, ele ficou bastante tempo observando o alvo, parecia até que seu cérebro havia desligado por alguns segundos.

— Não, você não vai me enfrentar nesse combate, eu quero ficar observando suas habilidades, tanto mágicas quanto de combate puro, mesmo que eu queira dar ênfase para qual é o limite de sua magia, quero ver o que o homem de mil mãos faz com apenas uma magia...ei pouca sombra, você vai lutar contra o Alex – terminou ela dando um tapinha nas costas de Tim, fazendo o mesmo se levantar bem empolgado.

Ele se levantou e foi andando na direção de Alex, ele sabia que não havia lutado contra alguém faz anos e finalmente iria enfrentar alguém que era seu amigo, mesmo assim, ele era uma criança e justamente por isso que Helena escolheu ele para lutar contra Alex, crianças não gostam de perder, então ele iria com tudo para cima de Alex para ganhar essa batalha.

— Não se preocupe Alex, ele é um titã, então não pegue leve com ele, você não vai conseguir feri-lo, então lute com força, mas acima de tudo, com inteligência – disse Forza.

Tim vinha trazendo um grande martelo que os soldados entregaram para ele, uma arma que era maior do que seu usuário, ele arrastava o martelo, formando um rastro no chão de onde era arrastado, um martelo de dois lados e detalhes dourados, ele mal parecia aguentar aquilo pela concepção de muitos.

— Como assim esse cara não vai conseguir feri-lo? A capitã não falou que ele é forte? Essa criança é tão boa em combate assim? – começou a perguntar um soldado ao lado de Rebecca no campo de pontaria.

— Você nunca ouviu falar da magia titã, apenas insanos nascem com ela, deve ser por isso que eles foram extintos, sua pele é indestrutível, nada, nem ninguém consegue ferir a pele de um titã, por isso são excelentes em combate corpo a corpo e ainda por cima eles têm uma força descomunal, eu ousaria dizer que eles são os magos com a maior força física já existentes no mundo, mesmo com tudo isso, esse ainda não é o principal de sua magia, um titã consegue crescer de tamanho, ficar da altura que quiser, eu já escutei histórias de bêbados antes que diziam que os titã foram extintos por que cresceram tanto que caíram para fora do mundo e hoje vivem no espaço, mas isso é apenas loucuras de um bêbado, mesmo assim essa sua magia de crescer é extremamente forte, daí vem o nome, titã – disse outro soldado em resposta.

Rebecca, que começou a escutar a conversa, parou de treinar e se virou para observar a batalha, meio que preocupada, os outros soldados também começaram a assistir.

— Eu vou lutar contra o Alex, eu vou lutar contra o Alex...- repetia o garoto como se fosse uma cantiga. E então Helena fez o gesto de que a batalha deu início.

Tim logo de cara já começou a correr na direção de Alex, ele vinha trazendo aquele martelo sendo arrastado, Alex investiu para cima dele ao mesmo tempo que segurava duas espadas, iria atacar com tudo, o garoto estava sem muito equilíbrio por levar algo tão pesado, mas ele apenas subestimou Tim, quando estava bem na frente um para o outro, Alex deu um passo para trás e recuou, Tim sem muita precisão golpeou com o martelo para frente em um movimento muito ágil, atingindo as duas espadas e quebrando-as como se fossem feitas de vidro, com toda certeza ele iria perder a cabeça se fosse de frente.

— Essa foi quase – falou Alex que coçava a cabeça suando frio e rindo ao mesmo tempo – mas já que é para mostrar minha força vamos lá Tim – ele começou a reunir energia em suas mãos, Helena não tinha visto isso ainda e se empolgou, o loiro cerrou seus dois punhos e diversas armas começaram a ser invocadas no chão, todas elas forma invocadas de cabo e pomo virados para o céu, eram cerca de dezessete, além de outras duas espadas em suas mãos.