Dragões Dourados

5 Capítulo 5 - Água e Ar


Os treinamentos seguiam num ritmo cada vez mais intenso. Shiryu começava a ter que refrear os ânimos dos soldados que, julgando-se prontos para enfrentar qualquer perigo, metiam-se em brigas internas movidas por egos inflados ou que se embrenhavam pela floresta em busca de aventuras.

Para Selene, cada dia era uma batalha a ser vencida. Seus instrutores não gostavam de tê-la por perto e por diversas vezes, a submetiam a tarefas e exercícios mais pesados que os demais. Até mesmo do que os destinados aos rebaixados. Os soldados a quem o Dragão delegara a responsabilidade de ensinar aos demais, não faziam muita questão de punir aos que zombavam dela, ou a empurravam, sabotavam seus treinos ou sussurravam insultos. Ela não se importava mais. Aquelas marcas físicas e emocionais seriam seus troféus de guerra, algum dia. Selene dia convicção de que logo sua situação mudaria e não seriam aqueles homens desprezíveis que tirariam qualquer coisa dela.

Claro, havia dentre eles alguns dignos de honra. Soldados dedicados, mais preocupados com a esperança abalada da humanidade e com a reconstrução do Santuário. Aqueles lhe serviam de inspiração, embora apenas os observasse de longe.

Certa tarde, Selene estava praticando algumas séries cujo objetivo era o fortalecimento muscular. Fazia flexões, mas não era tão forte como a maioria dos homens, com seus braços musculosos e fortes. Enquanto tentava erguer-se em uma flexão, os braços trêmulos pelo esforço, sentiu um peso pressionar suas costas e empurra-la com força para o chão. Ela caiu, chocando o tórax contra a terra e perdendo o fôlego.

Ao virar o rosto para cima, apesar de a luz do sol ocultar parcialmente a identidade do homem, ela conseguiu distinguir a figura de Dimitri. Ele ainda mantinha o pé sobre suas costas, subjugando-a.

Apesar de conhecer qual deveria ser sua conduta, aquilo era demais para ela. Selene agarrou o pé de Dimitri e o torceu, fazendo-o cair com um som seco, levantando uma pequena nuvem de poeira.

Enquanto ele tossia, atordoado, Selene levantou-se e cravou o pé em sua garganta. Começou a pressionar, a raiva fervendo e borbulhando, pedindo para ser liberada. Mas, uma figura lhe passou pela mente. Shiryu. O Cavaleiro não estava ali, mas seu Cosmo era um com o seu. A tristeza dele por saber que ela estava sucumbindo à vingança e à fúria a fizeram retirar o pé lentamente.

Lutando pelo ar, Dimitri a olhava com um misto de horror e indignação. Seu peito subia e descia de maneira frenética. Seus olhos estavam ainda mais azuis sob o fundo vermelho que seus olhos adquiriram. O rosto também havia corado, como se todo seu sangue tivesse corrido e se concentrado na face do adversário de Selene. Ainda assim, seu orgulho ferido o impeliu a um infeliz contra-ataque.

O soldado correu até Selene e a agarrou pelos cabelos. Conseguiu ergue-la alguns centímetros do solo, mas ela não emitiu nenhum som. O Cosmo de Shiryu ardia nela, trazendo calma e concentração. De repente, imagens de sua dança com o Cavaleiro de Dragão começaram a povoar sua mente. Ela fechou seus olhos cinzentos.

Suas mãos fizeram movimentos leves, próprios de uma dançarina. Levantaram-se acima de sua cabeça e, quando desceram até a altura de sua cintura, uma grande quantidade de ar as acompanhou. Era como se Selene tivesse asas feitas de vento. Elas bateram e jogaram Dimitri metros para trás. Ele bateu as costas contra um pilar de uma das construções improvisadas dos soldados. O casebre veio abaixo, soterrando-o.

O ar começou a cerca-la como um pequeno redemoinho, fazendo seu cabelo esvoaçar ao seu redor. Uma imensa alegria tomou conta da garota que, levitando em sua redoma invisível, começou a dançar com seu aliado da natureza.

Todos pararam atônitos e olharam para ela. Aquele era outro acontecimento inédito que Selene proporcionava para aquele tão confuso grupo.

Baixando as mãos, ela afastou o vento e tocou as pontas dos pés no chão. Ainda não compreendia o que lhe acontecera, mas sentia-se bem. Mais uma parte oculta despertara e Selene mal podia esperar pelo restante. Ansiava por contar a Shiryu o quanto antes, embora tivesse certeza de que ele já sabia de tudo. Estava sempre com ela.

***

Depois da última refeição, que sempre Selene fazia sozinha num canto do grande quiosque, ela decidiu apreciar as cachoeiras. Afinal, fazia uma bela noite. Sentia falta de Shiryu, não o havia visto durante todo o dia.

Enquanto subia por uma das encostas para chegar até a Pedra do Mestre, ela viu uma estrela cadente. Mas, logo seu Cosmo a alertou a verdadeira natureza daquele fenômeno. Era uma armadura vindo ao encontro de seu novo Cavaleiro. Olhando para o alto, Selene observou que o cinturão de Órion brilhava mais do que o usual. A armadura do guerreiro foi concedida a algum dos soldados. Após alguns minutos, ela ouviu uma grande comoção de aplausos e palmas explodir do acampamento. Certamente, seria essa a natureza das ocupações do Cavaleiro de Dragão que resultaram em seu aparente sumiço. Devia estar com o pupilo que alcançou a honra de ser nomeado Cavaleiro de Atena.

Órion, o Caçador dos Deuses. Quem seria o merecedor de sua proteção? Com tamanha hostilidade vinda dos soldados, ficava difícil para Selene imaginar. Aliás, em seus pesadelos via Dimitri com o olhar injetado dos espectros e vestindo uma das Sapurizes de Hades.

Chegando à Pedra, ela sentou-se espalhando o tecido fino do vestido ao seu redor, como uma flor aberta. Uma brisa leve soprava, sacudindo as folhas das árvores com suavidade. Ela inspirou profundamente, relaxando cada músculo do corpo, concentrando seu Cosmo para controlar a brisa. Com alguns movimentos, a garota alcançou uma grande Yuzuriha e a fez balançar ao ritmo de seus dedos. Algumas flores caíram e ela as recolheu movendo a mão esquerda. Quando as flores vieram até lá, cercando-a como uma coroa rosada, Selene sussurrou:

— Vão até Shiryu. – e soprou com delicadeza sua carta sem palavras.

Enquanto suas emissárias florais flutuavam pelo ar, dançando sob a luz da lua, ela apenas sorriu diante da singeleza do momento.

Algo ainda ardia dentro de Selene, algo que a impelia em direção à Grande Cachoeira. Na calada da noite, suas águas desciam negras, lançando ao ar apenas alguns pequenos pontículos brilhantes, partículas de água iluminadas pelo astro noturno.

Atendendo ao chamado que a Cachoeira fazia, ela caminhou pela Pedra, com cuidado para não deslizar nas ranhuras da rocha. Ficando na ponta dos pés, Selene conseguiu tocar a água. O líquido cristalino seguiu seus dedos para fora do fluxo massivo de água.

Atordoada, ela recolheu a mão. Lembrou-se da lenda de como Shiryu revertera o sentido das águas de Rozan. Mas, na história, ele precisara de bons seis anos e treinamento pesado para conseguir finalmente reverter a Cachoeira e libertar a Armadura de Dragão. O que aquilo significava?

Selene estava muito exausta e perplexa para descobrir. A garota correu de volta para o alojamento onde sabia que enfrentaria outra noite insone.