Dragão Escarlate

6 Capítulo 5 - Nosso diretor é um...?


—Me aguardem vocês dois, eu já eu alcanço seus ranks... – Era óbvio que eu estava decepcionada com o meu rank, mas tinha plena convicção de que conseguiria subir com um pouco de esforço.

Estávamos nos dirigindo à mesa, mas nenhum dos dois parecia surpresos na minha constatação. Talvez soubessem de algo que eu não sabia, ou já estavam se acostumando com o meu jeito mesmo, realmente não sei.

—Na real, eu só fiquei surpreso de que os ranks variaram entre G e H. – comentou G, ao nos sentarmos. – Eu achei que teríamos até um E, mas ninguém ter chegado a F me surpreendeu bastante.

—Concordo, eu achei que ia pegar no mínimo um S, talvez um A ou B. – Dandara disse ao sentar-se do meu lado, de frente para uma cadeira vazia.

Nós três estávamos um pouco confusos com os ranks, mas isso só mostrava como os monstros lá foram realmente eram difíceis de se lidar. Após algumas garfadas, G comentou:

—À propósito, Dandara, eu estava fazendo uma ilusão com a Lina. Eu montei um mundo paralelo na cabeça dela em que a beirada da arena estava bem mais longe do que ela achava. – Ele apontou para o pequeno machucado no rosto – Mas isso não significa que tenha sido fácil, ela só não conseguiu perceber rápido o suficiente.

Dandara parecia impressionada com a estratégia do G, mas não disse nada. Assim como eu, ela estava com a boca completamente estufada de comida, e não conseguiria produzir nem um resmungo se quisesse.

—Com licença, eu posso me sentar com vocês? – Era uma menina que eu nunca tinha visto antes, com pijamas laranjas.

Eu encarei ela antes de responder. A camisa do seu pijama estava para dentro e a barra de suas calças, dobradas, dando um ar estiloso para ela. Seus cabelos castanhos escuros eram longos e ela tinha uma franja que caía perfeitamente na altura das sobrancelhas. Não tinha cicatrizes aparentes.

—Pode se sentar, não nos importamos – Eu tinha a impressão de que já tinha visto ela antes, mas não lembrava onde.

—Você é a menina que convenceu seu adversário a sair de campo só conversando né? Blenda ou algo assim? – Era o G falando, insensível o bastante para não lembrar do nome das pessoas.

—É Blair, muito prazer gente, obrigada por deixar eu sentar aqui. – Ela parecia um pouco afobada, ansiosa ou algo assim. – Eu achei as lutas de vocês muito legais, todo mundo tinha um poder meio óbvio, mas eu não consegui identificar direito o que vocês fazem, se importam de me contar?

—Eu tenho mutação adaptativa, eu me adapto a todo tipo de situação – Dandara respondeu sem nem piscar, com um sorriso orgulhoso.

—Eu sou capaz de criar ilusões e... – G franziu o cenho, se questionando o motivo de estar contando isso para alguém que conheceu agora – E é basicamente isso.

—Eu faço plantas crescerem liberando algum tipo de energia aí. — Eu não ligava de responder essa pergunta, era bem fácil.

—Que legal! – Ela frisou bastante o ‘legal’ – O professor pediu para a gente voltar naquela sala agora à tarde, podemos ir juntos?

Blair parecia uma pessoa bem decente, acredite, eu tenho habilidade para saber esse tipo de coisa, então eu e Dandara concordamos com a cabeça. Já estávamos acabando de comer, então só terminamos e tomamos caminho para a arena.

Okay, eu admito, não fazia ideia nenhuma de como navegar no orfanato. Os corredores eram completamente confusos, eu teria virado no lugar errado se não estivesse acompanhando os três. Com um pouco de suor (da minha parte apenas), conseguimos retornar à arena e percebemos que a maior parte dos alunos já estavam lá.

Quando entramos, percebemos um ruído de fundo, como algo raspando no metal e sons de impacto, mas não demos muita atenção. O chão da arena tinha sido remodelado, sem nenhuma marquinha das lutas anteriores, o que era ótimo. Quando todos os alunos chegaram, o professor começou:

—Acho que ficou bem evidente que o rank de vocês é muito baixo, mas muitos não conseguiram entender o motivo disso. – Ele estava olhando diretamente para mim quando disse isso, mas eu só ignorei, irritada. – Então o diretor do orfanato resolveu que seria melhor mostrar para vocês um monstro do nível mais baixo para entenderem.

Os ruídos de impacto começaram a ficar mais alto, e os alunos começaram a apresentar um pouco de ansiedade.

—O animal que trouxemos é fraco para os padrões gerais, mas não devem se deixar enganar, ele é ágil. Ele vai estar acorrentado em um dos cantos da arena, podem tentar atacar, mas não se aproximem muito. – Dandara pareceu ficar um pouco cabisbaixa com o comentário, é provável que ela precisasse se aproximar. – O diretor também disse que iria visitá-los em algum momento, então ele pode chegar a qualquer hora.

Acho que era isso o que ele tinha para dizer, porque logo em seguida o animal foi arrastado para um dos cantos da arena, que possuía um anel metálico ao qual prenderam os grilhões da criatura. Aquilo era um monstro nível H? Sério? O animal parecia um lobo gigante e com chifres. De quatro no chão, ele passava facilmente de dois metros de altura, mas pela anatomia de suas patas era possível ver que conseguiria se equilibrar nas patas traseiras sem muita dificuldade. Seus dentes eram enormes e afiados, e seus olhos eram de um vermelho puro. Nas laterais de sua cabeça, dois grandes chifres nasciam. Era uma aberração total.

Todos ficamos atordoados olhando para o animal. Os grilhões eram incrivelmente resistentes, mas dava para ver que estavam sendo forçados quando o animal se jogava tentando nos alcançar. Suas garras enormes rasgavam o chão como manteiga, o que não era muito convidativo de se aproximar.

Enquanto olhava o animal, vi uma esfera flamejante indo rapidamente em sua direção. Parecia que o Spike só tinha essa habilidade, mas tenho que reconhecer que foi corajoso de sua parte. O lobossauro (pois é, eu sou ótima inventando nomes) pareceu notar a bola com facilidade, pois alguns passos para o lado foram o bastante para se desviar. Ele realmente era ágil.

Uma rajada de água também foi em sua direção, e dessa vez ele não desviou. Seu pelo estava ensopado, assim como o grilhão atrás. Olhei para trás e percebi que Steve estava completamente concentrado na criatura e, com um movimento de suas duas mãos, a água congelou. Olhei para o animal, mas ele não parecia muito abatido com isso. Ele se curvou para frente, irritado, e isso foi o bastante para quebrar o gelo que o recobria.

Os olhos do G brilharam por alguns instantes, mas acho que as ilusões não estavam funcionando com um bicho daquela estatura. Blair tentou conversar com o monstro, mas assim que ela falou duas ou três palavras, o lobossauro urrou, tão alto quanto cem granadas estourando, todos os alunos tamparam os ouvidos com força.

O professor apenas assistia, sentado nas arquibancadas um pouco atrás de nós. Lina também estava preparando algum ataque, pois pude ver quatro ossos se projetando de cada um de seus braços, tomando forma pontuda e anormal. Seu rosto estava um pouco suado, e assim que as projeções cresceram o bastante, ela as atirou no monstro.

Parecia meio idiota falar isso, mas o lobossauro, um monstro nível H, teoricamente muito burro, era um pouquinho mais esperto do que esperávamos. Ele segurou os grilhões que o prendiam perto a parede, recuou para trás e se protegeu dos ossos os utilizando. Demorei para perceber, mas apesar da maior parte das projeções ósseas errarem, uma delas acertou a parte congelada da corrente, a estilhaçando.

Como já estava perto da parede, o bicho apenas tomou impulso ali e se atirou na nossa direção, incrivelmente rápido. O professor Fierce não estava esperando isso, mas teve um ótimo reflexo, pois chegou a nossa frente com muita rapidez. Era a primeira vez que eu via o poder do professor em ação: ele esticou as mãos para frente assim que chegou e correntes novas brotaram do chão, indo em direção às pernas do lobossauro. Infelizmente para nós, o mestre realmente não estava esperando essa sequência de eventos, porque as correntes demoraram demais: o monstro estava se aproximando muito rápido.

De repente o chão à nossa frente explodiu, subindo uma onda de poeira. O lobossauro havia sumido, mas parecia que um buraco havia se formado onde ele estava antes, será que era tudo um truque para a sua fuga?

—Perdoe-me, Diretor. As coisas saíram um pouco do controle, eu deveria ter me preparado para essa situação. – A cabeça do professor estava baixa, e ele realmente parecia decepcionado com si mesmo. Era um gesto de submissão que eu nunca esperava que o nosso professor fosse mostrar.

—Tudo bem, Todd. Não tem problema, eu já estava vindo para cá mesmo. – Não identifiquei imediatamente o autor da voz. – Se importa de prender ele agora? Ele não deve acordar ainda, mas não posso ficar em cima dele o dia todo.

O professor obedeceu e estendeu as mãos, e pude ouvir sons de correntes se arrastando. Espera, o monstro não havia fugido? E tinha uma pessoa que poderia ser muito mais forte que nosso professor, a ponto de chamar ele pelo primeiro nome? Estávamos chocados demais para nos aproximar do buraco, mas não foi necessário.

Após o professor Fierce acorrentar o monstro, pudemos ver uma sombra na poeira, que parecia sair do buraco. De repente, toda a poeira se afastou em uma onda de ar forte, vindo da pessoa que saiu do buraco. Mas... acho que pessoa não é a melhor palavra para usar. Um animal.

Todos ficamos boquiabertos, a única coisa que estava parada na nossa frente era um animal. Para ser mais precisa, era um filhote de husky siberiano, nos encarando e balançando a cauda lentamente.

—Isso deve ser alguma brincadeira, onde está a pessoa que derrotou o monstro? – Spike disse de forma desrespeitosa, apontando para o lobossauro acorrentado no buraco.

—Oras, seus olhos são lentos, menino? Fui eu quem o derrubou. – Okay, acho que todo mundo estranhou ainda mais. O cachorro falava.

Acho que o Spike achou que era uma brincadeira, ou que o cachorro era algum fantoche controlado pela pessoa real que derrotou o monstro, pois começou a criar fogo nas mãos, como uma ameaça. Entretanto, o cão apenas chicoteou o ar com o rabo uma vez, produzindo uma onda de vento forte o bastante para apagar o fogo.

—Acho que o professor Fierce pode ter esquecido de comentar, mas... eu sou o diretor dessa instalação, muito prazer, Hayata.

Depois dessa pequena demonstração de poder (que aparentemente foi muito natural para o cachorro/diretor), todos ficamos calados encarando ele.

—Anteriormente, isso era um orfanato controlado pelo governo para criar crianças com poderes. – Ele nos encarou com um sorriso, se é que poderíamos dizer que era um sorriso. – Eu comprei.

Ele falou essa última parte como se dissesse que tinha comprado um pacote de balas. Um cão era o nosso diretor, era forte e aparentemente era rico também. Eu concordaria com o Spike em achar que era uma brincadeira se não tivesse visto ele atuando.

—Para ser mais exato, eu tive uma conversa com alguns representantes do presidente e chegamos em um acordo de que eu poderia fazer o que quisesse com vocês, contanto que gerasse pessoas fortes o suficiente para lutar contra os monstrinhos.

Apesar de ser extremamente poderoso e nosso Diretor, eu só conseguia enxergá-lo como um cão, um animal fofinho. O Diretor encarou um por um, nos avaliando e julgando nossas habilidades sem precisarmos fazer nada.

—Acho que tem uma turma promissora aqui, Todd. Treine-os bem, não deixe acontecer a mesma coisa que aconteceu da última vez. – O Diretor olhou de canto para o Todd e começou a caminhar para fora da arena abanando a cauda, em direção à porta. – Voltarei para visitá-los às vezes, tchau tchau.

—Sim, senhor Diretor, muito obrigado pela sua visita, agradecemos muito a demonstração que deu! – Era óbvio que Todd respeitava imensamente o cachorro, então seria burrice nossa trata-lo como um cachorro normal, deixarei isso anotado em minha mente como lembrete. – Quanto a vocês, acho que por hoje é só, voltem para seus quartos e passem a noite pensando em maneiras de melhorar seus poderes.

Olhamos para o animal preso na cratera e saímos da arena, era óbvio que precisávamos ficar mais fortes.

Notas finais
Surprise Surprise, não tinha como faltar né? Como sempre feedbacks são bem vindos, a escrita pode parecer meio corrida e com mais erros, peço perdão, estou tentando fazer rapidamente enquanto tenho inspiração, mas não tenho tempo.