Dragão Escarlate
11 Capítulo 10 - Burocracia
Notas iniciais
Quando abri os olhos, percebi que estava deitada em algum tipo de cama não muito macia, encarando um teto completamente branco. Me sentei e olhei ao redor, percebi que a sala era completamente branca, com exceção do rodapé azul claro e do chão com padrão xadrez. Haviam diversas camas, que percebi serem macas, espalhadas pela sala, a maior parte com algum tipo de cortina de plástico ao redor. Dandara e G estavam presentes, conversando aos sussurros ao meu lado.
—São biombos, servem para dar um pouco de privacidade para os pacientes da enfermaria. – Virei-me rápido para olhar, era o diretor quem falava, sentado em um pequeno banco de madeira à frente da minha maca.
—E por que eu estaria em uma enfermaria? – Falei, chamando a atenção do G e Dandara.
—Alicia, finalmente, estávamos preocupados. – Era o G quem falava, expressando alívio. – Você dormiu por tempo demais.
—Realmente, a gente achou que você estava morrendo ou algo assim, não assusta a gente. – Dessa vez era a Dandara.
Do que estavam falando? Eu me lembrava vagamente de termos lutado contra o professor na dimensão do G, e depois ele me segurando com correntes douradas e nada mais após isso. Me lembrei do motivo de termos lutado contra o professor e me virei irritada para o diretor, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Dandara colocou a mão no meu ombro e fez um sinal negativo com a cabeça, quase expressando medo.
-Alicia, você dormiu por 3 dias, estávamos realmente preocupados. – Dandara tirou a mão do meu ombro, também parecendo aliviada por eu ter acordado.
—3 dias!? Mas e o Daniel, vocês enterraram ele? – Agora que eu lembrei dele, me sentia triste.
—Daniel foi propriamente enterrado, sinto muito por você não poder comparecer, Alicia. – Era o diretor de novo, quase me esqueci de sua presença. – Infelizmente, não tínhamos exata noção de quando você iria acordar.
Ele fez uma pausa para coçar atrás da orelha com a pata traseira, apesar de ser nosso diretor, ainda era um cachorro.
—Eu já conversei com o professor, acho que ele exagerou com vocês. – Ele mudou o peso de pata e inclinou um pouco a cabeça, parecendo achar divertido. – Mas pela descrição dele, talvez ele tenha precisado, vocês apresentaram um desafio decente.
Não estávamos ali para receber elogios ou coisa do tipo, eu gostaria de ir embora assim que possível, e percebi que meus amigos correspondiam do sentimento.
—Mudando de assunto, preciso passar uma informação para vocês que seus colegas já receberam. – Ele pareceu perceber o nosso desconforto. – Como vocês estavam aqui, não puderam ouvir o comunicado do professor, propriamente, mas eu vou resumir.
Ele pulou do pequeno banco para cima da minha maca, que tinha bastante espaço porque eu era pequena (mas só eu posso dizer isso, okay?).
—O rank atribuído a vocês foi feito pelo professor, o que não tem muito significado fora daqui. Como esse orfanato tem uma filiação direta com o governo, vocês terão que fazer o teste de rank como todos os outros com poderes. – Ele fez uma pausa, esperando perguntas que não vieram. – Fico feliz que você acordou hoje, Alicia, pois poderá participar do evento. Vocês três e seus demais colegas irão ser transportados a uma outra instalação do governo, em que serão julgados por uma banca de alto nível e receberão os seus ranks.
—Isso significa que os nossos ranks atuais não servem para nada? Não somos rank G e H? – Eu perguntei, pensando na possibilidade de subirmos de rank.
—Quando foram avaliados, tenho certeza de que o rank dado condizia com suas situações, mas creio que isso mudou. Se fosse apenas questão de energia, uma máquina seria o suficiente para definir seus ranks, mas serão avaliados também outros aspectos, como estratégia, trabalho em equipe e controle. – Ele frisou a palavra controle, me encarando. – Espero que se esforcem, a banca é bem influente na nossa sociedade atual, isso é algo importante.
Ele desceu da maca e foi em direção à porta, se virando antes de sair:
—A propósito, eu também vou estar na banca. – E saiu por uma portinha para cachorros que eu só percebi que estava ali naquele momento.
Quando saiu, a sala imediatamente ficou menos tensa, com um ar mais calmo. Eu não tinha percebido o clima até que o diretor saiu.
—Sinceramente, como você consegue ser tão informal com ele? – Dandara perguntou, relaxando os ombros.
—Uhm... – Eu parei para pensar. – Não sei, é como se a gente já se conhecesse. Além disso, ele é um cachorro.
—Ele ser um cachorro não deveria ser o bastante para isso. – G suspirou, mas como sempre, não tentou discutir. – Vamos, você já está melhor.
—Por que não me deixou falar com ele sobre a briga? Ele também tem culpa nisso. – Perguntei, um pouco chateada.
—Para falar a verdade, quando ele chegou, nós também tentamos falar sobre isso. – Dandara respondeu, explicando. – Mas quando começamos a nos irritar para brigar com ele, ele liberou uma aura completamente aterrorizante. Foi por apenas um segundo, mas nós imediatamente congelamos de medo...
Me levantei da cama me sentindo melhor do que sempre, aparentemente um sono prolongado realmente nos enchia de energia, o discurso de Dandara me fez pensar na verdadeira identidade do diretor. Saímos da enfermaria e descobri que ela era no fundo do corredor com os nossos quartos, felizmente. Antes de irmos para onde quer que precisássemos ir, passei no meu quarto e tive uma agradável surpresa.
Abri algumas gavetas do armário e vi uma complexa seleção de roupas para escolher. Tinha vestidos, calças, shorts, camisas decoradas, realmente uma variedade incrível.
—Aparentemente, não querem que a gente vá com os uniformes horríveis para lá. – Olhei para trás e Dandara já tinha trocado de roupa, escolhendo uma calça comprida preta e uma camisa amarela. Ela também tinha pegado óculos que parecia ser de grau, o que achei divertido.
—Você está mais rápida agora, achei bem legal durante a luta. – Eu falei, fechando a porta e indo procurar alguma peça que eu gostava. – Sua adaptação realmente é muito legal.
—É, eu tive algumas surpresas agradáveis lá, percebi que já consigo controlar parcialmente ela, mas sempre fica mais forte quando a situação precisa. – Ela estava sentada na cama, esperando eu escolher alguma coisa. – Mas impressionante mesmo foi você, quase estourou os meus tímpanos.
—Desculpa, eu nem sabia que conseguia fazer aquilo, só queria gritar com o professor. – Escolhi um vestido rosa cheio de babados, óbvio que eu iria usar. Peguei também um arquinho para o cabelo. – Eu quero pegar um rank alto dessa vez, para poder ter aqueles benefícios.
Troquei de roupa e saímos do quarto juntas. O G já estava do lado de fora nos esperando escorado na parede, usava uma calça jeans preta e uma camisa preta também, sempre sombrio. Ele levantou a sobrancelha:
—Óculos legais, Dandara. – Ele desencostou da parede e começamos a caminhar em direção à recepção. – Puramente decorativos, mas bem legais.
—São muito bons mesmo né? – Ela deu uma risadinha. – Pode até ser decorativo, mas que ficou legal, ficou.
Chegamos na recepção e encontramos o resto da turma aguardando instruções, Mia e Blair se aproximaram de nós. Ambas pareciam um pouco aliviadas de me ver, aparentemente, dormir por alguns dias seguidos não era algo normal, estranho...
—Nossa Alicia, que susto! – Blair enfatizou a palavra susto. – Que isso? A monstrinha comeu pudim demais e resolveu hibernar? – Ela brincou, tirando uma gargalhada audível de Mia.
—Ahm, a piada foi tão engraçada assim? – G perguntou, olhando para Dandara, que segurava o riso. – Você também?
—Não, eu só gosto de rir mesmo. – Mia respondeu, com outra risada. – Fazer o que né, eu gosto de me divertir.
O professor interrompeu as conversas para nos escoltar até os ônibus do lado de fora. Ele encarou o nosso pequeno grupinho, mas não fez comentários, apenas nos direcionou pelos detectores de metal, que disparou insanamente quando Mia passou embaixo, o que causou outra gargalhada dela. O professor ignorou os apitos, pois conhecia os poderes dos jovens e, para ser sincera, o problema era entrar com objetos, não sair com eles.
Do lado de fora, entramos nos diversos ônibus que nos levariam para a tal instalação do governo em que receberíamos nossos ranks. O veículo tinha fileiras duplas de cada lado, eu e G sentamos juntos e conversamos um pouco. Bom, você pode me estranhar, mas eu acabei dormindo de novo. 3 dias foram ótimos para descansar, mas uma soneca sempre é bem-vinda.
Eu acordei com o G me cutucando, apontando para um edifício pela janelinha do ônibus. Edifício era um elogio, o lugar parecia um estádio gigante, com enormes vigas e pilares de sustentação, um teto em forma de domo tampado, completamente incrível. Só percebi que o ônibus tinha parado porque estava escorada na janela, e acabei caindo e colidindo com o banco da frente quando ele freou.
Desci do ônibus e preparei-me para entrar no prédio, estávamos todos curiosos com o lugar e com o evento em si, mas antes que pudéssemos entrar no prédio, o professor ergueu o braço, nos impedindo de andar.
—Esperem, façam silêncio. – O professor falou, um pouco mais alto que o normal. Acho que seus ouvidos ainda não estavam completamente curados. – Permitam que passem.
Eu não tinha reparado ainda, mas um jato particular completamente preto estava pousando em um pequeno campo perto da entrada principal. Acho que os nossos sentidos não eram tão aguçados quanto os do professor, pois assim que a porta se abriu e a escada foi colocada, senti uma incrível pressão em cima de mim.
Do avião, desceu um grupo extremamente esquisito de pessoas, ou melhor, seres. Na frente, um homem alto, loiro, com olhos escuros, seus cabelos pareciam intencionalmente espetados e suas roupas lembravam a de esquimós: cinza e completamente felpuda, apesar do dia quente. Atrás dele, um homem um pouco mais baixo, mas extremamente musculoso o seguia, ele tinha a pele morena, era careca e não usava camisa, mas tinha uma calça comprida e botas pretas. Ao seu lado, uma mulher negra, com cabelo afro, o acompanhava, usando roupas soltas, marrons, e uma jaqueta de couro preta. Um pouco separada dos três, uma jovem aparentemente asiática caminhava, cabelos lisos até o meio das costas e vestia um complicado yukata roxo. Por último, e como sempre atrasado, o nosso diretor, dessa vez usando um lenço vermelho amarrado de lado no pescoço.
O grupo foi em direção à porta de vidro principal, e percebi que a grama ao redor deles estava completamente amassada, em um formato circular. Era óbvio que estavam segurando seus poderes, mas quando se aproximaram, eu quase caí de joelhos, tamanha a gravidade que estava sentindo. Não olharam para nós, nem mesmo o diretor, apenas seguiram direto para dentro, espatifando a porta de vidro no caminho.
Quando terminaram de passar, voltamos a respirar direito, até mesmo arquejando. Olhei para os meus amigos em volta, esperando qualquer tipo de explicação, mas foi o professor quem falou.
—Vamos, me sigam. – Ele nos encaminhou para dentro, passando por cima dos cacos de vidro. – Aqueles eram os atuais rank SS do planeta, me surpreenda que todos tenham comparecido só para ver um evento desses.
Todos os rank SS? Só existiam 5? O poder necessário com certeza devia ser imenso, mas imaginar o nosso diretor naquele grupo de pessoas causou um certo estranhamento. Esperava sinceramente um dia chegar nesse rank, mas seria muito difícil alcançar um poder como aquele.
O professor nos levou até um quadro grande, que mostrava alguma tabela com nomes. Várias pessoas formavam duplas e, aparentemente, enfrentavam outras pessoas. As duplas foram formadas, em maioria, dentro de cada grupo (por exemplo, a galera do orfanato ficaria com a galera do orfanato). Não prestei atenção nos nomes, mas recebi um crachá com o número 2203, que coloquei no pescoço.
Uma moça com um terno preto e um cap se aproximou, procurando nos mostrar onde ficava a arena em que iríamos lutar. Nós a seguimos, mas devo dizer que não prestei atenção em nenhuma palavra que ela disse, nem uma única. Estava muito distraída olhando o meu redor, o lugar tinha paredes de vidro que permitiam a passagem da luz, diversas bancadas com centenas de trabalhadores, dezenas de andares, esculturas imensas de foguetes e naves, era simplesmente incrível.
Parei de olhar o meu redor quando não tinha mais redor para olhar, estávamos em um longo corredor cinza, com luzes brancas no teto e portas ocasionais aos lados. Seguimos por cerca de 4 ou 5 minutos andando até chegarmos em uma área aberta. E olha, que área do caramba.
O lugar era como um estádio de futebol ou uma arena, só que multiplicado umas cem vezes. Era gigantesco, com um disco enorme no meio que obviamente serviria para as lutas. Em todo o arredor, arquibancadas rodeavam a arena chegando quase até o teto, sendo que bem no meio delas, tinha uma sala diferente, separada e menor, onde já se encontravam os rank SS e o comentador. A moça disse para ficarmos na arquibancada e prestarmos atenção ao número chamado, pois se fosse o nosso, deveríamos descer até a arena.
Eu não fazia ideia de que iríamos começar tão rápido, mas acho que a presença dos 5 na sala privada exigia algum nível de apressamento, a união deles, em si, já era um evento digno o bastante de ser reconhecido.
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