Notas iniciais
Após a conversa, que deixou Aria desconcertada, Maylon e Mestre Grun saíram da sala para falar com a sra. Constance e acertar os últimos detalhes da sua partida, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Ela partiria naquela manhã, sem tempo a perder.
Aria custava a acreditar que era guerreira caçadora. Uma descendente de Zenda. A neta de Zenda. Ela vivera os 16 anos de sua vida em um orfanato quando poderia ter vivido em Bellator, com todos os luxos e mordomias que os guerreiros tem.
"Não é hora de pensar isso, Aria. Concentre-se em fazer as perguntas certas para saber mais", pensava Aria.
–Srta. Venatrix? — Aria demorou alguns segundos para perceber que a pergunta era dirigida a ela, ainda não se acostumara ao sobrenome recém-descoberto. Quando se virou para ver quem era, viu que era um guarda.
–Ahn, sim.
–Mestre Grun mandou avisar que a senhorita deveria ir dormir. Amanhã partiremos às seis horas.
–Certo, obrigada.
Quando o guarda saiu Aria dirigiu-se ao seu quarto. Olhou bem para ele. Pequeno, com uma cômoda e uma cama marrom escura e uma roupa de cama que há uns 10 anos atrás deveria ser bonita. Foi até a janela. Ela sempre adorara a vista da janela: as ruas da pequena cidade, os prédios de um estilo medieval meio gótico. Essa seria sua última noite naquele lugar.
Aria deitou-se, mas não conseguiu dormir. Ansiedade, medo e perguntas atrapalhavam o seu sono. Ela rolou na cama até que uma batida na porta a fez levantar. Ela foi até a porta, abriu-a e viu que era o Mestre Grun.
–Bom dia, Aria! São cinco horas. Arrume suas coisas. Partiremos às seis.
–Obrigada, Mestre Grun, logo estarei lá embaixo.
–Até logo, Aria. — Mestre Grun deu um daqueles seus sorrisos que Aria imaginava serem de avôs. Um sorriso calmo e reconfortante.
Quando Mestre Grun saiu Aria abriu sua cômoda de três gavetas, tirou seus poucos pertences e colocou-os numa mala. Logo depois se vestiu. Botou uma calça cáqui, uma blusa larga rendada e uma bota. Ela escovou seu cabelo loiro escuro, que mal passava do ombro e saiu.
Quando chegou lá embaixo Maylon e Mestre Grun esperavam-a. Um dos guardas pegou a mala de Aria para levá-la a carruagem.
–Aria, estávamos a sua espera. Estamos apenas esperando os guardas terminarem de arrumar a carruagem e já sairemos. — disse Mestre Grun.
Passos vindos da escada que tentavam ser silenciosos chamaram a atenção dos três, que viraram-se para ver quem era. Sra. Constance. Aria olhou para a mulher que a criara com tanta rigidez. Sinceramente não sentiria falta dela.
–Aria, espero que venha nos visitar de vez em quando. Não esqueça de onde você veio. — disse sra. Constance. Aria viu Maylon segurar uma risada. Na verdade até Aria teve que segurar uma risada diante desse comentário.
–Ahn, claro, sra. Constance. Venho quando puder. — disse Aria, ainda controlando-se.
Quando Aria terminou de falar, um guarda surgiu e avisou:
–Mestre Grun, estamos prontos. Quando o senhor quiser.
–Obrigado, Von Hood. — respondeu Mestre Grun — Maylon, por favor acompanhe Aria até a carruagem. Quero dar algumas recomendações a sra. Constance.
–Claro, Mestre Grun. Pronta, Aria?
Aria deu um suspiro e respondeu:
–Isso eu só vou saber quando chegar lá, mas por enquanto, sim.
Maylon deu um meio sorriso de solidariedade e ofereceu o braço a Aria, indo em direção a porta. Quando já estavam a uma distância que ninguém poderia ouvir Maylon falou:
–O que você achou de descobrir que é neta de uma das maiores guerreiras caçadoras da história?
–Eu acho que eu seria a decepção da família.
Maylon deu uma gargalhada que lembrava a Aria a risada de uma criança. Uma risada que contagiava.
–Quando você receber treinamento tenho certeza que será uma das melhores. Nós, guerreiros, temos isso no nosso DNA. — respondeu Maylon, confortando Aria.
–Eu realmente espero que a genética me ajude.
Maylon deu outra de suas risadas gostosas. Aria se distraiu tanto com a conversa que nem percebeu que haviam chegado a carruagem.
–Chegamos, Aria. — Maylon passou o braço em volta da cintura de Aria para ajudá-la a subir na carruagem. Ele deu uma risadinha quando viu o rubor de Aria, que enrubesceu ainda mais.
Quando Aria se controlou, prestou atenção na carruagem e ficou boquiaberta. Por fora ela simples. Branca com alguns detalhes dourados. Mas por dentro, era luxo para todos os lados. Era enorme. Os bancos eram de couro marrom-claro, extremamente confortáveis. Algumas almofadas douradas e creme decoravam os bancos. As paredes revestidas de veludo bordô e nas janela uma cortina branca rendada ia até o chão.
Vendo o deslumbramento de Aria, Maylon comentou:
–Você nunca andou numa? — Aria balançou a cabeça negativamente — Nem viu uma? — ela novamente negou com a cabeça. — Então você vai ter uma primeira experiência incrível. Essa não é uma simples carruagem. É uma carruagem puxada por um pequeno dragão voador. Muito mais seguro e muito mais rápido.
–Um...dra...dragão? — Aria sentiu-se completamente pateta instantaneamente. Maylon apenas deu um sorrisinho.
–Sim, um dragão. Um ka'dracon, para ser mais exato. Eles são bem amigáveis, não se preocupe.
–Você parece saber bastante de dragões.
–Trabalho de campo. Tenho oito dragões. Inclusive esse ka'dracon é meu. O nome dele é Foguinho.
–Eu não sei com o que fico mais chocada. Você ter oito dragões, ou você botar o nome de um dos seus dragões de Foguinho.
–Ei, esse foi o primeiro dragão que eu dominei. Eu tinha dez anos, me parecia muito adequado na época. — disse Maylon fingindo irritação.
"Para alguém ter algum dragão é preciso essa pessoa dominar o dragão e caramba, ele dominou um dragão com dez anos" pensou Aria.
Antes que ela pudesse responder ao Maylon a porta da carruagem se abriu e o Mestre Grun entrou.
–Pode ir, Tirul — Mestre Grun falou ao motorista.
A carruagem começou a ser levantada pelo dragão. Aria olhou pela janela de trás da carruagem e viu o prédio do orfanato ficando cada vez menor. Ela não sabia como seria sua vida daqui para a frente, mas ela acreditava que não podia ser pior que no orfanato.
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