Notas iniciais
Nota: O capitão entregou a caixa com o Cristal de Gelo para o almirante Edward, juntamente com o vídeo da sala de contenção provando a autenticidade da pedra. Depois de assistir atentamente o vídeo o almirante deu para cada um 11.576 créditos e 31.570 recursos. Muitos ficaram ricos só com essa incursão, mas essa foi à primeira de muitas...

— Esse é um projeto ambicioso, Sr. Cameron! Qual a garantia de sucesso dessa sua invenção?

— Você tem a minha total garantia Almirante.

O espaço pode ser infinito para quem vive em planetas pequenos e atrasados onde ainda não se conseguiu sair dele, mas para nós que vivemos viajando pelo espaço, nós temos plena certeza disso.

Esse é o meu registro baseado no registro pessoal de William Justus Cameron durante as inúmeras viagens a bordo da nave espacial Dragon Phantom, para que todos saibam o que aconteceu com ele e a sua maravilhosa tripulação…

para que todos saibam a verdade.

Existem inúmeras histórias interessantes na Dragon Phantom, histórias onde vivemos e morremos juntos, mas como este é o seu primeiro contato conosco e achei melhor contar o início do início, uma época que nem existia ainda uma Dragon Phantom ou um capitão Black Saber, uma história de um jovem com um sonho…

Quando o capitão nasceu, uma estrela cruzou o céu em Draco-1, para quem acredita em superstições, dizem que isso é um sinal de quem é destinado a coisas grandiosas. De fato, ele realmente fez coisas grandiosas, alguns terríveis, outras maravilhosas…

Embora muita gente pense que o ato mais importante da vida do capitão foi construir a Dragon Phantom, pois sua fama provém deste fato, na verdade encontrar o rubi Coração de Dragão é que foi seu maior e mais glorioso ato, pois o Rubi tornou possível tudo na vida do capitão Black Saber, inclusive, e principalmente, construir a Dragon Phantom.

Ninguém sensato se atreve a chegar perto de Draco-1, é o planeta dos Dragões. Bem, dragões mesmo não existem. Os draconianos, habitantes do planeta, são quem causam o terror transformando-se em bestas aladas. Tudo isso graças a um artefato mágico chamado Coração de Dragão. Essa pedra vermelha e vítrea e tem algo em movimento dentro dela, ela é quente ao toque e faz um som de pulsar como um coração, ela emite certa luminosidade e uma radiação única e, embora não seja um rubi de fato, ela é conhecida por esse nome.

Algumas vezes, em ocasiões especiais, alguns humanos do planeta Terra podem ir ao planeta Draco-1 e seus habitantes também passarem para a Terra, dessa forma o pai de Cameron conheceu a mãe dele, e se juntaram e se casaram. Cameron nunca falava muito sobre essa história, pois ele também não conhecia muito sobre isso, só o que o seu pai lhe falava. Durante toda a vida de Cameron no planeta Draco-1 ele não presenciou o fato em questão.

A história a seguir foi a única que não foi retirada do diário de bordo do capitão, mas foi baseada nos relatos que ele contava a nós de como era a sua vida antes de nós o conhecermos na escola. Essa história tem a ajuda de todos e que Cameron me perdoe se por acaso eu esqueci de algum fato.

Draco-1. É o planeta onde eu nasci. Minha mãe teve um parto difícil, pois eu nasci de uma humana, ou seja, fiquei sem mãe desde pequeno. Dizem minha mãe, mesmo se esvaindo em sangue, me pegou no colo e me abençoou dizendo:

— Você será grande, viverá entre as estrelas e conhecerá o segredo do Coração de Dragão, viverá entre amigos… e… será… amado…

Meu pai, que me dizia que não acreditava em profecias, me repetiu tantas vezes as palavras da minha mãe que eu as memorizei, e de minha parte eu duvido muito que ele não as acreditasse.

Draconianos não são afetuosos, e a única coisa que eles entendem é a raiva e a destruição, mas meu pai era diferente, talvez seja pelo fato dele ser o ferreiro de Draco-1, não posso dizer que ele era amoroso, mas o fato é que ele me ensinou as ciências, a cordialidade, e o significado de lealdade e da fraternidade. Eu devo dizer que isso tudo me abriu muitos planetas, assim como fechou as portas do meu.

Os draconianos, uma vez ao ano, devem se apresentar ao Dragão Mestre. A minha primeira vez foi aos quinze anos, assim como todo draconiano, aos quinze anos os jovens são introduzidos a nossa sociedade:

— Fique de cabeça baixa e faça o que eu fizer.

— Sim, pai.

— O que o Dragão Mestre diz é lei, então você não pode irritá-lo.

— Tá bom, papai.

Meu pai conversava comigo enquanto entravamos na grande câmara. Deitado dentro de seu templo estava o mais antigo dos dragões, o grande deus dragão Tiamat. Ele nem olhou para mim ou nos deixou falar, quando nos ajoelhamos diante dele, ele disse:

— Às minas com esse aí, até que eu diga o contrário.

Meu pai acenou positivamente e ia se retirando, mas na minha cabeça passava todo tipo de pensamento. Meu pai calmamente colocou a mão no meu ombro e eu me levantei. Quando íamos saindo, o grande deus dragão levantando-se disse:

— Esperem. William Justus Cameron, filho de Roward Justus Cameron e da humana advinha Catherine Cameron. Fora profetizado a ti, conhecer os segredos da pedra preciosa que nós draconianos adoramos, chamada Coração de Dragão. A pedra foi perdida no coração do planeta a séculos, e cabe a você encontrá-la. É o seu destino encontrar a pedra e retorná-la a mim. Você me entendeu, garoto?

— Sim, senhor.

Disse eu com a cara enorme de Tiamat olhando fixamente em meus olhos, eu podia sentir a respiração pesada e quente dele no meu corpo trêmulo.

Dito isso, ele voltou ao seu lugar de origem enquanto nós saiamos da grande câmara. Quando as portas se fecharam atrás de nós meu pai disse:

— Nossa! Nunca o vi falar tanto em todos esses anos.

— Papai?

— Sim, filho?

— Podemos ir para casa? Acho que eu preciso de outra calça.

— É! Eu também filho.

Dissemos meu pai e eu trêmulos de medo, olhando fixamente para frente. Dias depois meu pai havia comprado para mim um macacão e equipamento de mineração. Eu experimentei e fingi que ficou grande, nós riamos e meu pai batia palmas de satisfação e de alegria.

As minas são um lugar inóspito, mesmo para um draconiano, o “macacão” é como chamamos um traje protetor pressurizado e climatizado, ele foi feito para suportar os calores infernais do centro do planeta. Mesmo dentro do traje, o trabalho duro e o calor do fogo fazem com que o nosso corpo mude.

Quando eu fiz 18 anos eu tive uma experiência aterrorizante. Como eu disse, os draconianos não são muito amigáveis, isso porque sentimentos fortes fazem aflorar o pior em nós. O Amor, o Ódio, o Medo, a Solidão, se forem fortes o bastante para vence a nossa fina barreira de autocontrole… bem, vamos à história. Que eu me lembre, era o 17º mês e a Tri Lua estava no céu, quando estávamos escavando a ALA 3 Norte, que era um dos níveis mais profundos das minas, foi então que uma grande estalactite se soltou do teto e caiu próximo a nós, esse fato fez com que se liberasse a lava adormecida do centro do planeta. Éramos cinco trabalhadores naquela mina e logo estávamos corremos por nossas vidas e todos tentando se controlar, porém o inesperado aconteceu. Quando estávamos próximos à porta de elevação o chão ruiu e um dos trabalhadores caiu, segurando-se na beirada. Eu e mais dois tentamos puxá-lo para cima, mas um dos operários foi atingido por uma bola de fogo que voou da lava que vinha para cima de nós. A bola de fogo o atingiu no ombro esquerdo e queimou o seu macacão. A dor, o medo por sua vida, tudo isso fez com que ele atingisse o ponto crítico. Eu tentei correr para acalmá-lo, mas já era tarde. Ele se transformara rasgando o macacão e a sua pele. Eu fui atingido fortemente no peito pela placa mestra do macacão dele e fui arremessado para perto da saída. Ele por sua vez, devorou todos os outros, para logo depois sucumbir em meio à lava derretida.

Enquanto o seu corpo era devorado pela lava, ele se tornou uma barreira detendo o avanço da lava, isso me deu tempo de me levantar e correr. Corri como pude, pois, o choque não danificou o macacão, porém quebrou-me duas costelas.

Eu… sobrevivi… a experiência me marcou de mais formas que se pode contar, e fiquei o dia todo na enfermaria. Para nós draconianos, que temos uma taxa de cura acelerada, é uma tortura. Parecia até sofrer de Hanseníase, tamanha fora a lesão que sofrera.

Quando voltei, encontrei o túnel do mesmo jeito que o deixei. Ninguém fora trabalhar nele, e agora eu estava lá, sozinho e cheio de lembranças.

Para passar o tempo, eu fazia esculturas de com pedras, observava as estalactites e estalagmites se formando, fiz até um campo de golfe para mim. Até que finalmente houve o grande dia, achei que iria alcançar a meta de cascalho da semana, mas aconteceu algo realmente grandioso.

Explorando um dos túneis esquecidos, encontrei pedras retas e bem desenhadas, que quase formavam uma parede, o que até então não seria nada estranho, pois a broca lazer corta a pedra em cubos para facilitar o transporte. Quando usei a broca em uma das pedras, ela se partiu ao meio, e vi aquilo e não acreditei. Examinei as pedras e vi que realmente se tratava de uma parede, e o melhor, era que tinha algo do outro lado que despertava a minha curiosidade, o que, ou por que existiria algo ali que precisava ser protegido?

Peguei a picareta e golpeei fortemente a parede. Quando golpeei a parede fui arremessado para trás, o que foi a minha sorte. Fui limpando o chão como um pano encardido e então percebi que embaixo daquela poeira toda haviam inscrições e símbolos marcados no chão. Passei meia hora limpando o chão para revelar tudo o que tinha. Nas inscrições lia-se assim:

“Para você que chegou até aqui, cuidado! Volte se não quiser ter o mesmo destino dos exilados e dos esquecidos. Para seguir adiante, diga ao passado e esqueça o seu futuro, ou agarre-o de fato. As portas se abrirão diante de você, Cameron."

“O Grande Deus Tiamat”

Pelas marcas e símbolos, aquilo tinha muito mais de 1000 anos. Será que a profecia era verdadeira? Eu era o escolhido? Eu não sabia as respostas para isso, mas tinha que fazer algo.

Os símbolos eram de um círculo de invocação utilizado pelos antigos magos para nos chamar até o planeta Terra de acordo com as histórias do meu pai, mas se eu o utilizasse ali o que eu chamaria? Muitas dúvidas pairavam sobre a minha cabeça, mas decidi seguir adiante.

Depois de fazer a saudação aos quatro elementos, pedi ao círculo que me apresentasse o guardião daquele lugar. Apareceu diante de mim uma fumaça cinza esbranquiçada que se transformou em uma criatura, ela tinha a forma dividida, com metade dragão da cintura para cima, e metade humano da cintura para baixo. Ele olhou para mim e disse:

— Dize-me a senha para passares adiante, se errares, devorar-te-ei onde se encontra.

— Sva Boja — Que quer dizer “Ao passado” em draconiano.

— Podeis passar escolhido.

Dito isso, o guardião desapareceu do mesmo jeito que veio e a sua fumaça entrou no chão de onde saiu. Eu agradeci aos quatro elementos e minhas dúvidas acabaram. Comecei a caminhar para fora do círculo enquanto a parede se abria revelando uma câmara de onde se ouvia um pulsar alto de coração e do centro da câmara podia se ver um brilho vermelho forte. Quando eu entrei na câmara percebi vários ovos pelo chão, e no centro estava uma estátua enorme de um dragão que ia até o teto, e em seu peito havia um rubi de onde vinha a tal luminosidade:

— É isso! O Rubi Coração de dragão! — Pensei eu, excitado.

Passei cuidadosamente pelos ovos sem quebrar nenhum, então, quando eu toquei na pedra vi pela primeira vez a Dragon Phantom, a poderosa nave que cruzava a galáxia buscando tesouros e levando a esperança.

Depois dessa visão, a pedra saiu de seu encaixe e veio de bom grado para a minha mão. Na minha mente, o guardião disse:

— Para levar consigo a pedra, primeiro, vós deveis fazer todos os ovos nascerem.

— E como eu faço isso?

— Levantai sobre a vossa cabeça a pedra e pensei consigo “Vehafor”.

“Vehafor” quer dizer criação em draconiano. Assim como o guardião me mandou, eu o fiz. Logo, a pedra foi vagarosamente aumentando o seu brilho até que eu não consegui mais suportar. O brilho da pedra inundou a sala por um instante e logo depois ela se apagou por completo, mas continuava com o seu ritmado TUM DUM, TUM DUM.

Logo após isso os ovos começaram a rachar e dos ovos nasceram vários dragões bebê iguais à estátua.

Assim que eles nasceram, eles voaram ao meu redor em vários círculos para logo depois saírem pela porta da câmara.

Nesse momento o guardião disse telepaticamente:

— Este é um dos poderes da pedra, tu terás que descobrir os outros e também protegê-la contra tudo.

Quando a voz do guardião sumiu, percebi um dragão vermelho bebê perto de mim. Depois que o percebi, ele voou para perto do meu rosto para me olhar nos olhos, então ele me disse telepaticamente:

— Eu sou Azeron, eu faço parte de você, sou a sua metade dragão adormecida pelos séculos aqui, presa neste lugar. Aceite o meu presente.

Ele então brilhou e entrou no meu peito, foi então que eu soube o que era ser um dragão. Eu não me transformei como o meu companheiro minerador, mas eu soube como um dragão via, senti as suas escamas na minha pele, senti a sua força em meus músculos e a sua majestosa respiração de fogo. Nunca me senti tão vivo! Foi quando os meus olhos mudaram para a cor que eles têm hoje, por que até então eles eram castanhos como os de meu pai.

Com a mudança, o calor e a pressão não me incomodavam mais, eu tirei o meu macacão e respirei o ar sulfuroso como se estivesse em um lindo bosque, peguei a lava derretida com as minhas próprias mãos e ela não me fazia mais mal. Sentia-me invencível! Mas comecei a me perguntar qual seria o preço disso tudo?

Caminhei calmamente apreciando a vista de minha nova visão enquanto ia para fora dos túneis. Enquanto estava caminhando eu percebi uma coisa, não havia ninguém.

Quando finalmente sai do túnel, me deparei com uma cena aterradora, haviam aqueles que se contorciam de dor no chão outros que corriam, mas todos eram molestados por seus dragões bebê. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que se alguém podia me ajudar era Tiamat. Corri para o templo de Tiamat na esperança de que ele salvasse o povo. Foi então que eu percebi que a minha velocidade era absurda, em segundos eu estava dentro do templo, porém Tiamat não estava lá:

— Procurando alguém? — disse uma voz feminina atrás de mim.

Virei-me para ver de onde vinha à voz e deparei-me com uma mulher de longos cabelos negros encaracolados com as pontas vermelhas, ela vestia uma armadura de musa com um vestido de linho branco.

— Como é que a senhora está de pé?

— E como você está de pé?

— Eu recebi um bebê dragão vermelho quando peguei o Rubi.

— Você ainda está com ele?

— Sim, está aqui.

Mostrei a ela o Rubi e ela sorriu, então ela foi indo em direção ao trono foi quando percebi que se tratava de Tiamat em pessoa, e então ele me disse:

— Levanta o Rubi sobre a tua cabeça e pense em “Tafiaf”.

“Tafiaf” quer dizer reunião. Assim como a mulher me disse, eu o fiz. Um a um todos os dragões vieram e entraram no Rubi. A cada um que entrava, eu ficava conhecendo a história dos dragões pelos séculos afio, desde muito antes a época dos homens no terceiro planeta. As caçadas, os tratados, a ordem dos valorosos cavaleiros que protegiam a paz, bem como as suas traições, tanto de humanos quanto de dragões e quando tudo acabou, soube o meu lugar no universo. Virei-me para Tiamat para entregar o Rubi:

— Aqui está, conforme o prometido.

— Leve-o com você, saia pelo lixo.

— Ali está ele! — Disse um dos guardas.

— Ele fará mal ao nosso Deus. Peguem! — Disse outro guarda.

Os guardas vieram e eu resolvi não demonstrar minhas habilidades, corri calmamente até a saída de lixo, como Tiamat havia me ordenado. Quando me atirei dentro dela, olhei para Tiamat e me despedi. Ele sorriu, sabendo que era a última vez que me veria e eu pude notar uma lágrima em seu olho. O lixão da cidade era povoado por pessoas párias. Porém, tive a sorte de cair em uma lata que já estava de partida do planeta.

Chegando ao lixão intergaláctico Z33-Beta, recobrei os sentidos e o meu Rubi. Quando o peguei, apareceu uma seta amarela que indicava ao norte. Segui naquela direção algum tempo até o símbolo mudar, dessa vez era uma mão e uma poça. Procurei naquele lugar uma poça de água, mas tudo o que achei foi um fluido metálico no chão, eu coloquei a mão sobre o fluido rezando para não ser tóxico. O fluido era frio ao toque e minha mão desceu suavemente deixando uma marca, que permaneceu mesmo depois de eu tirar a mão. O fluido então começou a acender e a piscar como os ledes de um computador líquido. Então, pouco a pouco o computador foi tomando a forma humana, de uma jovem fêmea com longos cabelos. Quando ela finalmente deixou de ser metálica e terminou a renderização da pele e das roupas, ela me saudou dizendo:

— Saudações, portador do DNA draconiano de amostra 99,99%, aprovado pelo sistema interno de avaliação. Eu sou o seu Syntozóide Pessoal Mark-AC003, o seu DNA demonstra que sou seu e de seus descendentes. Parabéns pela sua compra!

Os syntozóides Mark-AC003 eram de uma marca tão ultrapassada que eu na hora não me recordei que existiam. Depois o conhecimento dos dragões me mostrou que meu avô tinha comprado um durante a guerra, mas Tiamat o mandou desativar e jogar no lixo, para que eu hoje o encontrasse. Meu avô o chamava de Bob, então decidi continuar a tradição. Mas não entendi porque ele tinha dado a ela um nome masculino.

Bob ficava olhando para mim, como se esperasse que eu a comandasse. De acordo com o que eu me lembrava, esses syntozóides eram extremamente inteligentes e independentes. Será que a desativação havia danificado os seus sistemas? Eu resolvi fazer um teste. Comecei a fingir que estava procurando algo, primeiro, no local onde eu me encontrava, depois eu fui me aproximando dela, até quase procurar dentro das roupas dela. Quando finalmente estávamos de rosto quase colado, eu pude perceber que os olhos dela pareciam com os da minha mãe na foto de casamento, eles eram cheios de vitalidade e alegria.

Fiquei encarando os olhos dela e ela fitava os meus, eu podia sentir isso. Quando finalmente ela falou:

— O senhor está procurando algo?

— Comida… Eu… estou com fome.

Ambos estávamos desconcertados, mas ela se virou e saiu para procurar comida naquele mundo de lixo. Eu não sei como, mas eu senti que havia um coração naquele corpo de lata e ela havia tocado o meu coração também. Logo após algum tempo, ela voltou com alguma coisa assada, parecia ser uma ave, eu olhei para ela e disse:

— Onde você achou isso?

— Em uma cabana próxima daqui, não havia ninguém na cabana.

— Me mostre à cabana.

Eu a segui até um vale de onde ao longe já se avistava a cabana. Quando chegamos, eu disse:

— Deixe isso onde você achou.

— Sim senhor.

Eu fui e olhei a cabana, vazia como ela me descreveu, porém achei um computador de bordo onde registrei esta história, que depois veio a ser o meu computador de bordo pessoal, e material para forjar. Só o que faltava era uma fundição, mas até então estávamos em um lixão, o próprio planeta era uma fundição.

Enquanto eu pensava nas possibilidades, Bob me chamou a atenção para alguém que estava vindo. Eu vi um homem alto, forte, e com a barba por fazer. Ele tinha cabelos pretos e um olhar de poucos amigos, ele tinha um algo que flutuava perto dele e que piscava. Ele segurava uma chave inglesa que aparentemente ele usava como uma clava. Eu passei gentilmente Bob para trás e mim enquanto ele passava por nós como se não estivéssemos ali, depois dele olhar a sua cabana, ele sentou-se perto do fogo e disse:

— Vejo que vocês não tocaram na minha comida e nem nas minhas coisas. É difícil encontrar vida inteligente e educada por essas bandas da galáxia. O que vocês fazem aqui estranhos?

Tendo visto a educação do estranho nós decidimos nos sentar e desfrutar da companhia:

— Eu sou Cameron e esta é a minha Syntozóide Bob.

— William Laywood. E o que vocês fazem aqui, Sr. Cameron?

— Procurando novas oportunidades.

— Novas oportunidades? Bem, como dizia o meu avô, não tem como descer mais além do fundo do poço.

— E você o que faz aqui?

— Eu vim parar aqui depois que o meu planeta explodiu.

— E porquê da forja?

— Um velho hábito, nada mais.

— Eu poderia usar a sua forja se eu precisasse?

— Sim, claro. Como eu disse pessoas educadas por aqui são raras.

— Muito obrigado. Você gostaria de sair daqui?

— Claro garoto, e também veremos daqui a pouco um unicórnio! Há há há há! Vá dormir! Amanhã você vai se acostumar com a ideia de que não há para onde ir!

Todos nós entramos na cabana de William e ele nos improvisou umas camas bem confortáveis, e com Bob me aquecendo do frio parecíamos um jovem casal. Eu achei estranho ele não perguntar sobre Bob ou se éramos um casal, marido e mulher ou qualquer coisa do gênero. Presumi que isso era algo bom, e que queria a companhia de William onde quer que nós fossemos.

Pensei em nós inventarmos um foguete de lixo para podermos sair do planeta e irmos onde quiséssemos, mas o Rubi me proibiu, ele disse que em alguns dias chegaria ao planeta um artefato extremamente poderoso que mudaria as nossas vidas para sempre. Foi dito e feito.

No terceiro dia na barraca de William, um meteorito se chocou em um lugar próximo da cabana e o Rubi me mandou investigar. William me disse que esses meteoritos são simplesmente mais lixo que às vezes aparece e se choca em Z33-Beta devido ao seu campo de gravidade. Mas eu lhe disse que esse era diferente, que eu simplesmente sabia que era diferente.

Quando chegamos à área de pouso, nos deparamos com um meteorito metálico aparentemente feito de prata. Depois de William e eu examinarmos o meteorito, descobrimos que era realmente feito de prata, e prata pura. Pulamos de alegria e William dançou uma dança estranha, que ele disse que era assim que seus ancestrais dançavam. O cristal nos deu a ideia de dividir a prata com um processador que William tinha inventado. Ela faria a prata ficar em cubos de 1 dm3 e assim que conseguíssemos processar a prata a dividiríamos irmãmente e compraríamos uma nave, ou construiríamos uma.

O processador era uma máquina de gráviton com micro-ondas e uns lazeres. Honestamente, ela tinha tudo para dar errado, mas ela fez o que se propôs. Dentro da prata encontramos um metal que o processador do William não conseguiu cortar. Ele era escuro e estranho, como uma pedra de ônix metálica. William me permitiu ficar com o metal, mas disse de descontaria um cubo de prata. Eu aceitei.

A divisão acabou sendo 857 cubos para William, ou seja, 8.977 kg de prata, e 856 cubos para mim, ou 8.967 kg de prata, isso mais o cubo negro. Nós tínhamos 17.944 kg de prata para gastar da forma que quisermos.

Antes de gastar o nosso tesouro, William me advertiu que o mercador mais honesto por aquelas bandas era o Capitão Mohawe da frota de exploração espacial da Marinha Naval de Órion. Porém, o Capitão Mohawe passava uma vez ao mês e, para o nosso infortúnio, ele havia passado no dia anterior. Nós tínhamos um mês inteiro para vê-lo de novo.

Depois de calcularmos o nosso tesouro em créditos, William saiu para comprar comida e alguns artigos que precisávamos para a casa. Eu fiquei pensando o que fazer com o cubo negro, depois de muito quebrar a cabeça sem ter nenhuma ideia, eu acabei caindo no sono. Foi então que eu tive um sonho, no meu sonho eu ouvia as seguintes palavras: “Um sabre nascerá do cubo negro, a sua lâmina trará a sua fama e o seu fio derrotará os seus inimigos.” Enquanto as palavras ecoavam no sonho, eu via o cubo se transformar em um sabre negro e fincar sobre a terra e dele nasciam oito sombras onde eu pude reconhecer a minha sombra no meio.

Quando acordei, fiz todos os esquemas da minha nova arma com as ideias do sonho. Com tudo pronto, parti para a forja de William, sob os olhos atentos de Bob. Depois de utilizar todas as ferramentas de William, sem nenhum sucesso, um acidente me mostrou que o metal só era suscetível à prata, embora a sua rigidez fosse absurda. Foi então que fiz um martelo de prata para mim e comecei a malhar o ferro negro. Quando William voltou, me viu em sua forja e se animou em trabalhar comigo. Deixamos a arrumação e a comida com Bob e trabalhamos dia e noite para transformar o cubo negro na arma mais poderosa do universo. Dois dias antes da volta do Capitão Mohawe, terminamos a minha arma, objeto de amor e afeição, a Black Saber. Eu saí para testá-la em um lugar onde havia outras criaturas que viviam em Z33-Beta. Criaturas tão poderosas e fortes quanto eu, elas tinham a aparência de cracas, ou de baratas, mas baratas de três metros de altura, porém elas não resistiram ao poder da Black Saber.

William ficou aliviado de me ver voltar com vida, mas ficou muito surpreso de me ver ileso. Não tínhamos mais dúvidas, tínhamos criado a arma mais poderosa do universo.

O capitão era uma pessoa realmente muito honesta, ele pegou todo o restante da prata e disse que a única forma de sairmos do lixão era se alistando na Marinha Naval de Órion. O cristal me forçou a aceitar o convite do capitão, mas ele comentou que talvez o Syntozóide não ficasse na Marinha, pois ele não conhecia nenhum Syntozóide na Frota.

No nosso dormitório tínhamos um companheiro de quarto que estava sobre tratamento médico. No prontuário li que o nome dele era Bolzer. Ele era um negro forte que estava sem uma mão e uma perna. Ficamos sabendo que ele trabalhava no lixão onde estávamos, e que ele havia criado com o lixo um explosivo potente, porém foi tão potente que se voltou contra o seu criador. Ele prometeu vender a formula em troca de tratamentos médicos e próteses, além de uma passagem para qualquer lugar.

Naquela mesma noite os médicos colocaram as próteses em Bolzer, então eu ouvi o médico de Bolzer conversar com alguém fora da nossa cabine, ele disse que estava desacreditado quanto à situação de Bolzer. Mais tarde, naquela noite, eram uma hora da madrugada quando Bolzer finalmente acordou:

— Onde eu estou? — Disse ele permanecendo deitado.

— Na nave do capitão Mohawe, você se sente bem?

— Tenho sede.

Peguei um copo d’água e dei ao Bolzer. Ele não mexia as suas próteses, e fiquei receoso quanto ao sucesso daquela operação. Depois de beber ele disse:

— Como eu estou? Seja honesto.

— O médico está desacreditado…

— Você pode fazer algo, eu sei que pode… eu sonhei com você…

— Comigo?

— Sim, você tinha uma luz vermelha com você, e você me curava… eu sei que sim…

Bolzer dormiu com todo o esforço, eu peguei o Rubi. Não custava tentar. Pensei em “Irisv”, que quer dizer cura. O Rubi brilhou fortemente e quando acabou o rosto de Bolzer estava um pouco mais corado, pelo menos é o que eu acho, não posso dar certeza, pois logo depois disso o médico veio e levou Bolzer. Naquela noite eu dormi cedo, mas eu acho que Bolzer voltou para o nosso quarto. Quando eu acordei não vi Bolzer no quarto, então presumi o pior. Fui para a cafeteria para tomar meu café da manhã, quando ouvi uma voz atrás de mim dizendo:

— Me dá um copo d’água, garoto?

Voltei-me para ver de onde a voz vinha e vi que era de Bolzer. Ele estava novinho em folha, nós sorrimos e então ele disse:

— Qual o seu nome, garoto?

— Cameron, e o seu?

— Bolzer. Espero que você esteja indo para a Marinha Naval de Órion. Precisamos de homens como você.

— Sim Bolzer, o meu destino está na Frota.

Quando chegamos à Marinha, descobrimos por que era chamada de Marinha Naval, a Marinha era dividida em três classes. A Marinha Naval compreendia em naves de todos os tipos, que iam desde os centros dos planetas alienígenas até ao espaço sideral. Ela também era responsável por defender os planetas aliados, coletar recursos para o nosso sustento, mandar suprimentos para todo o canto da galáxia, escoltar naves e todo o tipo, sendo de processo diplomático, de comercio, ou de guerra. Algumas vezes a Marinha Naval de Órion é conhecida como a Frota. A Marinha Mercante era a segunda parte da Marinha, responsável por processar tudo o que era coletado, catalogar, analisar os pedidos, enviar os produtos puros ou processados, analisar preços e por fim vender as mercadorias conforme a necessidade dos planetas. Por essa razão, em alguns lugares você pode encontrar uma manga auziana a um crédito e em outros ela custa dez. O crédito é o que se chamaria de moeda local, para o caso de você não conhecer o sistema de moedas universal, ou o seu planeta ainda não ter um sistema de moedas global. Esse “valor” foi baseado a muito tempo atrás pelo Senado, ele corresponde a uma unidade básica para que todo ser possa viver com dignidade, por exemplo, com um crédito você pode comprar um mês de suprimentos para uma viajem curta ou para uma casa pequena que se tenha só uma pessoa solteira. Antigamente, era responsabilidade da Marinha Mercante coletar os recursos também, porém, devido a muitas perdas de naves e vidas, a Marinha Naval tornou o assunto de prioridade 01 e agora somente ela faz a coleta. A terceira classe da Marinha, da qual eu fazia parte no momento, era a Academia da Marinha. A Academia da Marinha pegava todo o tipo de gente do universo, e quem sobrevivesse ao treinamento, e fosse obediente aos instrutores, passava a comandar uma das suas poderosas naves, ou ficaria ao menos dentro de uma, isso era baseado em suas notas.

A Academia foi muito puxada, noites sem dormir, treinos em gravidade zero, testes escritos sob fogo inimigo e comida ruim, nos prepararam para tudo o que pudéssemos encontrar no universo e a principalmente sempre pensar dois passos antes do inimigo. Foi uma época muito difícil da minha vida, mas graças aos meus amigos e a minha companheira Bob eu passei e hoje agradeço por ter aprendido aquela lição.

Foi na Academia que eu conheci o resto da minha turma, Cristal Lake, Cristian Marks, Caio McEna e Julius Julian. É engraçado pensar que Cristal Lake tinha dificuldades em xenologia, a Cristian era uma péssima enfermeira, o Caio tentava levar todo mundo para a Unidade Universal como se fosse um crente doido e o Julian era calado e quieto com o qual todos implicavam. Como todos nós crescemos e evoluímos. Às vezes, é difícil de acreditar.

No 5º ano de academia, que era de 10 anos, eu comecei a fazer o projeto da minha querida nave. Com a ajuda do meu Rubi eu desenhei os projetos, as blueprints e a coletar os recursos para poder tornar possível a minha criação. Gastei até o meu último centavo de crédito para tornar isso possível, muitas vezes passei fome e fiquei à beira da exaustão, mas no 9º ano eu estava com tudo pronto. Foi então que chegou à hora de falar com o almirante sobre a minha pequena empreitada:

— Com licença, almirante?

— Ah! Sim, entre cadete. Soube que você queria falar comigo?

— Sim almirante, gostaria de mostrar-lhe um projeto no qual eu venho trabalhando e gostaria da sua autorização para concluí-lo.

O almirante olhou com uma cara que dizia que ele iria reprovar tudo além de me mandar para a prisão por longos anos, então ele disse:

— Eu já tinha ouvido falar desse seu projeto senhor Cameron, e não me agradou em nada você fazer ele pelas minhas costas, fui claro?

— Sim senhor. — Disse eu firme, mas por dentro murcho como um balão.

— A questão é… eu podia ter ajudado.

— Como disse senhor? — Disse eu assustado.

— Não me entenda mal, filho. Mas boas ideias assim são difíceis de se ver hoje em dia.

— Então o senhor vai autorizar o projeto?

— Esse é um projeto ambicioso, Sr. Cameron! Qual a garantia de sucesso dessa sua invenção?

— Você tem a minha total garantia almirante.

Disse eu me inclinando na mesa do almirante e estendendo-lhe a mão para selarmos o nosso acordo. O almirante e eu éramos quase amigos, ele sempre aplicava as provas e sempre me elogiava por minhas notas. Ele decidiu me dar o voto de confiança, e nunca se arrependeu por isso até o dia da sua morte. Apertamos as mãos e selamos o nosso acordo, e em pouco tempo a nave estava sendo montada nas linhas de produção da Marinha Mercante.

No final do 9º ano eu comecei a construção do que seria a nave mais poderosa da Frota. Eu dava ordens especificas e o time de montagem as seguia à risca. No final do 10º e último ano nos estávamos completos, a nave e eu estávamos saindo da academia e entrando na Marinha Naval, pelo menos na teoria. A nave estava concluída, mas nada funcionava. Eu perguntei ao Rubi por que ela não funcionava, e ele me disse que eu precisaria reunir primeiro a tropa, pessoas de confiança e que eu já tinha colocado o nome deles na lista desde o início. Eu fui até aos meus futuros subordinados e perguntei a cada um se queria seguir viajem comigo para os confins da galáxia, procurar por mitos e lendas, onde ninguém se aventurava ir. Todos, por seus motivos próprios, concordaram em ir.

Eu tinha a nave, tinha a tripulação, agora precisava fazê-la funcionar. Quando cheguei ao hangar, contei ao Rubi sobre tudo o que havia acontecido e ele disse que estava na hora de ser um comigo, sem precisar do Rubi ou qualquer coisa. Eu fiz uma invocação demorada e exaustiva e no fim, o Rubi estava comigo e a pedra era só um grande Rubi que daria força a minha nave.

Naquela noite foi a primeira vez que eu dormi na cabine do capitão. Na manhã seguinte, tudo estava pronto, a tripulação, a nave, os nossos diplomas, a formatura foi linda, e a nossa missão: “Coletar recursos raros para a Marinha Naval de Órion, onde quer que eles se encontrem.” Todos os formandos gritaram a fraseologia no final da formatura, que inclusive era o lema da Academia.

Então saímos do atracadouro, e viajamos para cada planeta dos meus tripulantes para conhecermos suas famílias e recebermos os parabéns por sua entrada na Frota. Todos os papais e mamães me deram suas bênçãos e confiaram as vidas de seus filhos em minhas mãos. Um juramento que nunca deixei de cumprir em nenhum momento da minha estada como capitão desta nave. Curiosamente, os membros da minha tripulação manejavam a nave como se fossem deles, pois, embora todas as naves da Frota tenham a cabine padrão, mas cada uma tem recursos únicos, e os meus tripulantes sempre a manejaram perfeitamente. É claro, não pense você que eles faziam isso sozinhos, eles tinham subordinados para auxilia-los, mas tecnicamente, mesmo o de menor cargo dentro da nave, fazia o seu trabalho perfeitamente como as engrenagens de um relógio.

Então, a partir daí fomos na nossa primeira missão no planeta Silla. Silla é uma rocha congelada em um dos sistemas de Antares II. Dizem às lendas que o planeta, na verdade, é a manifestação do Cristal de Gelo, um artefato extremamente poderoso que pode levar qualquer coisa a zero absoluto em seu raio de ação. Nesta missão, o capitão foi sozinho para o planeta, isso por que ainda não existiam os nanotrajes e o capitão não arriscaria a vida da tripulação de nenhuma maneira.

Ele nos conta da seguinte forma:

Depois de me irradiar ao planeta não tive surpresas, como esperado Silla é uma rocha gelada cheia de cavernas e temperaturas abaixo de zero mesmo durante o dia. Pude ver os três sois do sistema e alguns planetas no céu rosa de Silla, foi uma imagem muito bonita. O meu sensor dizia que estava -15º C e aproximadamente era meio dia no planeta e que, principalmente, até a noite chegaria ao zero absoluto, se eu estivesse no planeta nesta hora não sairia mais. Com um sensor de radiação taquiométrica, descobri que a lenda era verdade, e que uma caverna me levaria diretamente até o dito artefato. O problema é que o sensor não mostra a superfície, somente da crosta para baixo.

Seguindo o que mostrava o sensor, descobri um grupo de cavernas que me levaria até o centro do planeta, e até o meu prêmio. Porém, como sempre, a vida não é fácil, a caverna na superfície estava fortemente bloqueada.

Foi então que eu entrei em contato com a nave:

— Dragon Phantom, aqui é o capitão. Como estamos aí em cima?

— Gelados, e o senhor? Com frio na espinha?

— Engraçado Marks, eu preciso que você dê um tiro para mim.

— Capitão. Infelizmente não temos como fazer uma mira precisa, pois há uma interferência vinda do centro do planeta, e ainda há uma nevasca se aproximando do senhor.

— Você consegue mirar em mim precisamente, Marks?

— Sim, capitão.

— Pois então atire em mim, Marks.

— Capitão?

— Faça isso, mire os refletores solares em mim, e atire uma onda de calor o suficiente para derreter as paredes de gelo desta caverna.

— Capitão, se nós atirarmos uma onda de calor em você nós ficaremos congelados com a onda de frio do planeta.

— Não se preocupe Marks, confie na Dragon Phantom.

— Entendido capitão.

Enquanto a nave se manobrava para uma rápida absorção dos raios solares de Antares II, a primeiro imediato Cristian Marks estava apreensiva com a ordem do capitão. Um tiro com os refletores solares deveria drenar as baterias solares e deixar a nave sem energia durante pelo menos um minuto, e naquelas condições, um minuto seria o fim da vida na nave. Enquanto calculava as possibilidades da hipotermia e os seus sintomas, o visor a sua frente indicava que as baterias estavam quase cheias. Nisso sua mente vagava em exemplos de hipotermia que o professor dava no colégio.

A hipotermia ocorre quando a temperatura corporal do organismo cai abaixo do normal (35°C), de modo não intencional, sendo seu metabolismo prejudicado. Se a temperatura ficar abaixo de 32°C, a condição pode ficar crítica ou até fatal. Temperaturas quase sempre fatais são aquelas abaixo de 27°C. Quando a temperatura está entre 35 a 33°C; o hipotérmico sente uma sensação de frio, tremores, letargia motora, espasmos musculares. A pele fica fria, as extremidades do corpo apresentam tonalidade cinzenta ou levemente arroxeada, a cianótica, e a pessoa tem confusão mental. Se a temperatura continuar a baixar de 33 a 30°C, os tremores começam a desaparecer, a pessoa tende a ficar muito sonolenta, prostrada, quase inconsciente, rigidez muscular, alterações na memória e na fala, entre outros. Com a contínua redução de temperatura a baixo de 30°C; a pessoa fica imóvel e inconsciente, as pupilas se dilatam e a frequência cardíaca diminui, se tornando quase imperceptível. Se o paciente não for devidamente tratado, a morte é inevitável...

Morte! Morte... Morte. Essa palavra ficava ecoando na cabeça da doutora enquanto ela via os sintomas nos seus companheiros a qual jurou proteger a vida. Isso fez com que seus dedos se recolhessem instantaneamente.

O indicador de temperatura estava pronto e ela acenou com a cabeça, provando que confiava em seu capitão e então o tiro. No planeta o capitão sentia o calor do Sol finalmente chegando ao planeta, foi então que ele começou a correr, pois ele sabia o que significava. Alguns segundos depois o raio laranja amarelado cruzou os céus atingindo onde o capitão estava.

De acordo com os diários de Cristian Marks, ela acenou a cabeça por que ela lembrou-se da promessa que ela fez ao capitão antes de entrar na nave. O capitão lhe disse:

— Marks, você ficará responsável por toda a vida da nave, você tem consciência disso, não tem?

— Sim capitão Cameron.

— Então me faça uma promessa, faça tudo o que eu lhe mandar, pois você não conhece a nave como eu, você me compreendeu?

— Sim capitão.

— Eu tenho a sua promessa?

— Sim capitão, você tem a minha palavra.

Marks nunca acreditou realmente que a nave ou o capitão tivesse poderes especiais, porém nenhum dos dois, nem a nave, nem seu capitão jamais à decepcionaram.

Com a caverna liberada o capitão rapidamente foi até a câmara do cristal. Infelizmente ele não esperava encontrar vida no planeta, que é outra coisa que o sensor não mostra. Quando o capitão chegou à câmara do cristal, ele viu o que esperava, o cristal era o centro congelado do planeta. O cristal estava suspenso em um pilar de gelo de onde se via claramente que era a fonte de toda a cristalização planetária. No sensor mostrava que eram quase 6 horas e isso poderia significam a sua morte. O capitão entrou decididamente até o pilar, quando foi surpreendido por duas serpentes de gelo gigantes, elas tinham 6 metros de altura cada uma. Foi quando o capitão decidiu colocar à prova a sua força e destreza.

Ele descreve a cena da seguinte forma:

Eu vi a situação e pensei que poderia distraí-las e atacá-las ao mesmo tempo, nem precisaria utilizar da minha espada e isso era óbvio, elas desceriam em uma linha semirreta para me atacar, pois elas estavam com fome e eu entrei em seu lar voluntariamente para ser o jantar. A da direita começou o ataque, eu pulei em suas costas e corri pelo seu corpo cilíndrico, então a da esquerda veio para cima de mim tentando morder-me, eu subi em sua cabeça com um salto e dei um soco na junção de sua cabeça e o corpo, onde fica o primeiro anel e então ela caiu. A segunda serpente não satisfeita com o corpo de sua amiga para comer, tentou mais uma investida contra mim, eu segurei a sua bocarra e arranquei-lhe uns dentes. Ela gemeu e guinchou até sumir no buraco de onde veio. E é claro levando o corpo de sua amiga junto para o jantar. Então eu fui confiante da minha vitória pegar o meu prêmio, mas como atravessar a coluna de gelo sem fazer com que a caverna inteira caísse na minha cabeça? A resposta, a minha espada. Eu desenhei no gelo a forma do cristal com a minha espada e fiz com que ela vibrasse com baixa intensidade, o gelo foi ruindo e deixando para trás a abertura no pilar e o meu prêmio. Quando eu o peguei, não senti nada de gélido ou frio, então comecei a me perguntar como o cristal tinha levado o planeta a aquela era do gelo.

Desci do pilar me perguntando isso enquanto observava aquela joia, foi quando aconteceu. Aquelas serpentes de gelo voltaram, com reforços e com a mãe de todas as serpentes. Foi quando eu descobri que não eram serpentes de gelo e sim uma única criatura com várias cabeças, também percebi que a cabeça que eu tinha matado continuava morta.

Neste momento eu soube o que fazer, foi então que subi em uma das cabeças e iria matá-la, mas fui arremessado longe por outra das cabeças. Neste ponto vi que a briga iria ser difícil e que meu tempo estava acabando, primeiro por que estava chegando o período de 6 horas e segundo por que a criatura estava derrubando a caverna por onde passava. Foi então que eu descobri, quando uma das estalactites caiu revelou uma luz vinda de fora da caverna, quando essa luz tocou o cristal os raios que refletiam dele congelaram tudo o que encostavam.

Após um rápido cálculo mental, eu sintonizei a minha espada para que ela direcionasse uma luz para o cristal e que ele a direcionasse para a criatura sem que me congelasse no processo. Enquanto a criatura me atacava, eu ia me esquivando e pulando sobre as suas cabeças até o ponto mais alto da caverna, que era de onde a luz externa estava vindo. Quando finalmente eu consegui me agarrar em uma estalactite, eu coloquei o meu plano em ação, que funcionou como um relógio. A cabeça maior foi congelada e depois foram seguindo as outras, até que todo o corpo da criatura estivesse congelado em zero absoluto. Usei as costas da criatura como escorregador e cheguei ao chão são e salvo. Então peguei a minha espada e dei uma estocada na criatura que se transformou em neve:

— Como estão as coisas aí em cima, Marks?

— Está tudo correndo bem capitão, não tivemos uma queda de energia conforme o programado e até ficou mais agradável o clima dentro da nave.

— Sempre confie em seu capitão.

— Sim senhor, capitão. Mas você precisa sair da caverna para podermos transportá-lo para cima.

— Tudo bem, eu já acabei aqui, estou de saída e vou contratar você quando sair da caverna, Capitão desliga.

Sai da caverna e pude ver a sombra da noite se aproximando, congelando e destruindo tudo no seu caminho, eu entrei em contato com a nave e Marks estava pronta para o meu pedido, fui teletransportado tão rápido que fiquei enjoado. Como eu não queria que a nave inteira congelasse, antes de subir, eu coloquei o cristal embaixo da minha camisa e quando cheguei à nave pedi que apagassem todas as luzes do deck de transporte e que me trouxessem uma caixa opaca. Minha tripulação prontamente me atendeu e neste meio tempo chegou ao deck de transporte a primeiro imediato Cristian Marks:

— Você está bem capitão?

— Como você pode ver com os seus próprios olhos eu estou bem Marks. E obrigado pela sua prontidão.

— Sempre as ordens capitão. Você encontrou o que procurava?

Neste momento a tripulação traz a caixa que o capitão pediu e todos na sala podem ver o cristal belíssimo do capitão. O capitão coloca cuidadosamente o cristal na caixa e pede que acendam as luzes. Então ele sorrindo olha para Marks e diz:

— Chame Cristal Lake e me encontrem no deck de exploração.

Em poucos minutos o capitão e seus dois primeiros imediatos estavam no laboratório do deck de exploração com o cristal em uma área de contenção toda escura. Foi então que o capitão pediu para Cristal Lake que abrisse a caixa com o braço robótico e incidisse uma luz sobre o cristal que estava dentro da caixa e assim que o primeiro imediato o fez toda a área de contenção se congelou, o braço robótico, a caixa e até mesmo o ar, tudo ficou congelado. Isso era uma prova cabal que aquele era o cristal certo.

O capitão decidiu comemorar o fato e disse para todos da tripulação que iríamos para a Marinha Naval de Órion e entregar o nosso prêmio e pegar a nossa recompensa, portanto aquela noite todos podia beber e se divertir e qualquer eventualidade ele estaria na sua cabine.

Aqui eu descrevo o que ocorreu na cabine do capitão pelo seu diário.

Cheguei à minha cabine exausto, e fui recebido por Bob. Ela sorriu ao ver-me e eu lhe retribuí o sorriso, eu me aproximei dela e tive vontade de abraçá-la, ela me retribuiu com um tapa na minha cara:

— Você enlouqueceu? Você sabia que todos nós ficamos preocupados com essa sua incursão? No que você estava pensando?

— Eu precisava ir buscar o cristal, Bob. Ninguém mais nesta nave poderia sobreviver em um clima tão gélido, você sabe disso.

— Sim, todos nós sabemos das suas habilidades, meu senhor. Mas isso não nos impede de ficarmos preocupados e receosos, ninguém quer perder você Cameron. Agora eles conhecem a sua força e do que você é capaz, mas todos estavam preocupados.

Quando ela disse isso e a abracei e sorri, ela ficou perplexa e quente. Ela então desistiu de brigar e me abraçou também sorrindo. Então fomos tomar banho, que ela previamente tinha preparado para acabar com as minhas dores. Entrei na banheira e ela entrou atrás de mim, ela esfregou as minhas costas e me massageou:

— Se você continuar assim vou acabar me acostumando mal.

— Ah! Para seu bobo. Você sabe que eu estou aqui só para te satisfazer.

Então nós rimos, terminamos o banho e fomos deitar na cama, ela primeiro e eu encima dela em suas coxas. Foi então que eu perguntei a ela:

— É verdade que todos estavam preocupados comigo?

— Claro capitão!

— Mas como assim preocupados? Eles estavam como?

— Bem, exaltados, nervosos, com os ritmos cardíacos acelerados e respiração ofegante. Sinal claro em todas as espécies de preocupação com um ente querido.

— Isso também pode ser raiva, Bob.

— Sim capitão, verdade. Mas era preocupação. — Disse Bob sorrindo. — Mas você não vê como eles te admiram.

— Admiram? Eu vejo que eles passam por mim e sorriem entre eles, às vezes parecem com medo de mim, como se eu fosse destruí-los por um mínimo erro qualquer.

— Sim capitão, eles têm medo de errar com o senhor, por que eles te admiram. Você lembra como você aprendeu com o seu pai a forjar armas?

— Claro que sim, eu era pequeno e tive minha cota de erros.

— Sim, e como você reagia a isso?

— Eu ficava com medo de levar uma bronca, mas mesmo assim ia até ele, e ele simplesmente dizia para tentar novamente.

— Isso por que você admirava o seu pai, assim é a sua tripulação também.

— Sentimentos são estranhos, não é Bob?

— Sim, verdade capitão.

Nós ficamos pensando em nossa conversa enquanto Bob me acariciava a cabeça, aquele afeto e a temperatura de suas pernas me fizeram subir e querer beijá-la. Eu a olhei nos olhos e ela profundamente olhou nos meus também. Ficamos nos encarando por um tempo e ela disse:

— Sim capitão.

— Nada, eu estava olhando o seu rosto, mas vamos dormir.

— Sim capitão.

Ela deitou-se e, como sempre, eu deitei, afagando-me sobre o seu busto e ela me abraçando para dormirmos.

— FIM DE TRANSMISSÃO —

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