Dragon Lover
1 Prólogo
Notas iniciais

Prólogo
Uma cantoria infantil se espalhava pela vasta floresta, graças ao eco que a mesma projetava. Originalmente o som vinha bem ao Sul, onde uma roda de crianças era vista. Lucy estava entre essas crianças, batendo as palmas, dançando e cantando. Suas madeixas loiras estavam presas em duas pequenas tranças e seu vestido estava sujo, trocando o antigo branco pelo cinza e algumas manchas de barro e lama. A beleza angelical fora herdada da mãe, mas os olhos refletiam pura coragem, como os do pai. A pequena era graciosa naquele momento, dedurando o seu posto de princesa. Seu reino era um dos mais ricos dos três reinos: Magnólia. Chamavam de o Reino Magnífico, pois nele beleza e exuberância não faltava; tanto em questão da natureza, quanto da magia.
As crianças ainda cantarolavam as velhas cantigas, agora batendo os pés no chão, fazendo o solo tremer minimamente e reproduzindo um som que assemelhava a de um tambor.
– Ah, uma princesa a fugir – Cantaram em um incrível coral, alongando sempre a última sílaba da cantoria. – a Lua, por sua vez, a surgir – Pararam em imediato com as batidas, continuando para a parte final: – o dragão irritou-se e se pôs a... Rugir! – Fizeram uma "imitação" de um rugido logo quando terminaram a última parte, o que fez com que os pássaros próximos levantassem vôo. As risadas se mostraram altas, e as crianças, ainda não satisfeitas, queriam brincar mais.
– Pessoal! Vamos brincar de se esconder? – Um menino moreno se colocou a falar. Ele já estava caminhando para um dos troncos do lugar, antes que as outras crianças protestassem sobre a sua sugestão. Sem escolha, lá foram elas encontrar um esconderijo. E claro, Lucy não fez diferente.
Mas sempre que a loira achava um local apropriado, esse já estava sendo ocupado: Por crianças ou por animais. Estava longe dos demais, porém não parou com a busca de um lugar para se esconder. Andou e andou, até chegar a uma vegetação diferente da anterior; estava mais morta, as árvores sem folhas e o gramado quase inexistente. Mas um sorriso surgiu no rosto da pequena ao ver que existia uma caverna ali. Era perfeita para esconder-se.
Correu até ir ao encontro da pequena caverna – era realmente pequena, para entrar nela a menina, que nem tinha os seus sete anos completos, tinha que se abaixar para entrar. Arrastou-se, sujando mais a sua vestimenta, certamente a mãe da pequena daria uma pequena repreensão pelo comportamento indelicado da menor. Tirando isso da cabeça, ela continuou, por fim chegando num lugar onde pudesse ficar em pé sem problemas. E surpreendeu-se.
A caverna era totalmente o inverso de outras. Ela não era fria, por algum motivo ela era quente. Cheirava a queimado e a umidade era pouca. Aquilo não fazia sentido algum biológico, e se fazia, não havia aprendido sobre isso ainda. Sua visão era contemplada por um grande buraco que tinham no teto, como se algo tivesse caído naquele local. O estranho buraco deixou com que os raios do Sol entrassem sem pudor, possibilitando a Lucy de enxergar a caverna totalmente negra e sem vida, com escombros em todo perímetro. Queimada.
Começou a caminhar, e pensou que o chão estava com uma textura diferente, como se pisasse em algo mais... Viscoso. Curiosa, ela olhou abaixo de suas botas de couro marrom, encontrando um rastro de um líquido tão vermelho e escuro, que era quase totalmente preto. Julgando pela textura: Sangue. Julgando pela cor: Não era humano. Ao chegar nessa conclusão, estremeceu. Mas Lucy ainda não tinha se contentado e continuou; sairia de lá, mas teria que ter antes a sua curiosidade morta.
Seguiu o rastro, até a parte onde a escuridão sucumbia tudo; nem os raios se permitiam ir lá. Mesmo assim, o calor aumentou naquela parte, e seus pequenos ouvidos escutavam algo grave, como uma respiração. Aproximou-se até onde podia, guiando-se pelo tato. Sabia que era perigoso adentrar no escuro sem saber no mínimo o que tinha ali; mas sua alma gritava por aquilo e ela mesmo se amaldiçoaria se não fizesse isso.
Parou até sentir o que parecia ser o fundo, apalpando para ter certeza. Sentiu algo estranho, parecia que tocava em um lagarto, com escamas proporcionalmente maiores que o normal. Estava cega por conta do breu, mas podia saber o quão grande era, e o quão quente também. As pequeninas mãos continuavam a tocar naquilo, mas parou, pensando no tempo que estivera ali e se perguntando se seus amigos estavam sentindo a sua falta. Assim ela se virou e começou a caminhar para a saída, finalmente saindo da escuridão. Porém, sentiu um vento quente bater em suas costas. "Mas ventos fortes não passam por cavernas", pensou. E estava certa, pois quando virou-se, viu algo que jamais esqueceria.
– O quê...? – Os olhos marrons de Lucy estavam arregalados, estava prestes a chorar de medo. Sim, medo. Queria gritar, mas nada saía de sua boca, que sequer estava fechava. Ele a encarava, os grandes olhos verdes serviam de espelho para ela; refletiam o corpo inteiro da loira, e ela via o quanto estava desesperada e pavorosa. Deixou de encarar os olhos da criatura, olhando o seu corpo escamoso avermelhado, que adquiriam uma cor rosada quando tinha contato com as luzes. Seus chifres ainda eram pequenos, porém, afiados, como a arcada dentária.
Um dragão.
Ele soltou o ar pelo nariz, e a menina sentiu que pegava fogo de tão quente que foi. O olhar do "grande lagarto" era de piedade e, no fundo, dor. Lucy lembrou-se do sangue que tinha visto, e vasculhou qualquer machucado que poderia existir no corpo escamoso. E lá estava, logo no pescoço, um corte longo e que ainda jorrava sangue. Muito sangue. A menina aproximou-se; sabia do perigo, mesmo pensando que aqueles animais já eram extintos, mas os passos não cessaram. O dragão reparou na aproximação, ele também aprendera que não poderia confiar em criaturas como ela, entretanto, se deixou abaixar o pescoço diante da menina. Ela, sem – quase – nenhuma hesitação, tocou no pescoço áspero, onde o corte jazia. Imaginava que o sangue era quente, mas ele fervia. Tirou rapidamente as mãos dali, abanando-as. Todavia, o sorriso mínimo escapou pelos lábios da loira. Ela sabia que estava na hora de ir para casa, então voltou com o seu caminho de volta. E antes de passar pela pequena entrada, olhou para trás, ainda com o sorriso no rosto.
– Até, dragão. – Acenou para o inimigo natural, finalmente desaparecendo pela pequena entrada.
Naquele dia, presenciou a criatura mais linda e majestosa de todas. Entretanto, tudo mudou.
Tudo virou caos.
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