Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

8 Os Novos Guardiões das Casas


A SAGA DO SANTUÁRIO

Ainda sob o impacto do brilho dourado e da presença divina das armaduras, um silêncio respeitoso, porém tenso, pairou sobre a Plataforma Celeste. Os Guerreiros Z encaravam os Cavaleiros de Ouro, e vice-versa. Eram duas lendas de universos diferentes se medindo.

Piccolo, com sua capa branca balançando ao vento e os braços cruzados, deu um passo à frente. Sua estatura e sua aura de Deus da Terra (fundido com Kami-Sama) lhe conferiam a autoridade necessária para quebrar o gelo.

— Nós não temos tempo para formalidades longas, mas precisamos de ordem. — disse o Namekuseijin, sua voz grave ecoando. — Quem responde por vocês? Quem é o líder desta ordem?

Do meio do grupo dourado, um homem de cabelos azuis longos e olhar profundo adiantou-se. A Armadura de Gêmeos, com suas duas faces no elmo, brilhava intensamente. A pressão que ele exercia era diferente da dos outros; era a aura de alguém nascido para comandar exércitos e desafiar deuses.

— Eu respondo. — disse ele, com sua voz imponente — Eu sou Saga, Cavaleiro de Ouro de Gêmeos e antigo Grande Mestre do Santuário. Em nome de Atena e dos meus companheiros, agradeço a nova vida que nos deram. Estamos prontos para seguir suas instruções.

Piccolo assentiu, satisfeito com o pragmatismo de Saga.

— Piccolo. — Se apresentou o Namekuseijin. — Como vocês ouviram, a estratégia traçada pelo aliado de vocês, é que entrem na Sala do Tempo em duplas, priorizando o poder místico.

Piccolo percorreu os olhos pelo grupo de onze cavaleiros. Ele franziu o cenho, fazendo uma contagem rápida mentalmente.

— Com a ausência de Aiolos e Dohko, e a inclusão de Kanon, vocês estão em número ímpar. Alguém ficaria sem par para o treinamento.

O olhar de Piccolo desviou-se dos dourados e pousou em Gohan, um pouco atrás de Goku, tentando não chamar atenção.

— Gohan! — chamou Piccolo.

Gohan sobressaltou-se, ajeitando os óculos.

— O que foi, Senhor Piccolo?

— Você vai entrar com ele.

— Eu?! — Gohan arregalou os olhos, assustado.

— Não, a sua mãe. — Piccolo revirou os olhos. — Não seja idiota na frente dos outros.

Os Cavaleiros de Ouro tentaram conter o riso, mas foi inevitável.

— Mas... Senhor Piccolo, eu estou sem treinar há meses!

— Exatamente por isso — cortou Vegeta, intervindo com um sorriso de canto, cruel e aprovador. — Você amoleceu, moleque. Ficou fraco estudando enquanto o universo corre perigo.

Vegeta olhou para Kanon, que mantinha uma expressão indecifrável, e depois voltou para Gohan.

— Aquele homem ali, Kanon, não tem a piedade do Kakarotto ou a paciência do Piccolo. Um ano trancado com ele nessa sala é exatamente o que você precisa para deixar de ser um medíocre e voltar a ser o guerreiro que matou Cell.

Gohan engoliu em seco, olhando para Goku em busca de socorro.

— Pai? Você não vai dizer nada?

Goku colocou as mãos na cintura e sorriu, dando de ombros.

— Desculpa, Gohan. O Piccolo é seu mestre, ele sabe o que é melhor pra você. E o Vegeta tem razão, a gente precisa de você forte de novo. Se o Kanon é tão durão assim, vai ser um treino incrível!

Sem saída, Gohan suspirou derrotado e seguiu caminho até ficar ao lado de Kanon, quando foi segurado pelo braço por Vegeta.

— Se a Bulma e o Trunks morrerem porque você hesitou, eu acabo com a sua mãe, com seu irmão, seu pai, Piccolo e a sua namorada e te deixo vivo, está me entendendo? — Ele sibilou.

Gohan mudou drasticamente a postura, ficando sério e compenetrado. Ninguém está ali porque quer.

— Eu não vou decepcioná-lo, Vegeta. Nem ao Sr. Piccolo e nem ao meu pai.

Gohan caminha até encontrar Kanon. O gêmeo de Saga virou o rosto lentamente, analisando o Saiyajin mestiço de cima a baixo com um olhar crítico.

— Então é com você que dividirei o inferno temporal — disse Kanon, estendendo a mão não para um cumprimento, mas como um desafio. — Eu sou Kanon. Cavaleiro de Ouro de Gêmeos e ex-General Dragão Marinho. Espero que não me atrapalhe.

Gohan, sentindo a pressão esmagadora do cosmo de Kanon, tentou manter a educação. Ele apertou a mão do Cavaleiro, sorrindo nervosamente.

— Prazer... Eu sou Son Gohan. — Ele hesitou, tentando achar algo em comum com aquela elite zodiacal. — E, hum... e eu nasci em maio. Eu sou taurino.

— Me mata de vergonha... — Piccolo balança a cabeça.

Por um breve segundo, um leve sorriso de escárnio, mas também de curiosidade, cruzou o rosto de Kanon.

— Um Touro, é? Veremos se você tem a força de um. Vamos.

Os dois caminharam em direção à porta da Sala do Espírito e do Tempo, deixando para trás os outros dez Cavaleiros de Ouro e os Guerreiros Z, dando início à primeira etapa da preparação para a guerra final. A porta da Sala do Tempo se fecha, emanando uma pressão sutil, sinal de que o treinamento de Gohan e Kanon já havia começado.

Do lado de fora, na Plataforma Celeste, a atmosfera era de planejamento de guerra.

Saga tomou a frente novamente, sua postura de Grande Mestre natural para o momento.

— Mú, — disse Saga, virando-se para o Cavaleiro de Áries. — Explique a eles a topografia e a mística das Doze Casas. Eles precisam entender que não é apenas guardar um prédio; é sustentar uma posição estratégica contra divindades.

O Carneiro Dourado surge no centro com sua serenidade professoral. Usando sua telecinesia, projetou uma maquete tridimensional do Santuário feita de pó de estelar no centro do grupo.

— Que legal! — Kuririn observava admirado o mapa das doze casas e a imponente armadura dourada com os chifres nos ombros.

— O Santuário é protegido por um Kekkai, uma barreira antiga — explicou Mú, apontando para a base da montanha. — O voo é proibido. O teletransporte é bloqueado entre as casas para invasores. O inimigo será obrigado a subir a escadaria principal, passando por cada um dos doze templos sequencialmente.

— O que é que tem logo depois da última casa, ali em cima? — Pergunta Goku, apontando no mapa.

— O Salão do Grande Mestre. E logo atrás — Mú fez um gesto suave com a mão, fazendo o pó estelar brilhar intensamente no topo da maquete —, o Templo de Atena, onde repousa a estátua da Deusa. É o ponto mais sagrado e o coração de nossa proteção.

Mú ajustou a projeção para mostrar a base da montanha, detalhando as áreas periféricas:

— No entanto, o Santuário começa muito antes da primeira casa. Na base, temos os pátios de treinamento, o Coliseu e os alojamentos onde vivem os cavaleiros de Prata, Bronze e os soldados rasos. É um terreno tortuoso, cercado por desfiladeiros que tornam a subida impossível para humanos comuns.

— E aquele relógio ali embaixo? Ele tá pegando fogo? — perguntou Goku, apontando para a torre com chamas azuladas.

— Aquele é o Relógio de Fogo — explicou o ariano. — Ele é o marco das nossas Guerras Santas. Suas chamas mostram o tempo que resta para a salvação ou para a queda do mundo. Cada casa zodiacal é uma fortaleza independente, e o caminho entre elas é o único acesso possível para quem deseja chegar até Atena.

Piccolo cruzou os braços, analisando o mapa brilhante.

— É um funil. Se bloquearmos cada templo com um guerreiro, fragmentamos o exército inimigo e impedimos que cheguem ao topo. Como o treinamento dos Cavaleiros de Ouro levará seis dias no total para que todas as duplas passem pela Sala, nós teremos que segurar essas posições até lá.

— Exatamente, Sr. Piccolo. — Respondeu Mú. — Vocês conseguem segurar as casas durante esse tempo?

— Acredito que sim. — Piccolo olha para cada um dos seus guerreiros, fazendo as contas.

Com a estratégia definida, Piccolo, Saga e Mú começaram a alocar os guerreiros baseando-se em afinidades de combate e temperamento. Os demais cavaleiros acompanhavam a distribuição, que foi se desenhando rapidamente:

Tenshinhan pediu a primeira casa.

— Você tem técnicas de barreira e uma visão que nada escapa — disse Piccolo.

Tenshinhan assentiu, sério.

— O Kikoho vai parar qualquer exército que tente subir o primeiro degrau.

Goku, que olhava a maquete com curiosidade, levantou a mão, interrompendo a sequência.

— Ei, espera aí! Quem é o dono da segunda casa? Aquele grandão ali? — Goku apontou para Aldebaran.

— Sim, eu sou Aldebaran de Touro — respondeu o gigante brasileiro.

— Touro... parece forte! — Goku sorriu, estalando os dedos. — Eu quero a Casa de Touro! Se o dono é forte, os inimigos vão esperar força bruta lá. Deixa a segunda casa comigo!

Mú concordou com um aceno, e a alocação continuou.

A Androide 18 deu um passo à frente, ajeitando o cabelo loiro.

— Deixe a terceira casa para o 17. — disse ela, com sua frieza habitual.

— E você? — perguntou Kuririn.

— Eu fico com a quarta casa, Câncer — respondeu 18, olhando para Máscara da Morte com indiferença.

A lista seguiu preenchendo as lacunas com os herdeiros das armaduras e os guerreiros mais aptos:

— Quinta Casa, Leão: Ikki. – Diz Afrodite. – Ele tem poder psíquico, vocês vão precisar.

Piccolo pede a sexta casa.

— É a metade do caminho. – Pensa Piccolo. – Se passarem daqui as coisas já começam ficar tensas.

— Sétima Casa, Libra: Shiryu de Dragão.

O herdeiro natural de Dohko aceitou sua posição com orgulho.

— Oitava Casa, Escorpião: Gohan.

— Gohan está na sala agora — lembrou Piccolo. — Mas quando ele sair amanhã, estará em um nível completamente diferente. A Casa de Escorpião será dele assim que ele colocar os pés fora daquela porta.

— A nona, a décima primeira e a décima segunda casa são de Seiya, Hyoga e Shun. – Continua Afrodite, ao fundo.

Restava a Décima Casa.

— Deixe a casa 10 comigo. — declarou Vegeta, sua voz não aceitando contestações.

Com o mapa completo, a defesa do Santuário estava montada:

Saga olhou para o grupo heterogêneo de defensores — alienígenas, androides, cavaleiros e mestres de artes marciais.

— Uma formação estranha... — admitiu Saga — mas talvez seja a defesa mais poderosa que o Santuário já viu desde a Era Mitológica. — Nós ficaremos aqui, aguardando nossa vez na Sala do Tempo. Vocês e Cavaleiros de Bronze... o Santuário é de vocês pelos próximos seis dias. Protejam Atena.

— Esperem um pouco! Essa estratégia de defesa é boa, mas vocês estão esquecendo das peças principais do tabuleiro.

A voz veio do fundo do grupo, atrás dos Cavaleiros de Ouro. Não era uma voz imponente como a de Saga ou trovejante como a de Porunga, mas carregava uma tenacidade inquebrável, o tipo de tom de alguém que já caiu e levantou mais vezes do que é humanamente possível.

Todos se viraram. Eles não reconheceram o timbre imediatamente, pois até aquele momento, o rapaz estivera sendo curado ou em silêncio recuperando as forças.

— Sou Seiya — apresentou-se o Pégaso, olhando nos olhos de Goku. — Agradeço por terem me salvado. Mas preciso avisar sobre o que realmente vamos enfrentar.

Seiya olhou para a maquete do Santuário e apontou para o topo.

— Vocês estão contando com os 7 Generais Marinas de Poseidon e os 3 Juízes do Inferno de Hades. Isso dá dez comandantes. Mas existem dois deuses menores que lideram os exércitos de Hades diretamente. Eles são o verdadeiro pesadelo.

Um calafrio percorreu a espinha de Shun e Hyoga ao ouvirem os nomes.

— Thanatos, o Deus da Morte, e Hypnos, o Deus do Sono — revelou Seiya, fechando os punhos ao lembrar da luta nos Campos Elíseos. — Eles não são como os Juízes ou Generais. Eles são deuses de verdade. Thanatos pode matar alguém a quilômetros de distância apenas com um pensamento. Hypnos pode colocar exércitos inteiros em um sono eterno do qual nunca acordarão.

Seiya olhou seriamente, reconhecendo neles a força bruta suprema daquele grupo.

— Foram eles que destruíram as Armaduras de Ouro na última guerra como se fossem papel. Se eles aparecerem no campo de batalha, os guerreiros comuns ou mesmo os Cavaleiros de Ouro sem o "algo a mais" não terão chance.

Ele respirou fundo, traçando a nova diretriz tática.

— Precisamos que os mais fortes entre nós fiquem encarregados especificamente de interceptar esses dois. Se Thanatos ou Hypnos entrarem nas Doze Casas, eles não vão lutar degrau por degrau; eles vão varrer o Santuário.

Seiya apontou para Goku.

— Eu não conheço a extensão total do poder de vocês, mas sinto que são poderosos. Não importa em qual Casa vocês estejam posicionados... se sentirem o cosmo da Morte ou do Sono, abandonem seus postos e ataquem imediatamente.

— Ah, mas eu não peguei a casa 2 para mim. – Revelou Goku. – Ela vai para Uub, meu pupilo. Vou leva-lo para lá daqui a pouco.

Enquanto a movimentação tática e a distribuição de poderes agitavam o pátio externo da Plataforma Celeste, uma quietude solene reinava nos corredores internos do Templo de Kami-Sama. Os novos representantes das casas conversavam com os seus respectivos donos para entender a organização do Santuário e traçar seu plano de luta.

A voz de Atena, que até então soara como a de uma general orientando seus exércitos, mudou de tom na mente de Shaka de Virgem. Tornou-se suave, maternal e profundamente preocupada.

Shaka... — chamou a Deusa. — Enquanto os guerreiros se preparam para a violência da guerra, há feridas silenciosas que precisam da sua sabedoria. Há duas chamas vitais tremulando em agonia dentro deste templo. Não são ferimentos do corpo, mas da alma.

Shaka abriu os olhos apenas uma fresta, o suficiente para demonstrar atenção, e respondeu mentalmente:

— Eu as sinto, Atena. A mulher de cabelos esverdeados e a criança. A perturbação no fluxo de consciência deles é violenta.

Eles são a esposa e o filho de Vegeta, o príncipe da raça Saiyajin e foram as primeiras vítimas da melodia de Pandora — explicou Saori, com pesar. — Bulma é uma mulher de ciência e razão. O pequeno Trunks, embora forte, é apenas uma criança de nove anos. Por favor, Shaka... veja o que foi feito a eles.

O Cavaleiro de Virgem assentiu silenciosamente. Desfez a postura de meditação e caminhou pelos corredores de pedra, guiado pelo rastro de dor psíquica, até chegar a um quarto simples oferecido por Mr. Popo.

Lá dentro, deitados em camas separadas, estavam Bulma e Trunks.

A cena não era de um sono tranquilo. Bulma, geralmente vibrante e enérgica, estava pálida. Ao lado, Trunks, igualmente pálido. O menino, que sempre exibia uma confiança arrogante típica dos Saiyajins, agora tinha uma expressão de terror infantil estampada no rosto.

Shaka aproximou-se. O contraste era absoluto: o homem mais próximo de Deus, envolto em serenidade dourada, diante da tecnologia humana e da biologia alienígena rendidas pela magia do submundo.

Om... — entoou Shaka, baixinho.

Ele estendeu as mãos, pousando a palma direita sobre a testa de Bulma e a esquerda sobre a de Trunks.

Imediatamente, a consciência de Shaka mergulhou na escuridão.

O que ele viu não foi um sonho comum. Era um labirinto cinzento e lamacento. Ele viu a mente de Bulma, normalmente um palácio de lógica e equações brilhantes, agora envolta em uma névoa negra e densa. A música da harpa ecoava lá dentro, não como som, mas como correntes pesadas que arrastavam sua racionalidade para um abismo de apatia e morte. Ela estava perdida, correndo em círculos, gritando por Vegeta, mas sem voz.

Em seguida, ele visitou a mente de Trunks. O cenário era ainda mais desolador. A inocência da criança de nove anos estava sendo atacada por visões de abandono e fraqueza. A música de Pandora sussurrava que ele nunca seria forte como o pai, que ele era o culpado pela dor da mãe. O espírito guerreiro do menino estava sendo sufocado por uma "paralisia do sono" espiritual.

Shaka retirou as mãos lentamente, abrindo os olhos. A gravidade da situação era clara.

Atena... — comunicou Shaka, sua voz mental ecoando com seriedade. — A situação é crítica. A harpa de Pandora não apenas os colocou para dormir. Ela plantou uma semente de "Morte em Vida".

Ele olhou para os dois corpos tremendo nas camas.

Eles estão presos em um 'Limbo da Desolação'. A mente de Bulma está se fragmentando pelo choque entre a lógica e a magia negra. A do menino está sendo drenada pelo medo. Se continuarem assim, mesmo que seus corpos sobrevivam, suas mentes jamais retornarão. Eles se tornarão cascas vazias, marionetes prontas para obedecer a Hades quando ele chegar.

Shaka juntou as mãos em prece, concentrando seu cosmo dourado para criar uma cúpula de proteção ao redor das camas.

O elo mental com a Deusa da Sabedoria foi cortado abruptamente. Shaka não precisou de seus sentidos divinos para saber que a atmosfera no quarto havia mudado. O ar, antes pesado pela magia negra e iluminado apenas pelo seu cosmo dourado, agora estava saturado por uma eletricidade estática agressiva.

Uma pressão silenciosa, mas esmagadora, vinha da porta.

Shaka desfez lentamente a posição de lótus. Seus pés tocaram o chão de pedra sem produzir som. Ele girou o corpo com a fluidez da seda, ficando de frente para a entrada. Sua postura era relaxada, os braços soltos ao lado do corpo, mas sua energia estava alerta, firme como um pilar do templo.

Vegeta estava parado no batente da porta.

O Príncipe dos Saiyajins não estava de braços cruzados, nem mantinha sua típica expressão de escárnio. Seus braços pendiam rígidos, com os punhos cerrados tão fortemente que as veias saltavam sob as luvas brancas. Seus olhos negros não estavam em Shaka, mas fixos nas figuras pálidas de Bulma e Trunks.

Houve um longo momento de silêncio, quebrado apenas pela respiração irregular do pequeno Trunks.

— Pare de conversar com os seus deuses invisíveis, Cavaleiro — a voz de Vegeta saiu baixa, grave, vibrando com uma fúria contida que faria planetas tremerem. — E me diga a verdade.

Vegeta finalmente desviou o olhar da família e encarou Shaka. Havia uma urgência naquele olhar.

— Essa... "coisa" que fizeram com eles. Não é um sono comum. Eu já gritei na mente do Kakarotto, já senti a morte de perto. O que está acontecendo?

Shaka sustentou o olhar do Saiyajin, mantendo seus olhos semicerrados, demonstrando uma serenidade que contrastava com a tempestade emocional de Vegeta.

— Você tem a percepção aguçada, Vegeta de Capricórnio — respondeu Shaka, usando o novo título do aliado com respeito. — O corpo deles está aqui, descansando. Mas a essência, o que os faz serem quem são... está perdida em um labirinto cinzento.

Shaka deu um passo suave para o lado, permitindo que Vegeta visse melhor os rostos suados de sua família.

— A música de Pandora não fere a carne. Ela acorrenta a vontade. Bulma e o jovem Trunks estão presos no Limbo da Desolação. Eles estão revivendo seus maiores medos e inseguranças, num ciclo contínuo, incapazes de despertar por conta própria.

Vegeta trincou os dentes, dando um passo para dentro do quarto. A temperatura do local subiu instantaneamente.

— Bruxaria barata... — rosnou ele. — Se eu explodir o cosmo aqui, se eu gritar... eles não vão acordar?

— Não — afirmou Shaka, categórico, erguendo levemente a mão aberta num gesto de "pare", não como ameaça, mas como conselho. — A sua força bruta é incomparável, Vegeta. Mas se tentar forçar a mente deles com o seu Ki agressivo agora, você apenas quebrará o pouco que resta da consciência deles. Seria como tentar consertar um relógio de cristal usando uma marreta.

Vegeta parou. Ele olhou para Bulma, vulnerável como nunca a vira, e para o Trunks de 9 anos, chorando dormindo. A impotência era um sentimento que Vegeta desprezava acima de tudo, e aquilo o consumia.

— Então qual é a solução? — perguntou Vegeta, a voz quase um sussurro ríspido. — Você é o especialista em mentes e espíritos. Conserte-os.

Shaka abriu um sorriso complacente.

— Eu ergui uma barreira, o Khan, para impedir que a maldição avance e consuma a vida deles — explicou , calmamente. — Eu e Mú podemos mantê-los seguros e tentar guiá-los de volta, mas isso levará tempo. Tempo que não temos.

Shaka abriu os olhos completamente pela primeira vez, revelando o azul profundo e divino de suas íris, encarando a alma do Saiyajin.

— Para acordá-los instantaneamente, a música deve cessar na fonte. Aquele que toca a melodia, ou a própria Pandora, deve cair.

Vegeta absorveu a informação. A impotência desapareceu, substituída por um objetivo claro e sanguinário. O foco vingativo voltou aos seus olhos. Ele olhou uma última vez para Bulma e Trunks, e depois virou as costas, caminhando em direção à saída.

— Cuide deles, Virgem. — ordenou Vegeta, sem olhar para trás. — Mantenha-os vivos. Porque eu vou descer até o inferno se for preciso, vou encontrar quem tocou essa maldita harpa... e vou arrancar os dedos um por um.

Shaka juntou as mãos em prece novamente, observando as costas do Saiyajin se afastarem.

— Que os deuses tenham piedade de quem cruzar o caminho do príncipe Vegeta de Capricórnio. — murmurou Shaka para o quarto vazio.

Notas finais
O editor de texto vive alterando Mu para Um, então vai ser Mú com acento mesmo. :)