Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco
23 Dia 3 - O Submundo em Alerta: Pandora x Mú e Shaka
A porta do quarto reservado se fechou atrás deles sem ruído.
Mū de Áries e Shaka de Virgem pararam diante das camas. Um ano vivido num espaço fora do tempo havia feito o que o tempo comum não consegue — não os envelhecera, mas os adensara. Seus cosmos não irradiavam urgência. Irradiavam peso.
Shaka inclinou levemente a cabeça na direção do menino. Seus olhos permaneciam fechados, mas sua visão espiritual já havia descido ao abismo antes mesmo de ele dar o primeiro passo.
O silêncio durou pouco.
— A melodia de Pandora não induz ao sono — disse Shaka. — É um Réquiem. Ela desfez a coesão da consciência deles. E o que desfez não está apenas espalhado — está sendo reescrito.
Mū estendeu a mão sobre a testa de Bulma. Uma luz dourada e tênue emanou de seus dedos — a mesma precisão cirúrgica que ele usava para soldar o titânio sagrado das armaduras mais destruídas.
— A mente desta mulher — murmurou ele — é um labirinto de engrenagens perfeitas. Pandora não está apenas apagando memórias. Está corrompendo a lógica que as organiza. O axioma central. Se não o restaurarmos, ela esquecerá até como respirar.
— E o garoto? — perguntou Mū, depois de um momento.
— Diferente. — A voz de Shaka desceu um tom. — Mesmo no limbo, o sangue dele clama por uma luta que não pode ver. A música de Pandora está usando o orgulho do garoto contra ele mesmo. Criando labirintos de fúria onde deveria haver memória.
Mū franziu levemente o cenho.
— Um cristal partido em ângulos diferentes para cada um deles.
— Sim. — Shaka voltou a erguer o rosto. — Você segura os fragmentos. Eu navego.
Não havia mais nada a dizer. Dois cavaleiros que haviam passado um ano coordenando cada movimento no vazio do Espírito e do Tempo não precisavam de mais do que isso.
Mū assumiu sua posição, fechou os olhos e elevou o cosmo de forma cirúrgica. Dentro das mentes de Bulma e Trunks, o que o olho não via era isto: uma névoa que não era sono, e não era morte, mas tinha a temperatura de ambos. Dois labirintos sem saída, crescendo.
— Uma memória falsa no lugar errado — disse Mū, quase para si — e eles acordam irreconhecíveis.
— Nós temos a paciência das estrelas — respondeu Shaka, unindo as mãos em oração.
E começaram.
— Se Pandora foi capaz disso em poucos minutos — disse Shaka, sem inflexão, como quem registra um fato perigoso —, esta guerra será a mais difícil dos últimos séculos. Os defensores das casas estão sozinhos por agora.
O silêncio caiu.
— Shaka.
— Estou ouvindo, Mū.
— Ao tentarmos desfazer esta teia — disse Mū, sem interromper o fluxo de cosmo sobre a testa de Bulma —, Pandora saberá que estamos aqui. O elo psíquico é direto. Ela tentará destruir nossa mente junto com a delas.
— Sim. — O cosmo de Shaka oscilou, leve. Ele já sabia.
— E quando isso acontecer — continuou Mū —, o Tesouro do Céu será mais necessário lá fora do que aqui dentro.
Shaka ficou quieto por um momento. Não de hesitação. De reconhecimento.
— Você ergue a Muralha de Cristal. Você teletransporta os dois. — Ele não estava perguntando. — E eu vou para o campo de batalha.
— Com Saga — confirmou Mū. — Há poucas combinações neste exército que possam virar o jogo. Vocês dois são uma delas.
Mū virou levemente o rosto para o companheiro. Havia algo nos olhos do Carneiro Dourado que não era pedido; era reconhecimento de uma divisão de dever que os dois já tinham chegado à mesma conclusão antes de ela ser dita.
— Mesmo que isso signifique que eu enfrente Pandora sozinho aqui dentro.
Mū olhou para o espaço entre as duas camas — não para Shaka, não para as vítimas. Para o vazio onde ele já sentia a consciência de Pandora espreitando, fina como fio de navalha.
— Quando chegar a hora — disse ele —, você vai enfrentar a guerra lá fora. Sozinho aqui dentro, serei eu.
Pela primeira vez desde que entraram no quarto, Shaka abriu os olhos.
Não completamente. Apenas o suficiente para encontrar o rosto de Mū.
O Carneiro Dourado não desviou o olhar. Havia ali algo que não era súplica nem ordem; era a clareza de quem já calculou o custo e decidiu pagá-lo.
Shaka fechou os olhos.
— Confio esse peso a você — disse ele. E intensificou o brilho.
A Muralha de Cristal subiu em silêncio, invisível para qualquer um que não fosse capaz de sentir o cosmo de Mū trabalhando em camadas: primeiro ao redor das duas camas, depois ao redor do quarto inteiro, depois além das paredes, moldando um vácuo espiritual que apagava qualquer rastro de presença para fora.
Para Pandora, o quarto havia deixado de existir.
Para dentro, a guerra começou.
Nas profundezas, onde o ar é gélido e o silêncio é uma lei, Pandora dedilhava sua harpa.
Não havia urgência nos seus dedos. A guerra ainda não havia começado e, quando começasse, seria ela quem escolheria o momento. Essa era a vantagem de comandar o inevitável: a paciência de quem sabe que o fim já foi escrito.
A corda do meio vibrou sozinha.
Pandora retirou os dedos do instrumento. A nota dissonante continuou por um instante longo demais, tremendo no ar frio do salão como se algo a tivesse puxado de dentro, não de fora. Como se a maldição, ao longe, tivesse sofrido uma tensão.
Ela ficou imóvel. Ouvindo.
Então fechou os olhos.
Sua consciência se expandiu pelas sombras como tinta em água escura, atravessando a distância entre o Submundo e a Terra com a facilidade de quem faz isso há séculos. Ela buscou as duas presenças que havia marcado — a mulher de cabelos azuis, o pequeno guerreiro — esperando encontrá-las onde as havia deixado: vagando, perdidas, se desfazendo lentamente no limbo como fumaça sem forma.
Encontrou um muro.
Pandora parou.
Não era uma muralha de força bruta; não havia nada para empurrar, nada para golpear. Era ausência. Um silêncio espiritual tão completo que beirava o impossível: onde deveriam estar duas mentes em colapso, havia apenas vácuo. Nem presença, nem rastro, nem o eco distante da dor que ela havia plantado. As almas haviam desaparecido do plano espiritual como se nunca tivessem existido.
Ela empurrou.
Não com violência, com precisão. Estendeu a maldição como se estendesse os dedos, procurando a borda da barreira, algum ponto de entrada, alguma fresta por onde a música ainda pudesse chegar. A melodia do Réquiem vibrou nas sombras, procurando suas vítimas.
A barreira não cedeu.
Mas devolveu algo.
Era sutil, uma textura, quase imperceptível, como a diferença entre tocar pedra e tocar cristal. Não era o poder de uma deusa. Não tinha a marca do divino, aquela autoridade antiga que Pandora reconheceria instantaneamente. Era outra coisa. Cosmo. Refinado até a transparência, trabalhado com uma paciência que não era humana mas também não era celeste. Era de alguém que havia passado toda uma existência lapidando uma única habilidade até ela se tornar invisível.
No quarto reservado do Templo, a Muralha de Cristal tremeu.
Mū não abriu os olhos. Mas a linha entre suas sobrancelhas se aprofundou por um instante — um único instante — enquanto ele redistribuía o cosmo pelas camadas externas da barreira, compensando a pressão que chegava de baixo como água procurando rachadura. Uma gota de suor desceu pela têmpora esquerda e caiu em silêncio.
Shaka não disse nada. Mas seu brilho dourado se intensificou um grau.
A Muralha sustentou.
Pandora recuou.
Não por derrota; por informação. Ela havia aprendido o que precisava.
Ficou parada no centro do salão, os olhos ainda fechados, reorganizando o que havia sentido. Cosmo. Não magia convencional, não poder divino. Cosmo, a linguagem dos cavaleiros de Atena. Mas Atena estava no Santuário, sua presença pulsando clara e estática sobre a montanha grega como sempre havia estado, sem dispersão, sem o desgaste de quem está simultaneamente operando em outro plano.
Então não era ela.
Era alguém que ela havia trazido.
Pandora abriu os olhos devagar.
O Submundo havia notado a viagem de Atena a Asgard. Havia notado o retorno. O que ela havia buscado naquele lugar gelado no fim do mundo. Aliados, poder, alguma arma que ela ainda não possuía. Pandora não sabia ao certo. Mas sabia que Atena não viajava sem razão, e não retornava de mãos vazias.
Alguém de Asgard. Ou alguém que Asgard indicou.
Alguém com cosmo refinado o suficiente para construir uma barreira invisível ao redor de duas almas e apagá-las completamente do plano espiritual: sem deixar rastro, sem deixar calor, sem deixar sequer o eco de uma presença.
Ela não sabia quem. Mas sabia que estava acontecendo agora, neste momento, enquanto ela estava aqui parada.
— Então não estão paralisados de medo — disse Pandora, baixinho, para ninguém. — Estão se movendo nas sombras.
Ela caminhou até a borda do salão, onde a escuridão do Submundo se abria em camadas infinitas abaixo dela. Sentiu o calafrio que não vinha do frio do inferno.
A barreira a havia impedido de rastrear as vítimas. Mas havia uma coisa que nenhuma barreira podia apagar: o passado. Ela sabia exatamente onde havia capturado a mulher e o garoto. Sabia o ponto na Terra onde a nave havia caído, onde as Esferas do Dragão haviam sido usadas, onde sua melodia havia tocado pela primeira vez.
Se o agente oculto estava operando, precisava estar próximo das vítimas. E as vítimas, em algum momento, haviam estado ali.
Era o único fio que ela tinha. Ia puxá-lo.
Pandora virou-se para o interior do salão.
— Radamanthys acredita que eles estão paralisados — disse ela, a voz firme agora, despida da contemplação. — Ele está errado. Há alguém operando nas sombras com cosmo suficiente para desafiar uma maldição direta do Submundo. — Ela fez uma pausa, calculando. — Não podemos esperar mais. A batalha começa agora.
Ela pegou a harpa.
— E eu vou descobrir de onde eles estão operando.
A segunda onda chegou sem aviso.
Não pela Muralha; a Muralha de Cristal de Mū segurou. Chegou por dentro.
O Réquiem que Pandora havia plantado nas mentes de Bulma e Trunks ainda estava lá, adormecido entre os fragmentos que Shaka e Mū tentavam reconstruir. Uma semente enterrada antes da barreira existir. E agora ela pulsou: uma vibração escura, deliberada, que percorreu os fios da maldição como corrente elétrica percorre um condutor.
Bulma arqueou as costas.
O pequeno Trunks contraiu o rosto numa expressão que não deveria existir num rosto de nove anos.
— Khan.
Shaka pronunciou o mantra em voz baixa. Não havia urgência no tom; mas precisão. Ele não explodiu seu cosmo. Condensou-o, camada por camada, ao redor das duas camas, erguendo uma segunda fronteira mais interna do que a de Mū: não para bloquear o que vinha de fora, mas para isolar o que pulsava de dentro. Uma cúpula que não brilhava, não emitia calor, não deixava rastro. Apenas... absorvia.
A contração no rosto de Trunks afrouxou.
Bulma parou de se mover.
Mū não disse nada. Mas o cosmo dele redistribuiu-se imperceptivelmente: ele havia sentido a onda interna chegar e registrado que Shaka havia chegado primeiro.
Dois teatros. Dois cavaleiros. Um para cada plano.
Do outro lado da barreira, no vazio onde a consciência de Pandora havia tentado entrar, não havia mais nada a encontrar. A maldição havia batido contra a parede de Khan e se dissipado sem eco, sem resposta, sem nem ao menos o som de sua própria derrota.
Mū abriu uma fresta.
Não na Muralha; a Muralha permaneceu intacta, voltada para baixo, para o plano que Pandora monitorava. A fresta foi para cima, fina como agulha, direcionada com a precisão de quem passa anos reparando fios invisíveis de titânio sagrado. Três pontos de contato. Apenas três.
A voz chegou sem aviso nas mentes de Goku, Kanon e Atena não como sussurro. Como fato.
Mū de Áries. Shaka e eu estamos operacionais. Bulma e Trunks estão sob resgate psíquico: o estado deles é crítico e a maldição é poderosa. Pandora já detectou nossa interferência e está atacando. Estamos contendo.
Uma pausa de um segundo. Depois:
A guerra não é mais iminente.
O canal fechou.
No Santuário, Goku ficou imóvel por um momento. Havia algo na voz de Mū que era mais pesada do que qualquer grito de alarme. Bulma. Ele respirou fundo pelo nariz e assentiu para ninguém.
Ele sabia o que fazer com essa informação.
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