Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

16 Dia 2 - Shiryu, o Cavaleiro de Ouro de Libra


A SAGA DO SANTUÁRIO

O ar no Salão do Grande Mestre parecia ter ficado mais denso, carregado de uma eletricidade estática solene. Todos os olhares convergiam para o centro do recinto, onde a Urna Dourada de Libra repousava, emanando um brilho pulsante e quente, como o bater de um coração antigo.

Shiryu caminhou até ela. Seus passos eram silenciosos, mas firmes. Embora seus olhos estivessem mergulhados na escuridão, sua alma enxergava aquele momento com uma clareza cristalina.

Para os Guerreiros Z — Piccolo, Tenshinhan, 17 e 18 — aquilo poderia parecer apenas uma troca de equipamento. Mas para os Cavaleiros de Atena, era um rito de passagem sagrado.

Shiryu tocou a superfície fria do metal. Sua mente foi inundada por memórias das cachoeiras de Rozan. Ele podia ouvir o riso rouco do Mestre Ancião e sentir o cheiro da chuva sobre as montanhas.

— Por mais de duzentos anos, esta armadura protegeu o corpo e o espírito do meu mestre — disse Shiryu, sua voz embargada pela emoção. — Ele vigiou o selo dos Espectros sentado diante da grande cachoeira, imóvel, uma montanha de sabedoria. Agora... ele a confia a mim.

A urna se abriu com um retinir harmônico. A Armadura de Libra pulsou, desprendendo-se em feixes de luz que reconheciam o novo portador. As doze armas giraram em uma coreografia de ouro antes de se fixarem.

Piccolo estreitou os olhos. Ele sentia algo que os Androides ignoravam: a armadura possuía uma consciência residual, uma memória de sangue e justiça que se fundia ao Ki de Shiryu.

Quando o brilho cessou, o Dragão havia ascendido. O elmo com a face de tigre emoldurava seu rosto sereno, e os escudos nos braços reluziam com a promessa de uma defesa intransponível.

— Incrível... — sussurrou Shun, com lágrimas nos olhos. Ele se lembrava de cada vez que Shiryu sangrou, das vezes que mergulhou na escuridão da cegueira e quase entregou a vida por eles. Ver o amigo finalmente revestido por aquele ouro era a recompensa por todo o calvário de Rozan.

Hyoga sorriu, um brilho de orgulho cruzando seu olhar gélido.

— Ficou perfeita em você, Shiryu. O Mestre Ancião deve estar sorrindo lá de cima. Não há ninguém neste mundo mais digno de carregar o peso da balança da justiça.

Seiya, sentado em um degrau de mármore para poupar suas feridas, ergueu o punho.

— É isso aí, Shiryu! Agora você é um Cavaleiro de Ouro de verdade! Eleve seu Cosmo ao infinito e mostre a eles a fúria do Dragão!

Do outro lado do salão, Piccolo observava a cena. Ele cruzou os braços, sentindo a vibração no ar mudar.

— O Ki dele... amadureceu — comentou o Namekuseijin para Tenshinhan. — Não ficou apenas maior. Ficou denso, carregado de uma sabedoria antiga.

Tenshinhan assentiu, a postura rígida de um monge.

— Sim. A sucessão de um mestre para um aluno é a forma mais pura de imortalidade. Olhe para aquelas doze armas... elas não são apenas metal. São extensões da vontade do mestre dele. Ele está pronto.

Shiryu virou-se para Atena e para os companheiros. A aura dourada de Libra ressoava com a tatuagem do Dragão em suas costas, que brilhava intensamente sob o metal.

— Eu juro honrar o nome de Dohko — declarou Shiryu, sua voz ecoando com uma autoridade que fez o próprio Salão do Mestre vibrar. — Enquanto eu vestir este traje sagrado, a injustiça não passará pela minha guarda.

Saori deu um passo à frente, e o som metálico de seu báculo contra o mármore ecoou como um sino sagrado, silenciando as comemorações de Seiya e Shun. Ela olhou para Shiryu, não apenas como a jovem que ele protegeu tantas vezes, mas com os olhos da Deusa que vira o mundo mudar por séculos.

— Shiryu — chamou Saori, sua voz soando majestosa e serena. — Por duzentos e quarenta e três anos, Dohko permaneceu imóvel diante da Grande Cachoeira, sendo o pilar silencioso da nossa justiça. Ele e Mú foram os únicos que mantiveram a chama da verdade acesa quando a escuridão tentou corromper este Santuário. Sem a sabedoria dele, a nossa caminhada teria terminado antes mesmo de começar.

Ela caminhou até o Dragão, agora transformado em Balança, e pousou a mão delicadamente sobre o escudo dourado em seu braço esquerdo.

— Muitos falarão sobre o peso que você carrega a partir de hoje, sobre a responsabilidade de suceder uma lenda da última Guerra Santa do século XVIII. Mas eu vejo de outra forma.

Saori sorriu, um brilho de orgulho genuíno em seu olhar.

— Para uma deusa que viu gerações de guerreiros caírem e se levantarem, o verdadeiro privilégio é meu. É uma honra para Atena ter o discípulo do meu cavaleiro mais leal assumindo seu lugar de direito na elite do Santuário. Você não é apenas o herdeiro de Dohko; você é a prova viva de que a justiça que ele cultivou em Rozan floresceu de forma perfeita.

Shiryu sentiu o Cosmo de Saori envolver a armadura, e por um instante, o metal dourado pareceu vibrar em uma nota de alegria pura. O peso que ele sentia nos ombros não desapareceu, mas tornou-se leve, sustentado pela gratidão de sua deusa.

— Atena... — murmurou Shiryu, fazendo uma reverência profunda, o elmo de tigre reluzindo sob o sol. — Minha vida e minha alma pertencem à senhora. O Dragão de Rozan agora é a espada e o escudo da justiça de Libra.

O som das grandes portas se abrindo ecoou pelo Salão do Grande Mestre, mas a rajada de vento que entrou não trouxe apenas poeira; trouxe a pressão de dois cosmos que pareciam prontos para a guerra.

Duas figuras cruzaram o limiar.

À esquerda, Gohan caminhava com uma . O novo dogi roxo, presente de Mr. Popo, moldava-se ao seu corpo agora mais denso e marcado. Não havia mais o olhar de dúvida; seus olhos eram fendas de determinação gélida.

À direita, Kanon de Gêmeos.

O impacto visual foi imediato. Ele não precisava de uma armadura para projetar sua autoridade; ele era a própria arma.

Kanon parou, olhou para Shiryu, agora revestido pela majestade de Libra, e soltou um riso curto e seco.

— Ora, ora... Parece que finalmente temos um Cavaleiro de Libra para equilibrar o tabuleiro. Ficou bom em você, garoto — comentou Kanon, o sarcasmo habitual camuflando o respeito. — Tente não arranhar esse ouro antes que a verdadeira festa comece.

O silêncio que se seguiu foi asfixiante. Seiya, Hyoga, Shun e até o impenetrável Ikki encaravam Kanon como se a realidade estivesse se partindo. A última imagem que tinham dele era o vácuo deixado por sua Explosão Galáctica suicida contra Radamanthys.

— Kanon... — a voz de Seiya saiu rouca, um sussurro de pura incredulidade. — É você mesmo? Mas nós vimos... você se tornou poeira estelar para nos dar uma chance.

Ikki de Fênix deu um passo à frente, os olhos fixos no homem sem armadura. Ele sentia a radiação do Cosmo de Kanon — estava mais afiado, mais ríspido, como se o ano de isolamento tivesse removido qualquer resquício de hesitação humana.

— Eu senti sua vida se apagar no limite do Submundo — disse Ikki, a voz grave. — Não restou um átomo de você naquela dimensão.

Kanon desviou o olhar para Saga, que o observava em silêncio absoluto sob o elmo de Gêmeos. O contraste entre o irmão blindado em ouro e o irmão vestido em pano era a imagem perfeita do que eles haviam se tornado: um era o trono, o outro era a espada.

— Não perca seu tempo tentando entender milagres, Fênix — desdenhou Kanon, embora o brilho em seus olhos traísse sua satisfação. — O dragão daqueles estrangeiros decidiu que o inferno era bom demais para mim. E como eu ainda tenho contas a acertar com o exército de Hades, aqui estou.

Atena deu um passo à frente, as lágrimas brilhando em seus olhos. Ela viu em Kanon o resultado de um milagre que unia dois universos.

— Bem-vindo de volta, Kanon — disse Saori, com uma doçura que fez a postura defensiva do Gêmeo vacilar por um segundo. — O Santuário recuperou sua força mais indomável.

Piccolo e Tenshinhan, que observavam das sombras, sentiram um frio na espinha. Piccolo conhecia aquele Ki melhor do que ninguém, mas o que via diante de si era um estranho.

— Tenshinhan... — sussurrou Piccolo, os dentes cerrados. — Aquele não é o Gohan que mandamos para a Sala do Tempo. O Ki dele parou de oscilar. Não há mais bondade, não há mais hesitação. Kanon o transformou em um carrasco.

Gohan ignorou os comentários. Ele não buscou o olhar de Piccolo, nem sorriu para os Cavaleiros de Bronze que o encaravam com desconfiança e espanto. Ele caminhou até o centro do salão, parando a uma distância regulamentar de Atena.

Sob os olhos atentos de todos, Gohan ajoelhou-se com uma precisão militar, baixando a cabeça em uma reverência profunda e formal.

— Atena — disse Gohan, sua voz um tom mais grave, seca e desprovida de qualquer distração emocional. — O treinamento foi concluído. Eu, Gohan, assumo a partir deste momento a guarda da Oitava Casa do Zodíaco. Enquanto eu respirar, ninguém cruzará o Templo de Escorpião.

Kanon soltou um riso curto, cruzando os braços e observando a reação de Saori.

— Ele não está brincando, Saori. O garoto aprendeu que, neste Santuário, a misericórdia é um luxo que os mortos não podem pagar.

Saori olhou para Gohan, sentindo o poder imenso que ele agora controlava — um oceano de fúria contido por uma disciplina de ferro. As lágrimas de alívio por Kanon ainda estavam lá, mas foram substituídas por uma solene aceitação.

— Levante-se, Gohan de Escorpião — disse Saori, sua voz assumindo a autoridade da Deusa. — O Santuário aceita sua guarda.

Seiya olhou para Shiryu, que agora vestia o ouro de Libra, e depois para Gohan. O Pégaso sentiu um arrepio. A guerra nem havia começado, mas ele percebeu que o grupo que sairia dali para lutar contra Hades e Poseidon não era mais uma reunião de amigos.

Gohan se juntou aos seus, ficando entre Piccolo e o 17.

— Como foi sobreviver a esse sujeito por um ano? — perguntou a 18, avaliando o estado das vestes de Gohan.

Gohan não desviou o olhar de Kanon.

— Vocês não fazem ideia do que esses homens são capazes — disse Gohan, e sua voz carregava o peso de mil batalhas mentais. — Onde nós usamos força bruta e Ki, eles manipulam a própria estrutura da matéria através da vontade. O Cosmo deles não é apenas energia; é uma distorção da realidade. Vai ser uma guerra em uma frequência que nunca enfrentamos antes.

Ele se vira para Piccolo.

— Muito obrigado por me colocar para treinar com ele, senhor Piccolo.

Piccolo observa o novo Gohan e assente com a cabeça. Ele sentia que a "limpeza" que Kanon fez na mente de Gohan era profunda.

— Como está o Templo?

— Cheio. — Gohan responde com um pouco menos de rigidez. — Nós levamos a minha família para lá, por precaução.

Kanon, Ikki, Hyoga, Seiya, Shun e Shiryu se aproximam do grupo.

— Quando nós saímos, Áries e Virgem entraram na sala. — Continuou Gohan. — Eles passaram o dia com Bulma e Trunks.

Tenshinhan franziu a sobrancelha.

— Os dois? — Perguntou. — São dois Cavaleiros de Ouro para curar duas pessoas?

— A melodia de um Deus não é um resfriado, tricíclope. — retrucou Kanon com um desdém ácido. — Ou Shaka e Mú estão correndo contra o tempo para salvá-los antes de entrarem na guerra — continuou — ou terão dois corpos vazios para enterrar antes que o primeiro Espectro toque o solo do Santuário.

Piccolo, Tenshinhan, 17 e 18 ficam pensativos por alguns instantes.

— E os outros cavaleiros? — Perguntou Seiya, ansioso.

— Digamos que estão... ajustando as suas arestas — disse Kanon, com um sarcasmo cortante. — Aiolia de Leão parece ter uma memória muito boa sobre quem assassinou o irmão dele. E Shura não é exatamente um homem que pede desculpas.

Hyoga, Shun, Seiya e Shiryu se entreolharam, sentindo o peso daquela tensão milenar que ainda assombrava as Doze Casas.

— Ikki, eu te disse que juntar Aiolia com Shura não ia dar certo... — murmurou Shun, soltando um suspiro pesado.

Ikki apenas deu de ombros, mantendo o olhar fixo no horizonte, onde nuvens carregadas começavam a tingir o céu de roxo.

— Você disse... assassinado? — interveio Piccolo, com uma surpresa genuína que alterou o tom de sua voz. — Mas vocês pareciam tão... civilizados.

— Não sei por que está tão chocado, Piccolo — disparou o 17, secamente, sem tirar as mãos dos bolsos. — Pelo que eu saiba, quase todo mundo neste grupo já quis matar o Goku em algum momento. Civilidade é um conceito relativo para quem vive debaixo de explosões.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som raro: a risada de Ikki. O Fênix virou as costas para o grupo, caminhando na direção à varanda do salão em que se podia ver o início do pôr-do-sol.