Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco
32 Quem Invocou Kanon?
Lá dentro, o ambiente estava afogado no breu. Pandora dedilhava as cordas de sua harpa, mas a melodia não carregava o habitual réquiem de letargia e morte. As notas saíam tensas, com um compasso arrastado e pesado. O semblante da mulher não era de concentração e foco, mas de quem tentava desesperadamente decifrar um enigma no plano astral: intrigada com a resistência que suas amarras espirituais vinham sofrendo nas últimas noventa e seis horas.
Radamanthys entrou no recinto; o som dos passos pesados e urgentes ressoou pelo quarto, competindo com a música, até que Pandora finalmente interrompesse o toque. Ela ergueu os olhos frios na direção do Juiz.
— Senhorita Pandora — a voz de Radamanthys era um rosnado contido, camuflando o ódio crescente — O Imperador Hades exige a sua presença no salão principal. Imediatamente.
Pandora não se moveu de pronto. Seus dedos pálidos ainda repousavam sobre as cordas tensionadas da harpa. Havia sombras sutis sob seus olhos, mas a sua postura de superioridade permanecia.
— Há algo que eu já deva saber de antemão, Radamanthys? — ela perguntou, a voz ecoando no quarto.
O Juiz do Inferno encurtou a distância, aproximando-se o suficiente para que a silhueta de sua armadura projetasse uma sombra sobre ela.
— Melhor não deixá-los esperando — Radamanthys retrucou com os olhos faiscando. — Poseidon e dois de seus Marinas também estão aguardando por você.
O cenho de Pandora se fechou levemente. A presença repentina e física do Imperador dos Mares na Giudecca não constava em nenhum de seus cálculos.
Com lentidão que disfarçava o esgotamento de sua mente, ela se levantou, alisando o tecido impecável de seu vestido escuro. Sem proferir mais uma palavra, Pandora passou por Radamanthys como se ele fosse apenas um espectro irrelevante, cruzou o batente e iniciou sua marcha pelos corredores lúgubres rumo ao salão do trono.
Em seu encalço, o Juiz de Wyvern a seguiu, com o pensamento dividido entre o que estava prestes a acontecer no grande salão de Hades e o que já estaria acontecendo no Santuário de Atena.
A silhueta de Pandora emergiu das sombras do corredor principal, caminhando em direção ao centro da Giudecca sob o escrutínio de Thetis, Sorento, Aiacos e Poseidon.
Enquanto a mulher de cabelos negros se aproximava, o Imperador dos Mares cravou a base do tridente no chão, mas o deus engoliu a própria irritabilidade. Aquela mortal não era uma serva qualquer; era a comandante suprema de Hades. Mais importante do que isso: fora ela quem articulara a invocação do dragão mágico e os arrancara do esquecimento eterno. Uma tratativa furiosa e explosiva não lhe daria as respostas de que precisava agora.
Pandora parou no centro geométrico do salão, com Radamanthys a poucos passos atrás de si, como a sombra de um carrasco.
— Mandou me chamar, Imperador Hades? — a voz dela soou polida.
Hades ajustou sua postura no trono, a aura gélida fluindo enquanto ele inclinava o tronco na direção de sua serva.
— Pandora... — começou Hades, a voz revestida de uma serenidade condicionada. — Diga-me. O que exatamente você pediu àquelas relíquias mágicas? Quais foram as suas palavras?
Pandora deu um passo à frente, mantendo o queixo erguido.
— Eu exigi que o dragão ressuscitasse os Imperadores do Submundo e dos Mares, acompanhados de seus respectivos exércitos do século passado.
Fez-se um silêncio no salão.
Poseidon franziu o cenho. Na base das pilastras, Thetis de Sereia piscou, enquanto Sorento de Sirene e Radamanthys se entreolharam com uma estranheza súbita e incômoda.
— Tem certeza de que esta foi a formulação? — perguntou Hades, os olhos perfurando a alma da mulher.
— Sim, meu Imperador — Pandora respondeu com naturalidade, ainda alheia ao problema. — A criatura mágica avisou que o desejo era audacioso e que alteraria a ordem natural do universo, mas confirmou que era possível realizá-lo. Posso perguntar o motivo deste inquérito?
Hades soltou um suspiro frio, acomodando lentamente a coluna de volta no encosto do trono de pedra.
— Aparentemente, a sua criatura mágica não levou em consideração traições ou mudanças de lealdade. Um ex-General Marina, que traiu os oceanos para se tornar um Cavaleiro de Ouro de Atena e que morreu sob o meu domínio, foi trazido de volta no seu pacote de ressurreição. Ele se encontra vivo, operante e comandando as defesas da Grécia neste momento.
O cenho de Pandora se fechou.
— Qual Cavaleiro de Ouro renasceu? — ela perguntou, a voz quase num sussurro.
— Kanon de Gêmeos — respondeu Poseidon, o ódio vazando por entre os dentes.
Pandora inclinou a cabeça, a confusão se aprofundando.
— Mas o Cavaleiro de Gêmeos não se chamava Saga? — perguntou ela, tentando encontrar o fio lógico naquela teia de absurdos.
Sorento de Sirene virou o rosto para a comandante de Hades, a flauta dourada reluzindo à meia-luz do salão.
— A constelação de Gêmeos é a única que carrega o fardo e a maldição da dualidade, senhorita Pandora — explicou o Marina, conhecendo bem o passado do usurpador. — Aparentemente, existem dois Cavaleiros para aquela mesma armadura. Há um irmão das sombras.
O silêncio que se seguiu pareceu engolir a explicação de Sorento, até que Pandora voltou a pensar em voz alta:
— Ainda assim... se ele morreu no Cócito como um Cavaleiro leal a Atena e sendo um Marina desertor, as restrições da esfera mágica não o teriam alcançado. Ele, definitivamente, não deveria ter ressurgido.
Foi Thetis quem verbalizou o terror que começava a emergir das pilastras do salão.
— Então... quem invocou Kanon? — a Sereia fez a pergunta proibida que permeava a mente de todos, olhando diretamente para as sombras do trono. — Como uma alma foi arrancada debaixo da terra se ninguém tem poder neste reino além do Imperador Hades?
A pergunta de Thetis soou como uma heresia, mas não houve punição. Pela primeira vez em eras, a máscara de tédio e controle do Imperador dos Mortos rachou.
O semblante de Hades mudou. A confiança intocável deu lugar a um vinco duro e sombrio entre as sobrancelhas.
— Aiacos — a voz do deus soou não era o eco distante de uma divindade intocável.
O Juiz de Garuda endireitou a postura de imediato.
— Sim, meu Imperador.
— Desça ao Cócito. Localize as prisões e os selos de cada um dos Cavaleiros de Ouro no Submundo imediatamente — ordenou Hades, a cadência de suas palavras denunciando a gravidade do cenário. — Esta é a prioridade número um. Movimente todos os Espectros disponíveis para isso. Agora.
Aiacos deixou o seu posto ao lado do trono. Com firmeza, desceu as escadarias e marchou a passos rápidos pelo salão, passando pelos convidados oceânicos, por Pandora e por Radamanthys. Ninguém ousou dizer uma palavra até que o som metálico de sua sobrepeliz sumisse completamente pelo corredor escuro.
Quando o salão voltou ao silêncio, Hades voltou seus olhos para o Imperador dos Mares.
— Poseidon — chamou Hades, o timbre sombrio reverberando pelas pedras. — Mais cedo, nós divergimos sobre o nível de força a ser aplicado na superfície.
Poseidon sustentou o olhar, segurando o tridente.
— Por mim, não faz a menor diferença se não restar uma única pedra inteira daquele Santuário — decretou o deus do Submundo, selando de vez o destino da Grécia.
Poseidon curvou os lábios em um sorriso de aprovação. O deus dos oceanos se virou parcialmente para a sua Sereia.
— Se as bestas de Atena dependem apenas de força bruta, vamos afogá-los naquilo que não podem socar — ordenou Poseidon. — Thetis, avise Io de Scylla e Krishna de Chrysaor que eles são os próximos. Vamos mandar os nossos guerreiros psíquicos e místicos para neutralizar esses animais.
A Marina fez uma reverência apressada e caminhou rumo à saída da Giudecca com passos urgentes.
Enquanto a silhueta de Thetis desaparecia, Radamanthys de Wyvern estreitou os olhos e deu um passo para o lado, parando ao ombro de Pandora. A voz do Juiz saiu num sussurro audível o suficiente para os presentes:
— Ainda precisamos tirar Atena do conforto de uma batalha defensiva no próprio Santuário. Se os forçarmos a dividir as atenções, o escudo deles cede.
Pandora ergueu o queixo, um brilho de malícia reativando o seu orgulho ferido.
— E eu sei exatamente como fazer is...
O som das pesadas portas da Giudecca ecoou antes que ela pudesse terminar a frase. Minos de Griffon não deixou o portão se fechar após a saída de Thetis. O Juiz interceptou a folha de madeira com a mão enluvada e adentrou o salão a passos elegantes. Os longos cabelos prateados esvoaçaram levemente, e em seu rosto repousava um sorriso astuto e insuportavelmente satisfeito.
— Acabo de retornar do epicentro da queda daquela nave, o mesmo local onde a senhorita Pandora invocou o dragão — anunciou Minos, adiantando o assunto enquanto marchava para o centro do salão.
Todos os presentes, deuses e comandantes, acompanharam-no com o olhar.
Minos finalmente parou, posicionando-se polidamente ao lado de Pandora, deixando-a ladeada entre ele e o rosnado silencioso de Radamanthys.
— A mulher civil e a criança não estão mais lá. Evaporaram — relatou o Griffon, erguendo o olhar para o trono. — Só o que sobrou foi um rastro de devastação compatível com esses Cosmos grotescos que emanam da Grécia agora.
Poseidon apoiou o peso no tridente, encarando o Espectro de fios prateados com certa impaciência altiva.
— E como essa sua excursão inútil até a superfície nos dá a capacidade de tirar a batalha do Santuário, Juiz?
Minos de Griffon ergueu uma sobrancelha. O sorriso sádico alargou-se, transformando-se na face de um predador que acaba de encontrar a jugular exposta da presa.
— A nave ostenta a insígnia da Corporação Cápsula, no centro da Capital do Oeste — revelou Minos, saboreando cada sílaba. Ele abriu os braços num gesto teatral. — É uma metrópole de mortais. O local só tem civis; não há uma única barreira mágica, nem uma pessoa armada sequer no perímetro. Quem quer que esteja rugindo no Santuário agora... cometeu o erro amador de não cobrir a própria retaguarda.
Hades apoiou o cotovelo no braço do trono de pedra, o olhar mergulhado em reflexão.
— Pode ser um engodo — ponderou o Imperador dos Mortos, a voz fria cortando a euforia de Minos. A guerra, que antes parecia um simples massacre de peças menores, agora revelava camadas indigestas. — Mas precisamos devolver o recado que nos mandaram na mesma proporção.
Lentamente, o pesado manto negro esvoaçou. Hades se levantou do trono e o simples ato de o deus se colocar de pé fez a temperatura da Giudecca cair e o ar pesar. O jogo havia mudado.
— Posso cuidar disso pessoalmente, Imperador Hades — ofereceu-se Pandora, dando um passo à frente com o rosto curvado em devoção. Em seu íntimo, a comandante ocultava a informação sobre a guerra mental que já travava contra as forças de Atena no plano astral. — Vou mostrar ao inimigo as consequências de deixar o próprio refúgio exposto.
Hades fez um breve e silencioso aceno de concordância.
— A partir de agora, a grande barreira do Submundo está operante — sentenciou o deus, após uma pausa reticente e sombria, ativando a maldição que drenaria o poder de qualquer invasor que pisasse em seus domínios. — Pandora atrairá o inimigo para a própria casa. Radamanthys e Minos... forcem parte dessa batalha para dentro do Submundo.
Na base da escadaria, Poseidon estreitou o olhar e virou-se bruscamente para o General de Sirene.
— Inunde a Grécia, Sorento — a voz de Poseidon foi firme. — E arrebente as placas sobre as quais ela se funda. Afunde o Santuário.
Dividir o inimigo. Pulverizar suas forças em um ataque simultâneo que seria físico, psíquico, geológico, geográfico e, acima de tudo, pessoal. Era exatamente assim que o Império do Submundo e a Coroa dos Mares devolveriam a afronta de Atena.
Debaixo d’água, o primeiro a sentir a fúria da retaliação dos inimigos foi Shun. O cavaleiro de Andrômeda sentiu as águas subirem violenta e vertiginosamente. O craquelar da crosta terrestre trincando era uma vibração que subia pelo metal das Correntes de Andrômeda, esgarçando os músculos dos braços do Cavaleiro de Bronze e deixando marcas roxas profundas em sua pele.
Anos atrás, na Ilha de Andrômeda, o teste final para sua armadura exigiu que ele queimasse seu cosmo para arrebentar as correntes amarradas aos rochedos antes que a maré o afogasse. O Sacrifício de Andrômeda. Agora, a lógica havia se invertido cruelmente. As pontas de ataque e defesa estavam cravadas nas extremidades da falha geológica. Ele usava tudo o que tinha, cada gota de sua energia vital, para não deixar as correntes cederem.
No Santuário, o impacto do que acontecia nas profundezas foi sentido como um terremoto. O cosmo de Andrômeda explodiu ao máximo. Na Nona Casa, a ressonância do perigo fez com que a flecha da Armadura de Sagitário mirasse diretamente para o chão. O abismo tentava engolir o mundo de baixo para cima.
Shun apertou as correntes com tanta força que o metal rangeu contra seus dedos. Manteve as pálpebras cravadas uma na outra, o rosto vermelho, as bochechas inchadas e os pulmões queimando pela asfixia. A pressão ameaçava esmagar suas costelas. Se ele soltasse, sobreviveria, mas milhões morreriam na superfície.
Não era uma opção. Ele aceitou o afogamento.
Mas quando a borda de sua consciência começou a escurecer e o cosmo oscilou para o fim, a física ao seu redor interrompida por um zumbido elétrico contínuo.
A água gelada que esmagava o rosto de Shun foi empurrada por uma onda de energia expansiva. Um domo de luz e contornos artificiais rasgou as trevas, isolando o oceano em uma redoma. A pressão sumiu e o vácuo foi imediatamente preenchido por oxigênio.
Com as mãos ainda travadas nas correntes, Shun puxou o ar de volta aos pulmões com um engasgo violento. Tossiu água, o peito subindo e descendo em espasmos desesperados. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, lacrimejantes e salgados, deparou-se com a expressão de tédio do Androide Número 17.
— Dezessete? — a voz do Cavaleiro de Bronze saiu rouca.
— Você está péssimo — comentou o androide, tirando a mão livre do bolso da calça. Ele segurava um pequeno grão verde.
Dezessete esticou o braço e enfiou a semente na boca entreaberta e ofegante de Shun.
— Mastiga e engole.
O Cavaleiro obedeceu por reflexo e, instantaneamente, seus olhos se arregalaram. O cansaço desapareceu. Os músculos rompidos de seus braços se curaram e seus pulmões se encheram.
O androide não mudou a postura. Apenas inclinou levemente a cabeça, observando a rachadura colossal que dividia o leito oceânico logo à frente deles.
— Fica frio. Nós vamos empurrar a pedra de volta para o lugar. Você só precisa manter o nó apertado — respondeu Dezessete, com a mesma naturalidade de quem sugere empurrar um carro enguiçado.
A alguns quilômetros dali, uma rede de força bruta acabava de cercar a placa tectônica do Mar Egeu. Goku flutuava sobre as águas revoltas do Mar Jônico; a Androide 18 pairava ao sul de Creta; Vegeta, ignorando a fúria e a própria urgência, assumira a fronteira da Tessalônica; e Uub ancorava as águas em Rodes.
Juntos, formavam uma prensa continental.
Mantendo a aura estável para isolar a água, Dezessete tirou uma das mãos do bolso e a espalmou contra a parede de rocha maciça da falha geológica.
Então, o sinal ecoou.
A voz telepática de Goku ressoou diretamente em suas mentes, ancorada nas assinaturas de ki de cada um.
— AGORA!
O Santuário, e toda a extensão da Grécia, tremeu, mas com um impacto oposto ao da destruição. Uma força sincronizada bateu contra as quatro extremidades da placa continental. O assoalho oceânico gemeu e rocha foi empurrada contra rocha. Ao lado de Shun, Dezessete flexionou o braço, afundando os dedos na pedra sólida, empurrando sua parte da falha.
A rachadura começou a fechar.
Shun sentiu a tensão das correntes afrouxar o suficiente. Sem perder tempo, puxou os elos de Andrômeda com um grito gutural, tracionando o metal divino, costurando as bordas da crosta terrestre que os Guerreiros Z haviam forçado a se encontrarem. A Grécia inteira fora prensada e trancada no lugar.
Centenas de léguas abaixo, no Reino de Poseidon, o abalo sísmico reverso derrubou pilares de mármore e fez as correntes marítimas entrarem em colapso. O teto de água sobre a cabeça dos Marinas reverberou o impacto.
Os radares espirituais do exército dos mares rastrearam o oceano em busca da origem da resistência. A leitura que chegou aos Generais foi claríssima: o inconfundível cosmo de Andrômeda ardia na falha do Egeu.
Solitário. Exausto. Preso às próprias correntes, segurando a estrutura da placa com a própria energia vital.
Não havia mais nada detectável ali. Nenhum outro cosmo. Nenhuma energia agressiva.
Nem Ikki.
Um alvo isolado. O cenário perfeito para um abate.
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