A BATALHA DAS 12 CASAS

No pico isolado de Star Hill, a descida furtiva dos quatro Cavaleiros de Ouro foi interrompida com violência.

O gigante Aldebaran de Touro fincou suas botas de ouro no chão de pedra e parou subitamente. Abrindo os braços maciços como uma muralha, o taurino serviu de freio vivo evitando que Saga, Máscara da Morte e Shura perdessem o equilíbrio e fossem arremessados para a frente rumo ao abismo do penhasco.

Estar fisicamente na Grécia era mais angustiante do que observar a crise do silêncio da Plataforma Celeste. Ali, no topo do mundo antigo, com o vento carregado de poeira e cheiro de sangue batendo em seus rostos, a elite de Atena podia ver o real tamanho da encrenca.

A península grega fervia com a infantaria inimiga; as tropas rasas de Hades e de Poseidon se espalhavam como uma praga por todas as frentes visíveis.

No céu acima do Santuário, o imenso domo dourado do Cosmo de Atena brilhava sob o sol, agora duplamente protegido por uma intransponível abóbada de gelo erguida por Hyoga. Pairando no ar, ao redor da barreira congelada, três mortais — Kuririn, Tenshinhan e Yamcha — moviam-se em borrões de velocidade, interceptando as rajadas inimigas e convertendo os estilhaços de gelo e rocha que voavam pelos ares em uma tempestade de milhares de pedaços contra o exército invasor.

Mais além, no horizonte, os Cosmos de Goku, Vegeta e um guerreiro desconhecido rasgavam os céus, dirigindo-se de volta ao Santuário numa velocidade quase inimaginável após terem trancado as falhas geológicas. Nas redondezas, as auras de Piccolo, Gohan e de mais um guerreiro que os Dourados não conseguiam identificar à distância pesavam sobre a gravidade local. Sentir aqueles poderes lá de cima era uma coisa; encará-los presencialmente era sentir o próprio ar sendo esmagado pela imponência daquelas assinaturas de energia.

Saga de Gêmeos abaixou o braço de Aldebaran e assumiu a liderança.

— Mantenham os Cosmos completamente ocultos — ordenou o ex-Grande Mestre.

Saga conhecia Star Hill melhor do que qualquer ser vivo. Por treze anos, aquela montanha fora o seu santuário particular, o palco de seu maior pecado e o esconderijo de seus segredos. Com passos rápidos e silenciosos, ele guiou o Touro, o Câncer e o Capricórnio por uma trilha escarpada e esquecida pelas lendas, calculando as sombras do relevo de modo que a forte luz do sol do meio da tarde não refletisse no ouro de suas armaduras.

— Não é por nada, não — a voz arrastada de Máscara da Morte quebrou o silêncio, vindo do fim da fila. — Mas já que estamos aliados àquela gente esquisita, a gente bem que podia ter aprendido a voar, né? O sol está a pino. Vamos chegar lá embaixo assados e suados de tanto correr com essas toneladas nas costas.

Aldebaran e Shura, que corriam logo atrás de Saga e à frente do canceriano, não conseguiram segurar o riso.

— Uma Guerra Santa estourando no nosso quintal e você está preocupado com o próprio conforto, Máscara da Morte? — a reprimenda de Saga soou à frente, o tom sério sendo parcialmente levado pelo vento.

— Eu acabei de ser revivido, Saga! — retrucou o canceriano, saltando com agilidade sobre uma fenda na rocha. — Faz vinte anos que eu não ocupo um corpo de verdade sem ser como um zumbi ou um fantasma. Me dá um tempo para reclamar das bolhas!

— A sua assadura vai ter que aguentar, Máscara da Morte — comentou Shura, com um sorriso de canto de boca sob o elmo. — E pare de reclamar. A guerra deve durar bem menos do que você imagina agora que todos os Cavaleiros de Ouro estão lutando juntos do mesmo lado.

A menção à união invencível da elite dourada deveria ter sido um ponto de confiança, mas a voz pesada de Aldebaran cortou o clima.

— Nem todos.

Lá na frente, Saga não parou de correr, mas fechou o cenho, os olhos cravados no caminho de pedras.

— Como assim, nem todos? — perguntou Shura, virando o rosto levemente para trás.

O taurino voltou a ficar completamente sério, a lembrança do quarto na Plataforma Celeste pesando em sua mente.

— O resgate astral que Mú está fazendo lá em cima — explicou Aldebaran, a voz exalando respeito. — é custoso demais. E sustentar aquele nível de manipulação mental mantendo o próprio Cosmo totalmente oculto dos deuses é ainda mais desgastante. Temos que nos preparar para entrar nessa batalha sem o Carneiro.


Na Plataforma Celeste, a guerra travada nas sombras cobrava o seu pedágio.

O pesado elmo de Áries repousava esquecido sobre a beirada da cama, enquanto Mú suava em bicas. O semblante impávido e professoral do Carneiro Dourado mascarava a agonia de sua alma, mas o seu corpo físico começava a traí-lo. A respiração, antes perfeitamente ritmada, agora falhava em compassos curtos, e as mãos que lateralizavam a cabeça do pequeno Saiyajin oscilavam de forma quase imperceptível pelo tremor da exaustão.

Do outro lado do quarto, operando no limite de sua própria energia para estabilizar o fluxo em torno da cientista, Kiki já havia percebido. O rapaz tinha o dom da empatia Lemuriana e sabia que aquele trabalho de contenção prolongada já estava drenando a força vital do seu mestre.

— Shaka — a voz de Mú rasgou o silêncio denso do aposento.

— Também percebi, Mú — respondeu o Virginiano, na mesma posição de lótus no chão.

Shaka desfez o rígido selo de barreira que vinha mantendo. As suas mãos levitaram suavemente até a altura do peito, onde o polegar e o dedo indicador se uniram de forma suave, formando um círculo perfeito — o Jnana Mudra. Na engrenagem invisível daquela cura, o gesto ancestral da Percepção e da Sabedoria representava um radar dourado projetado para rasgar a escuridão do limbo astral e varrer cada centímetro da consciência despedaçada das vítimas.

— O réquiem de Pandora simplesmente cessou de forma abrupta. — continuou o Virginiano, usando a clarividência do selo para confirmar o recuo repentino.

Encostado no batente da porta de braços cruzados, Aiolia mastigou e engoliu uma das estranhas e doces uvas que o Sr. Popo lhe havia trazido mais cedo. A tensão endureceu os traços do Cavaleiro de Leão.

— Precisamos avisar os outros lá embaixo — pontuou Aiolia. — Pandora não abandonaria o cerco mental que estava mantendo contra vocês sem motivo. Estão tramando algo.

— Por que não aproveita essa brecha e faz uma pausa para se restabelecer, Mestre? — interveio Kiki, o tom carregado de uma aflição que não combinava com o seu habitual otimismo. — O senhor voltou à vida muito mais poderoso do que quando morreu no Muro das Lamentações, mas já são dias a fio lutando no invisível!

Mú ajustou a coluna, forçando a postura a ficar mais ereta, e reacendeu o brilho telecinético em suas mãos.

— Eu dei a minha palavra a Vegeta de que Trunks seria curado primeiro, por colecionar muito menos anos de memórias do que a mãe — respondeu Mú, mantendo o olhar pesado e fixo no rosto pálido do garoto. — Cada minuto que eu avanço aqui é uma chance a mais de ganharmos o tempo necessário para salvar Bulma também.

— Mú — advertiu Shaka, apesar da voz serena. — Precisamos de você lá embaixo.

— Nós contamos com a força dos Saiyajins na defesa da nossa casa, assim como eles confiaram no nosso Cosmo para curar a família deles — Mú respondeu, sem alterar o tom brando, mas com a firmeza intransponível. — É assim que honramos essa aliança. Eu não saio desta Plataforma enquanto ao menos um dos dois não estiver de olhos abertos.

Sem desfazer o elo com a mente do garoto, o Ariano afrouxou o contato da mão direita sobre a cabeça de Trunks e esticou o braço, os músculos tremendo pelo esforço contínuo, para alcançar um copo de água sobre a mesinha de cabeceira. A mão esquerda permanecia espalmada a centímetros do rosto do garoto, os dedos já repuxando em dolorosos espasmos de cãibra.

A mesinha, repleta de suprimentos, fora uma providência de Videl. A jovem de cabelos curtos circulava silenciosamente pelo quarto em intervalos regulares, trazendo água e pequenas porções de comida para tentar manter os Cavaleiros funcionando enquanto seus Cosmos lutavam no invisível.

— Poderia compartilhar conosco qual era o cenário do Santuário quando você o deixou, Kiki ? — solicitou Shaka, a voz ecoando suavemente através do Jnana Mudra.

Kiki coçou a nuca, ajeitando a postura. Aos vinte e oito anos, o Lemuriano já era um homem adulto e um mestre nas artes telecinéticas, mas a sua personalidade elétrica e as expressões vívidas preservavam a mesma faísca de quando era apenas o aprendiz de Áries.

— Bom — começou ele, listando mentalmente. — Todas as Casas Zodiacais estão com defensores. O Goku desceu voando com aquele garoto chamado Uub para cobrir a Casa de Aldebaran... e o Vegeta chegou com o Trunks.

Encostado no batente da porta, Aiolia deu uma mordida ruidosa em uma maçã, substituindo as uvas do Sr. Popo por algo mais consistente. O Cavaleiro de Leão parou de mastigar e olhou para o Lemuriano.

— Mas você cismou mesmo com essa história, hein... — Aiolia balançou a cabeça, soltando um suspiro de descrença. — O Trunks está bem aí na sua frente, em coma.

— Eu não cismei, Aiolia! — retrucou Kiki, gesticulando com as mãos, a paciência encurtando. — Tem um homem adulto que chegou ao Santuário dentro de uma daquelas naves. Ele vai defender a Casa de Capricórnio, tem exatamente a mesma energia desse garoto aí e também se chama Trunks!

Aiolia parou a maçã a meio caminho da boca. O tom de certeza do adulto Kiki finalmente quebrou o ceticismo do Leonino. Cavaleiros confiavam na visão, mas Lemurianos confiavam na percepção do espírito. Se Kiki dizia que as duas almas eram a mesma, alguma coisa muito estranha permeava Trunks. Seja lá qual deles.

Ele olhou para a escuridão da madrugada no pátio externo. Apenas Afrodite, Dendê e o Mestre Kame estavam despertos, conversando em voz baixa próximos à borda da Plataforma Celeste, com os olhares perdidos na direção da Grécia. O relógio no templo já marcava pouco mais da uma da manhã daquele lado do mundo — e mais de doze horas desde que Milo e Camus haviam entrado na Sala do Tempo.

De repente, a conversa lá fora cessou. O Pisciano deu as costas para o abismo e veio caminhando a passos duros em direção aos aposentos onde a família Briefs descansava. Afrodite carregava uma expressão de preocupação e incredulidade totalmente incompatíveis com a sua natureza blasé e sedutora. Mestre Kame e Dendê vinham logo atrás dele, os rostos transparecendo não entender muito bem o motivo da súbita tensão do Dourado.

Aiolia franziu o cenho à medida que Afrodite se aproximava, ajustando a própria postura no batente da porta para abrir passagem. O Pisciano passou por ele como um vendaval e parou no centro do quarto.

— Nós temos um problema sério — anunciou Afrodite, a voz seca. Ele apoiou uma mão na cintura dourada e levou a outra ao rosto, massageando as têmporas e o queixo.

Mestre Kame e Dendê passaram por Aiolia e pararam polidamente aos pés da cama de Trunks para não atrapalharem o fluxo de energia. Mú permaneceu em sua concentração, mas Shaka apenas inclinou levemente a cabeça na direção em que a voz de Afrodite vinha.

— Qual é a natureza do problema, Afrodite? — perguntou o Virginiano.

O Cavaleiro de Peixes ignorou a pergunta direta e se virou para o conterrâneo de Mú.

— Kiki, — o tom de Afrodite soava investigativo. — você consegue me descrever em detalhes como era a nave em que o homem idêntico a esse garoto chegou?

Sem afastar as palmas das laterais da cabeça de Bulma, Kiki levantou o olhar para o teto, buscando a imagem.

— Hmm... — ele franziu a testa, puxando na memória. — Era uma máquina de formato oval, com a cúpula de cima transparente. Tinha detalhes em amarelo, a palavra "HOPE" e o número 1 pintados bem na frente. A mesma tecnologia da nave do Vegeta.

A resposta atingiu Mestre Kame e Dendê com uma faísca de empolgação pura.

— Ah, então não tem como ser outra pessoa! — exclamou Mestre Kame, sorrindo e batendo a ponta da bengala no chão de pedra. — É o Trunks, com toda a certeza! Veio nos ajudar de novo!

A comemoração dos dois não contagiou os demais. Aiolia ficou paralisado na porta, os dois braços agora cruzados sobre o peito. Afrodite, no entanto, expirou tão profundamente que seus ombros caíram.

— E onde foi exatamente que essa engenhoca surgiu, Kiki? — continuou o Pisciano, a voz descendo para um tom perigoso.

— Surgiu do nada. No pátio aberto, logo na entrada da Casa de Áries — confirmou Kiki, voltando o olhar focado para Bulma.

— O que foi que houve, Afrodite? Desembuche. — cobrou Aiolia, a paciência esgotando.

O guardião da casa 12 se virou para o leonino.

— O Kiki estava certo o tempo todo, Aiolia. Aquele garoto não é um sósia ou um parente — Afrodite caminhou lentamente, os olhos semicerrados fixos no chão. — Tem um Trunks adulto lá no Santuário, que é a versão deste aqui. Só que vindo do futuro.

A respiração de Mú, Kiki, Shaka e Aiolia pareceu travar simultaneamente no ar denso do quarto. A temperatura ambiente caiu.

Lentamente, o protetor da Sexta Casa abriu o olho esquerdo, revelando um azul turquesa carregado de absoluta perplexidade.

— Você está me dizendo que eles furaram a linha do tempo... — começou Shaka, a voz arrastando o peso aterrador daquela constatação, o cenho franzido em um misto de desgosto e assombro místico — …bem dentro dos limites sagrados do Santuário de Atena?

O Cavaleiro de Peixes assentiu lentamente com a cabeça, o olhar sombrio confirmando o pior dos cenários.

— Puta que pariu! — praguejou Aiolia, perdendo completamente a compostura. O Leonino esfregou as duas mãos com força pelo rosto tenso, como se tentasse acordar de um pesadelo prolongado.

A gravidade foi tamanha que Shaka rompeu de vez a liturgia do seu próprio poder. O Virginiano abriu também o olho direito, revelando por completo a imensidão turquesa e implacável de seu olhar. O Cosmo contido no quarto oscilou visivelmente.

Do outro lado do aposento, os dois aliados pareciam genuinamente confusos com a reação dramática que engolira o quarto. Enquanto Aiolia exibia uma expressão de puro pânico, Mestre Kame e Dendê se entreolhavam, sem entender o problema.

— Rapazes, mas o que é que está acontecendo? — perguntou Mestre Kame, erguendo a mão livre. — Trunks é exatamente o reforço que vocês mais precisam agora! Ele destruiu inimigos absurdamente poderosos na linha do tempo dele, e fez isso sozinho. Por que o pânico?

Shaka, com os olhos agora totalmente abertos, cravou sua atenção no velho mestre das artes marciais.

— As leis do tempo são os pilares mais sagrados de todo o universo, Mestre Kame — a voz de Shaka soou fora do seu tom pacífico habitual. Era severa e fria. — Nem mesmo os deuses ousam modificá-las sem pagar um preço.

— E vocês não apenas fizeram isso, como o fizeram dentro do Santuário de Atena — emendou Afrodite, a mente rodando em cenários catastróficos. — Pousar uma máquina dessas em nosso solo sagrado e reescrever o destino tem consequências cármicas muito mais letais do que a própria guerra que está acontecendo agora.

Mestre Kame se inclinou levemente para a frente, apoiando o peso em seu cajado, tentando trazer pragmatismo mortal para a dogmática dos deuses.

— Vocês estão exagerando. Nós já fi...

O ancião foi silenciado por um movimento impensável.

As mãos que, durante dias a fio, não haviam se afastado da mente do garoto, tombaram pesadas sobre as coxas do Carneiro Dourado. O telecinético mais focado de Atena interrompeu o fluxo de cura e virou o rosto exausto para os convidados. Seu semblante professoral havia desaparecido.

— Não, Mestre Kame — interveio Mú, a voz carregando um peso fúnebre. — O que Afrodite e Shaka estão tentando dizer é que o Olimpo inteiro pode vir cobrar essa dívida. Esse ato pode nos custar não apenas esta guerra contra Hades... mas a existência da própria Atena.

Dendê e o Mestre Kame deram um passo instintivo para trás, percebendo que a reprimenda no rosto de cada um dos Dourados não era arrogância ou excesso de decoro, mas o terror genuíno de guerreiros que conheciam de perto a crueldade e a ira dos deuses.

— Ora, mas se a brincadeira com o tempo é tão grave assim contra a ordem natural... — argumentou Mestre Kame, ajeitando os óculos escuros no rosto com a ponta do dedo. — Por que os seus deuses todo-poderosos permitiram que a Bulma nascesse com inteligência o suficiente para construir a máquina, então?

Os quatro Cavaleiros de Ouro se entreolharam, profundamente pensativos. Os olhares recaíram sobre Bulma, deitada na cama, já sem se debater, e depois pairaram por um longo tempo no rosto de Trunks. Sem proferir uma única palavra para rebater o argumento do ancião, Mú exalou um suspiro audível. O Carneiro Dourado engoliu a fadiga, ergueu as mãos trêmulas e reacendeu a sua aura pacífica ao redor da cabeça do garoto em coma. Shaka voltou a fechar os olhos, ainda mantendo o semblante fechado.

A pergunta de Mestre Kame ficou pairando no ar frio da madrugada, sem resposta.

Mas Aiolia não possuía a mesma paciência contemplativa de seus companheiros. O estresse de comandar a defesa do Santuário começava a transbordar.

— Tem mais algum "segredinho" sobre vocês que nós precisamos saber? — o Cavaleiro de Leão disparou da porta, os olhos cravados nos dois.

Dendê e o Mestre Kame olharam um para o outro por um instante, vasculhando a mente em busca de mais alguma quebra de lei universal. Em conjunto, balançaram a cabeça em uma negação quase sincronizada.

— Têm certeza? — Aiolia reiterou, o tom desconfiado beirando a hostilidade. — Porque se tiver mais alguma regra que vocês transgridam, nós precisamos saber agora para termos a chance de resolver a situação.

Mestre Kame fechou o cenho, visivelmente irritado, a aura inofensiva evaporando.

— Escute aqui, rapaz — Mestre Kame bateu a base do cajado de madeira contra o chão de mármore, o som ecoando pelo aposento. — Você acha mesmo que eu seria louco de colocar em risco a vida de uma moça como Atena?

O deus da Terra deu um passo em direção para fora da porta, o rosto verde repentinamente fechado. Ignorando a presença dos Dourados, Dendê passou por Aiolia a passos duros e caminhou até a beirada da Plataforma Celeste, virando o rosto na direção Oeste.

Aiolia e Afrodite trocaram um olhar de sobreaviso. Deixaram o batente da porta para acompanhar o Kami Sama até o limite da laje celestial.

— Há uma energia sombria se movimentando na superfície... e vindo de debaixo da terra — anunciou Dendê, a voz esganiçada revelando o peso da ameaça.

Afrodite estreitou os olhos, expandindo os próprios sentidos para rastrear a anomalia.

— É a energia de Pandora — o Pisciano cerrou o cenho, o rosto aristocrático, agora em repulsa. Ele, que outrora fora revivido como Espectro, reconhecia a textura daquele poder. — Eu conheço muito bem essa aura funesta.

Os dois Cavaleiros de Ouro fixaram o olhar na mesma direção que Dendê. Longe, no horizonte extremo, uma névoa de tons cinza-escuros, quase imperceptível contra o breu da alta madrugada, rastejava debaixo para cima, alastrando-se como um manto de praga sobre a geografia.

— O que tem para lá? — perguntou Aiolia, apertando os punhos.

— A Capital do Oeste — respondeu Dendê, o terror brilhando em seus olhos. — É uma metrópole civil. A maioria das famílias dos nossos guerreiros mora ali. A corporação da Bulma fica exatamente lá.

Aiolia e Afrodite trincaram os dentes quase ao mesmo tempo.

— Filha da mãe! — esbravejou Aiolia, desferindo um soco tão violento no ar que o atrito gerou o estalo de um trovão sônico na Plataforma.

O Cavaleiro de Leão se virou e parou a meio metro de Dendê. Ele olhou para o Kami Sama, e em seguida lançou um olhar para o interior do Templo Sagrado, onde ficavam as portas da Sala do Espírito e do Tempo. Aiolia era a elite bélica de Atena, mas sabia reconhecer a hierarquia no território alheio. Ele curvou levemente a cabeça.

— Senhor Kami Sama — disse Aiolia, a voz era um rugido contido. — Quero a sua permissão para tirar Milo e Camus de dentro daquela sala de treinamento imediatamente.

Sem esperar uma resposta formal, o Leonino virou o rosto para o companheiro.

— Afrodite, avise Mú e Shaka que o inimigo mudou o alvo e vai atacar civis inocentes na calada da noite.

Aiolia endireitou a postura, arcos elétricos começando a faiscar incontrolavelmente ao redor de sua armadura dourada. O Relâmpago de Plasma estava a ponto de sair.

— O nosso prazo nas sombras acabou.

FIM DA BATALHA DAS 12 CASAS