Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco
29 Perto Demais
A luz branca e cega do Kikoho demorou a se dissipar, deixando em seu rastro o cheiro de pedra queimada. O silêncio que se seguiu na Casa de Áries era quebrado apenas pelo som de placas de mármore deslizando das pilastras rachadas e pelo chiado da maré congelada lá fora.
No centro da cratera geométrica, Bian de Cavalo Marinho tombou. A gloriosa Escama alaranjada, forjada para suportar a pressão das fossas abissais, estava estilhaçada. O General de Poseidon não se moveu mais.
A primeira frente havia caído. O Santuário sangrou, mas não cedeu.
Tenshinhan tocou o chão. O impacto, que normalmente seria letal e silencioso, soou pesado. O terceiro olho em sua testa se fechou e a aura branca que o envolvia piscou até sumir. O custo de converter a própria força vital em artilharia cobrava o seu preço.
Ele se arrastou até a soleira do templo, sentou-se sobre os escombros do pórtico e cruzou as pernas em posição de lótus. O corpo inteiro doía como se estivesse fraturado, mas ele não arredaria o pé dali.
Áries estava trancada.
Dali, o artista marcial pôde observar a imensa abóbada de gelo que o Pó de Diamante de Hyoga formara. Não era apenas sobre o Santuário. O Cavaleiro de Cisne mantinha os pés cravados no chão da base da montanha, mas o seu Cosmo se expandia pelo horizonte, cobrindo o Mar Egeu e as costas do país. Uma chuva de cristais prateados caía feito floco de neve ao longo da redoma à medida que Uub, Androide 17 e Androide 18, agora auxiliados por Yamcha, bombardeavam a cúpula com rajadas de Ki, fazendo o céu do entardecer ressurgir gradualmente.
Na linha de frente, Kuririn interrompeu a destruição do gelo por um instante, notando a respiração pesada do russo.
— Ei, Cisne! — Kuririn surgiu correndo em alta velocidade e parando ao lado do Cavaleiro de Bronze.
Hyoga suava frio. Seu Cosmo começava a dar sinais de oscilação. O esforço de manter mais de setenta por cento da Grécia trancada em uma estufa de gelo estava levando seus músculos à falência. Poseidon não mirara apenas as Doze Casas; ele queria afogar os inocentes para quebrar o espírito de Atena, e Hyoga havia forçado o próprio corpo além dos limites mortais para se interpor entre a fúria do oceano e milhões de vidas.
Kuririn abriu o pequeno saquinho de pano amarrado à cintura e retirou uma semente verde, estendendo-a de imediato.
— Abra a boca. Rápido.
Sem energia para questionar a estranha tática de seus novos aliados, Hyoga engoliu a semente. Era seca e dura. Ele morde e mastiga, mas no momento em que ela desceu por sua garganta, o impossível aconteceu.
Uma onda de choque quente e vital varreu seu organismo. A fadiga de outrora evaporou. Os músculos pararam de tremer e o frio em seu Cosmo, que começava a vacilar, explodiu com força total, reposto e afiado como se a guerra tivesse acabado de começar.
— Mas isso... — Hyoga parou a emissão de ar frio por um segundo, arregalando os olhos e direcionando o olhar para as próprias mãos, sentindo o vigor pulsar nas veias. — ...Isso é impressionante!
Os Espectros rasos de Hades ainda se acumulavam nos arredores do Santuário, colidindo contra os Cavaleiros de Bronze e de Prata num duelo duríssimo e sangrento liderado por Jabu de Unicórnio. Mas, nas profundezas do oceano, uma tempestade de outra natureza se formava.
O clima no Templo Submarino, por outro lado, se tornou subitamente denso quando Thetis de Sereia adentrou o salão principal. Ela se ajoelhou diante do trono de Poseidon com a respiração ofegante e sob o olhar incisivo dos cinco Generais Marinas restantes.
— Fale, Thetis — A ordem de Poseidon ecoou pelo templo.
— Imperador... A Primeira Casa não caiu. Bian de Cavalo Marinho... está morto.
Um murmúrio cortou o salão. Io de Scylla deu um passo à frente, as Escamas trincando sob a tensão de seus punhos cerrados.
— Morto? Bian? Por quem? Aquela escória de Prata e Bronze conseguiu emboscá-lo?
— Não foi nenhum dos Cavaleiros — respondeu Thetis, levantando o rosto angustiado para encarar os Generais. — Foi um mortal sem armadura. Um homem com um terceiro olho na testa. Ele disparou um raio de destruição geométrica que pulverizou a Escama de Cavalo Marinho.
Silêncio.
Poseidon não alterou sua postura relaxada no trono, mas o brilho em seus olhos recuou para uma frieza abissal.
— Continue — exigiu o deus. — O que mais você viu?
— Atena escondeu um exército desconhecido nas escadarias, Senhor. Além do homem de três olhos, observei a movimentação nas moradas superiores enquanto a onda era congelada. — Thetis se mantinha ajoelhada e com a cabeça inclinada para baixo, tirando o chão — Há um garoto de pele escura com o cabelo raspado nas laterais, em formato de crista. O Cosmo que ele exala é selvagem, quase indomável, como o de uma besta enjaulada. Há também um homem muito baixo e careca, e outro com o rosto cruzado por cicatrizes. O Cosmo desses dois foi intenso o suficiente para fatiar e explodir dezenas de toneladas de gelo no ar em segundos.
Krishna de Crisaor estreitou os olhos, apoiando o peso do corpo em sua Lança Dourada.
— Garotos de cabelo exótico e homens desfigurados? — O General sorriu com escárnio. — Que tipo de milícia patética Atena formou para cobrir suas perdas?
— Isso não é o pior, Krishna — interrompeu Thetis, a voz baixando um tom, revelando um temor autêntico. — O que congelou o meu sangue foram os outros dois guerreiros que atacaram as frentes de gelo. Um rapaz e uma garota. Eles obliteraram a barreira com feixes contínuos de pura energia destrutiva... mas eles não possuem Cosmo.
Poseidon franziu o cenho pela primeira vez. Sorento de Sirene, que até então apenas observava, parou de girar a flauta entre os dedos.
— O que quer dizer com "não possuem Cosmo", Sereia? — indagou Sorento, o tom cético e calculista.
— Exatamente o que eu disse. Não há fagulha de vida espiritual, não há calor cósmico... Se eu fechasse os olhos, diria que os dois não estão lá. Mas o poder que eles dispararam cobriu o céu. Senhor Poseidon... nós fomos enganados. O Santuário de Atena não está desprotegido.
Poseidon se manteve em silêncio por um longo tempo. Ele roçou o polegar contra o indicador, as sobrancelhas levemente franzidas em um cálculo mudo.
— Atena está jogando um jogo perigoso. — pontuou Krishna de Crisaor, batendo a base da lança no piso de coral. — De onde ela tirou esses aliados?
— O importante agora é saber quantos e quem são. — ponderou Sorento, os olhos fixos nas feições indecifráveis do Imperador.
— Um bando de primitivos, convenhamos. — Io deixou escapar, num misto de surpresa e desprezo. — Não que eu me importe com o templo dela, mas infestar um ambiente sagrado com seres de cosmos animalescos?
Poseidon continuava roçando o polegar no indicador, focado nas informações trazidas por Sereia e alheio à conversa paralela de seus Generais. O semblante fechado, o olhar fixo num ponto à sua frente. Atena não dá ponto sem nó e foi buscar ajuda. Não veio do Norte, ele sabia. E ninguém no Olimpo iria se envolver nisso. Onde ela conseguiu aliados? Precisava saber quem e quantos eram, fazê-los saírem de suas posições e se revelarem, porque, provavelmente, as 12 casas estão ocupadas com cosmos ocultos. E só havia um jeito de fazer isso.
Poseidon parou de mover os dedos.
Um tremor submarino de magnitude inconcebível sufocou a fossa abissal. As imensas colunas coríntias do Templo Submarino sacudiram violentamente, fazendo os Generais Marinas, pegos totalmente de surpresa, desequilibrarem-se a ponto de quase irem ao chão.
— Imperador? — Sorento de Sirene se virou bruscamente, abrindo os braços para firmar as botas no piso.
Quando Poseidon falou, sua voz saiu baixa, mas carregada:
— Ou Atena revela seus aliados — Ele manteve o olhar fixo no nada à sua frente — ou a Grécia não existirá mais a partir de hoje.
No Santuário, o chão ondulou. Um estrondo surdo e cavernoso subiu das entranhas da rocha matriz. Nas Doze Casas, blocos de mármore de três toneladas deslizaram de seus eixos. No Salão do Grande Mestre, uma chuva fina e contínua de poeira branca despencou do teto abobadado, cobrindo os ombros dos defensores enquanto o eco do sismo engolia o som do mar lá fora. A fundação do mundo grego estava sendo arrancada pela raiz.
No pátio em frente à casa de Áries, Hyoga elevou seu cosmo até o sétimo sentido. Agora, a altura das águas não era o único inimigo; havia o solo rachando sobre seus pés.O Cavaleiro de Cisne travou o maxilar, forçando a geada do Pó de Diamante a descer pelas fendas abertas no solo, tentando usar o próprio gelo como uma argamassa de zero absoluto para selar as feridas da montanha. Mas a fúria sismológica de Poseidon era implacável.
A fúria de Poseidon estava partindo as entranhas do solo da Grécia e afundando-a nas águas nervosas do Egeu.
Do topo das 12 Casas, Shun enrolou os elos das correntes ao redor dos antebraços. Com o som do metal trincando contra a armadura, ele olhou uma última vez para o horizonte e disparou escadarias abaixo. Cruzou o vácuo gélido de Aquário e irrompeu no salão de Capricórnio, onde Trunks mantinha a base das pernas aberta, tentando equilibrar o peso do corpo enquanto o chão de pedra cedia sob seus pés. O guerreiro do futuro dividia o olhar perplexo entre a abóbada de gelo que substituía o céu e as fissuras que rasgavam o piso.
— Trunks, — chamou Shun, com sua voz calma e firme — as defesas de Aquário e Peixes dependem de você a partir de agora.
Trunks virou o rosto. Seus olhos azuis não pousaram na face de Shun, mas nas correntes.
Os elos de prata estavam completamente esticados e rígidos, vibrando em uma frequência contínua enquanto as pontas apontavam na diagonal, na direção da fossa abissal de onde Poseidon irradiava o sismo.
— O que você vai fazer? — Perguntou o filho de Vegeta, dando um passo na direção de Shun, com o rosto levemente de lado, sem saber exatamente se queria a resposta para aquela pergunta.
Shun ergueu o rosto e sustentou o olhar do Saiyajin. Nos grandes e serenos olhos verdes do Cavaleiro de Andrômeda, não havia a menor sombra de dúvida:
— Eu vou segurar a península.
Shun não esperou por uma resposta, tampouco pela reação de Trunks, dando-lhe as costas e disparando pelas escadarias. Os pés contornavam as fendas que se abriam nos degraus.
Cruzou a Nona Casa como um borrão prateado e rosa. Em Sagitário, Seiya estava de costas para a pilastra, os olhos fechados com força,se agarrando à própria sanidade para manter o Cosmo suprimido enquanto o chão sob suas botas ameaçava ejetá-lo para a guerra.
Logo abaixo, na Casa de Escorpião, a recepção foi de outra natureza. Gohan estava de pé no centro do templo, os braços soltos ao longo do corpo, a base firme. O filho de Goku sequer piscou ao ver o Cavaleiro de Andrômeda passar correndo. Em Libra, Shiryu manteve a mesma quietude de pedra, os olhos fechados em silenciosa reverência ao fardo do cavaleiro de bronze.
Quando Shun atingiu o piso da Casa de Virgem, o impacto visual atingiu Piccolo em cheio.
O Namekuseijin acompanhou a entrada e a saída veloz do rapaz com uma fisionomia beirando o colapso: um homem de sessenta quilos pretende amarrar uma placa tectônica continental usando correntes de mão?
No ápice da montanha, dentro do Salão do Grande Mestre, a fisionomia descontraída e confiante de Son Goku sumiu. As sobrancelhas pesaram sobre os olhos escuros com a seriedade que ele ostentara apenas nos minutos mais sombrios da luta contra Majin Buu.
Ele virou o rosto para os defensores do trono.
— Piccolo acabou de me dizer... — a voz de Goku soou grave. — que Shun vai prender a Grécia com as correntes.
Vegeta descruzou os braços lentamente, os olhos cravados no rival, enquanto Kanon estreitava o olhar para Saori Kido. A deusa apenas apertou o cabo de Nike, sentindo, dezenas de lances de escada abaixo, o primeiro elo de Andrômeda perfurar a rocha matriz da Terra.
Na metrópole mais avançada da Terra brilhava um céu limpo de fim de noite. Carros voadores zumbiam entre arranha-céus espelhados e letreiros holográficos pulsavam com propagandas. Era um mundo anestesiado, ignorante da guerra divina que decidia o seu destino naquele exato segundo.
Em um beco escuro, entre duas vias expressas suspensas, as sombras pareceram ferver.
Uma névoa arroxeada e de cheiro adocicado vazou do asfalto, condensando-se até formar a figura encurvada de Niobe de Deep. A Sapuri negra do Espectro absorvia a luz de neon da rua, tornando-o quase invisível no escuro.
Ele caminhou furtivamente até a borda do beco, os olhos miúdos e injetados varrendo a paisagem urbana. Minos havia sido claro: descobrir o que era a "Corporação Cápsula" sem chamar a atenção. E não havia sido difícil. Naquele mundo, o nome estava estampado em veículos, outdoors e produtos.
Mas Niobe queria a raiz. E ele a encontrou.
Seu olhar parou no horizonte do centro da cidade. Ali, erguia-se um complexo colossal de edifícios, coroado por uma gigantesca cúpula amarela e esférica. No centro da cúpula, duas letras pretas e imensas se destacavam contra o metal: um duplo "C". O logotipo idêntico ao da nave esmagada nas crateras.
Niobe fechou os olhos, farejando o ar.
O Espectro buscou a assinatura daquele poder absurdo que havia vitrificado o chão da floresta. Nada. A cidade estava vazia de poder de combate. Havia apenas almas comuns, frágeis e completamente desprotegidas. Quem quer que fosse o aliado de Atena que pertencia àquele lugar, ele não estava em casa.
Um sorriso pútrido rasgou o rosto de Niobe. O instinto gritava para que ele invadisse o complexo, liberasse a sua Fragrância Profunda e asfixiasse todos lá dentro, apenas pelo prazer da matança.
Mas a voz fria e inquestionável de Minos de Griffon ecoou em sua mente: "Não façam nada. Registrem. Retornem com informações."
Niobe estalou a língua, frustrado, mas recuou para as sombras do beco.
— Corporação Cápsula... a Capital do Oeste — murmurou o Espectro, a voz sibilando como uma víbora satisfeita. — A senhora Pandora vai adorar saber que a casa do inimigo está com as portas destrancadas.
A névoa arroxeada rodopiou, sugando a figura de Niobe para debaixo da terra, não deixando nada para trás além do cheiro de morte.
O verdadeiro alvo havia sido encontrado.
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