Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

24 Dia 4 - O plano de Saga e Máscara da Morte


A porta da Sala do Tempo se abriu para dentro.

O ar que saiu não era vento, era pressão acumulada. Um ano de cosmo concentrado num espaço sem tempo, liberado de uma vez, fez o ambiente do Templo de Kami-Sama contrair por um instante antes de se reajustar. Sr. Popo, que varria o corredor a poucos metros, parou a vassoura sem olhar para cima.

Saga de Gêmeos saiu primeiro.

Ele não apressou o passo. Não havia necessidade. O cosmo dele havia mudado de textura durante o ano: não crescido, exatamente, mas assentado, como metal que passa pelo fogo e sai mais denso do que entrou. Luz e trevas em equilíbrio perfeito, sem que nenhuma das duas pedisse espaço. Aiolia, encostado numa coluna do corredor com os braços cruzados, sentiu o peso daquele cosmo chegar antes de Saga dobrar a esquina e desencostou-se devagar, sem perceber que havia feito isso.

Máscara da Morte saiu logo atrás.

O sorriso já estava no lugar. Não o sorriso de quem está feliz, mas o de quem está satisfeito, que é uma coisa diferente e mais perigosa. Ele estalou o pescoço para o lado esquerdo, depois para o direito, e olhou para o corredor com a expressão de um homem que acaba de lembrar por que gosta do seu trabalho.

Aiolia olhou para os dois. Olhou para Saga. Olhou para MDM. Decidiu não perguntar como havia sido o ano.

— Vocês saíram numa boa hora — disse ele. — A situação mudou enquanto vocês estavam lá dentro.

— Eu sei — respondeu Saga.

Não era arrogância. Aiolia havia dito "a situação mudou" com aquele tom específico de quem está entregando uma notícia ruim com calma forçada. Saga reconheceu o tom. Havia passado um ano elaborando cenários para esse momento — a única diferença era que chegara um pouco antes do previsto.

— Reúna os outros — disse Saga para Aiolia. — Todos que estão aqui. Milo, Camus, Shura, Aldebaran, Afrodite. Sala principal. Quinze minutos.

Aiolia já estava se movendo antes da frase terminar.


Eles chegaram em ordens diferentes.

Aldebaran foi o primeiro. Com passos pesados, sem pressa, o tamanho dele preenchendo o vão da porta antes de o resto do corpo aparecer. Shura chegou logo depois, postura de soldado, mão direita solta perto da cintura por hábito. Afrodite entrou sem ruído, como sempre, e escolheu um canto da sala que não era bem um canto; era o ponto de onde se via todos os outros sem ser o centro de nada.

Camus atravessou o corredor e parou junto à janela. O ar ao redor dele esfriou dois graus.

Milo chegou por último, e chegou rápido.

— Então é verdade — disse ele antes de sentar, olhando para Saga com aquela energia que não cabia bem no próprio corpo. — Mū confirmou. A batalha começa hoje.

— Senta, Milo — disse Camus, sem virar a cabeça da janela.

Milo sentou. Mas ficou na beirada do assento.

Sr. Popo e Dendê entravam pela porta lateral. Popo com as mãos para trás, Dendê alguns passos atrás, os olhos grandes percorrendo o grupo de cavaleiros dourados reunidos numa única sala como se tentasse calcular o peso total daquele cosmo e desistisse no meio do caminho.

Saga ficou em pé. Não na cabeceira da mesa — no centro, onde todos podiam vê-lo sem precisar escolher um lado.

— Um ano — disse ele, sem prólogo. — Vou usar os próximos minutos para apresentar o que construímos nesse tempo. Depois, quero ouvir o que vocês têm.

MDM, encostado na parede com os braços cruzados, não disse nada. Mas o sorriso diminuiu o suficiente para indicar que estava prestando atenção.

— Vou começar pelo que não sabemos — disse Saga.

Aldebaran levantou uma sobrancelha. Era uma forma incomum de abrir uma reunião estratégica.

— O inimigo não sabe quem são os aliados de Atena. Não sabe o que eles podem fazer, como funcionam, quais são os limites. — Saga deixou isso assentar por um segundo. — Essa é a nossa maior vantagem e vai durar exatamente até o primeiro confronto em cada casa. Depois disso, Pandora vai adaptar.

— Então a primeira onda precisa ser definitiva — disse Shura.

— A primeira onda precisa ser informativa para nós — corrigiu Saga. — Precisamos saber o que os aliados conseguem fazer antes de decidir onde encaixá-los nos cenários seguintes.

Ele se virou levemente para Sr. Popo.

— Vocês conhecem esses guerreiros há mais tempo do que nós. O que precisamos saber?

Popo deu um passo à frente. Não havia urgência no movimento; ele tinha o ritmo de alguém que viu muita coisa e aprendeu que a pressa raramente melhora a informação.

— Vou começar pelo mais simples — disse ele. — Esses guerreiros derrotaram ameaças que vocês nunca enfrentaram. Majin Buu destruiu planetas por diversão. Cell absorvia seres vivos para crescer de poder. Freeza limpou civilizações inteiras. Os guerreiros que estão defendendo essas casas eliminaram todos eles.

O silêncio que seguiu era de calibração. Os Cavaleiros de Ouro estavam reorganizando internamente a escala do que tinham diante de si.

— O Saiyajin de cabelo espetado — disse MDM, do canto onde estava. — Goku. O que ele tem que os outros não têm?

— Teletransporte — respondeu Popo. — Ele consegue se deslocar instantaneamente para qualquer ponto onde haja um ki que ele reconheça. Em batalha, isso significa que ele pode estar em dez lugares em sequência antes que o inimigo processe o primeiro. E tem a Genki Dama.

— A o quê? — disse Milo.

— Uma técnica que concentra a energia vital de todos os seres num único golpe. — Popo fez uma pausa. — Ele a usou para destruir Freeza em Namekusei. Usou de novo, com a energia de toda a humanidade, para eliminar Majin Buu.

Camus virou a cabeça da janela pela primeira vez desde que havia entrado. MDM soltou um assobio.

Saga aproveitou a abertura.

— O Muro das Lamentações — disse ele. — Todos nós sabemos o que custou derrubá-lo. Doze cavaleiros, os últimos cosmos que tinham. — Ele não precisou completar a frase. — Desta vez não podemos fazer isso. Atena precisa de nós vivos do outro lado.

— O Muro só cede a uma energia equivalente à do Sol — disse Afrodite, a voz neutra, apenas constatando.

— Equivalente à do Sol ou maior — confirmou Popo. — A Genki Dama, na proporção que Goku usou contra Buu, ultrapassa esse limite.

Aldebaran soltou o ar devagar pelo nariz.

— Então temos um carneiro que derruba muralhas — disse MDM. — e não precisamos morrer para isso. Conveniente.

Ninguém riu. Mas Aiolia desviou o olhar para o lado com um esforço visível.

— O outro Saiyajin — disse Saga. — Vegeta.

Popo hesitou um momento. Não por incerteza, mas escolhendo a ordem das informações.

— Vegeta é... mais complexo que tenho para oferecer — disse ele. — O orgulho dele é a fonte do poder e o ponto de ruptura ao mesmo tempo. Ele se deixou possuir voluntariamente por um feiticeiro chamado Babidi para ter poder suficiente de enfrentar Goku. — Pausa. — Babidi dominava pela fraqueza interior. Vegeta não tinha fraqueza interior suficiente. O feiticeiro o possuiu, mas nunca o controlou por completo. Vegeta usou a possessão como ferramenta e depois a descartou.

— Isso é uma força — disse Shura.

— É uma força e um risco — disse Popo. — Um inimigo que entende essa mecânica pode tentar replicá-la. — Ele olhou para os cavaleiros.

— Existe pelo menos um dos generais de Poseidon que opera transformando-se no ser mais amado do oponente. Kasa de Lymnades. — Disse Afrodite.

— Sim. Se Kasa tentar isso com Vegeta e se transformar na mulher ou no filho dele...

— ... o baixinho ataca mesmo assim — interrompeu MDM, com a convicção de quem não está chutando.

— Provavelmente — concordou Afrodite. — Mas o intervalo entre reconhecer a ilusão e agir pode ser suficiente para Kasa. É uma janela pequena. Mas existe.

— A diferença de Goku para Vegeta, — Continuou Popo — é que só um deles topa fazer o trabalho sujo, se precisar.

Saga arquivou a informação sem comentar.

— O filho do Goku disse que consegue se fundir com o filho do Vegeta. — O tom de Aiolia oscilava entre um voto de confiança e descrença. — Isso é verdade?

Os cavaleiros moveram o olhar de Aiolia para Popo.

— Não só Goten e Trunks, como os próprios Goku e Vegeta também. — Confirmou Popo.

As sobrancelhas de Aldebaran se ergueram sem cerimônia.

— Aliados peculiares esses que nós arrumamos. Os Androides — disse ele. — sem cosmo detectável.

— Correto — disse Dendê, que havia ficado em silêncio até agora. — Nenhum sensor espiritual vai localizá-los. Para qualquer inimigo que caça pelo ki ou pelo cosmo, eles são invisíveis.

— Para Pandora também — disse Camus.

— Para Pandora também.

Milo estava na beirada do assento há quinze minutos. Ele abriu a boca.

— Tudo isso é muito interessante — disse ele, com o tom de quem acha que não é interessante o suficiente para justificar o tempo gasto —, mas o inimigo já está em movimento. Quando chegamos à parte em que fazemos alguma coisa?

— Estamos chegando — disse Saga, sem alterar o tom.

— Milo — disse Camus.

— Estou quieto — disse Milo. E ficou. Mas a perna direita começou a balançar.

Saga esperou um segundo para garantir que o silêncio havia voltado.

— Os cenários — disse ele.

— Primeiro cenário — disse Saga. — A batalha permanece no Santuário. Casa a casa, como planejado. É o terreno que conhecemos, é onde os defensores estão posicionados, é onde Atena está protegida. Se o inimigo não escalar, é aqui que terminamos.

Ele deixou um silêncio curto para que todos registrassem que esse era o cenário mais simples e que ele não ia gastar muito tempo nele.

— Segundo cenário. A batalha se desloca para o mar.

Afrodite ergueu levemente o olhar.

— Poseidon tem vantagem óbvia no mar — continuou Saga. — Mas vantagem óbvia não é vantagem absoluta. Hyoga opera em ambientes aquáticos com uma eficiência que poucos cavaleiros têm. E Goku pode se teletransportar para qualquer ponto onde haja ki que ele reconheça. Água não é barreira para o teletransporte.

— O problema do mar não é o combate — disse Camus. — O problema é que Poseidon controla as correntes. Ele pode isolar grupos. Separar quem está junto.

— Correto — disse Saga. — Por isso o mar é um cenário reativo, não proativo. Não vamos para lá voluntariamente. Mas se formos empurrados, não estamos sem recursos.

Camus assentiu uma vez.

— Terceiro cenário — disse Saga. — O Submundo.

A temperatura na sala não mudou fisicamente. Mas algo mudou.

Aldebaran ficou quieto de uma forma diferente. Shura olhou para o chão por um segundo. Afrodite não mexeu um músculo, o que era a sua forma de reagir às coisas que pesavam. Camus continuou na janela, mas os ombros desceram dois milímetros.

— Nós conhecemos o Submundo — disse Saga, e não havia suavidade na frase, apenas precisão. — Conhecemos a geografia, a lógica, as regras. Sabemos que Radamanthys opera com Grandes Lâminas Celestiais e que a frieza dele em batalha é calculada, não instintiva. Sabemos onde ficam os Campos Elísios, onde fica o Muro das Lamentações, onde Hades concentra o centro do poder.

— E desta vez — disse MDM, do canto — temos alguém que consegue derrubar o Muro sem morrer.

— Desta vez temos alguém que consegue derrubar o Muro sem morrer — confirmou Saga. — O que muda completamente o que é possível fazer lá dentro.

— Thanatos e Hypnos — disse Aiolia.

— Thanatos e Hypnos — repetiu Saga. — São o obstáculo que nenhum de nós conseguiu superar antes. Mas antes nós descíamos sem os aliados, sem informação sobre o que estava esperando, e sem tempo para planejar. Agora temos as três coisas.

Milo estava prestes a abrir a boca. Camus não disse nada, apenas desviou o olhar para ele por meio segundo. Milo fechou a boca.

Saga continuou.

— Quarto vetor. Não é um cenário de batalha; é uma fissura na estrutura do inimigo que podemos explorar se soubermos o momento certo.

Ele pausou.

— Hades e Poseidon são aliados por conveniência, não por lealdade. O objetivo de cada um é o mesmo: controlar o mundo dos vivos. O Santuário é o símbolo desse controle. — Saga olhou para os cavaleiros um a um, devagar. — Se Atena cair, os dois passam a disputar o Santuário entre si. A aliança se desfaz quando o objetivo compartilhado desaparece.

O silêncio foi diferente desta vez. Era o silêncio de pessoas reorganizando o mapa do que estavam enfrentando.

— Você está dizendo que a morte de Atena não é vitória do inimigo — disse Shura, devagar. — É o começo da guerra deles.

— Estou dizendo que eles sabem disso — disse Saga. — E que essa consciência cria uma tensão que já existe, agora, antes de qualquer batalha. Hades quer a vitória. Poseidon também. Nenhum dos dois quer compartilhar. — Ele cruzou os braços. — Um inimigo que está simultaneamente lutando contra você e monitorando o aliado ao lado não está com atenção dividida; está com atenção fragmentada. Isso tem consequências táticas.

— Como exploramos isso? — disse Aldebaran.

— Ainda não sei — disse Saga, sem hesitar. — Mas vou saber quando chegar o momento. Por enquanto, basta saber que a fissura existe.

MDM soltou um som baixo que poderia ter sido aprovação ou diversão. Ou provavelmente os dois.

— Uma coisa a mais — disse Saga. — O inimigo não sabe quem são os guerreiros que estão nas casas. Não sabe o que eles podem fazer, como funcionam, quais são os limites. Radamanthys vai entrar na casa de Câncer esperando encontrar o cavaleiro que guarda aquela posição. Vai encontrar a mulher ciborgue. — Ele deixou isso no ar por um momento. — Cada confronto vai ser uma surpresa para eles. Usem isso. Os defensores das casas precisam saber que o desconhecimento do inimigo é uma arma e que essa arma tem validade. Dura até o primeiro golpe trocado.

Saga olhou para o grupo. Havia mais uma coisa, e ela não estava nos cenários de batalha. Estava no ano que havia passado dentro de uma sala sem janelas com MDM de Câncer.

— Uma última questão — disse ele. — Sobre o treinamento.

MDM se desencostou da parede pela primeira vez desde o início da reunião.

— A Sala do Tempo — disse Saga — foi projetada para treino em duplas. Atena sabe disso. O que Atena não sabe (e nem precisa saber) é a natureza exata do que acontece quando dois Cavaleiros de Ouro entram num espaço sem testemunhas, sem tempo, e com um ano para preencher.

Ninguém perguntou o que havia acontecido dentro da Sala. Ninguém ia perguntar.

— A regra é que não lutamos entre nós — continuou MDM, assumindo o fio da conversa com a naturalidade de quem havia esperado exatamente esse momento. — Se lutarmos, entramos na Guerra dos Mil Dias. — Ele olhou para os cavaleiros, um a um, com aquele sorriso que não prometia nada de bom. — Atena sabe que a regra existe. Não sabe o que acontece quando a regra é testada num espaço onde ninguém está olhando. E não precisa saber.

O silêncio que seguiu não era de desconforto. Era de compreensão.

Aldebaran olhou para Shura. Shura olhou para Aiolia. Afrodite examinou as próprias mãos com atenção desnecessária. Camus continuou na janela.

Ninguém disse que concordava. Ninguém disse que discordava. Era suficiente.

Shura olhou para a porta da Sala do Tempo por um segundo.

— Se o tempo ficar contra nós antes de Aiolia e eu entrarmos — disse —, abro mão do treinamento e vou direto ao campo de batalha.

— Eu também — disse Afrodite, sem levantar os olhos.

Saga assentiu. Não era sacrifício; era pragmatismo, e todos na sala reconheceram a diferença.

Milo ficou em pé antes de Saga terminar de respirar.

— Muito bem — disse ele. — Estratégia excelente, cenários muito bem elaborados, a fissura entre os deuses é particularmente elegante. — Ele pegou a armadura dourada que havia deixado encostada na parede e jogou sobre os ombros com um movimento que deixava claro que a reunião havia terminado para ele alguns minutos atrás. — Camus, vamos.

Camus se virou da janela com a expressão de quem já sabia que isso ia acontecer e havia feito as pazes com isso durante a reunião.

— Você não quer saber mais...

— Não — disse Milo.

Camus olhou para Saga. Saga fez um gesto mínimo com a cabeça.

— Quando saírem — disse Saga, enquanto os dois se moviam para a porta —, a batalha já terá começado. Estejam prontos para entrar em campo imediatamente.

Milo parou na soleira. Virou-se.

— Saga — disse ele, e o tom havia mudado de afobado para algo mais limpo, mais direto. — Nós vamos ganhar essa guerra.

Não era pergunta. Não era encorajamento. Era a declaração de um homem que havia decidido que era verdade e tratava o assunto como encerrado.

Milo de Escorpião, com uma expressão de urgência febril, passou direto por Saga, caminhando em direção à escuridão da porta aberta.

Ao seu lado, Camus de Aquário o acompanhava em silêncio, o ar ao seu redor esfriando subitamente, criando uma fina camada de geada no piso de pedra.

— Não podemos perder tempo — disse Milo, parando por um segundo na soleira da porta e olhando para trás, para os companheiros. — Shaka e Mú já estão em batalha. Se demorarmos mais um segundo, seremos inúteis nesta guerra.

Antes de cruzar o limiar para a dimensão vazia, Milo parou por um segundo. Um sorriso provocador curvou seus lábios enquanto ele focava seu cosmo em uma direção específica nas Doze Casas, buscando a mente do Namekuseijin na Casa de Virgem.

Ei, ET ranzinza — a voz de Milo ecoou na cabeça de Piccolo. — Tente sobreviver até a minha volta. Quero ver se esse seu poder é tão grande quanto o seu mau humor.

Sem esperar resposta, Escorpião e Aquário adentraram o vazio branco. A porta pesada se fechou atrás deles com um estrondo, selando a próxima dupla de dourados em seu ano de treinamento, enquanto o mundo lá fora começava a desmoronar.


— Saga, Máscara da Morte, Aiolia, Aldebaran, Shura, Afrodite — uma voz, contando com os olhos. — Seis armaduras. — jogou a bolsa do ombro para a mão e assobiou baixinho. — Mū me deve uma explicação muito boa.

Um rapaz apareceu na soleira com uma bolsa de ferramentas no ombro, o cabelo levemente despenteado do teletransporte, e o olhar varrendo a sala com a velocidade de quem está fazendo inventário.

Aldebaran olhou para ele de cima a baixo com a expressão de quem não tem certeza do que está vendo.

— Você é o Kiki?

— Cresci — disse Kiki, sem inflexão. — Acontece com a maioria das pessoas.

Ele caminhou para o centro da sala sem ser convidado, abriu a bolsa e começou a organizar as ferramentas com a familiaridade de quem fez isso centenas de vezes. As mãos se moviam rápido, telecinese ajustando os instrumentos menores sem que ele precisasse olhar.

— Atena me deu três informações — disse ele, trabalhando enquanto falava. — Uma: vocês saíram da Sala. Duas: a batalha começa hoje. Três: as armaduras precisam de revisão depois de um ano de uso. — Ele parou, olhou para Saga. — Posso começar por você?

— Pode — disse Saga.

— Ótimo. — Kiki se aproximou, passou as mãos pelo ombro da armadura de Saga com concentração clínica, os dedos encontrando as junções pelo tato. — Duas, talvez três horas por armadura dependendo do estado. Vou precisar que todos fiquem por aqui até terminar.

— Não temos três horas por armadura — disse Aiolia.

— Eu sei — disse Kiki. — Por isso vou fazer em duas. — Ele não levantou os olhos do trabalho. — A telecinese ajuda. Mū sempre dizia que a diferença entre um bom reparador e um rápido é saber quais junções podem esperar e quais não podem. Aprendi a diferença.

MDM observava da parede com o sorriso levemente alterado — não menor, mas diferente. O tipo de sorriso que aparece quando algo surpreende sem que a pessoa queira admitir que foi surpreendida.

— Você não tem medo de nenhum de nós — disse MDM. Não era pergunta.

Kiki não parou o que estava fazendo.

— Cresci assistindo Mū reparar a armadura de vocês depois que quase morriam — disse ele. — É difícil ter medo de alguém depois de já ter visto o estado da armadura dele.

O silêncio que seguiu tinha uma qualidade diferente do silêncio estratégico de antes. Era mais leve.

Aldebaran fez um som grave que, em qualquer outra circunstância, poderia ter sido uma risada.