Notas iniciais
O início dessa saga. Espero que gostem da minha escrita. Boa leitura!

As coisas estavam prestes a mudar.

Longe da Capital do Oeste, onde um comércio pulsante nunca dorme, as luzes nunca se apagam e as fábricas jamais fecham suas portas, uma cadeia de montanhas forma uma cordilheira que, outrora já tivera outra configuração. As primeiras bombas lançadas pela Capsule no antigo território Japonês assolara a ilha, erguendo uma fumaça de radiação que se espalhara por quase todo o continente. O impacto fora tão potente que causara um terremoto seguido de tsunami, e por muito pouco o país não fora varrido do mapa.

Parte das montanhas desabara, e o que restara fora simplesmente esquecido, como mero entulho de obra. A natureza deixada de lado em detrimento das fábricas e cidades cosmopolitas erguidas sobre os corpos das centenas de milhões de mortos em um embate sem sentido. Em seu pico mais alto, ultrapassando algumas nuvens que os circundam, as leis dos governantes do Oeste não alcançam os renegados que por lá escolheram viver. Homens que, por alguma razão optaram por não se mesclar a nova ordem que reconfigurara o planeta. Homens que, apesar de não terem visto o antigo mundo, sentiam-se muito mais ligados a ele do que a utopia vivida em sua geração.

Dissidentes de sua própria terra.

Centenas de túneis artificiais transformaram a cordilheira em uma verdadeira cidadela. Os mais pobres, miseráveis, fugitivos da justiça, prostitutas, deficientes e todo e qualquer um que se sentisse excluído ou incapacitado de viver na Capital do Oeste acabava migrando às montanhas, onde possivelmente encontraria alguma forma de lar. Um lar mantido a duras penas, com trabalho duro e muito luta. Literalmente a base de suor e sangue.

O mercado negro mantinha um giro de capital na cidade de pedras, e todo e qualquer tipo de produto podia ser encontrado por ali. Cartas de trabalho falsas, para aqueles que porventura gostariam de se aventurar nas minas de Kepler 187-B, máquinas de realidade simulada, furtadas das naves de transporte da Facebook, dróides de combate utilizados na Guerra da Eurásia, e muitos outros produtos, todos oriundos de atividades ilícitas. A cidadela não possuía leis ou códigos de ética, apenas uma regra básica: sobreviva mais um dia.

O Cérebro Pulsante, localizado no túnel 213 da terceira montanha, era o bar mais bem frequentado de toda a cidadela. Forjado na própria pedra negra, contava com um jogo de luzes e espelhos que trazia um ar psicodélico ao lugar. As luzes piscavam no ritmo da música, uma mistura de piano e batidas eletrônicas, que juntamente com as bebidas monocromáticas, montavam um cenário que literalmente fazia o seu cérebro pulsar. Se você estivesse em busca de um bom negócio, havia entrado no lugar certo.

Sempre cheio, o bar possuía uma pista de dança com um piso que se iluminava aos paços dos dançarinos, mesclando as luzes com imagens diversas, como poços de lava e abismos profundos. Em frente aos balcões que se estendiam por quase cem metros, bancos flutuantes recebiam os sedentos por bebidas alcoólicas, servidas por garçons androides humanoides, com pernas e braços inteiramente robóticos. O lugar nunca parava, assim como as conversas e negociatas, onde produtos eram vendidos e comprados, e grandes quantidades de crédito passavam de mão em mão. Um lugar mais do que apropriado para se conseguir informações.

Da mão robótica de um dos garçons surgira um cano, onde uma bebida azul fora despejada dentro de um copo quadrado. Junto ao líquido erguera-se uma fumaça esverdeada, dissipando-se tão logo uma mão fechara-se ao seu redor. O copo então fora levado até a boca, e toda a bebida descera garganta abaixo de uma única vez. O homem que bebera em uma talagada só estava sentado sobre um dos banquinhos flutuantes, que se elevava do solo graças aos trilhos magnéticos que seguiam paralelamente aos balcões.

— Um belo dia para esquiar, não é mesmo? – Uma mão rugosa lhe tocara o ombro esquerdo.

— Um belo dia para acampar também. – Respondera aquele que fora solicitado.

Muitas das negociatas ali feitas eram de forma totalmente anônima, envolvendo emissários que jamais haviam visto aqueles com os quais fariam negócios. Era bastante comum a utilização de senhas para a identificação dos negociadores.

O que respondera por último, ainda com a bebida em mãos, erguera levemente a cabeça. Seu rosto estava recoberto por um chapéu circular de aba longa, lembrando os antigos camponeses chineses. A luz brilhante que piscava impedia que os dois se enxergassem em sua plenitude.

— Me disseram que você é o homem a ser procurado quando se busca informações. Estou certo?

O que chegara por último achegara-se mais confortavelmente ao banco flutuante, ao lado daquele que, com o copo vazio, sinalizara ao garçom que o preenchesse novamente com a bebida escusa.

— Me disseram que você andou fazendo muito barulho por aqui ultimamente. – Seu rosto era velho e gasto, tomado por cicatrizes, principalmente ao redor dos olhos. Vestia um terno surrado e sapatos vagabundos, e os poucos dentes que tinha na boca, estavam agora à mostra, em um sorriso inexpressivo. – Sim, eu sei tudo o que acontece na cidadela. Também sei tudo o que acontece na Capital do Oeste. – Abrira os braços, como se estivesse gabando-se. – Pode me chamar de Omar, A Boca das Montanhas.

O título não parecera impressionar o outro homem que, sem voltar o seu rosto em direção a Omar, tomara outra dose da bebida, enxugando o líquido excedente que escorrera por seus lábios.

— Me chamo Sun Wukong. – Respondera sem animosidades – Estou procurando a Dragon Balls que fora roubada do Templo do Leste. Sabe alguma coisa a respeito disso, Boca das Montanhas?

A indagação saíra quase como um desafio a Omar, até então totalmente seguro de si. O homem velho curvara um pouco o tronco, alarmado com a pergunta realizada. O assalto ao Templo do Leste fora um dos mais ambiciosos já realizados até então, e a cabeça de seus assaltantes estava a prêmio. A polícia corporativa da capital caçava-os como ratos, e todos os malfeitores da região estavam atrás desse grande prêmio.

— Mas ora, vejam só... – Recompusera-se o velho – Você é o quê, um mercenário? Um policial corporativo infiltrado? – Suas mãos tremelicavam – A Boca das Montanhas está cerrada para você, forasteiro. Jamais tivemos essa conversa, entendeu?

Após cuspir as palavras, Omar erguera-se, pronto a retirar-se.

— Espere, Omar. – Wukong o segurara pelo braço. – Estamos aqui para fazer negócio, certo? Então vamos fazer negócio. – Eu só preciso de um nome. Um único nome e você pode sair daqui e esquecer que um dia esteve em minha presença. Em troca lhe dou isso. – O homem que vestia-se como um camponês retirara do bolso uma pequena capsula, um pouco maior que uma falange. Os olhos de Omar brilharam instantaneamente, aquilo era realmente um item raro. – Um dos brinquedinhos da Capsule. Um lança mísseis teleguiado de longo alcance C-137. Acho que é mais do que suficiente, não é mesmo?

O velho sentara-se outra vez, aprumando o desalinhado terno vagabundo. Respirara profundamente e recebera em mãos a capsula tão valiosa. Jamais havia recebido um pagamento tão grande por tão pouca informação. Olhara para Sun Wukong, ainda escondendo-se por detrás do chapéu circular, deixando apenas parte do nariz e os lábios serem vistos.

— Não vou perguntar como conseguiu isso, rapaz. Mas, realmente... – O homem hesitara – É impressionante. Pois bem, você me convenceu. – Seus olhos não conseguiam parar de fitar o pequenino objeto – Os túneis comentam que a gangue de Oolong está com a Drangon Balls. Estariam tentando comprar documentos falsos para partirem a Damasco, onde um comprador estaria os esperando. É tudo o que sei, forasteiro.

— É justo. – Respondera Wukong, levantando-se e dando as costas ao velho Omar. Porém, antes que pudesse caminhar em direção a saída do Cérebro Pulsante, a manga de sua camisa fora segura pelo Boca das Montanhas.

Sun olhara para trás. As luzes seguiam piscando em um ritmo alucinante, acompanhando a música que parecia estourar os tímpanos.

— Quem é você, estrangeiro? Como conseguiu uma das capsulas Hoi-Poi? – Ao mesmo tempo em que questionara o sujeito, Omar puxara o chapéu de sua cabeça, deixando a mostra o rosto do homem com quem negociara. Seus olhos se arregalaram ao se deparar com sua face, as pernas bambearam e as mãos tremeram mais ainda. Largara a manga, dando um passo para trás. – Ma-ma-mas... Você é o maldito Tanton!

Puxara imediatamente uma pistola da cintura.

— Você é procurado por todos os mercenários da região! Ladrão de ladrões! – Bradara Omar, segundos antes de disparar sua arma laser.

Tanton fora o nome dado pelos traficantes de armas das montanhas ao homem que durante a madrugada esvaziara o estoque que seria vendido às cidades próximas. O mesmo sujeito também interceptara um carregamento de injeções de nano robôs furtados de uma empresa terceirizada à Hanso Foundation. Passara a ser procurado por todos os malfeitores desde então, vivo ou morto. Por ser extremamente ágil e cauteloso, seu rosto jamais havia sido identificado, apenas alguns traços à distância. Sabia-se que era caucasiano e forte.

Apesar da parca informação a seu respeito, Omar não parecia ter dúvidas de que estava diante do homem que ultimamente prejudicara a maioria de seus negócios e de seus sócios. Com a arma apontada, carregara a potência e disparara duas vezes, praticamente a queima roupa.

Não conseguira ver muito do que ocorrera nos instantes seguintes, mas sentira na pele o resultado de toda a movimentação. No momento em que atirara, Sun Wukong sacara um pequeno bastão da cintura, de não mais do que trinta centímetros. A arma crescera de tamanho, alcançando os dois metros em menos de um segundo. Em um traçado contínuo, refutara os dois raios de luz cortantes que partiram da arma de Omar.

Aproveitando o movimento, atingira o Boca das Montanhas no queixo, em um golpe rápido de baixo para cima. O homem velho fora lançando para trás, chocando-se contra o balcão violentamente. Seu crânio rachara-se, e uma grande quantidade de sangue começara a escorrer por detrás da sua cabeça. Tonto e atônito, ainda conseguira encontrar forças para bradar a plenos pulmões.

— Batedores! Batedores! Tanton está aqui! Matem-no! Matem-no!

O alarme fizera com que a música cessasse, assim como as luzes. Todos os olhares se voltaram para o estrangeiro, ainda de guarda armada. Apavorados, uma centena de pessoas começaram a correr em direção à saída do bar, temendo o resultado dos embates que se seguiriam.

Duas dezenas de robôs com metralhadoras no lugar dos braços adentraram o salão principal, cercando Wukong. Ainda com o bastão em mãos, o homem respirara profundamente, tomando fôlego e se preparando para a execução dos próximos movimentos.

Simultaneamente as máquinas passaram a disparar contra o seu corpo, mas em um salto tão rápido quanto um piscar de olhos, Sun simplesmente desaparecera. Sua ação fora tão veloz que nem Omar e nem os robôs conseguiram identificar para onde ele partira.

— Encontrem ele, bando de latas velhas! Encontrem o Tanton! – Berrava Omar, ainda caído próximo ao balcão, as duas mãos tentando estancar o sangramento de sua cabeça. – Eu quero ele morto! Matem esse desgraçado!

Uma sombra parecera se mover pelo salão.

KLANK!

Os braços de um dos robôs caíram ao solo, decepados por um golpe vindo do desconhecido.

Omar seguira procurando por Tanton, arregalando os olhos e fitando todo o lugar, sem nada conseguir detectar. Uma nova sombra então se deslocara, tão rápida e eficiente quanto a primeira.

CRANK!

Dessa vez duas das máquinas de combate foram decapitadas, os corpo robóticos tombando ao solo.

Mas que merda! – Vociferara Boca das Montanhas – Ele está brincando com a gente! Atirem nele! Atirem nele!

As máquinas passaram a disparar a esmo, cada uma em uma direção diferente. A saraivada durara dois minutos inteiros, e todo o bar fora atingido pelas balas potentes. O lugar estava de pernas para o ar, praticamente destruído pelo combate. Mas não havia sinal de Tanton, sinal algum do adversário dos androides.

— Mas o que...

Antes que Omar pudesse concluir sua frase, Sun Wukong surgira por detrás de um dos balcões, totalmente ileso. Saltara no centro dos robôs, fatiando as máquinas com seu bastão de densidade variável em uma velocidade sobre-humana. Em um único golpe partira ao meio sete das máquinas. Aproveitando esse mesmo movimento, acertara outras três, perfurando o sistema central dos robôs, eliminando-os.

Os demais tiveram os braços e cabeças arrancadas, em um balé marcial glorioso. Sun não apenas conhecia as técnicas, ele parecia dominá-las completamente. Assustadíssimo com o desfecho da luta, Omar tentara arrastar-se para longe de Wukong, temendo por sua vida. Todavia, não conseguira ir muito longe. Sentira um campo de força envolver o seu corpo, impossibilitando-o de se mover. Suas pernas e seu tronco deixaram de tocar o solo, e o velho percebera então que estava flutuando.

Olhara para Tanton e o vira com as mãos impostas, apontadas em sua direção. Era ele quem estava manipulando aquele campo de energia, e isso só aumentara ainda mais o seu temor.

— O que você é? – Indagara o velho. O medo escorrendo como veneno entre os lábios.

Wukong deixara o seu corpo cair ao chão, e Omar então desmaiara. Sun dirigira-se até o velho, tomando de volta para si a capsula que o dera em troca de informações. Guardara novamente em seu bolso, retirando de lá outro objeto. Com uma seringa em mãos, injetara um líquido negro exatamente sobre o ferimento na cabeça do Boca das Montanhas. Tratava-se de nano robôs médicos, que em alguns dias conseguiriam recuperar por completo o ferimento na cabeça do velho homem.

Levantara-se e olhara uma última vez para o corpo inerte de seu mais recente adversário.

— Eu não sei.

Suas palavras saíram com enorme pesar.

Sun Wukong, Tanton, ou seu nome verdadeiro, Goku, era um homem de quase um metro e oitenta, naturalmente forte, os músculos moldados pelo trabalho duro que tivera ao longo de seus vinte e oito anos de vida. Caucasiano, barba rala castanha e cabelos da mesma cor, ondulados e ressecados, na altura dos ombros. Apesar do nome asiático, Son Goku não era um nativo da região do Oeste, e ele próprio sabia muito pouco a respeito de sua origem.

Fora criado desde criança pelo avô, Son Gohan, um homem bom, que passara todo o seu conhecimento ao garoto, preparando-o para a vida adulta. Após sua morte, Goku partira do campo onde fora criado, vagando de distrito em distrito, sofrendo por nunca se sentir um igual, e por nunca ter descoberto ao certo quem ou o que ele era.

Apenas sabia que era um estrangeiro. Alguém que nunca se sentira verdadeiramente em casa.

Ele não parecia com as pessoas do país, e não era como as pessoas do país. Era mais forte, e possuía habilidades que jamais havia identificado em outro ser humano. Nem mesmo naqueles modificados geneticamente, fruto dos ambiciosos projetos da Hanso. Tentara então encontrar um objetivo para sua vida, e canalizara o seu poder para isso. Roubar dos ladrões e devolver algo a sociedade. Ajudar vilas dominadas por tiranos. Por em prática de alguma forma os conceitos tão bem explicitados por seu velho avô.

Mas Goku não trabalhava sozinho.

Deixara o salão principal do Cérebro Pulsante, correndo em direção à saída, pois sabia que uma nova leva de robôs batedores chegaria em instantes. Seguira por um corredor apertado e claustrofóbico, alcançando um túnel adjacente, conhecido por poucas pessoas. Acelerara os passos, precisava encontrar uma saída.

Retirara o pequeno bastão novamente da cintura, pronto para qualquer surpresa, que inevitavelmente surgiria. Após uma curva mais fechada, trombara em um homem correndo na direção oposta. Cambaleara, mas logo se pusera em postura outra vez. O homem, assustado, apenas cobrira o rosto, em um movimento irracional de defesa.

O bastão de Goku crescera, mas logo ele vira que não havia motivo para pânico. No ombro do homem estava uma figura bastante conhecida pelo guerreiro, um gato azul transmorfo, de não mais do que sessenta centímetros. O animal, outrora assustado, abrira um sorriso ao ver o rosto daquele com quem esbarrara.

— Pual... – Suspirara Son Goku. Olhara em seguida para o homem, que também havia reconhecido-o naquele momento, e assim como ele, aparentava estar aliviado – Yamcha... Mas que droga, onde vocês estavam?

De feições asiáticas, Yamcha vestia uma roupa social, como se estivesse pronto para uma festa de luxo. Os cabelos quase sempre desgrenhados estavam presos em um rabo de cavalo, o que destacava ainda mais a cicatriz em forma de cruz em sua bochecha esquerda. Era um pouco mais baixo que Goku, e seu corpo também era naturalmente forte, mas um pouco mais magro. Assim como ele, ainda não havia completado trinta anos de idade.

— Combinamos de buscar informações sobre a Dragon Balls, lembra? – Respondera Yamcha – Estávamos na Casa de Chás. Eu tentei falar com Cheng’en, mas não fui recebido por ninguém. Ele provavelmente teria alguma pista a respeito do roubo.

Goku recolhera sua arma.

— Já tenho o que precisamos. O Boca das Montanhas me passou as informações. Disse que elas foram roubadas pela gangue de Oolong, e que eles estão tentando atravessar a fronteira.

O guerreiro de cabelos compridos coçara a cabeça.

Ih... Isso é mal. Mas me deixe adivinhar, as coisas não devem ter terminado muito bem, não é? Pela sua cara acho que...

Son Goku não o deixara completar a frase. Olhando para trás, como se estivesse sendo seguido, dissera:

— Precisamos sair daqui agora Yamcha. As coisas vão ficar feias!

Sem hesitar o guerreiro de cabelos compridos apenas meneara a cabeça positivamente, enquanto retirara do bolso do terno azul uma capsula, lançando-a ao solo. O pequeno objeto transformara-se em uma motocicleta a jato, e os três tripulantes saltaram em sua garupa.

— Segurem-se! – Bradara o piloto portador da cicatriz.

O veículo fora acionado, partindo em uma velocidade altíssima em direção a uma das saídas da cadeia de montanhas. No instante em que a tropa reforço de robôs batedores havia adentrado o bar, os três já estavam bem longe da cidadela. Restava agora fazer valer as informações recebidas.

Precisavam decidir o que fazer a seguir.

[...]

O trio estacionara há algumas milhas de distância, no meio de um terreno arenoso, de vegetação rasteira e seca. O cenário se estendia até onde a vista alcançava. Mais parecia que estavam no meio de um deserto. Um local perfeito para um homem que sempre fora conhecido por ser silencioso e preciso.

Yamcha, o Bandido do Deserto.

Depois de recolher a motocicleta, que se dobrara em si mesma, voltando a ser uma simples capsula, Yamcha guiara Guku até o bunker escondido em meio a areia. O lugar era utilizado como quartel general, e já salvara a pele do ladino muitas e muitas vezes. Com três setores no subsolo, era guarnecido por microcâmeras drones, que faziam a segurança da região como se fossem meras abelhas, transmitindo as imagens até a central controlada remotamente por seu dono. O oxigênio era oriundo de exaustores camuflados, que captavam e purificavam o ar, fazendo com que o ambiente se tornasse um pouco menos hostil.

Em uma das salas havia um verdadeiro arsenal. Lança-chamas, lançadores de mísseis, vibro katanas dos mais diversos tamanhos, pistolas a laser e metralhadoras do último tipo. Mas a menina dos olhos estava guardada em uma caixinha dourada, no topo da prateleira. Tratava-se do estoque de capsulas roubadas da Capsule Co.. Um único exemplar valia mais créditos do que os três jamais conseguiriam juntar em toda a vida.

Levara então o parceiro à outra sala, um pouco mais amistosa. O lugar funcionava como uma área de recreação, onde poltronas, cadeiras reclináveis e um grande estoque de comida e água dividiam espaço. Sem delongas, Yamcha lançara o corpo sobre uma das poltronas, recostando as costas e relaxando inteiramente.

— Senta aí, cara. – Dissera, apontando para uma cadeira reclinável. Pual saltara de seu ombro, encontrando também um lugar confortável para si. A criatura nada mais era do que uma das experiências da Hanso Foundation. Um gato transmorfo que conseguia pronunciar algumas poucas palavras. Yamcha o roubara ainda filhote de sua dona, mas, sem coragem de vendê-lo ao mercado negro, acabara criando-o. Fora o seu grande parceiro até a chegada de Goku.

Os dois se conheceram em uma das investidas do Bandido do Deserto ao Distrito de Kuang, próximo ao porto do Sul. A época, Goku utilizava exclusivamente o nome falso de Sun Wukong, ainda usual em certas situações. Os dois acabaram se digladiando, quando Yamcha tentara furtar de Goku o seu bastão de densidade variável, um presente dado ainda em vida por seu avô.

Presos por incitação ao tumulto, os dois foram condenados à forca, mas juntaram forças e conseguiram se livrar, fugindo do lugarejo para nunca mais retornar. Os dois então decidiram firmar parceria, e se de um lado Goku conseguira convencer Yamcha a roubar apenas dos ladrões, do outro o Bandido do Deserto o ajudara e muito a compreender suas habilidades, além de torná-lo muito mais furtivo e silencioso. Juntos haviam conseguido juntar dinheiro o suficiente para deixar o país.

Yamcha e Pual pretendiam partir rumo à Indonésia, com documentos falsos de mercadores, onde poderiam recomeçar uma vida muito mais tranquila, longe da polícia corporativa e da sina de fugitivos no deserto. Já Goku pretendia navegar até Antofagasta, no Chile, país recentemente anexado a Facebook. Com um novo nome, e totalmente afastado do território dominado pela Capsule, utilizaria o dinheiro remanescente para partir em uma nave rumo a uma das colônias espaciais em Marte.

Talvez longe da Terra conseguisse finalmente compreender quem ele era e qual o seu propósito nessa vida.

Para isso, precisavam de algo de extremo valor. Uma coisa que pudesse suprir todos os créditos necessários para essa empreitada. A Dragon Balls. Se as encontrassem, as negociariam no mercado negro, e o dinheiro seria mais do que suficiente para os seus objetivos.

O bandido do deserto retirara o paletó e os sapatos, deitando-se ainda mais confortavelmente em sua poltrona. Goku tirara o chapéu chinês e também se recostara, aparentemente um pouco mais tenso que o amigo.

— E então, Goku. O que faremos agora?

— Precisamos encontrar Oolong antes que ele atravesse a fronteira. Não podemos deixar que aquele porco miserável venda a Dragon Balls. Ela é nossa carta de alforria desse inferno! – Respondera.

Yamcha respirara profundamente.

— Dizem que ele tem pelo menos uma centena de homens, e que anda sempre em comboio.

— Uma centena! – Manifestara-se Pual com sua doce voz.

— Você é muito forte, Goku, mas não é imortal. – Prosseguira. – Teremos que fazer a missão mais silenciosa e precisa que jamais fizemos! E ainda há outro problema... – Todo e qualquer resquício da tranquilidade antes demonstrada abandonara totalmente sua face – Ouvi comentários nos túneis sobre um deslocamento grande de tropas da polícia corporativa atrás dos ladrões. Se nos encontrarem, acredite, não darão à mínima se estamos ou não do lado de Oolong. Além disso, o Bandido do Deserto e Tanton também estão na lista de procurados.

— Pual também! – Exclamara o transmorfo.

Goku coçara a cabeça. Aquela era uma situação impossível. Sabia da necessidade de conseguir pôr as mãos no grande prêmio, ao mesmo tempo em que também conhecia todos os riscos. Mas a vida não era feita apenas de escolhas, mas sim do quanto se estava disposto a arriscar por algo a mais. Concluir a missão lhe faria deixar aquelas terras de lembranças enegrecidas. Portanto, valia mais do que a pena arriscar.

— Então não falharemos! – Exclamara Goku – Partiremos amanhã pela manhã. O comboio de Oolong deve estar deixando Tabriz nesse momento. Os pegaremos na parte final da viagem. Se formos espertos o bastante, ainda podemos colocá-los no fogo cruzado com a polícia corporativa, e isso vai ser nossa cortina de fumaça para sair dali sem que nos percebam. – Seus olhos castanhos fitaram Yamcha – Confia em mim, vai funcionar!

O bandido mirara os olhos castanhos do amigo. Piscara algumas vezes, mantendo a seriedade em suas feições. Passara as mãos nos cabelos, estalando o pescoço, ainda pensativo. Inspirara uma grande quantidade de ar, soltando lentamente. Somente após todo esse ritual, finalmente se manifestara.

— Colocado dessa forma... – Levantara-se da poltrona, dirigindo-se até um armário eletrônico, localizado aos fundos da sala onde se encontravam. Digitara alguns números em um painel luminoso, e após a porta ser aberta, retirara de lá duas garrafas dos melhores vinhos produzidos na atualidade, adquiridos em um dos seus inúmeros furtos. Entregara uma das garrafas nas mãos de Goku, abrindo um sorriso de canto de boca. – Acho que não temos escolha.

Pual saltara sobre o seu ombro.

— Considere isso como um presente de despedida. – Prosseguira Yamcha. – Esse plano é muito maluco. Se de alguma forma inacreditável conseguirmos passar pelo exército de Oolong e as tropas da polícia corporativa, venderemos a Dragon Balls em Bandar Abbas. Conheço o comprador ideal. Dividiremos os créditos e de lá eu e Pual partiremos pelo Mar da Arábia, rumo à Indonésia. Você poderá seguir até o Mar Cáspio. Eu soube que há grupos paramilitares que recrutam soldados para incursões na Zona Vermelha. Uma vez lá dentro, fica bem mais fácil chegar ao Chile. – Suas feições se entristeceram brevemente – Mas se não conseguirmos...

Goku tocara o seu ombro, não permitindo que ele concluísse o pessimista pensamento.

— Então terá sido uma grande parceria. Uma grande amizade.

O bandido do deserto conseguira sorrir, brindando com Son Goku, antes que os dois praticamente virassem as garrafas goela abaixo. Havia naquela sala uma quantidade de suprimentos o bastante para mantê-los por meses, em um racionamento que não seria mais necessário ser feito. Aprumaram-se novamente de forma confortável, ligando uma animada música enquanto serviam-se em um verdadeiro banquete.

Naquela noite beberiam, comeriam e festejariam como se aqueles fossem os últimos instantes que passariam juntos.

Notas finais
E então, o que acharam desse primeiro capítulo? Gostaram da roupagem nova que estou dando aos personagens? Quero muito saber o que acharam, então não se acanhem em comentar. Abraços :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.