Dragnalus
1 único
As cores na escola pareciam ser em preto e branco com um cinza aparecendo de vez em quando. O professor fazia seu monólogo e os alunos obedeciam.
Certa vez Júlio comprou um CD e quando esteve em frente ao seu armário de aço, emprestou para Fábio. Era um CD com um bebê submerso numa piscina, dava até para ver o piu-piu dele — os garotos sempre riam porque são bobos.
A cor era azul.
Outros alunos compraram o mesmo CD chamado Nevermind de uma banda de Seatle chamada Nirvana. Notaram que era a coisa do momento como dizia a Mtv e Guns N' Roses parecia ultrapassado como nunca. Fabiana disse a Lívia que Kurt Cobain era o homem da sua vida. Lívia ficou com ciúmes porque Cobain já era dela. As duas nunca mais se falaram.
A rebeldia acendeu na escola. Os monólogos dos professores eram constantemente interrompidos por risadinhas ou por bolas de papel arremessadas neles. O professor Marco pediu para que voltassem com o castigo da reguada, professora Sônia perguntou se ele ainda vivia na Idade Média.
E de repente já era inverno e Max leu algo interessante no livro de história — não sei por que estava interessado, não era de seu feitio estudar.
Em 11 de junho de 1963, durante uma manifestação contra a política religiosa do governo na cidade de Saigon, Vietnã, o monge budista vietnamita Thich Quang Duc ateou fogo em seu próprio corpo em um processo de autoimolação.
Max ficou intrigado porque era sobre suicídio. Ele se lembrou que seu maior ídolo, Cobain, havia se matado naquela primavera e de vez em quando ouvia múrmuros nos corredores dizendo que ele foi covarde. Mas Max sabia muito bem que nenhum desses fofoqueiros teriam coragem de apertar o gatilho, então não tinham colhões para dizer um "a".
Por mais que as coisas estariam voltando a perder suas cores, todos preferiam suportar pra continuar. Suportar os monólogos dos professores, os ídolos fabricados da indústria musical, a falta de diálogo, o consumo pasteurizado e a aids.
O que era vida?
Max deu de ombros, porque não era muito de pensar também e talvez precisasse prestar mais atenção na aula de filosofia.
No entanto, na carteira ao lado havia um garoto curioso. Ele estava sempre correndo dos delinquentes da escola, suas mãos pálidas tinham os dedos amarelos como de um fumante e nunca trocava a roupa no vestiário, seu corpo parecia esconder alguma coisa.
Se chamava Edmundo, cabelos negros como a noite, olhos redondos e sempre assustados. Algo dizia a Max, que Edmundo teria coragem de apertar o gatilho.
De atear fogo no seu próprio corpo.
Porque era sujo.
Deprimente.
Max voltava pra casa a pé, mas enquanto ajeitava seu cachecol, encontrou Edmundo debaixo de uma árvore fumando um cigarro.
Até a maneira que ele fumava era perturbadora, Edmundo não relaxava e seus olhos continuavam muito abertos.
Que merda tem esse garoto.
Max se aproximou.
— Ei.
Edmundo levou um susto tão grande que seus ombros pontudos se levantaram e ele ainda deu um salto.
— Ei...
— Pode me servir um? — Falava sobre o cigarro.
— S-sim... — Pegou do bolso o maço e um isqueiro, deu um cigarro a Max.
Max acendeu e assoprou a fumaça, deixou o cigarro repousado em seus lábios. — Me chamo Max.
— Sim... somos da mesma turma...
— Qual é o seu nome?
— Edmundo.
Max notou Edmundo deslizar seus olhos na área, provavelmente achava que estava numa brincadeira de um delinquente e que seria surpreendido cedo ou tarde.
— Eu não vou fazer nada a você.
Edmundo abriu ainda mais aqueles olhos imensos e seu rosto corou atrás do cachecol quadriculado. — Desculpa.
— Pelo quê? — Edmundo já estava respondendo "por eu ter te achado uma ameaça" mas Max o interrompeu. — Relaxa, não é por isso que fuma?
Edmundo deu um aceno tímido e Max continuou a fumar, um silêncio tomou conta e os pássaros cantavam naquele fim de tarde fria.
— Você gosta de Rage Against The Machine? — Perguntou Edmundo, quebrando o silêncio.
— É de comer? — Respondeu Max, fazendo Edmundo rir.
— Não, é uma banda.
— Não conheço.
Max respondeu indiferente e pisou no seu cigarro, já pensava em voltar a seguir o caminho de casa, mas Edmundo lhe surpreendeu com um CD que havia tirado da mochila.
— Ué, o cara da capa tá pegando fogo? — Perguntou pegando o CD, surpreso.
— Sim, ele mesmo que jogou fogo nele! É uma foto do Thich Quang Duc! Aconteceu de verdade!
— E ele morreu? — Antes de Edmundo responder que "sim", Max se lembrou de que havia lido aquilo aleatoriamente no livro de história. — Você gosta de Nirvana?
— Gosto sim... mas tenho evitado de ouvir, ainda não compreendi sua morte direito...
— Eu também. — Olhou para cima e viu os passarinhos cantando junto a neve acumulada nos galhos da árvore. — O que será que ele estava passando...
— Com certeza por uma barra pesada. — Edmundo coçou a nuca sem jeito e Max o achou fofinho nesse momento. — Mas não o acho covarde e nem uma má influência, como tem dito o pessoal... na verdade, eu vivo pra isso.
— Isso o quê?
— Música! É prazeroso, ela faz você sentir muita coisa. E tipo, você aprende muita coisa também. Esse sentimento de agora com sua partida... nunca vi ninguém especial deixando esse mundo antes... estou lidando com esse sentimento pela primeira vez.
Max abriu os olhos, surpreso com o que ouviu. Edmundo lhe parecia muito otimista quando era tão cinza.
— Ter mais experiência na morte de alguém... parece ser um jeito legal de ver a vida. — Deu uma pausa. — Ou de ver a morte. — Completou, fazendo Edmundo sorrir.
— Você fez soar como algo macabro. — Edmundo riu e Max também.
— Falando em macabro, tu curte Marilyn Manson?
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