Drag Racing
1 1.0 Ignição

Kurt Benton
O sol acabava de se por no horizonte, seus feixes de luz alaranjada se escondendo atrás dos prédios da metrópole. Há poucos quilômetros do centro comercial, um grupo de corredores aguardava a chegada da noite, estacionados nas ribanceiras de um desfiladeiro, música alta vibrando entre caixas de sons de tamanhos alterados e competidores ilegais com seus logotipos de equipes arranjadas:
— Conheço a estrada do litoral melhor do que ninguém, Walker – defendia-se Kurt Benton, um rapaz de jaqueta preta e amarela numa imitação personalizada de “vespa” – Cara, eu já surfava aqui muito antes de saber dirigir.
— Sei, sei... – Jason Walker revirou os olhos – Eu já dirigia bem antes de começar a falar – ele retrucou, o cabelo raspado ao estilo militar e uma camiseta preta colada ao corpo troncudo.
— E o que você quer dizer com isso?
— Já esqueceu quem é o líder da nossa equipe, agora?!
Interrompendo a discussão, o ruído de pneus derrapando chama a atenção de todas as pessoas reunidas no canyon. Dois carros param na pista, dois pilotos conhecidos: o primeiro por seu histórico criminal, a segunda por seu histórico de corredora profissional.
— Wyatt Bone... – murmura Jason cerrando os olhos para os faróis de Led do ex-detento. Este sai de um Camaro 69 preto fosco e apoia o braço no teto, encarando os dois rapazes, sem muita fala. A profissional Sofia Martinez se aproxima de forma mais sociável, sorri para a dupla e acena com a cabeça coberta por tranças no estilo afro.
— Sofia... – resmunga Kurt enquanto enfia as mãos no bolso e caminha até a corredora – O que vocês dois estão fazendo aqui?
— Viemos fazer uma visita. Wyatt saiu da prisão agora e queria esticar as pernas.
— Condicional?
— Talvez – Bone respondeu pela primeira vez.
— Tá, tá, vocês querem correr, então? Por que não tô afim de ficar parado batendo papo – Jason se aproximou coçando a cabeça.
— Então vamos logo – Sofia sorriu e entrou em seu Mustang Shelby 500 GT na cor prata e verde.
Seis veículos aceleravam na faixa pintada de spray no meio da estrada: seria uma pista difícil, com curvas violentas e a escarpa logo ao lado, esperando qualquer erro por parte dos pilotos que pudesse jogá-los ribanceira abaixo. As estrelas iam surgindo timidamente e os faróis iluminavam o asfalto liso.
Kurt, Jason e Wyatt disputavam a frente. Sofia, Ray e um rapaz chamado Lewis fechavam o cortejo. Uma garota de saia curta parou logo a frente da largada e deu o sinal. Os seis veículos saíram em disparada, os pneus gritando no asfalto e o cheiro de borracha queimada exalando no perímetro. Gritos dos espectadores ecoaram pela serra enquanto Kurt e Jason se chocavam nas laterais logo na saída. Wyatt aproveitou a briga para ultrapassar a dupla e ganhar a frente. Sofia ultrapassava Ray Carter que se concentrava em evitar um empurrão de Lewis Duran que parecia querer jogar o rapper ribanceira abaixo.
— Mas que merda! Ele quer é me matar! — reclamava o piloto de cabelo black-power. Lewis empurrava o veículo roxo obrigando-o a raspar a grade de proteção do canyon. Toda a lateral direita do carro de Ray foi descascada. Sofia, mais a frente, observou o que se passava com o amigo pelo retrovisor.
— Mas que cara maluco! Droga... vou ter que abandonar a corrida... — a piloto latina diminuiu a velocidade e bloqueou a frente de Lewis. Carter acelerou enquanto a garota impedia o misterioso piloto a continuar ganhando velocidade.
— Me deixa vadia! — ele gritou.
— Então joga limpo! — Sofia gritou de volta pela janela — Não é pra ninguém morrer aqui!
Assim que Ray ganhou posição, a piloto deu continuidade no acelerador, ganhando velocidade e alcançando o rapper. Lewis se irritou com a parceria dos dois adversários contra si e deixou de prestar atenção na corrida. Preocupado em ganhar velocidade, perdeu o momento da curva em S logo a frente e derrapou o carro.
O Chevrolet C-10 bateu contra a grade de proteção, derrapou de lado para o muro de pedra da ribanceira e perdendo o controle, o veículo capotou. Lewis conseguiu sair do veículo até que bem, ignorando um corte no supercílio e a fumaça dos pneus gastos.
Mais a frente, Kurt e Jason tentavam ultrapassar Wyatt enquanto chocavam-se um contra o outro. Ambas as laterais já estavam amassadas. Jason tinha desvantagem, pois estava do lado do precipício: se Kurt conseguisse empurrá-lo poucos metros mais, seu carro despencaria no desfiladeiro.
— Vocês são dois loucos! — gritou Wyatt prosseguindo em primeiro à frente da rixa. Jason afastou o Dodge para tentar uma batida mais forte. Kurt previu o golpe e freou bruscamente: o carro de Jason passou reto a sua frente, chocando-se contra a parede da serra. Kurt aproveitou a deixa e acelerou, indo emparelhar com o Camaro de Wyatt.
— Você é imbecil ou o que?! — Sofia gritou para Jason assim que passou por ele. Wyatt imitou o gesto dos garotos e jogou o carro contra Kurt. Este sentiu o golpe mais forte, o pneu dianteiro esquerdo de seu Mazda já travando, devido ao amasso no para-choque.
— Não vai aguentar muito, garoto... — comentou Wyatt mais para si mesmo. Kurt crispou os lábios, tentando contornar o problema no carro. O final da ladeira já se aproximava e precisaria ganhar do ex-detento de outra forma.
As curvas acabaram, chegando ao pé do canyon que finalizava numa reta de 200 metros. Kurt percebeu que precisava ganhar no modo Derby. Esperou Wyatt trocar para a quinta marcha e então ativou o nitro de seu carro. O Mazda amarelo ganhou velocidade em pouco tempo, ultrapassando o camaro e ainda arrancando tinta da lateral do veículo. Wyatt conseguiu ver o rapaz passar ao seu lado com o dedo do meio erguido para si. A raiva cresceu dentro de si, mas era tarde: o loiro havia ganhado a disputa.
Ao invés de frear, Kurt continuou a correr pela estrada, em direção à cidade. Sofia e Ray chegaram logo atrás:
— Pra onde ele tá indo?
— Não sei — respondeu Wyatt — Mas precisamos pegá-lo!
O trio seguiu o carro de Kurt pela rodovia e avistaram o rapaz parando num posto de abastecimento bastante abandonado. Todos desceram de seus veículos, Sofia tentando entender que tipo de lugar era aquele e porque Kurt parara ali.
— Só falta o Jason — comentou Ray, olhando ao redor.
— Ele tá ali — Wyatt Bone apontou para a rodovia atrás.
— O que tá acontecendo? — Jason Walker quis saber, ainda aborrecido pela corrida mal acabada. Respondendo a sua pergunta, as luzes do posto se acenderam. Uma dúzia de carros cercava o posto no meio da rodovia deserta.
— Que porra é essa? — quis saber Bone.
— Isso é coisa do Kurt... — murmurou Sofia. Um sujeito de cabeça raspada e cavanhaque se aproximou do centro da “reunião” e ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Acalmem-se amigos. Eu venho em paz.
— Que diabo tá acontecendo aqui?! — Jason gritou já impaciente com tudo.
— Vou ser breve, meu caro... Vocês foram usados, testados e no fim, aprovados. Venho aqui perguntar uma coisa: o que acham de aparecer na TV?
Mazda RX-7
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Levou cerca de meia hora para que o sujeito de cavanhaque explicasse que fazia um mês que todos os presentes ali estavam sendo vigiados por paparazzi que colheram toda e qualquer informação sobre a vida pessoal de cada um. Estavam sendo convidados a participar de uma competição de pilotos de rua ilegais: os prêmios prometidos eram muitos. Coincidentemente combinava com o que todos ali desejavam.
— Podemos fazer o que quiserem...! É só pedir! — contava o empresário. — Vocês só precisam correr, do jeito que estão acostumados a fazer, e deixar que nós fazemos o resto.
— Quer dizer que o Kurt ajudou vocês esse tempo todo?! Seu filho da puta! Arrombado! Você roubou na corrida por causa disso?! Porra Kurt! Falar não custa nada! Precisava ser assim?!
— Não briguem com o Benton filho. O garoto só estava seguindo ordens. Queríamos surpresa mesmo: queríamos que agissem ao natural. Bom, sem mais delongas, queremos saber se topam participar do programa.
— Que tipo de programa? — quis saber por fim, Sofia Martinez.
Os guardas deram passagem e o grupo de pilotos entrou num galpão dando de cara com um gigante salão tecnológico como uma base da CIA, e um grupo de profissionais a espera deles. O escritório era grande: telas e computadores em fileiras controlados por jovens publicitários e futuros cineastas, todos trabalhando para que cada cena seja cortada com perfeição em seu melhor ângulo de exibição. Diretores, editores e fotógrafos, todos na recepção dos onze competidores pela Mark-Sison.
Os pilotos se conheciam, a maioria, apenas de vista. Poucos eram os que se sabiam desde tempo:
— Isso aqui me cheira a FBI – resmungou Wyatt Bone.
O grupo parou de frente para os empresários. Jason Walker avistou Kurt Benton ao lado do grupo colarinho branco e torceu o nariz para o adversário de longa data. Ainda não sabia se sentia raiva do garoto ou se algo bom havia acontecido para si mesmo.
— Chamamos todos vocês aqui porque estamos contratando – o repórter de terno, dessa vez com camisa xadrez com as mangas dobradas, barba castanha em um formato quadrado no maxilar, deu início ao discurso – Precisamos de um grupo de pilotos excelentes e de exímio talento pra compor o quadro de competidores de um programa que estreia essa temporada.
— Programa? – Wyatt perguntou por todos.
— Uma espécie de Reality onde vamos exibir competições ao vivo todas as semanas. Queremos fazer do racha um esporte televisivo, assim como o MMA já foi ilegal um dia e hoje arranca audiência.
— E como são essas competições? – quis saber Ray Carter.
— Da forma como estão acostumados. A diferença é que não precisam se preocupar em ser presos – e o empresário encarou o ex-detento que, percebendo a indireta, estufou o peito e torceu o nariz. – Também difere no fato que estarão sendo filmados a todo o momento, pelas pistas e dentro do carro.
— Esse Reality vai pegar só as corridas ou fora delas também? – Sofia Martinez fez uma pergunta que incomodou a todos.
— Eu não me importo – Jason sorriu – Gosto da ideia de ficar famoso!
— Ei – Lewis Duran se pronunciou finalmente – Não quero ninguém me filmando fora do carro! Não tô afim de pagar de BigBrother.
— Não será assim – o empresário tratou de explicar ao ver que todos se agitaram com a ideia – Será apenas na competição. Fora dela, vocês somem. Beleza, assim?
— É... – Lewis relaxou um pouco. Wyatt fez que sim com a cabeça e todos os demais concordaram.
— Ótimo, então antes de continuar preciso ter certeza que todos já estão dentro porque passando para a segunda etapa, considero que todos já assinaram seus contratos.
— Não vou aceitar nada sem ler – Jason ergueu uma sobrancelha, incomodado.
— E você lá sabe ler?! – Ray Carter reclamou impaciente.
— O que foi que você disse, imbecil?! – Jason apontou o dedo para Carter, que revirou os olhos e logo uma dupla de seguranças se aproximaram para segurar o piloto esquentado.
— Hunf, Lena – o empresário fez sinal para que uma moça entregasse um maço de papéis para cada um dos competidores – Esse é o contrato. Se quiserem pode dar uma olhada, mas sejam rápidos porque temos muito que fazer ainda.
— Você vem junto, gatinha? – Jason sorriu para Lena que sorriu de volta, só que em forma de deboche.
Katie Jackson foi a primeira a entregar o contrato assinado, seguida de Jill Richards. Bone encarou a ruiva com certo desconforto:
— Que foi? – ela retrucou – Não vou perder tempo lendo um negócio que pode me fazer querer desistir. Preciso disso.
— Aqui – Jill se empolgou – Quando a gente começa a tirar fotos pros pôsteres?
O empresário riu e cruzou os braços:
— Logo. Ah, a propósito: me chamo Simon. Então se todos concordam vamos dar prosseguimento.
Um dos jovens publicitários tentou recolher o contrato de Wyatt, mas este o empurrou: o grandão tentava a todo custo ler e entender o que estava escrito naqueles papéis de vocabulário técnico. Tinha que evitar ao máximo qualquer tipo de atitude que o levasse de volta a prisão.
Assim que todos concordaram com os termos e assinaram, seguiram Simon por entre os técnicos que seriam os responsáveis pelas filmagens e fotografias. Simon explicava tudo, como iria funcionar cada ponto, corte ou extensão. Jill divertia-se imaginando como iria aparecer na televisão. Jason tentava opinar na forma como iriam lidar com sua imagem. Wyatt esperou que ninguém estivesse olhando e pressionou o ombro de um dos jovens técnicos:
— É o seguinte meu irmãozinho: eu não fico bem do lado esquerdo, ok? É pra filmar o direito, entendeu?! O direito!
— T-tá... – concordou o garoto, trêmulo e apavorado.
— Ótimo. – e o ex-detento seguiu o grupo como se nada tivesse feito.
Terminado o tour pelo estúdio, Simon se virou para encarar a todos mais uma vez:
— Bom, o Kurt vocês já conhecem – disse indicando o rapaz conhecido entre os competidores – Ele e sua irmã Sally – e apontou com a cabeça para uma garota que estava na outra extremidade do grupo, cabelos loiros como os de Kurt – também vão estar na competição. Temos, ao todo, sete equipes de sete a doze competidores, mais ou menos. Fazendo as contas rapidamente aqui, vocês vão competir entre cerca de 70 pilotos. Vocês precisam ganhar em equipe contra as outras equipes e individualmente entre seus companheiros de time. Ou seja, primeiro se preocupem em manter o time na vitória pra só depois pensar em ganhar de seus parceiros.
— Ninguém aqui é meu parceiro – Wyatt optou por deixar isso claro.
— Então pode sair pela porta, Bone, porque queremos na equipe gente que pense diferente de você. — Simon suspirou – É o seguinte pessoal, não me importa o que vocês são ou fazem lá fora, só me interessa aqui dentro. Vamos pensar como dois mundos diferentes: aqui dentro vocês seguem as regras e dão as mãos... Daquela porta pra fora, a coisa é outra. Só tentem não se matar porque precisamos de todos vivos pra correr no dia seguinte.
— O único que tá tentando estragar alguma coisa é o Bone... – resmungou Jason.
— O que tá falando, garoto?! – Wyatt se irritou.
— Calem a fuça vocês dois!!! – gritou Lei Bing finalmente tornando sua voz audível após todo o percurso. A cowgirl conseguiu manter os dois esquentados na calma novamente. – Não tô mais aguentando ouvir as birras doceis dois! Fiquem quietos ou eu calo o rabo dos dois!
— Obrigado, Bing... — Simon suspirou novamente e encarou sua companheira, Lena, que olhou de forma significativa para o chefe. – Bom, então só falta vocês conhecerem o último membro da equipe. Brian...
Um rapaz entrou no escritório com um aceno de leve com a mão e uma torcida de nariz. Colocou as mãos nos bolsos da jeans e permaneceu calado.
— Quem é você que nunca ouvi falar? – Wyatt ainda não estava cansado de brigas.
— Brian é policial, Bone...
— O que?! – seus olhos perfuraram a todos – Disseram que eu não ia ter problemas!
— E não vai... – Simon tratou de desfazer o mal entendido.
— Não tô aqui pra te prender – Brian fitou Wyatt com desdém.
— Ele vai competir. Não sei se lembram, mas nós estamos tentando fazer das corridas um esporte legal e acreditamos que ter um civil no programa irá tornar tudo mais “politicamente correto”.
— Hum... Ideia ridícula essa... – Bone torceu o nariz – Quero ele longe do meu carro!
— Pode deixar – Brian respondeu – nossos carros vão estar bem distantes quando eu estiver em primeiro lugar. – Quase todos os presentes riram da piada, exceto Wyatt que pareceu comprar a briga e Lewis que, como sempre, praticamente não emitia som algum.
— E finalmente terminamos. De resto vocês descobrem ao longo do tempo. Agora podem se dirigir ao Renaissance Hotel, tem uma chave para cada um de vocês na recepção. Serviços estarão disponíveis quando precisarem. Estejam de volta aqui as quatro pro ensaio fotográfico e a entrevista. Dispensados.
De um em um foram saindo os competidores, Wyatt esbarrando com o ombro em Brian que apenas riu e balançou a cabeça achando graça da atitude revoltada do grandalhão. Jason se aproximou de Kurt com um sorriso de vitória estampado no rosto:
— Sinceramente não sei se te bato ou te mato.
— Se fizer o segundo tá fora da competição.
— Como você conseguiu ter tanta cara de pau pra fazer isso?
— Eu sabia que você iria aceitar. Agora me deve uma.
— Eu nunca devo nada pra ninguém!
— Então é melhor pagar logo – Kurt manteve as mãos nos bolsos da jaqueta e deu as costas ao rival. Jason revirou os olhos tentando controlar seus impulsos de lutador: não importava, ele não podia arrumar briga. Tinha que se manter no programa; precisava daquilo.
Quatro carros com motoristas esperavam os competidores na saída do estúdio. No primeiro carro foram Jason, Sofia e Wyatt. No segundo, Brian, Sally e Kurt. No terceiro reuniram-se Katie, Jill e Lei. No quarto saíram Lewis, Franky e Ray Carter. Os veículos saíram em fila indiana pelas ruas de Los Angeles, passando por Hollywood, Bervely Hills até Malibu.
— Vocês vão gostar daqui – comentou o motorista do primeiro veículo – Se quiserem umas dicas de onde se divertir, conheço essa região como a palma da minha mão.
— Bom saber... – sorriu Jason admirando a paisagem pela janela, observando garotas caminharem pelas ruas.
— Eu soube que todo mundo em Los Angeles tem licença pra correr — Sofia se interessou — Talvez eu me mude pra cá.
— Não é bem assim, mocinha. O pessoal pega pesado aqui também.
— Não tô vendo ninguém preso — resmungou Wyatt.
— É porque só tem gente branca na rua — Jason caçoou. Sofia revirou os olhos e rezou para que Bone levasse na brincadeira.
— Só não te bato porque é verdade...
Jason se calou. O motorista encarou o ex-detento pelo retrovisor e decidiu melhorar o clima daquele grupo.
— Vocês correm há muito tempo?
— Desde dos catorze — Sofia respondeu com um sorriso nostálgico — Meu pai me ensinou para ajuda-lo a vender suas mercadorias na rua. Eu dirigia e ele chamava a atenção de todo mundo. Tive que seguir carreira sozinha quando apreenderam nossa van por “comércio ilegal de bebidas”. Meu pai vendia doces. — a latina resmungou. — De qualquer forma, esse torneio é uma chance pra todos nós. Todo mundo tem uma perna presa em algum lugar e essa é a nossa chance de consertar isso.
Wyatt encarou a paisagem pela janela e Jason pareceu sorrir menos o resto da viagem.
No segundo carro, Kurt seguia em silêncio sepulcral enquanto Brian tentava manter o clima mais ameno:
— Então vocês são filhos de Charles Benton, sócio majoritário da Mark-Sison – comentou encarando Sally que estava no banco a sua frente.
— É... – respondeu a garota – Basicamente ele criou o sistema ecológico da Mark. Ele é biólogo, então é responsável pela parte “orgânica” da empresa.
— Eu não entendo nada disso – ele riu – A única coisa que me lembro de biologia é que tinha um negócio chamado mitocôndria.
Sally riu do comentário e olhou para o irmão que permaneceu mudo e concentrado em seus pensamentos:
— Ele é sempre assim? – Brian questionou apontando para o rapaz de amarelo.
— Ah... Às vezes ele é pior.
— Por que estão nessa? — o policial continuou o “interrogatório” — Assim, por que eles precisam que vocês também corram?
— Foi uma escolha nossa. Precisávamos ser úteis em alguma coisa. Além disso, faz da imagem da empresa algo mais “família”, mas “humano”. Diferente de outras marcas, a Mark não é só um monte de máquinas fazendo peças e combustíveis. São pessoas movendo a economia.
— Certo. Isso é um eufemismo pra dizer que vocês querem “se aproximar do público”. — Brian concluiu. Sally o encarou um tanto confusa e decidiu manter sua mente ocupada com a paisagem da janela.
Os veículos pararam juntos na entrada do Hotel, os pilotos descendo aos trios das limusines, pilhas de malas sendo carregadas pelos mensageiros do hotel.
— Isso é que é vida — comentou Jason, vasculhando cada canto do imenso hall.
— As chaves de seus quartos, senhores — indicou-lhes o funcionário da recepção, cada chave com uma cor diferente, com o nome inscrito de cada um.
— Sintam-se a vontade e serão atendidos sempre que solicitarem.
— Seja honesto, Bone — Ray Carter cutucou Wyatt Bone — Você nunca foi tratado assim, né não?
— To emocionado — o piloto resmungou e seguiu em direção aos elevadores. Cada um seguiu para seu quarto exclusivo.
— Ah... Lugarzinho maneiro – Jason comentou sorrindo.
Brian e Sally subiram no mesmo elevador:
— Achei que vocês fossem ficar com o pai de vocês. – Brian disse curioso.
— Não, eles querem que sejamos competidores da mesma forma. Ficaremos separados assim como vocês.
— Nossa, eu nunca me imaginei num lugar desses.
— Sério?
— Bom, não trabalhando como policial — ele riu — Só se eu trocar de lugar com os caras que eu costumo prender.
Sally riu e a porta abriu para o 16º andar:
— Bom, a gente se vê por aí...
— Certo.
Brian permaneceu no elevador até o 20º andar, tentando imaginar como seriam as competições. Seria a primeira vez que correria pra valer, sem seu chefe reclamando das multas na delegacia.
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— Bom, então o que temos aqui? — quis saber Simon, mãos na cintura, observando o grande telão que exibia as fichas de cada um dos competidores.
— Kurt Benton, habilidades já conhecidas. Indomável, persistente, jamais desistiu de uma corrida. Difícil de receber ordens. Competidor nato. Foca muito na linha a sua frente e ignora ao seu redor. Seus pontos fracos são as laterais traseiras: ele não se protege.
— É, ele sempre acha que pode aguentar uma batida até a chegada. Não dá pra ficar bancando um carro novo toda vez que ele se destrói numa corrida.
— Sofia Martinez, latina nascida no México. Tá tentando ganhar cidadania americana com a competição: a família tá ilegal no país.
— Um dos meus tipos preferidos: bem necessitada. Mas ela tem boa aparência, dá pra conseguir uns trabalhos visuais legais.
— Não acho que ela vá aceitar esse tipo de coisa: é meio durona.
— Querida, essa gente aceita qualquer coisa por comida.
Lena ofendeu-se com o comentário do chefe, mas preferiu não dizer nada:
— Oito competições oficiais: terminou uma em primeiro lugar e todas as demais em segundo. Ela só fica pra trás quando tá o Kurt e o Jason no meio, porque tem medo de entrar na briga dos dois.
— É, eles são as faíscas do time. Problemas...
— Por falar nele, Jason Walker: conhecido por arrumar brigas durantes as corridas. Ele costuma derrubar adversários na pista. Tem rivalidade com o Kurt. Às vezes ele passa mais tempo tentando bater nos oponentes do que propriamente ganhar a corrida: ele perde o controle muito fácil e quase sempre acaba saindo da pista.
— Mas quando ele acerta a coisa é feia mesmo... — Simon mordeu o lábio de forma pensativa.
— Brian O’Conner.
— O que mais me chama a atenção.
— Entrou pra polícia aos 18 anos depois de ser dispensado do serviço militar. É agente civil no distrito 11, normalmente escalado pra caçar caras mais perigosos. Ele é do tipo que prende pra depois arrumar um motivo. Foi enviado numa missão quatro anos atrás, um traficante que recrutava pilotos pra enviar mercadoria pela fronteira mexicana. Foi aí que deslanchou como piloto de racha. O FBI tá tentando recrutá-lo.
— O pai dele... James O’Conner, é delegado do distrito 11. Isso explica porque ele tenta demonstrar tanta eficiência.
— Sally Benton. Ela que se ofereceu pra correr. Tá querendo garantir a empresa do pai.
— É por isso que estamos aqui...
— Ela pilota bem, mas não tem confiança alguma. Termina em posições atrasadas com medo de avançar.
— Ela é péssima... Mas é a única que tem visão estratégica dentre todos eles.
— Ray Carter. Ele é rapper. Começou a correr com o primo. Conseguiram se livrar de uma prisão fugindo da polícia. Ele faz shows durante os rachas. Tá querendo licença pra trabalhar no distrito de Bushmore; depois dessa perseguição, ficou com o nome sujo.
— Como piloto...
— Ele é pacifista. Só ultrapassa se tiver caminho livre. Não é do tipo que se esforça fácil. Mas é por isso que ele consegue abrir caminho pra que os companheiros de equipe vençam. Ele não faz questão de ganhar individualmente, mas prioriza o time. Tem trauma de meter o próprio nome no governo de novo.
— Entendi... Esperto ele.
— Agora Katie Jackson, o avô foi campeão de fórmula indie em 43. Lutou na primeira guerra e na segunda fazia corridas promovendo a paz. É uma tradição entre os Jacksons. Ela já é corredora com autorização do exército americano, mas o nome da família tá decadente. Ela quer reascender a tradição.
— Que gracinha... Corre bem, pelo menos?
— Ela é a garota que venceu o Jeff dois anos antes dele ser modelo da Marc.
— Olha só... que interessante...!
— Lei Bing, do Texas.
— Tinha que ser. Deixa eu adivinhar: ela quer salvar a fazenda dela.
— A hipoteca. Isso mesmo. Especialista em corridas com obstáculos, terra, lama.
— Uma típica fazendeira.
— Ela não é apenas isso — Lena pareceu alterar a voz, mas logo voltou a se controlar — é bicampeã do Texas por corridas em terreno irregular.
— Grande coisa... Mas vamos precisar de alguém assim.
— Jill Richards, vocalista numa banda de J-rock e piloto nas noites vagas. Nascida em Tokyo. Quer alavancar a carreira de modelo. O pai queria que fosse acadêmica...
— Passou longe, então.
— Ela dirige carros pequenos, modelos japoneses.
— Óbvio.
— Mas não por acaso: ela é especialista em street, no modo livre. É adepta dos atalhos: consegue meter o carro em qualquer bueiro que encontra. Ela sabe usar o tamanho do carro a seu favor.
— E deveria saber: quanto ela tem de altura? Um e meio?
— Por aí... Bom, Wyatt Bone.
— Esse me preocupa. Não por causa da prisão, mas ele é instável. Não dá pra saber se ele vai concordar com você ou tentar te matar.
— Mas ele pilota muito. É ótimo em drift, street e até derby. Não tem medo de jogar o peso do carro em cima dos adversários. Consegue por muita gente pra fora.
— Temos que ficar de olho nele é fora da pista...
— Agora, Franky Malcov.
— Toda equipe tem seu hippie maconheiro.
— Não só isso. Ele também é campeão local, Carolina do Sul. Compete no modo derby. Ele é bom com carros altos, vans e essas coisas. Manipula ervas com um grupo de amigos. Ele quer liberação do trabalho.
— Não vai conseguir tão cedo...
— Ele não tem controle em curvas. Bate com facilidade e sai da pista pela tangente. Mas em demolition derby ele sabe vencer. Sabe a hora certa de bater e fugir. É vitória certa coloca-lo por lá.
— E por fim?
— Lewis Duran. Também instável numa corrida. Ele se preocupa mais com as laterais do que a frente: prefere derrubar carros do que ultrapassá-los. Perde tempo com isso, mas numa corrida onde teremos 70 carros competindo, ele vai limpar o caminho. Mas o cara é um mistério. Vem de Detroit. O irmão foi preso por ser cúmplice de um assalto. O menino ia dirigir o carro. Ele tá querendo soltar o irmão. Mas não sabemos muito mais sobre ele: família, antecedentes. Nada...
— Bom, não tô afim de saber. E é isso que temos. Um grupo bem misto.
— Dá pra usar cada um numa coisa.
— Mas só vamos descobrir depois da corrida de amanhã. Talvez metade não passe. Outra pode perder o carro. Normalmente um ou dois morrem. Mas nosso trabalho, minha querida, é garantir a audiência. De resto, tô pouco me lixando pra esses babacas.
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