Dragões Imperiais

8 A força da capitã


Já estava bem próximo do pôr do Sol do dia seguinte, Helena estava sentada sobre uma mesa enquanto conversava sobre o estudo dos corpos.

— É por isso que eu sempre te digo que eu odeio esse imbecil do Normam, a única coisa que ele sabe fazer é ficar com aquela bunda gorda sentada, fingindo que é o braço direito da rainha – disse Forza dando uma forte sugada em seu cigarro, fazendo com que mais da metade do corpo do objeto queimasse com apenas uma tragada, ela então deu duas batidinhas com seu dedo indicador, fazendo a parte que não lhe prestava mais caísse em um cinzeiro logo ao seu lado, ela então assoprou uma grande quantidade de fumaça que dançou no ar procurando a janela mais próxima. Fazendo a pessoa ao seu lado começar a tossir e depois tomar a palavra.

— Mesmo que ele seja tão imbecil quanto você fala, sabe que eu trabalho junto dele, assim como você – disse Diane que era quem estava conversando com a capitã.

— Queria eu trabalhar ao “lado dele” assim como você acha que trabalha, você não deve nada para ele, a única semelhança entre o trabalho de vocês é que ele é o general da cidade e você a doutora chefe do país, ambos têm de apresentar resultados de desenvolvimento do país para a rainha Clare ao lado da Li Ju, eu não, eu tenho de trabalhar nas mesmas coisas que ele e ainda pior, eu tenho de trabalhar para ele – dizia ainda Forza.

Ambas as duas estavam em um consultório médico, enquanto Helena fumava, ela observava a doutora Diane estudar os corpos dos últimos três cadáveres encontrados, ela tinha acabado de descobrir o corpo de Richet e mexia nele, sendo o último dos três, quando ergueu o saco de plástico verde de cima do corpo, lá estava ela, pelo menos o que foi encontrado dela, o corpo estava completamente nu, deixando um bisturi bem na mesa de metal em que estava o corpo ela começou a colocar a mão na carne da vítima.

— Está vendo isso, o corte foi tão profundo que abriu o corpo dessa jovem ao meio, ele estava mesmo querendo acertar seu coração, o fio da navalha pegou diretamente no seio da jovem e veio subindo em um corte reto atingindo e cortando seu órgão principal ao meio – dizia ela enquanto colocava o dedo mostrando o trajeto para a capitã – e assim como nos outros dois corpos, o corte foi certeiro, apenas um golpe em cada um deles, mas sabe o que mais me intriga, Albert teve suas duas pernas cortadas, para muitos o indivíduo teria cortada as pernas uma por uma, mas esse não é o caso, com apenas um corte suas duas pernas foram arrancadas, mas ele não queria matar Albert rapidamente como fez com as duas meninas, não, ele queria o ver sofrer, pelo sangue encontrado na cena, pelos traços de ferimentos na garganta do cadáver e pela ferida em seu peito com toda certeza o assassino queria fazer com que Albert tivesse a morte mais dolorosa que as outras duas, de alguma forma ele segurou Albert no chão para que o mesmo sangrasse até a morte, ele deve ter ficado mais de meia hora sangrando e gritando e essa ferida em seu peito, ela é justamente por onde o assassino segurou Albert até sua morte, se fosse algum tipo de metal teriam resquícios do minério, isso é a única coisa que me intriga, eu analisei a sujeira deixada pelo que o feriu e se assemelha muito com...- dizia a doutora quando foi interrompida pelas palavras de Forza.

— Aranha, as marcas de lâminas, essas eram fios de teia vindas de uma velocidade extremamente rápida e duras como se fossem lâminas mesmo, nós não conseguimos alcançar o assassino, mesmo estando na cola dele nós nem chegamos há ver seu corpo...quatro metros, esse é o tamanho da aranha, pela marca que você me mostrou ela tinha no mínimo quatro metros, obrigado doutora por esclarecer minhas dúvidas – disse Forza ainda fumando enquanto estava sentada sobre a mesa da sala de enfermagem, ela deixou a doutora de boca aberta, mesmo sabendo que foi com sua ajuda, como ela juntou tanta informação a ponto de saber qual era a magia do assassino, é assim que detetives de verdade trabalham, pensou a doutora.

— Você sabe para onde foi levado Alex? – perguntou a doutora Diane.

— Não sei, tenho de me informar sobre isso ainda – disse a capitã em resposta.

Depois de terem conversando sobre como os outros corpos foram mortos e como os soldados estavam respondendo com a presença dessa fera na cidade, Helena se retirou para continuar seu trabalho em outro lugar, então as duas se despediram e Helena saiu pela porta, mas quando saiu pela porta ela disse algumas palavras em tom de voz mínima.

— Me desculpe doutora, Alex está sendo caçado, se eu revelar a localização atual dele estarei alimentando o assassino de informações, por enquanto não posso confiar em ninguém – disse a capitã enquanto ia saindo do consultório.

Helena tinha mandado Rebecca descansar, outros soldados por seu comando receberam a mesma ordem, ela queria um tempo para pensar em quais ações ela tomaria, era seu dever tentar proteger o garoto e por isso não queria mais ninguém recebendo informações sobre o caso, pelo menos não as pessoas que trabalhavam para ela, mesmo sendo uma cela de segurança bem alta, era como uma bandeja que entregaria Alex para o assassino, caso ele tomasse conhecimento de onde o loiro estava, ele iria atrás dele, com toda certeza iria atravessar a cidade atrás do jovem. Já estava escurecendo novamente, Alex já tinha passado cerca de vinte horas preso em um lugar para pessoas que fizeram coisas muitos piores que ele, ela começou a caminhar bem lentamente sobre as ruas já escuras da cidade, parecia ter todo o tempo do mundo, foi por tranquilidade que Alex se atrasou, ela ficou pensando, ter se atrasado e não ter entrado naquele castelo, será que foi isso que salvou sua vida, as ruas eram escuras e silenciosas, Helena parecia gostar disso, ela estava praticamente dançando sobre as calçadas, ela então virou sua cabeça bem suavemente para o lado apenas para olhar para trás por um segundo.

— Com certeza quatro metros – disse sussurrando a ruiva, ela já tinha percebido que estava sendo seguida, ela já estava esperando por isso, ela sabe que o assassino viu a mesma junto de Alex, agora separados o assassino iria lhe seguir, de longe andando no meio das estruturas mais altas ela conseguiu ver uma besta enorme andando sobre as casas como se fosse leve como uma pena, ela estava sendo seguida desde que a noite caiu, Helena apenas saiu do consultório pela noite para chamar a atenção do assassino, ela tinha certeza de que alguém tão esguio não sairia durante o dia em uma das ruas mais movimentadas como aquela.

Chegando na prisão ela viu como aquele lugar era sujo, sabe o lugar de mais cedo, aquele lugar fedido da cidade, lá pode ser pior, mas se assemelha muito com o lugar onde estava agora, as paredes eram feitas de grandes blocos de cimento, a vegetação que rodeava o lugar já estava morta, era como um forte enorme daqueles que vemos em desenhos, Normam estava lá dentro, com toda certeza ele tinha poder suficiente para segurar todos os prisioneiros caso eles tentassem fugir, Helena foi andando pelo lado de fora de onde ficavam as jaulas, na procura de Alex, ela foi olhando por barras de metal que mostravam os prisioneiros para o público, foi quando olhou um loiro, de cabeça baixa e seus cabelos jogados sobre o rosto, ele estava sem camisa, talvez fosse uma forma que encontraram para conseguir revistar o mesmo. A mulher se aproximou bem rápido da grade para tentar dar uma injeção de ânimo no jovem com o susto.

— OI GAROTO! – gritou Helena enquanto bateu contra as grades, segurando nelas e ecoando o barulho pelo ambiente.

— Oi capitã...- Alex respondeu muito para baixo, mesmo Helena sentiu o desanimo vindo dele, Alex se levantou e ficou de frente para a mulher, os dois estavam com seus rostos bem próximos, separados pelas barras de metal. Enquanto Alex observava olhos da cor do sangue, que brilhavam como chamas, Helena observava olhos castanhos e desanimados.

A ruiva deu um forte suspiro, se afastou um pouco, pegou outro cigarro de uma caixa de sua cintura e o acendeu sem usar isqueiro, ela tinha usado magia, ela então levou a caixa na direção de Alex lhe oferecendo.

— Não, obrigado – disse ele e logo depois se afastou das grades também, novamente se sentando sobre uma cama velha. Helena deu uma tragada e se virou, ajeitando as costas na parede do lugar e observando as casas mais altas, vendo se ainda estava sendo seguida.

— Você é mesmo um imbecil, um idiota que não conseguiu nem pensar por um segundo que seus amigos também estavam em perigo além de você, eu tive que pensar em voltar para ajudar eles, por que você não teve a capacidade de pensar se eles ficariam bem ou não – disse a capitã, ela parecia bem irritada.

Alex que já estava triste, quase não conseguiu engolir essas palavras, ele chegava a respirar com força.

— E sabe o que mais você é, você é fraco, muito fraco, eu tive que salvar a madame loirinha, por que ela não conseguiu ver o ataque vindo em sua direção, eu tenho esse posto hoje por causa da minha força, se fosse alguém mais fraco teria perdido a mão ou você sua cabeça, mas eu acho que não deveria salvar um idiota fraco como você – continuou falando Helena.

Alex começou a chorar de desanimo, ele segurava sua voz, mas as lágrimas em seus olhos estavam escorrendo pelo rosto e pingando pelo nariz, ele chorava por que sabia que tudo o que ela estava falando era verdade.

— Se você fosse mais forte conseguiria ter salvo os seus amigos, mas agora eles estão mortos, treinou por quanto tempo, dois anos e achou que isso seria o suficiente, bem-vindo ao mundo real, eu não sou a mamãe, a mamãe iria ficar te incentivando, “seja mais forte”, “você consegue”, “você fez o que pode”, mas a verdade é que eu não sou a mamãe, eu não irei ficar fazendo discurso motivacional – terminou Forza.

— E por que você veio aqui então, para esfregar na minha cara que você é uma canalha, que eu sou idiota, tudo bem, quer trazer os corpos deles aqui e os esfregar na minha cara, seria melhor do que ficar ouvindo você falar essas merdas – disse Alex que se levantou estressado.

— Eu sou bem diferente que você menino, eu sou muito superior...- dizia a capitã enquanto fumava, ela então jogou seu cigarro no chão – mas sabe qual a semelhança entre eu e você...eu também sou uma idiota...meu objetivo era lhes ajudar e escoltar pela cidade...mas eu, com o segundo maior posto de soldado da cidade não consegui ajudar quatro jovens à se manterem vivos, se você é idiota eu sou mais ainda...bem-vindo ao mundo real Alex Dfurs, no meu mundo as pessoas não voltam à vida, no meu mundo nós não conseguimos salvar as pessoas a tempo e as vezes somos nós mesmos que os matamos – dizia Helena.

Essas palavras começaram a acalmar o loiro.

— Eu não sou a mamãe, mas eu sei de uma coisa, você pode ficar aqui mofando nessa merda, dividindo o almoço com ratos ou pode vir comigo e vingar a morte dos outros três – terminou a capitã.

— Ei sua canalha, eu te odeio, mas você não é capitã à toa, eu estou dentro – disse Alex, de cabisbaixo ele estava agora cheio de vigor.

— Para trás, eu irei arrombar essa jaula – ordenou a capitã, Alex obedeceu ela e deu alguns passos para trás, Forza cerrou o punho e ele começou a queimar, fez uma pose de combate e socou a parede de tijolos com força, com o impacto uma explosão se formou, estourando o lugar inteiro.

Uma silhueta bem alta se formou vindo na direção deles e tossindo por causa da poeira que levantou, ambos conheciam aquela silhueta, era Normam, que vinha com os olhos cerrados com ódio de quem tinha feito aquilo.

— Vocês duas não podem fazer isso – disse ele naquele sotaque escocês estranho que só ele usava.

Forza agarrou Alex pelo braço e lhe mandou em uma direção que o mesmo ficasse atrás dela, Normam colocou a mão em um saco de tecido que estava em sua mão, ele tinha alguma arma dentro daquilo.

— Não vai ser você que vai conseguir me impedir, quer mesmo tentar? – perguntou a ruiva desafiando ele enquanto a fumaça acabava de se dissipar no ar. A magia dos soldados mais fortes do reino iria se cruzar.

Ele pensou bastante enquanto olhava Forza nos olhos e acabou dando um forte suspiro, ele então desviou o olhar com desdém, recuando dessa batalha – você vai perder sua título por isso.

— Vamos logo, precisamos encontrar com a Rebecca e então, irmos atrás desse assassino, eu não sei sua identidade, mas você já encontrou com ele, você sabe quem ele é – disse a capitã enquanto corria com Alex ao seu lado, os dois tinham um objetivo claro e em comum.

De longe entre os edifícios da cidade oito patas andavam sobre as telhas bem discretamente, a criatura estava observando tudo.