Dragões Dourados
3 Capítulo 3 - Alma de guerreiro
Na manhã seguinte, os soldados punidos causaram grande impacto no despertar dos soldados. Todos os olhavam questionando o que teria acontecido, mas nenhum deles ousou falar sobre o assunto.
Shiryu preparava-se para sair e iniciar os treinos, mas antes foi ver Selene. Ela ainda dormia profundamente na cama do quarto que havia sido, ou que ainda era, de Shunrei. Shiryu ficou aliviado ao ver que tinha conseguido estancar todos os sangramentos e que agora era uma questão de tempo até que a moça estivesse curada. Tempo que ele aguardaria ansioso, pois queria muito vê-la em ação, proporcionando a rara oportunidade de presenciar o nascimento de um Cavaleiro, ou Amazona.
Como Cavaleiro de Atena, Shiryu não utilizava armas, apenas seu Cosmo para lutar. Contudo, teria que ensinar aos homens alguns princípios básicos com as armas que tinham. Ele já havia usado a armadura de Libra em algumas ocasiões, portanto, tinha alguma experiência com material bélico. Entretanto, o que mais desejava era orienta-los quanto a honra, a importância de servir ao próximo e mais ainda, tentar despertar o Cosmo de cada um deles.
Shiryu dividiu os treinamentos em diferentes categorias e, com o tempo, foi encarregando os mais bem-sucedidos para ficarem à frente de alguns treinos. Deixou um soldado chamado Adelphos, exímio atirador de flechas, encarregado de aprimorar a mira dos discípulos; Boreas, treinava-os com espadas e maças; Demitri conduzia os exercícios com lanças e escudos. O combate corpo a corpo ficou exclusivamente com Shiryu. Durante os treinamentos, escolhia alguns homens para lutarem contra ele e, assim, ia ensinando sobre como honrar seu adversário, não recorrer a golpes baixos e jamais desistir de uma luta, já que vidas dependiam da determinação de cada guerreiro em batalha.
Ao final de cada dia, Shiryu observava como pequenos grupos se uniam, assim como ele, Seiya, Hyoga, Ikki e Shun. Esperava que bons frutos viessem destes laços, diferentemente daqueles infelizes que se uniram para atacar Selene. Estes, pareciam sempre insatisfeitos e não tinham qualquer prestígio dentre os colegas, permanecendo isolados. Porém, mesmo rebaixados, não deixavam de receber ensinamentos por parte de Shiryu, que procurou manter-se otimista quanto a uma melhora de caráter deles. Até mesmo Ikki agira de modo perverso no passado, mas apesar de tudo, era inegável que sua mudança ocorreu durante tudo o que os Cavaleiros de Bronze enfrentaram e que seu papel fora fundamental.
***
Certa noite, ao voltar para casa, Shiryu guardava sua armadura, quando ouviu ruídos vindos do quarto de Shunrei. Correu até lá, temendo por Selene. A garota estava caída ao lado da cama, devia ter caído numa tentativa falha de se levantar.
— Acalme-se, Selene. Está em minha casa, não precisa temer. – disse o Dragão, colocando-a sentada na cama.
— Eu, eu... fiquei confusa. Não sabia onde estava. Shiryu! – ela gritou, alarmada — O exército! Não me diga que partiram sem mim, seria terrível. – as pupilas de Selene estavam dilatadas, a pele já alva, ainda mais pálida. Shiryu tentou alimentá-la mesmo desacordada, mas não havia sido o suficiente para que se restabelecesse por completo.
— O exército ainda engatinha, Selene. Terá muito tempo para juntar-se a ele. Agora, precisa comer. Vou lhe trazer algo para comer. Não tente se levantar, está bem? Volto já.
Não havia nada na cozinha da casa, Shiryu teria que descer até o acampamento e procurar por algumas sobras que pudessem fortalecer sua hóspede debilitada. Por sorte, ainda havia alguma sopa e pãezinhos que ele embrulhou com cuidado e levou de volta ao seu refúgio.
Quando retornou ao quarto, Selene estava embrulhada num cobertor e recostava-se à janela que dava para a queda d’água nos fundos da casa. O vento jogava seus cabelos contra o rosto, porém isto a deixava ainda mais bela. As suas mãos eram finas e delicadas, mas Shiryu notou que estavam azuladas segurando o cobertor. A noite estava muito fria para ser observada daquela maneira.
— Também sonhei com Rozan... Só não sabia que era ela que me presenteava com visões tão lindas. – Selene falou, sorrindo pela primeira vez.
— Cresci aqui e ainda me deslumbro com a beleza todos os dias. – ele repousou a refeição no criado-mudo próximo à cama simples de madeira. Aos poucos, foi se aproximando da janela e da garota.
— Apesar do que fizeram comigo, sou grata por ter vindo, ainda assim. Jamais o teria conhecido e... – ela apertou os lábios com força, arrependida por perto pensado tão alto.
— Também sou grato por estarmos aqui, Selene. – Shiryu recostou-se no lado oposto da janela, sentando-se no beiral de frente para ela. – Você está muito fria. Veja suas mãos – ele apontou para os membros quase congelados de Selene.
— Nossa! Não percebi. – ela não parecia saber o que fazer.
— Posso? – Shiryu estendeu suas mãos para que Selene depositasse as suas sobre as dele. Ela pareceu atônita com a oferta, mas obedeceu. Shiryu fechou suas palmas num abraço quente, aquecido por seu Cosmo. Logo, envolveu todo o corpo dela com sua força interior e a aqueceu. Contudo, quando isso aconteceu, Selene conseguiu ler toda a alma de Shiryu, assim como o Cavaleiro acessou todas as memórias, sentimentos e a essência daquela garota que mal conhecia. Era um tipo de ligação inédita para ambos. A aura esverdeada envolvia os dois e ressoava por todo o quarto, projetando sua luz até mesmo sobre as águas que caíam no quintal. Seus olhos se fecharam.
Quando perceberam, tinham ambas atadas e as testas recostadas. Selene sorvia toda a bondade, altruísmo e bravura de Shiryu como um elixir curativo, enquanto o Cavaleiro sentia toda a delicadeza, força e sensibilidade de Selene. Nenhum dos dois queria que aquele momento acabasse.
Entretanto, uma estrela rasgou o céu. Ambos ergueram levemente as cabeças para contemplar. A estrela passou frente da imagem da Lua.
Selene sentiu algo diferente dentro de si. E, todo o frio, palidez e fraqueza pareceram deixa-la. Ela olhou para Shiryu. Ele também sentira. Seu aperto de mão estava mais forte. Seus braços pareciam puxa-la para mais perto. Suas testas recostaram-se novamente e ela podia sentir sua respiração tocar sua pele. O coração de Selene disparou e ela começou a arfar.
Lutando para não abrir os olhos e quebrar aquele momento, Shiryu perguntou:
— Você está bem? – sua voz era um sussurro aveludado.
— Acho que não, senhor. – ela começou a afrouxar os dedos do enlace de Shiryu.
— Por favor, não me chame assim. Somos iguais, não percebeu isso agora há pouco? Há muito poder dentro de você.
— Não tenho certeza do que houve, senh... Shiryu. Mas, vim para me tornar mais uma em seu exército. Acho que já é hora de assumir meu lugar. – ela esperou que o guerreiro abrisse os olhos para levantar-se.
O Cavaleiro de Dragão estava aturdido. Fora um momento muito marcante para ele e, Selene o encerrara de maneira brusca e estranha.
— Deixarei que descanse. Amanhã, se sentir-se bem, pode iniciar seu treinamento. – falou, a voz assumindo o tom de Mestre que utilizava com os demais. – Tenha uma boa noite, Selene.
— Boa noite, Mestre. – ela falou, sem olhar para Shiryu.
No entanto, nenhum dos dois pôde dormir naquela noite. O que acontecera naquela janela? Como puderam ver a alma um do outro daquela maneira? Qual seria a explicação para a estranha ligação entre eles? Por que Shiryu via o rosto de Selene sorrindo para ele, mesmo quando revirava-se tentando dormir? Por que Selene não esquecia o olhar brilhante esmeralda de Shiryu vindo em seu resgate?
Eram muitas questões para a noite sanar. Na parede do quarto de Selene, as aquarelas de Shunrei ainda estavam pregadas nas paredes e a observavam agitar-se ouvindo a voz do Dragão: “Somos iguais.”
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