Dragões Dourados

10 Capítulo 11 - Espólios


Havia poeira, fumaça e um cheiro fumegante impregnava todo o ar. Não havia sinal do sol ou lua, era impossível distinguir dia ou noite em meio ao pandemônio devastado. Os gritos cessaram, a névoa densa encobrindo qualquer sinal dos prisioneiros. O solo parecia despedaçado, com muito pó cujas pequenas pedras perfuravam os dedos ao mais leve movimento. Do lugar onde deveria ficar o céu, uma chuva de cinzas caía fina e de uma cor óssea.

Um apito agudo era tudo que era possível ouvir. Aquilo atordoava ainda mais a mente, fazendo com que qualquer tentativa de se colocar em pé fosse quase hercúlea. A desolação e a falta de ar apertavam o peito, fazendo com que a vertigem tomasse força.

De repente, em meio ao cinza mortífero, duas figuras começaram a tomar forma. Estavam abraçadas e cobertas de fuligem. Elas tinham acabado de cair do céu.

Selene não queria acreditar naquela possibilidade. Tentando em vão limpar os olhos, sua voz saiu inaudível quando tentou gritar pelo seu amado.

Ele tinha feito. Executado a técnica que havia sido proibida. O Último Dragão. Subira com Shunrei até a atmosfera para que ambos morressem. Estranhamente, não haviam se despedaçado ou seus corpos desfeitos pelo espaço. Caíram ali, Selene não sabia se vivos ou não. Tentando caminhar, ela cambaleou até eles.

Shiryu segurava a amiga envolta em seu corpo. A cabeça dela recostada em seu peito. A dele, sobre o topo de seu crânio. Os pequenos de Shunrei seguravam as laterais da armadura dourada com força. Os olhos cerrados de ambos jorravam sangue, assim como as laterais dos lábios.

— Shiryu? — Selene chamou, seus próprios olhos já transbordando.

Aos poucos, alguns músculos do rosto do Cavaleiro foram se movimentando. Por fim, ele arfou dolorosamente. Com cuidado, foi soltando Shunrei que se assemelhava a uma boneca de pano. Com respeito e zelo, a deitou no chão e dobrou suas mãos uma sobre a outra. Lágrimas sangrentas caíram sobre a túnica arruinada da amiga. Shiryu ficou de joelhos ao lado dela.

Selene sentiu que sua presença ali não ajudaria em nada. Saiu em busca dos sobreviventes ao longo do que uma vez fora uma montanha. Ela mesma desconhecia a extensão de seus ferimentos, porém, precisava preencher seus pensamentos com algo que não fosse a perda imensa que acabara de presenciar.

***

Meses depois...

Passos rápidos e pesados. Armaduras. Prata. Bronze. Ouro. Todas caminhavam em uma só direção. Uma campina recebia verdejante a luz do sol cravejada de túmulos, muitos não identificados. Ali, jaziam aqueles julgados por Zeus como indignos e merecedores do Tártaro ou Inferno. Cada Cavaleiro que ali estava havia passado pelo crivo do deus dos Céus e trazia um ramalhete de flores para depositar junto à lápide de seu antigo companheiro. Feitas as devidas homenagens, iniciaram uma caminhada rumo a uma pequena queda d’água no início da floresta que cercava Rozan.

Um singelo mausoléu fora construído com arquitetura chinesa. Dragões guardavam todos os pontos cardeais. Yuzurihas floresciam e cobriam a edificação de flores rosadas. Selene se recostava em um dos pilares, acariciando a madeira vermelha com os olhos igualmente rubros pelo pranto. Shiryu estava à frente da entrada e aguardou a chegada de todos antes de falar:

— Agradeço pelas homenagens que depositaram aqui aos soldados e a Shunrei. Creio que devo muitas explicações a todos. Sei que me mantive recluso após os terríveis acontecimentos no dia do ataque de Zeus. Não mentirei a vocês. Esta certamente é a maior ameaça que os Cavaleiros de Atena já enfrentaram. E o que houve em Rozan foi apenas um teste. Dimitri e Shunrei nada mais foram do que peões descartáveis nas mãos do perverso deus para nos desestabilizar e ainda mais a Atena. Naquele dia, levei Shunrei comigo aos céus, não poderia viver sabendo que a matara, mas não poderia permitir que ela continuasse a ser usada daquela maneira. Quando chegamos à estratosfera, já conseguia sentir a vida esvair-se de meu corpo, quando ouvi Zeus dizendo que Shunrei fora a decepção que ele esperava. Ele a matou em meus braços. Uma onda de poder nos lançou de volta à terra. Por certo, a mensagem que transmito agora já era esperada. Só fui poupado por isso.

“E vocês, que hoje ostentam orgulhosos suas armaduras, foram salvos pela proteção de suas constelações, acudindo-os naquele momento de desespero. O treinamento de todos foi completo. Congratulações.”

O Cavaleiro de Libra parou de falar. O olhar percorrendo cada homem e mulher que estava perante o túmulo da antiga moradora e guardiã de Rozan. Quantas vezes ela não havia orado em meio aquelas águas? Seu destino selado como o de outros tão indignos que mal puderam ter seus nomes escritos sobre suas covas. A fúria o fez fechar os punhos com força.

— Mas, senhor Shiryu, o que faremos agora? Pretende nos abandonar? – disse o novo Cavaleiro de Lobo, a armadura reluzindo ao fundo da clareira.

— Recebi uma nova ordem. Ou diria que é um convite. Nós vamos... ao Santuário. Chegou a hora de reocupar as Doze Casas e de lutarmos ao lado de Atena na Suprema Guerra Santa.

— Viva ao nosso Grande Mestre! – gritaram todos em uníssono.

Selene achegou-se ao seu lado e enlaçou os dedos nos dele.

— Cuide bem da Casa de Libra, meu amor. – Shiryu sussurrou.

— Sim, Mestre. – ela respondeu, o olhar determinado ainda mais cinzento.

Uma estrela cadente cruzou o céu sobre eles. Todos sorriram. Mais um Cavaleiro surgia em algum lugar. Agora, mais necessário do que nunca.

Logo, Rozan ficou silenciosa. A partida dos Cavaleiros iniciava uma nova era iniciada no berço dos Dragões.

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