Dragões Dourados

9 Capítulo 10 - O despertar


Os guerreiros de Libra não conseguiram conter as lágrimas enquanto corriam colina abaixo, ouvindo gritos e vendo a fumaça que se erguia pelo vale. Próximo ao acampamento, Selene estacou, atônita. Tapou a boca com as mãos ao constatar que todas as pequenas edificações do acampamento estavam reduzidas a ruínas. As águas que corriam nos arredores também estavam tingidas de negro, pontilhadas por manchas de sangue que vinham da terra. E, no solo, estava a pior parte. Os corpos de muitos soldados jaziam sem vida, destroçados e com armaduras não montadas por completo. Os homens foram pegos de surpresa. Aquele era um ataque covarde, provavelmente vindo de Zeus, quem saberia?

Shiryu, com o coração igualmente ferido, pegou uma das mãos trêmulas da companheira e apertou entre as suas. Fez sinal para que ela se erguesse, recomposta. Precisavam vingar aquelas vidas e destruir a origem daquele mal. Embora, se enfrentar Hades havia consumido as vidas de todos os Cavaleiros de Ouro e ainda tantas outras, imaginar guerrear contra o rei dos deuses lhe causava sérias preocupações.

Ainda assim, jamais desistiria. E Selene também não. Ela enxugou o rosto, levantando e assentindo para Shiryu. Seguiram em frente, para um monte onde as nuvens começavam a se aglutinar. Estavam sendo atraídos para uma batalha com toques fortes de armadilha. Sabiam disso, porém não havia nada que pudessem fazer. Se este seria o destino deles, que assim fosse.

No cume do monte, onde antes a neve repousava plácida, deixando fluir pequenas cascatas em dias mais quentes, agora nuvens pesadas, trovões e raios sacodiam a rochas, fazendo com que grandes pedras rolassem em diversas direções. Seria praticamente subir e não morrer, fosse por uma avalanche, deslizamento, por uma rocha caindo ou uma descarga vinda de um dos raios. O vento era tão forte que abrir os olhos já se tornava uma tarefa hercúlea.

— Vou subir. É melhor que volte ao acampamento e ajude a procurar por sobreviventes, Selene. Certamente, não serei um deles. – Shiryu falou, precisando erguer a voz contra a tempestade de ventos.

— Ainda não compreende, Shiryu? A Armadura se dividiu porque precisamos complementar um ao outro. Devemos lutar juntos! Não deixe que seu senso de cavaleiro e protetor o cegue ao ponto de me subestimar. Você não precisa morrer por mim. Se cairmos, será lado a lado. – Selene gritou de volta. O cabelo se emaranhando ao redor do corpo. Sem aguardar resposta, apressou-se em começar a subida. Não adiantaria tentar usar o Cosmo naquelas condições. A ventania maligna era densa demais. Shiryu deu um sorriso triste e começou a escalada.

Com dificuldade, ambos alertando sobre as pedras e perigos ao outro, conseguiram chegar ao cume do monte. Era possível sentir o chão reverberando abaixo dos pés, como se toda a montanha fosse rachar, tornando-se pó.

Selene e Shiryu empunharam as espadas e escudos da Armadura. Talvez não fosse necessário utilizar armas, contudo, aquela era uma situação sem precedentes.

— Dimitri! Estamos aqui! Venha nos enfrentar! Já profanou Rozan demais para que eu possa perdoa-lo. Deve pagar pelas vidas que tomou. – Shiryu desafiou o inimigo oculto, esperando que se concentrasse apenas nele e não em Selene.

Uma risada gutural e demoníaca tomou o cume da montanha, onde uma grande parte de rocha começou a se desprender. A Armadura de Dimitri era feita de rochas.

— Seu covarde! O que foi que lhe ofereceram para agir com tamanha iniquidade? Acha que seus atos não terão consequências?! – Selene indagou, a raiva fervendo dentro dela.

— É exatamente o que espero. Queremos mudanças, o mundo que Atena construiu é um poço imundo e decadente. E, vocês, escória submissa a ela, querem mantê-lo assim. É como remar em um navio naufragando. Ainda assim, os Cavaleiros de Atena estão apertando os remos entre os dedos e crendo em milagres. Quem são os tolos, afinal? – Dimitri zombou. – E quem melhor do que aquele que governa o céu para consertar os erros de sua deusa egoísta e insana?

Shiryu correu em direção a Dimitri, farto de seus discursos repletos de blasfêmias, porém o Cavaleiro de Zeus bateu os pés agigantados pela armadura no já instável solo, abrindo uma fenda que engoliu o Dragão. Com esforço e rapidez, ele conseguiu segurar-se em uma das beiradas. Selene correu em seu socorro, puxando-o para cima, sem tirar os olhos de Dimitri. Não seria pega desprevenida e a honra não estava dentre as qualidades do oponente.

— Ainda não, Shiryu. Chegará o momento em que irei lhe matar, mas não agora. Antes, quero que conheça a representante de Zeus na terra. Assim como Hilda e Saori, Zeus despertou em sua forma humana e enfim, está em posse de todas as suas forças. Contemplem!

O que se veria a seguir beirava o impossível, com requintes de crueldade, especialmente para Shiryu. Shunrei imergiu das nuvens, como se montada em uma carruagem feita delas. Nas mãos, tinha raios incandescentes, seus braços carregavam símbolos gregos que brilhavam dourados, o cabelo estava trançado por um fio de ouro, coroado com as folhas do Olimpo e sua túnica dourada era presa no ombro esquerdo por um brasão de Zeus. Em seus olhos, não havia mais qualquer resquício da amiga de infância do Cavaleiro. Suas írises estavam completamente brancas e reluzentes, como os raios que rasgavam o céu. Não havia expressão em sua boca ou em qualquer parte do antes gentil rosto. De fato, agora a transformação estava completa.

Quando sua carruagem mítica parou, ela postou-se diante deles, usando um raio flamejante como cetro. A voz que emanou de sua boca era inumana:

— Eu detenho os céus, mortais tolos. Aqueles que pertenciam ao Tártaro, seriam entregues a Hades, mas vocês o destruíram. Logo, suas almas vagarão sem rumo por toda a eternidade. Aqueles que pertenciam aos Elíseos, estão bem aqui. – com um movimento imponente, os símbolos de seus braços e olhos arderam e quando Shunrei lançou o cetro para trás, as nuvens se desfizeram. Centenas de soldados estavam enjaulados. Presos como animais e recebendo diversas descargas elétricas dos raios de Zeus. Os gritos eram quase insuportáveis, partiam o coração de Shiryu e Selene.

— Solte-os, Zeus! E liberte Shunrei, ela não pertence a você! – exigiu o Cavaleiro. Dimitri gargalhou ao ouvi-lo falar.

— Tão pouco pertencia a você, Shiryu, que rejeitou minha hospedeira durante todos esses anos. Não queira reclamar porque fiz melhor uso dela. Servir chá e fazer ataduras nunca foi o destino deste corpo. Não foi à toa que ela foi atraída até aqui. Vocês, imbecis, temeram e vigiaram tanto Hades que se esqueceram do maior dos deuses, cujo local de repouso também se encontrava aqui. – o corpo de Shunrei falou.

— Já chega! – Selene berrou. Seu Cosmo já emanava com fúria. Juntando todas as suas forças e dor pelos aprisionados e mortos, ela golpeou Shunrei com o punho do Dragão. A representante de Zeus segurou sua mão dentro da sua palma fortalecida pelo poder do deus. Com um meio sorriso, começou a esmagar os ossos dos dedos, produzindo um som terrível. Selene caiu, gritando em agonia. Sem seu punho, como daria seus golpes? As lágrimas queimaram seu rosto, num misto de frustração e raiva.

— Shunrei... – começou Shiryu.

— Cale-se! Essa pessoa já não vive. Refira-se a mim com reverência, humano imundo. – a voz inumana e cortante de Zeus ecoou pelo pequenino corpo de Shunrei.

Shiryu sentia-se em meio a um grande impasse. Não poderia deixar que Zeus matasse Selene, pois já a amava como uma parte sua. Contudo, jamais ergueria um dedo sequer contra Shunrei. A hesitação tomou conta do Cavaleiro de Libra. Precisava medir, analisar qual seria a melhor alternativa, mas não contava com a benção do tempo para tal. Fechando os olhos, cerrados com angústia, ele fez o que seu coração íntegro o impeliu a fazer.

— Me perdoe. – sussurrou.

E sangue foi derramado.