Dragão Escarlate
7 Capítulo 6 - Treinamento
—Apesar do Spike ter lidado com a questão de um jeito muito idiota, eu acho que ele pode ter razão. – Era Dandara falando, um pouco depois de sair da sala.
Apesar do pequeno husky siberiano ter acabado de sair, não o encontramos quando olhamos para os lados no corredor. Fomos andando lentamente em direção ao setor do orfanato em que ficavam nossos quartos.
—O que quer dizer, Dandara? Acha que aquele cão não é o nosso diretor de verdade? – O G parecia convencido de que aquele realmente era o diretor, acho que ele conseguiria identificar se fosse uma ilusão.
—É, não acho que seja. Não estou dizendo que o diretor é fraco, mas se ele fosse forte o bastante para derrotar aquela... coisa, ele também poderia ser forte o bastante para controlar o cachorro. – Todos nós tivemos calafrios quando ela mencionou o monstro.
—Não sei não, eu realmente acho que ele era o nosso Diretor. Se existem monstros fortes e pessoas fortes, por que não poderiam existir cachorros fortes? – Eu disse, com minha lógica imbatível. Não precisava ser nenhum especialista para perceber o quão poderoso o diretor era.
Dandara não pareceu convencida, mas também não mencionou mais o assunto. Todos estávamos pensando no quão forte era o monstro e como poderíamos melhorar. Não estava prestando muita atenção a onde estava indo, mas me surpreendi quando uma das moças que trabalhava no orfanato impediu a nossa passagem para o corredor dos quartos. Ela tinha o cabelo longo preso em um rabo de cavalo atrás, usava um vestido longo azul-claro até os pés, com um pequeno crachá no peito, que não nos demos o trabalho de ler.
—Tomem aqui, preencham esse formulário do professor Fierce e me entreguem. – Ela estava segurando diversas folhas e canetas, nos entregando algumas para que pudéssemos escrever.
Acho que o professor esqueceu de entregar em sala, ou talvez todos estivesse no mesmo estupor e acabamos ignorando qualquer coisa que ele tenha tentado nos entregar, mas pegamos as folhas e analisamos as questões.
Não era nada muito complicado, a folha tinha um espaço para preencher os nossos nomes e uma única questão exigindo que descrevêssemos como iriamos melhorar nossos poderes, o enunciado também perguntava se seria necessário algum objeto para fazer isso e qual.
Parecia que a moça não nos deixaria passar até que entregássemos o papel, e como vi que Dandara e G já estava terminando de preencher os seus, resolvi preencher o meu também. O que eu precisava para melhorar... bom, era óbvio que eu fazia plantas crescerem e todo mundo dizia que eu tinha muita energia sendo liberada, então nada mais óbvio do que pedir um vaso de planta com uma semente e uma pilha. Essa com certeza iria ser a melhor maneira de melhorar, eu tinha quase certeza absoluta.
Entregamos nossos papéis e a moça deixou que prosseguíssemos. Eu não sabia exatamente onde eram os quartos deles, mas o meu foi o primeiro. Me despedi dos dois e entrei, pegando uma muda de roupa no armário e indo no banheiro para me banhar. Esse com certeza tinha sido um dia puxado, eu ganhei uma batalha, peguei o rank mais baixo possível, quase morri para um monstro que deveria ser fraco e conheci um cachorro mais forte que todos os alunos combinados, só mais um dia normal, não é mesmo? Saí do banho e me deitei, apagando quase imediatamente.
No dia seguinte, quando me levantei, percebi que a minha escrivaninha, normalmente vazia, agora sustentava um vaso de planta não muito grande (seria possível o carregar nos braços) e uma única pilha, acho que esqueci de especificar o número que eu queria.
Peguei o pote cheio de terra e a pilha e fui para o refeitório, pouco antes da sirene tocar. Eu queria deixar as coisas em uma mesa para não ter dificuldades na hora de pegar minha comida. Entrei na fila antes da maior parte das outras crianças, pegando o meu prato e indo para a mesa escolhida. Pão com geleia e suco de laranja, eu gostava de coisas simples... às vezes.
Não muito depois de começar a comer, G e Dandara se juntaram a mim. Era óbvio que eu estava curiosa para saber se eles também tinham recebido os objetos que pediram, e eles também pareciam curiosos com os objetos que eu tinha escolhido.
—Dandara, Dandara, o que você pediu? – Eu a perguntei animadamente.
Ela se sentou e sorriu, tirando uma caixa de fósforos do bolso. Eu fiquei um pouco confusa, o que ela faria com fósforos? Isso parecia algo útil para o Spike.
—Os outros objetos que eu pedi estão no quarto, eu resolvi que ia começar com algo mais simples sabe? – Ah, então tinha mais objetos, só eu que fui besta e esqueci de especificar quantidade.
Dandara pegou um dos fósforos e acendeu, segurando com o indicador e o polegar e encarando as chamas. Não entendi bem o que ela estava fazendo mas vi as chamas descerem devagar até os seus dedos e, quando estavam quase encostando, ela soprou e colocou o palito na mesa.
—Bom, eu não comecei a praticar ainda, mas quero aumentar a velocidade que a minha mutação adaptativa se ativa, e sua eficiência também. – Ela guardou a caixa no bolso das calças (eu nem sabia que elas tinham bolsos). – Acho que eu consigo em algum tempo, tenho vários objetos no meu quarto que me ajudariam em diferentes situações.
Encarei o G e ele pareceu perceber que eu também queria saber o que ele tinha pedido. Ele suspirou e soltou o garfo, pegando o que parecia uma bolinha de gude em um dos seus bolsos.
—Também pedi mais de uma, as outras maiores estão no meu quarto. – Ele comentou.
G se concentrou na bolinha até uma gota de suor começar a escorrer de sua testa, e ela simplesmente sumiu, sem deixar vestígios.
—O que!? – Eu indaguei, Dandara também parecia surpresa. – Você nos colocou em uma ilusão? A bolinha está aí, mas não conseguimos vê-la?
—Não, ela realmente não está aqui. – Ele parou de se concentrar e a bolinha reapareceu, sendo guardada logo em seguida em seu bolso. Ele voltou a comer e me perguntou: — E você, o que vai fazer com essas coisas aí?
Como eu já tinha terminado de comer, não me importava nem um pouco em colocar o pote de terra no colo. Fiquei encarando o meio do pote até ver um pequeno broto verde nascendo.
—Viu? Plantas crescem mais rápido perto de mim, eu pensei que se tivesse sempre uma planta comigo, ela ia acabar crescendo ainda mais rápido, porque eu estaria sempre usando o meu poder. – Eu estava muito orgulhosa de mim mesma, vendo a planta crescendo lentamente na frente dos nossos olhos.
—E o que exatamente você vai fazer com a pilha? – Dandara perguntou, quase acabando de comer.
—Sempre me disseram que eu libero muita energia, então eu pensei: se eu libero energia, eu devo conseguir acender uma lâmpada ou carregar uma pilha, não é mesmo? – Comecei a me concentrar na pilha, segurando ela com uma das mãos.
—Alicia, eu não acho que é esse tipo de energia que todo mundo fala, acho melhor você pa... – Mas era tarde demais, a pilha na minha mão estourou quando comecei a liberar um pouquinho a mais de energia, espalhando um liquido marrom viscoso na mesa e no prato dos dois.
—Ops... eu achei que era a mesma coisa, talvez não tenha sido a melhor das ideias... me desculpem. – Eu falei, olhando para o líquido nos pratos quase vazios dos dois.
Dandara e G encararam o resto de suas comidas manchadas de marrom e se deram por satisfeitos. Nos levantamos e seguimos para a aula novamente, dessa vez fomos informados de antemão que deveríamos ir direto para a arena, então não nos preocupamos de passar na sala de aula.
Dessa vez, havíamos chegado antes dos outros alunos, o que era algo positivo e quase um milagre, pois sempre estávamos atrasados. O professor se aproximou de nós, ele provavelmente não tinha lido o que escolhemos para treinar, então perguntou:
—Vejo que vocês já começaram a treinar. – Ele olhou para o meu pote de terra com um broto verde. – O que escolheram fazer?
Dandara pegou a caixa de fósforos e explicou o seu objetivo. G pegou a bolinha de gude e também explicou. Mestre Fierce pareceu apreciar o caminho que estavam tomando, então me encarou:
—Eu peguei a planta, para ela crescer mais rápido, e peguei uma pilha também, mas quando eu tentei dar energia, ela acabou estourando. – Eu mostrei a planta no pote, que estava crescendo em um ritmo bom.
—Alicia, você não está treinando o seu poder, só brincando com uma das consequências dele. – O professor parecia bem decepcionado comigo.
—Oras, não é a primeira vez que ouço isso, mas ninguém quer dizer que poder é esse que eu tenho. – Eu já estava irritada com isso, plantas crescerem para mim já era muita coisa.
O professor apenas balançou a cabeça negativamente e se afastou, aguardando os outros alunos chegarem, o que me irritou ainda mais, já que eu queria respostas. Após a chegada dos outros, ele começou a explicar a aula:
—Bom dia, alunos. Eu não li o que escolheram para treinar seus poderes, mas obviamente eu os conheço. – Ele passou rapidamente o olho entre os rostos dos alunos. – Eu selecionei formas de treinamento para cada um, aproveitem.
Nesse momento, muitas pessoas entraram na sala e começaram a conversar com vários alunos. Pude perceber que Blair estava na arquibancada conversando com algumas pessoas, que obviamente não eram fracas. Lina estava treinando a modelagem dos ossos que faziam, para que ficassem mais eficientes e rápidos. O senhor Fierce se aproximou de Dandara e Spike:
—Vocês devem lutar juntos. Spike, você deve controlar suas chamas, ao invés de só tacar bolas aleatórias. – Ele encarou o Spike e depois a Dandara. – E você deve resistir às chamas dele, ao mesmo tempo que aumenta suas habilidades físicas. Se você se esforçar, vai acabar pegando isso intuitivamente ao invés de ter que pegar fogo para ativar.
Em seguida, o professor foi até o G e o entregou diversas bolinhas, exigindo que ele escondesse todas elas simultaneamente, aparentemente ele realmente sabia nossos poderes. Quando chegou até mim, ele cruzou os braços e me encarou.
—Eu ainda não decidi bem o que devo fazer com você. – Eu estava pronta para protestar, quando o professor olhou para um dos cantos mais vazios da arena e fez sinal para que eu o seguisse até lá.
Me assustei quando cheguei lá, o diretor estava sentado no chão, abanando a cauda. Okay, agora isso tinha que ser uma ilusão, né? O diretor sinalizou para que o senhor Fierce nos deixasse e se concentrasse nos outros alunos.
—Olá de novo, Alicia. – Não fazia ideia de como ele sabia o meu nome, e ele pareceu perceber isso. – Ah, eu sei muito bem o seu nome, menina, e de todos os outros aqui também.
—Oi, diretor Hayata, você precisa de alguma coisa de mim? – Eu estava tentando ser formal. Mesmo que ele escondesse a sua energia, eu ainda conseguia sentir muito poder irradiando dele.
—O professor Todd ainda não decidiu como será o seu treinamento, então eu vim auxiliá-la até que ele se decida. – Ele se levantou, mas continuou no mesmo lugar. – Eu sei muito bem sobre sua energia, ela me é bem familiar, menina. Mas deixemos isso para depois, você só precisa me atacar.
—Te atacar? Tem certeza? – Eu estava um pouco preocupada, eu odiaria a ideia de machucar um animalzinho.
—Tenho sim, só precisa me acertar e você vence, pode ser? – Ele deu uma risadinha, era óbvio que ele achava que eu não poderia chegar nele.
Não esperei por mais nenhuma instrução, rapidamente pulei em sua direção com as mãos esticadas para frente. O movimento dele não foi exagerado, ele apenas deu alguns passos para trás, ficando na mesma distância que estava de mim anteriormente. É, acho que subestimei nosso diretor. Novamente tentei alcançá-lo com as mãos, mais rápido. Ele desviou com facilidade, pulando para o meu lado. Eu já estava começando a ficar empolgada, dei uma rasteira rápida na direção que ele estava e vi que errei por mais de um metro, ele era rápido.
Comecei a tentar dar vários socos e chutes em sua direção, só precisava tocá-lo para vencer. Ele continuou desviando de cada um, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Tentei pular para alcançá-lo, o que ele obviamente previu e se desviou para o lado. Com as mãos no chão, usei o impulso do meu movimento para girar as pernas em sua direção, fazendo um chute giratório. Ele obviamente pareceu achar isso muito divertido, mas desviou com facilidade, pulando por entre os meus braços apoiados no chão e ficando atrás de mim.
Continuei tentando atacá-lo, entrando cada vez mais para a arena. Após desviar da maior parte das coisas se afastando, ele deu uma risada. O meu chute que deveria prever o seu próximo pulo foi completamente ignorado, ele só se abaixou um pouco para que eu ficasse parada no mesmo lugar. Menos de um segundo depois, senti um impacto extremamente quente na lateral do meu rosto.
—Alicia, você está bem? – Era a voz de Dandara, mas eu não reconheci exatamente de onde vinha. Aparentemente, Spike estava controlando melhor o seu poder, pois a pequena bola de fogo foi certeira e super concentrada.
Eu me levantei e passei a mão na lateral do meu rosto, me surpreendendo com o que senti. Escamas. A lateral onde a bola tinha sido acertada apresentava pequenas escamas, aparentemente não machucadas, mas sujas de fuligem. Apesar de estar surpresa com essa novidade, estava muito mais irritada com o Spike. Olhei em sua direção, já liberando mais energia, completamente cheia de ódio. O diretor havia desaparecido, nem um sinal dele além de sua última risada.
—Opa, mais cuidado aí baixinha, se não sair do caminho vai acabar se machucando. – Spike parecia achar engraçado ter me acertado com o seu poder, mas eu estava muito irritada.
—Peça desculpas agora, Spike. – Não falei mais que isso, mas minha voz tremia com a raiva, novas rachaduras se formando no chão.
—Não mesmo, gente pequena só serve de apoio de braço, não vou pedir desculpa para um móvel que fala. – Ele obviamente se achava demais, mas sua voz não parecia mostrar tanta certeza quanto suas palavras.
Era isso, para mim bastava. A minha visão foi invadida por tons vermelhos enquanto eu o encarava, podia ver muito bem quanto poder ele tinha e estava determinada a acabar com ele. Apesar do meu foco, ouvi a voz de alguém:
—Olha as pupilas dela, estão completamente diferentes, parecem de répteis. – Não consegui identificar quem cochichou, mas sei muito bem que deveria ser baixo o bastante para eu não escutar. Ignorei o fato.
Comecei a andar na direção dele, sentindo o chão formar grandes rachaduras sob os meus pés e minhas mãos irradiarem poder. Algumas pessoas que estavam mais perto se afastaram, pois não conseguiam lidar com a imensa quantidade de energia que eu estava liberando. Tudo o que eu pensava era em como iria acabar com Spike.
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