Draconia: O Legado do Guerreiro Estelar
15 A Voz do Deus Esquecido
O vazio ainda existia.
Mas já não era silencioso.
O ar vibrava.
O fogo ao redor se curvava… como se estivesse diante de algo maior.
Imensamente maior.
Diante dela, a presença se materializava.
Colossal.
Majestosa.
Antiga.
Perya sentiu o corpo pesar.
Não pela gravidade…
Mas pela existência.
Instintivamente, ela caiu de joelhos.
— Não precisa disso.
A voz ecoou — profunda, calma, absoluta.
— Estamos dentro de você.
Perya ergueu lentamente o olhar.
— Você… é…
A entidade a observava.
Seus olhos eram como brasas vivas.
— Eu sou aquele que julgou sua chama.
Uma pausa.
— Eu sou Pyrrhos.
O nome ecoou.
Como se o próprio mundo respondesse a ele.
Perya sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— O… Deus Dragão do Fogo…
Pyrrhos não respondeu de imediato.
Apenas a observou.
— Há muito tempo… eu não encontrava alguém capaz de chegar até aqui.
Perya franziu levemente o cenho.
— Chegar…?
— A Febre — disse ele. — Não é uma maldição.
O fogo ao redor pulsou.
— É um teste.
Perya ficou em silêncio.
— Eu escolho aqueles que a enfrentam — continuou Pyrrhos. — Mas poucos… sobrevivem a si mesmos.
Ela desviou o olhar por um instante.
— Aquela versão… era…
— Você.
Direto.
Sem suavizar.
— Sua dúvida. Seu medo. Sua culpa.
Perya fechou o punho.
— Então… eu passei?
Um leve silêncio.
— Você resistiu.
Outra pausa.
— E isso… já a coloca além de muitos.
O fogo ao redor mudou de intensidade.
Mais suave.
Mas ainda imenso.
— Mas esse não é o verdadeiro motivo da sua presença aqui.
Perya levantou o olhar novamente.
— Então por quê?
Pyrrhos virou levemente o rosto.
Como se observasse algo distante.
Algo que não estava ali.
— Dracônia… está se aproximando de um ponto de ruptura.
O ar ficou mais pesado.
— Forças que deveriam permanecer ocultas… estão despertando.
Perya sentiu o corpo tensionar.
— Isso tem a ver com… o que aconteceu em Gravitol?
Pyrrhos não respondeu diretamente.
— Aquilo… foi apenas um fragmento.
Silêncio.
— Uma consequência.
Perya cerrou os dentes.
— Então tem algo maior por trás disso…
— Muito maior.
O olhar de Pyrrhos voltou para ela.
— E é aí que você entra.
O coração dela acelerou.
— Eu?
— Você não pertence a este mundo.
O silêncio foi absoluto.
— …O quê?
Perya ficou imóvel.
— Sua presença aqui… nunca foi um acaso.
As palavras começaram a pesar.
— Você foi enviada.
Fragmentos começaram a surgir.
Sensações.
Memórias… que não eram completas.
— Eu… não lembro…
— Porque não deveria.
O tom de Pyrrhos permaneceu firme.
— Ainda não.
Perya apertou os punhos.
— Então me diz logo!
O fogo ao redor reagiu.
Mas não de forma agressiva.
Apenas… intensa.
Pyrrhos a observou em silêncio por um momento.
Então falou:
— Você pertence a uma raça chamada Sayajins.
O nome ecoou de forma estranha.
Desconhecida.
Pesada.
— Eles são guerreiros.
Uma pausa.
— Conquistadores.
O olhar de Perya vacilou.
— Mundos são tomados.
— Povos… eliminados.
O ar pareceu desaparecer por um instante.
— Não…
— Essa é a natureza deles.
Silêncio.
— Mas… não a sua.
Perya respirou fundo.
Tentando processar.
— Então… por que eu fui enviada pra cá?
O olhar de Pyrrhos suavizou levemente.
— Para sobreviver.
Uma pausa.
— Seu mundo… deixou de existir.
O impacto foi silencioso.
Mas devastador.
Perya não disse nada.
Não conseguia.
— Seus pais… escolheram salvá-la.
O fogo ao redor se moveu lentamente.
— Eles a enviaram para longe… antes do fim.
Lágrimas começaram a se formar.
— Eu… nunca vou conhecer eles…?
Pyrrhos não respondeu imediatamente.
— Talvez… um dia.
Mas não havia certeza na resposta.
Apenas possibilidade.
Perya abaixou a cabeça.
— Então… por que eu?
Silêncio.
— Porque você sobreviveu.
O olhar dele voltou a ficar intenso.
— E porque você escolhe… não se tornar aquilo que poderia ser.
Uma pausa.
— Isso… é o que a torna diferente.
O silêncio voltou.
Mas não era vazio.
Era… pesado.
— E o que eu tenho que fazer agora?
A pergunta saiu mais baixa.
Mais humana.
Pyrrhos se virou parcialmente.
Como se já estivesse se afastando.
— Continue.
— Cresça.
— E, quando chegar a hora…
O fogo ao redor começou a desaparecer.
— Você vai entender.
Perya deu um passo à frente.
— Espera!
Ele parou.
— Que batalha é essa?
Silêncio.
— Contra o quê eu vou lutar?
Uma última pausa.
— Contra aquilo… que nem mesmo nós conseguimos impedir.
O ar ficou frio por um instante.
— E, quando esse momento chegar…
Seus olhos brilharam intensamente.
— Você vai precisar de tudo o que é.
O mundo começou a se desfazer.
— Inclusive… daquilo que ainda teme ser.
— Pyrrhos—!
Mas ele já havia desaparecido.
Perya abriu os olhos.
Ofegante.
Confusa.
O mundo real voltou de uma vez.
— PERYA!
Asami a abraçou com força.
Sem hesitar.
— Você voltou…
A voz dela tremia.
Perya ainda estava tentando entender.
Mas, instintivamente…
Retribuiu o abraço.
— Eu tô aqui…
Asami apertou ainda mais.
— Não faz isso de novo…
Perya fechou os olhos por um instante.
— Eu vou tentar…
Os outros se aproximaram.
— O que aconteceu? — perguntou Haku.
Perya hesitou.
— Eu… encontrei ele.
Serena franziu o cenho.
— Ele…?
Perya respirou fundo.
— Pyrrhos.
O silêncio caiu sobre o grupo.
— E ele me contou… coisas…
Ela olhou para o céu.
Pensativa.
— Sobre mim.
— Sobre o mundo.
— E sobre o que tá vindo…
Ninguém respondeu.
Mas todos sentiram.
Algo grande estava se aproximando.
A noite caiu.
E, pela primeira vez…
Perya olhou para o céu.
A lua cheia brilhava intensamente.
Seus olhos refletiram a luz.
E, por um breve instante—
Algo dentro dela reagiu.
Fale com o autor