O vazio ainda existia.

Mas já não era silencioso.

O ar vibrava.

O fogo ao redor se curvava… como se estivesse diante de algo maior.

Imensamente maior.

Diante dela, a presença se materializava.

Colossal.

Majestosa.

Antiga.

Perya sentiu o corpo pesar.

Não pela gravidade…

Mas pela existência.

Instintivamente, ela caiu de joelhos.

— Não precisa disso.

A voz ecoou — profunda, calma, absoluta.

— Estamos dentro de você.

Perya ergueu lentamente o olhar.

— Você… é…

A entidade a observava.

Seus olhos eram como brasas vivas.

— Eu sou aquele que julgou sua chama.

Uma pausa.

— Eu sou Pyrrhos.

O nome ecoou.

Como se o próprio mundo respondesse a ele.

Perya sentiu um arrepio percorrer o corpo.

— O… Deus Dragão do Fogo…

Pyrrhos não respondeu de imediato.

Apenas a observou.

— Há muito tempo… eu não encontrava alguém capaz de chegar até aqui.

Perya franziu levemente o cenho.

— Chegar…?

— A Febre — disse ele. — Não é uma maldição.

O fogo ao redor pulsou.

— É um teste.

Perya ficou em silêncio.

— Eu escolho aqueles que a enfrentam — continuou Pyrrhos. — Mas poucos… sobrevivem a si mesmos.

Ela desviou o olhar por um instante.

— Aquela versão… era…

— Você.

Direto.

Sem suavizar.

— Sua dúvida. Seu medo. Sua culpa.

Perya fechou o punho.

— Então… eu passei?

Um leve silêncio.

— Você resistiu.

Outra pausa.

— E isso… já a coloca além de muitos.

O fogo ao redor mudou de intensidade.

Mais suave.

Mas ainda imenso.

— Mas esse não é o verdadeiro motivo da sua presença aqui.

Perya levantou o olhar novamente.

— Então por quê?

Pyrrhos virou levemente o rosto.

Como se observasse algo distante.

Algo que não estava ali.

— Dracônia… está se aproximando de um ponto de ruptura.

O ar ficou mais pesado.

— Forças que deveriam permanecer ocultas… estão despertando.

Perya sentiu o corpo tensionar.

— Isso tem a ver com… o que aconteceu em Gravitol?

Pyrrhos não respondeu diretamente.

— Aquilo… foi apenas um fragmento.

Silêncio.

— Uma consequência.

Perya cerrou os dentes.

— Então tem algo maior por trás disso…

— Muito maior.

O olhar de Pyrrhos voltou para ela.

— E é aí que você entra.

O coração dela acelerou.

— Eu?

— Você não pertence a este mundo.

O silêncio foi absoluto.

— …O quê?

Perya ficou imóvel.

— Sua presença aqui… nunca foi um acaso.

As palavras começaram a pesar.

— Você foi enviada.

Fragmentos começaram a surgir.

Sensações.

Memórias… que não eram completas.

— Eu… não lembro…

— Porque não deveria.

O tom de Pyrrhos permaneceu firme.

— Ainda não.

Perya apertou os punhos.

— Então me diz logo!

O fogo ao redor reagiu.

Mas não de forma agressiva.

Apenas… intensa.

Pyrrhos a observou em silêncio por um momento.

Então falou:

— Você pertence a uma raça chamada Sayajins.

O nome ecoou de forma estranha.

Desconhecida.

Pesada.

— Eles são guerreiros.

Uma pausa.

— Conquistadores.

O olhar de Perya vacilou.

— Mundos são tomados.

— Povos… eliminados.

O ar pareceu desaparecer por um instante.

— Não…

— Essa é a natureza deles.

Silêncio.

— Mas… não a sua.

Perya respirou fundo.

Tentando processar.

— Então… por que eu fui enviada pra cá?

O olhar de Pyrrhos suavizou levemente.

— Para sobreviver.

Uma pausa.

— Seu mundo… deixou de existir.

O impacto foi silencioso.

Mas devastador.

Perya não disse nada.

Não conseguia.

— Seus pais… escolheram salvá-la.

O fogo ao redor se moveu lentamente.

— Eles a enviaram para longe… antes do fim.

Lágrimas começaram a se formar.

— Eu… nunca vou conhecer eles…?

Pyrrhos não respondeu imediatamente.

— Talvez… um dia.

Mas não havia certeza na resposta.

Apenas possibilidade.

Perya abaixou a cabeça.

— Então… por que eu?

Silêncio.

— Porque você sobreviveu.

O olhar dele voltou a ficar intenso.

— E porque você escolhe… não se tornar aquilo que poderia ser.

Uma pausa.

— Isso… é o que a torna diferente.

O silêncio voltou.

Mas não era vazio.

Era… pesado.

— E o que eu tenho que fazer agora?

A pergunta saiu mais baixa.

Mais humana.

Pyrrhos se virou parcialmente.

Como se já estivesse se afastando.

— Continue.

— Cresça.

— E, quando chegar a hora…

O fogo ao redor começou a desaparecer.

— Você vai entender.

Perya deu um passo à frente.

— Espera!

Ele parou.

— Que batalha é essa?

Silêncio.

— Contra o quê eu vou lutar?

Uma última pausa.

— Contra aquilo… que nem mesmo nós conseguimos impedir.

O ar ficou frio por um instante.

— E, quando esse momento chegar…

Seus olhos brilharam intensamente.

— Você vai precisar de tudo o que é.

O mundo começou a se desfazer.

— Inclusive… daquilo que ainda teme ser.

— Pyrrhos—!

Mas ele já havia desaparecido.

Perya abriu os olhos.

Ofegante.

Confusa.

O mundo real voltou de uma vez.

— PERYA!

Asami a abraçou com força.

Sem hesitar.

— Você voltou…

A voz dela tremia.

Perya ainda estava tentando entender.

Mas, instintivamente…

Retribuiu o abraço.

— Eu tô aqui…

Asami apertou ainda mais.

— Não faz isso de novo…

Perya fechou os olhos por um instante.

— Eu vou tentar…

Os outros se aproximaram.

— O que aconteceu? — perguntou Haku.

Perya hesitou.

— Eu… encontrei ele.

Serena franziu o cenho.

— Ele…?

Perya respirou fundo.

— Pyrrhos.

O silêncio caiu sobre o grupo.

— E ele me contou… coisas…

Ela olhou para o céu.

Pensativa.

— Sobre mim.

— Sobre o mundo.

— E sobre o que tá vindo…

Ninguém respondeu.

Mas todos sentiram.

Algo grande estava se aproximando.

A noite caiu.

E, pela primeira vez…

Perya olhou para o céu.

A lua cheia brilhava intensamente.

Seus olhos refletiram a luz.

E, por um breve instante—

Algo dentro dela reagiu.