Draconia: O Legado do Guerreiro Estelar
22 A Primeira Cicatriz
Aproveitando a pequena distância que havia conseguido criar, Perya respirou fundo. Seu peito subia e descia rapidamente, enquanto o calor de suas luvas flamejantes fazia o ar ao seu redor tremular.
Do outro lado do campo, Kuronemi limpou um fio de sangue que escorria pelo canto da boca e sorriu.
— Muito melhor... Agora sim esta luta começou a ficar divertida.
Sem esperar resposta, ela desapareceu em um borrão negro.
Perya fechou os olhos por um breve instante e concentrou todos os sentidos. Assim que percebeu uma pequena distorção no ar atrás de si, girou o corpo e bloqueou o golpe com o antebraço envolto em chamas.
O impacto foi tão forte que rachou o chão sob seus pés.
Kuronemi não recuou.
Com uma sequência extremamente rápida, lançou socos, cotoveladas e chutes em diferentes direções. Perya respondia a cada ataque quase por instinto, desviando de alguns e bloqueando outros, mas a velocidade da adversária aumentava a cada troca de golpes.
As duas desapareceram novamente.
Os soldados e habitantes de Skyea só conseguiam enxergar pequenas explosões de fogo e sombras surgindo por toda a arena.
Um estrondo ecoou.
Perya foi arremessada contra uma coluna de pedra, quebrando-a completamente.
Antes mesmo que pudesse recuperar o equilíbrio, Kuronemi surgiu acima dela.
Uma espada formada por pura energia sombria apareceu em suas mãos.
Ela desceu a lâmina com toda a força.
Perya cruzou os braços revestidos pelas luvas flamejantes e conseguiu impedir que a espada a atingisse diretamente, mas o impacto a fez afundar ainda mais entre os escombros.
Ela deslizou para trás e imediatamente criou uma espada de fogo.
As duas voltaram a se enfrentar.
Metal inexistente contra fogo sólido.
Cada choque das espadas fazia faíscas vermelhas e negras iluminarem o céu.
Kuronemi girava sua arma com extrema precisão.
Perya utilizava movimentos mais diretos e explosivos.
Nenhuma conseguia abrir vantagem.
— Você evoluiu muito... — comentou Kuronemi enquanto bloqueava outro golpe. — Mas ainda luta movida pela emoção.
Perya sorriu.
— E você luta movida pelo orgulho.
As lâminas voltaram a colidir.
Desta vez, Perya empurrou Kuronemi alguns metros para trás.
Ela aproveitou para ativar suas Botas Infernais.
Chamas envolveram seus pés.
Seu corpo disparou para frente numa velocidade muito maior que antes.
Pela primeira vez durante toda a batalha, Kuronemi precisou se defender.
Ela mal conseguiu levantar a espada antes de receber uma sequência devastadora de golpes.
Um.
Dois.
Cinco.
Dez.
Cada impacto fazia pequenas rachaduras aparecerem em sua armadura sombria.
Ela sorriu.
— Excelente!
Subitamente, uma onda de energia negra explodiu ao redor de seu corpo.
A pressão fez Perya ser empurrada para trás.
O Núcleo Sombrio brilhava intensamente dentro do peito de Kuronemi.
A energia ao seu redor tornou-se muito mais densa.
— Agora... vamos lutar de verdade.
Num único movimento ela desapareceu.
Perya arregalou os olhos.
Nem mesmo com as Botas Infernais conseguiu acompanhar completamente aquela velocidade.
Sentiu apenas um corte atravessando seu rosto.
Ela cambaleou.
O sangue começou a escorrer.
Ao tocar o próprio rosto, percebeu que o golpe havia aberto um profundo corte vertical sobre seu olho direito.
Sua visão ficou parcialmente comprometida.
Mesmo assim, imediatamente ativou as propriedades curativas das Luvas Flamejantes.
As chamas douradas envolveram o ferimento.
A dor diminuiu.
O sangramento cessou.
Mas, quando as chamas desapareceram...
o corte permanecia.
Perya respirou fundo.
Tentou outra vez.
Nada.
A cicatriz simplesmente não desaparecia.
Kuronemi sorriu.
— Está tentando curá-la?
Ela apontou para a própria espada.
— Energia Sombria de alta concentração. Algumas marcas... jamais desaparecem.
Pela primeira vez desde o início da jornada, Perya percebeu que havia recebido um ferimento que nem mesmo seu poder de cura conseguia apagar.
Ela passou lentamente os dedos sobre a cicatriz.
Depois sorriu.
— Então vou carregá-la com orgulho.
Os olhos de Kuronemi brilharam.
— Gostei dessa resposta.
As duas desapareceram novamente.
Desta vez, nenhuma se segurava mais.
A arena inteira tremia.
Colunas ruíam.
As explosões de fogo iluminavam o céu enquanto lâminas negras cortavam o ar.
Durante vários minutos nenhuma das duas conseguiu vantagem.
Até que Perya começou a perceber algo.
Sempre que Kuronemi liberava grandes quantidades de energia, uma pequena oscilação surgia no centro de seu peito.
Ela estreitou o olhar.
"Então é ali..."
Ela lembrou imediatamente da batalha contra Shikki.
Mas havia uma diferença.
No rei, aquela energia parecia prender sua mente.
Em Kuronemi...
ela apenas aumentava sua força.
"Ela não está sendo controlada..."
"Ela escolheu esse caminho."
Kuronemi percebeu seu olhar.
Sorriu novamente.
— Finalmente entendeu.
Ela colocou a mão sobre o próprio peito.
— Isto não é uma prisão.
É o poder que eu escolhi possuir.
Perya respondeu assumindo sua posição de combate.
— Então não vou tentar salvar você...
Vou derrotar você.
As Botas Infernais explodiram em intensidade.
As chamas envolveram completamente seus pés.
Seu corpo desapareceu.
Kuronemi tentou acompanhá-la.
Mas, pela primeira vez...
não conseguiu.
Perya começou a girar ao redor dela em velocidade crescente.
Cada volta aumentava ainda mais sua aceleração.
O fogo deixava rastros circulares no campo de batalha.
Kuronemi tentava prever de onde viria o ataque.
Era impossível.
Então...
Perya surgiu.
Um chute devastador acertou o rosto de Kuronemi.
Ela foi lançada dezenas de metros para trás antes mesmo de recuperar o equilíbrio.
Nesse exato instante, Perya concentrou toda a energia de suas luvas.
As chamas deixaram de ser vermelhas.
Transformaram-se em um intenso dourado.
Ela respirou profundamente.
— Punho do Dragão Sagrado!
Num único avanço, atingiu diretamente o centro do peito de Kuronemi.
A energia dourada atravessou o Núcleo Sombrio.
Uma enorme rachadura apareceu em sua superfície.
O núcleo começou a vibrar violentamente.
Uma explosão de energia negra tomou conta do campo.
Kuronemi arregalou os olhos.
Pela primeira vez...
demonstrava surpresa.
Ela caiu de joelhos.
O Núcleo Sombrio permanecia dentro de seu corpo...
mas agora estava visivelmente danificado.
Sua aura diminuiu drasticamente.
Respirando com dificuldade, ela encarou Perya e sorriu de forma cansada.
— Impressionante...
Você... conseguiu ferir até mesmo o meu núcleo...
Perya permaneceu em posição de combate.
Mesmo exausta.
Mesmo marcada pela cicatriz.
Ela não baixou a guarda.
Kuronemi tentou se levantar mais uma vez.
Seu corpo vacilou.
Então perdeu completamente as forças.
Ela caiu inconsciente sobre o chão destruído da arena.
O silêncio tomou conta do campo de batalha.
Perya respirou profundamente, mantendo os olhos fixos na adversária.
Por algum motivo...
ela tinha a estranha sensação de que aquela não seria a última vez que as duas se enfrentariam.
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