Notas iniciais
Música do capítulo - Lay It All On Me, Ed Sheeran ft. Rudimental :) Obrigada por todos os comentários lindos: NynaGMalfoy, Blue Star (vulgo Lôre), ainindea, Grind, Senhorita Masen, Colliers Fer. Espero todas vocês aqui!

II

Você disse “siga em frente”

Para onde vou?

“Onde eu estou?”

Foi a primeira coisa que se perguntou quando abriu os olhos, que observavam, assustados, um lugar de forma indefinida, mas que certamente era muito claro. Hermione Jean Granger não sabia identificar a cor da luz. Era como se mudasse a todo o momento, como um caleidoscópio celestial.

Estendeu os braços à frente do corpo, observando mãos oitenta anos mais jovens do que as que possuía há alguns instantes atrás, quando havia... Morrido.

“Como isso é possível?”

Foi a segunda pergunta que fez, destinada a ninguém em especial.

Não sentia dor em nenhuma parte do corpo. Era simplesmente leve e jovem, os membros fortes e sem arranhões, o coração batendo rapidamente como se ainda houvesse restado alguma esperança de felicidade para aquela – já não tão idosa — mulher.

“Olá, mãe. Senti sua falta.”

Era uma voz que ela nunca havia ouvido antes, e ao mesmo tempo sentia que sim. E vinha de dentro da sua mente.

“Mãe?”

Questionou, confusa. Não lembrava-se de muita coisa...

“Sim. Sou a filha que você nunca teve. Lembra quando abortou, depois que Harry e papai morreram?”

Ela lembrava. Sim, lembrava! Sua memória agora estava mais viva, e era como se pudesse viajar no tempo, ver todas as lacunas jamais preenchidas de sua vida como em uma apresentação de slides. E sentiu-se um pouco desconcertada por não lembrar-se da própria filha.

Luiza.

Esse seria o nome dela.

Lembrava-se de si mesma com vinte e quatro anos e um coração destruído. Perdera todos os amigos, com exceção de Neville, que estava paraplégico e não conseguia falar mais. Observando a lápide com o nome de Ronald Weasley & Harry Potter: Marido e Irmão, Hermione lembrou-se de sentir que aquele pequeno feto dentro de si simplesmente não merecia um destino como aquele.

“Sinto falta do calor do seu corpo, dos carinhos que só você sabia fazer. Mas agora eu consigo compreender um pouco os seus motivos. Mesmo assim não entendo completamente, mamãe. Eu seria forte com você. Nós poderíamos suportar aquilo juntas.”

A voz tinha um tom doloroso, como se houvesse treinado aquilo antes, e, mesmo naquele momento, não conseguisse falar de forma que não soasse ressentida.

“Mas quando aquilo aconteceria? Quando completasse catorze, quinze anos?” Eu não tinha condições. Por quanto tempo teria que sorrir e contar histórias para você dormir? Eu fui egoísta demais, e estava mergulhada de forma tão irreversível em minha dor que não conseguia ver nada além daquilo. Não queria que você crescesse assim.”

A voz não parecia querer discutir o assunto. O timbre tremeu um pouco, mas claramente tentava manter-se firme:

“Certo. Não é para isso que estamos aqui. Mãe, há algo na sua história que não está completo. Precisamos encontrar seu elo perdido.”

Ela sabia; sentira a vida toda constantemente essa sensação de vazio, como uma força visível que a puxava constantemente para o passado, afundando-a cada vez mais.

“Não sei como fazer isso.”

“Sei que está com medo. Confie em seus instintos.”

“Para onde vou?”

“Para onde seu coração desejar ir. Ele será seu guia aqui.”

Deu dois passos, e repentinamente havia um lago.

E um campo.

E alguém logo depois.

Como eu pude permitir a mim mesma

Deixar você ir?

O lago era cristalino e transparente. Ela poderia rir se a situação não fosse tão dramática. Ali estava o reflexo dela há muito tempo atrás, época em que se embebedava todas as noites para não se lembrar do rosto de Rony e dormia em todas elas com diferentes caras para não pensar em Malfoy, que havia morrido e deixado um eterno vazio em seu coração, dando-lhe, por fim, todos os motivos para uma catastrófica autodestruição.

Tinha 35 anos e um corpo perfeito, um rosto desejado por todos e uma maquiagem que só fazia lembrar a ela mesma a proporção daquela mentira. O batom vermelho escarlate (para demonstrar confiança e poder) não deixava dúvidas de que havia perdido sua essência há algum tempo, e não fazia a menor questão de tê-la de volta.

No reflexo do lago, Hermione viu a si mesma anos depois drogada, bêbada, depressiva, cansada, irritada e frustrada com o mundo ao seu redor, simplesmente sentindo as consequências do que se tornara: mais uma alma perdida tentando mascarar quem realmente era. Fechou os olhos e inspirou fundo, desejando esquecer aquela época horrível, e o ar veio limpo e fresco até seus pulmões. Estava em outro lugar, em um campo que era, na verdade, o jardim de Hogwarts.

Piscou três vezes, beliscou-se duas; era difícil crer que estava ali, e que, mesmo depois de todo aquele tempo, o local ainda era tão bem conservado. Então olhou para cima, onde deveria estar uma réplica quase ridícula de Hogwarts que fizeram depois da Guerra, a fim de tentar reparar os estragos.

Logo Granger percebeu que estava no verão de seus dezesseis anos, pois o castelo era o mesmo.

Pulou na grama macia, apalpando o máximo de terra que podia. Era fofa e tinha um cheiro maravilhoso, e ela lembrou-se de quando lia livros ali. Levantou-se ainda trôpega de felicidade, dirigindo-se até a margem do Lago Negro. Com as pontas dos dedos, dedilhou a água fresca e límpida.
Suspirou... Era tão lindo.

— Granger?

Ouviu a voz, do mesmo jeito que fantasiava em suas mais remotas memórias: Grave e rouca, um pouco ríspida, e ao mesmo tempo tão carente, tão livre, do jeito que Draco mostrava-se para ela. Só para ela.

Seus cabelos loiros pareciam quase brancos com a luz do Sol incidindo sobre os fios. Sua pele, normalmente pálida, agora adquirira um tom mais bronzeado, o que também se refletia nas bochechas levemente rosadas.

Os olhos eram exatamente os mesmos.

Hermione não queria perder tempo, porque se estava mesmo onde achava que sim, Malfoy morreria em pouco tempo.

Enlaçou seus braços ao redor do pescoço do rapaz, que suspirou, baixando a cabeça até que suas testas se encontrassem. O que o olhar de ambos transmitia era intenso demais para ser descrito: Uma miríade de emoções confusas, atormentadas, apaixonadas, loucamente apaixonadas, que contrastavam-se entre si com o único e exclusivo propósito de complementarem-se.

Seus lábios hesitaram no início – malditos, eles sempre hesitavam –, mas, depois de um breve resvalar, as línguas provaram-se, e então estavam perdidas. Saliva e sangue e amor e ódio e paixão, todos guardados ali. No interior de seus corpos, gravados em sua alma e seu coração.

Passeou a palma das mãos sobre as bochechas do rapaz. Sentiu a textura grossa da barba por fazer, resultado do que ela sabia serem noites insones imaginando como consertaria o armário sumidouro.

Hermione nunca precisara dizer que o amava; ambos sabiam que aquele sentimento, tão temido no princípio pelos dois era o puro significado de catástrofe. Porque, como Hermione lera em um dos livros proibidos da biblioteca uma vez, amar é destruir e ser amado é ser destruído.

Mas, naquele instante, ela necessitava. Precisava daquilo como precisava da água e do oxigênio, insuficiente para um beijo longo e sôfrego.

— Malfoy... — Ele tirou as mãos de debaixo da sua camisa. Esperou. E esperou.

Ambos sabiam – e temiam – o que viria a seguir.

Os olhos claros a encararam, tentando tirar dela à força o que a própria Hermione não conseguia dizer. Diga.

Ela não conseguiria... Apertou os punhos em torno da gravata verde e prata. As lágrimas estavam por vir.

“Mãe.”

A voz despertou-a, e ela ficou levemente surpresa, mas Malfoy não parecia ter notado. Então se lembrou de que Luiza estava em sua mente. Assim, sua filha falou a única coisa que faria com que se esquecesse de todas as preocupações por alguns momentos.

“Apenas entregue-se. É a única e última vez.”

Quanto tempo eu vou te amar?

Enquanto as estrelas estiverem no céu

Hermione apalpou os lençóis ao seu redor, sorrindo preguiçosamente enquanto fechava os olhos de novo, revivendo, sem dúvida, o momento mais doce de toda a sua existência. A bochecha de Draco quase não tocava a fronha do travesseiro; era óbvia a sua tensão. Portanto, ficou surpresa quando ele falou primeiro:

— Já tentei de todas as formas entender você, mas, depois disso,– ele gesticulou para a cama completamente desorganizada e suas roupas, jogadas de forma brusca pelo chão de madeira, soltando um suspiro exasperado, a voz muito rouca — creio que seja algo além de minha compreensão.

Hermione sorriu de novo, porque ela estava apaixonada e boba, e é isso o que pessoas bobas e perdidamente apaixonadas fazem.

— Não precisa entender nada... – Pousou sua cabeça no colo do pescoço alvo do garoto, inspirando fundo o cheiro de folhas em um dia úmido de verão. Malfoy pareceu suspirar por um momento. — Apenas... Sinta.

— Sentir? O que quer dizer com isso? — Ele retrucou, parecendo bem irritado, mas deixou a cabeça de Hermione continuar apoiada sobre seu corpo.

Granger poderia ter mais de cem anos (já que ao que parecia estava morta e voltando à certas partes de seu passado), mas Malfoy, ali, com ela, tinha apenas dezesseis anos, e aquilo era cedo demais para ambos na época para dialogarem sobre “sentimentos”, fossem quais fossem.

— Não direi que amo você, seria piegas, e, por Deus, doloroso demais. Sabe disso. Sei que me ama também.

— Sabe? — A voz era surpresa e parecia tão aliviada.

— Não teria dormido com você se não tivesse certeza disso.

Os dois riram.

Muito rápido, aquilo cessou.

Ele não afirmou, embora também não tenha negado, constatou, felicíssima de repente. Draco levantou-se e avisou que iria até a cozinha roubar alguns bolinhos para os dois.

É possível, pensou Hermione, em êxtase, admirando pela janela o céu coberto de estrelas enquanto esperava por Malfoy, que se tenha certeza de algo quando se está amando? Quando me apaixonei pela primeira vez, demorei pouco tempo para concluir de que é impossível dizer com precisão como certos fatos simplesmente acontecem.

Quanto tempo durou um olhar, qual a textura de certos lábios cheios sobre os seus, com que força as mãos de alguém pressionavam seu corpo de forma sôfrega, desesperada... Estar apaixonada é como ser anestesiada. Dura algum tempo. Talvez tenha uma consequência boa. Talvez não surta efeito algum.

No meu caso, ainda não decidi se as consequências foram extraordinariamente belas ou, de forma arrasadora, catastróficas. De certa forma, me fez perceber como nunca somos inteiros. E como reconstruímos uns aos outros.

Então, muito rápido, Granger se deu conta de que ele voltaria para o quarto e se depararia com a cama vazia de sempre, porque ela tinha que fugir naquele exato momento: Hermione, que na época estava caçando horcruxes, havia a muito sido registrada como desaparecida pelos corredores da escola. Malfoy pensaria que tudo não passara de uma alucinação.

E se jogaria da torre de Astronomia.

Finalmente entendera tudo.

O amor é um sentimento constante que deve ser cultivado com extremo zelo e afeto. Relacionamentos à distância geralmente não dão certo justamente por esse motivo. Às vezes, tudo o que precisamos é de um toque, um olhar, um carinho.

Certas coisas, ela se sentia arrasada em admitir, não poderiam estar completamente claras através de uma simples carta que ela talvez pudesse escrever. Draco não poderia viver, tão jovem, apenas com esperanças vagas de que um dia ela voltaria. Por isso, quando se decidiu pegou as roupas do chão: não queria deixar rastros.

Não importava quantos anos passassem, aquilo sempre partiria a alma de Hermione em dois.

Uma metáfora, claro.

Em milhões de pedacinhos.

Em bilhões de segundos que eles haviam partilhado, juntos.

Abriu a porta com cuidado, e ela não rangeu.

Anos como melhor amiga de Ronald Weasley e Harry Potter serviram, afinal, para alguma coisa; ninguém em Hogwarts percebeu sua presença pelos corredores enquanto corria em direção aos Jardins. Aos poucos, seus olhos ajustaram-se à semiescuridão do lugar, que parecia mais lindo do que nunca.

Hermione passara pelo lago e pelo campo, e, de certa forma, tinha certeza de que o homem, até então desconhecido, ainda esperava por ela ali.

Você invade minha imaginação

Qualquer coisa que estiver lá é sua para levar

Só percebeu que seus joelhos tremeram e falharam quando sentiu o roçar leve da grama sob si. Provavelmente chorava, mas era só uma suposição. Então, estendeu os braços para frente e afundou a cabeça no colo do homem que estava na cadeira de rodas.

― Papai? ― Perguntou infantilmente. Sentia-se tão frágil... Tão pequena.

― Sou eu, beija-flor. ― O calvo homem retrucou, afagando seus cachos sempre desalinhados. ―Você está chorando? ― O cenho do senhor franziu de forma bonita, mas os olhos pareciam conter uma emoção que ela nunca sentido antes.

― Acabei de perder pela segunda vez o grande amor da minha vida. ― Respondeu baixinho, fechando os olhos de forma muito serena, embora em sua cabeça somente um nome soasse, insistentemente: Draco, Draco, Draco!

Seu coração clamava por ele. Sangrava de dor.

― Sei como é. Primeiro foi você, depois sua mãe... Aliás, há algo que preciso contar-lhe sobre isso.

― O senhor ainda não superou, não é? Perdão, papai. Sei que já lhe disse isso, inúmeras vezes, e entendo que talvez nunca consiga me perdoar. Mas a guerra se aproximava e eu precisava proteger vocês dois.

― Poderíamos nos defender muito bem. E à você também. ― Peter Granger insistiu, já um tanto irritado. Hermione riu, embora seu peito latejasse de dor.

― Ah, claro! Com o quê derrotaria um comensal, por exemplo? Um alicate dentário?

― Talvez. Beija-flor, eu preciso dizer... ― Mas ela não queria ouvir o que provavelmente era a despedida de um dos únicos homens que ela realmente amou e que estava ao seu lado. Não conseguiria ver mais alguém que amava partir outra vez.

― Por favor, papai... Não me traga mais dor. ― Suplicou, se sentindo tão sozinha. O carinho em seu cabelo parou repentinamente, e ela não gostou.

― Você cresceu, querida. E se tornou tão forte... ― As mãos enrugadas enxugavam as lágrimas que ela derramava sem perceber. ― Confie em mim, as pessoas geralmente precisam perder o que mais amam até que se encontrem definitivamente.

― Somente conte-me de uma vez por todas. ― Pediu, embora todos os seus instintos gritassem para que ela fizesse o contrário. Levantou a cabeça e encarou os olhos cor de mel do pai, iguais aos seus, e esperou...

― Hermione, você é adotada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.