Draco Malfoy Tem Medo Do Escuro
11 Severo Snape
Severo estava em seu quarto, sentado a escrivaninha, com os cotovelos apoiados nela, e o rosto apoiado nas mãos cruzadas. Ele pensava na conversa que tivera com Draco antes do jantar. Ele tinha poções do sono o suficiente guardadas. Mas ele não podia deixar de achar estranho. Potter pediu a mesma poção que Voldemort estava tomando. Snape não era idiota, na verdade não era nem perto disso, e ele sabia sobre o vínculo mental daqueles dois. Algo assim poderia passar, pelas características que Severo conhecia do vínculo. Afinal, seja lá qual fosse o pesadelo, era o suficiente ruim para Draco vir lhe procurar e pedir a poção. E pior, era o suficiente ruim para que o Lorde da Trevas lhe pedisse a poção, o arrogante Lorde das Trevas. Merlin! Que fantasmas carregava o homem pra ter que lhe pedir algo assim?
Voldemort estava sem a poção. Fazia bastante tempo, Snape disse que iria substituí-la por uma mais fraca, e o homem não reclamou. Sentia-se culpado. Pensar no débil “eu não sou fraco” que o Lorde havia lhe dirigido o fez se sentir mal. Talvez devesse voltar até esconderijo e falar com Voldemort, dar a poção do sono pra que ele não tivesse pesadelos...
Mas que droga estava pensando? Severo repreendeu a si mesmo. O homem era um monstro! Um maldito ditador frio! Ele fez mal a Lilian! A Lucio! A Draco! Não podia simplesmente passar por cima disso! Jamais poderia esquecer toda dor que Voldemort lhe causou. E não foi só a ele, foi a milhões de pessoas, pessoas que sentiam falta de um filho, um tio, um primo. Algumas dessas pessoas sem nem imaginar o que havia acontecido. O mundo tinha que ficar livre dele, não importa quão doce ele fosse com Nagini. Murmurando todos os motivos que tinha para não levar a maldita poção ao Lorde, Snape se deitou e adormeceu. Ele foi mergulhado em seus próprios pesadelos confusos, sobre aqueles que foram feridos, e aquele que os ferira.
Quando acordou na manhã do outro dia, ele não conseguia deixar de imaginar os pesadelos que Voldemort deveria ter. Snape se sentia mal, e sentia-se mal por sentir pena de Voldemort. Mas não era esse o certo? Ele perguntava-se. Não era essa a prova de que ele era humano? O homem podia ser um monstro, mas se Snape podia aliviar sua dor, ele não devia fazê-lo? Apesar de toda culpa, Severo separou um frasco. Ele não iria necessariamente entrega-lo para Voldemort, mas podia pesar os prós e os contras e decidir depois, de maneira racional.
Severo saiu cedo de seu quarto, não que ele esperasse que Harry e Draco fossem seguir seu exemplo, ele sabia que Harry sairia em missão, e é claro que eles aproveitariam o máximo de tempo juntos. Realmente os dois só saíram do quarto na hora de Harry partir. Snape lhe entregou os frascos no breve intervalo em que conseguiu fazer Harry tirar as mãos de Draco. O sonserino podia estar vermelho de vergonha, mas isso não o impedia de manter as mãos coladas em Harry.
—Vamos, Potter! – Snape grunhiu – Vou levá-lo até Dumbledore.
Harry puxou Draco pela cintura e o beijou, sem querer soltá-lo, Harry afundou os lábios no pescoço de Draco e apertando-o fortemente nos braços.
—Eu volto logo – murmurou, a voz abafada pelo contato dos lábios no pescoço de Draco.
—É bom mesmo! – Draco devolveu, e então raspou os dentes no pescoço de Draco – Eu... – ele engasgou agarrando a capa de Harry – Fique vivo, certo?
—Sim, senhor! – Harry sorriu e piscou enquanto sentia seu coração apertar. Ele se afastou relutante, piscando antes de aparatar com Snape.
Quando Snape voltou depois de deixar Harry com Dumbledore, os gêmeos vieram falar com ele e em uma rara demonstração de cortesia. Os dois reclamaram, amuados, que Draco estava trancado no quarto e não conseguiam fazê-lo sair. Embora não admitisse nem pra si mesmo ele estava grato pela oportunidade de evitar o problema Voldemort. Ele bateu na porta do quarto, parando ao perceber que Fred e Jorge continuavam ao seu lado. Snape apenas precisou fechar a cara para os que os dois saíssem correndo, então com um grande suspiro voltou a bater na porta.
—Draco – Snape suspirou – Abra a porta.
Incrivelmente, Draco abriu a porta. Ele deu meio sorriso e seus olhos estavam vermelhos, Draco deu um passo para Snape passar e fechou a porta com um suspiro.
—O que foi? – ele perguntou bravo, sentando-se na cama. Tudo o que ele queria no momento era dormir e sonhar que Harry estava bem quietinho ao seu lado. Seguro.
—Não me olhe assim, Draco – Snape suspirou – Ficar imaginado qualquer coisa não é bom.
—Ah, é? – Draco riu sarcasticamente – E o que você está fazendo quanto ao seu problema? – ele cruzou os braços.
—Eu não tenho nenhum problema, Draco – não era necessariamente verdade, mas Draco seria a última pessoa com que falaria sobre os pesadelos de Voldemort.
—Não sou cego – Draco se limitou a dizer, ele não queria forçar Snape a falar se ele não quisesse, mas ele gostaria de poder ajudá-lo. – Acho que precisamos de alguma coisa para nos distrair.
—Claro! – Snape se levantou sorrindo – Venha me ajudar com algumas poções.
Draco o seguiu, resmungando e reclamando. Ele continuou reclamando durante todo o tempo que esteve com Snape enquanto mexia a poções não muito agradáveis, mas na verdade estava grato pela distração, tão grato quanto Snape.
Finalmente, sabendo que não podia mais adiar a decisão, ele pegou o frasco da poção do sono. Ele queria a opinião de Draco, queria perguntar a ele o que achava; mas não podia, não podia envolver Draco em nenhum problema que envolvesse Voldemort, e em parte era porque a resposta era muito obvia. Quem poderia perdoar aquele monstro? Snape não podia, mas mesmo assim decidiu dar a poção ao Lorde das Trevas, contanto que ainda ajudasse Harry a derrota-lo não havia nada de mais. Snape suspirou, então por que soava como se quisesse convencer a si mesmo?
Ele avisou a Draco aonde estava indo, e apesar de tudo que tinha garantido a si mesmo, sentiu-se culpado quando Draco lhe deu um olhar de preocupação e pediu que tivesse cuidado. Mas nem a culpa o fez mudar de opinião, ele já estava decidido. Ele lidaria com as consequências depois, porque haveria consequências, ele só esperava que não fosse algo que o fizesse se arrepender amargamente, como antes.
Assim que chegou ao esconderijo, ele não foi diretamente ver Voldemort, ele teve que passar um bom tempo na cozinha, preparando um chá para que Voldemort não tivesse problemas de estômago novamente. Ele não podia acreditar que estava preparando um chá para alguém tão terrível, Snape suspirou esperando a água esquentar, infelizmente ela não esquentou rápido o suficiente pra que evitasse uma conversa não muito agradável com Belatriz. Depois de alguns quilos de sarcasmo e toneladas de insinuações, ele finalmente pode sair dali.
Aliviado por finalmente escapar de Bela, ele foi rapidamente ao quarto de Voldemort, bateu diversas vezes, mas ninguém respondeu. Apenas depois que ele se identificou a porta se abriu vagarosamente. Ele soltou uma exclamação surpresa ao se deparar com a enorme cabeça de Nagini o encarando. Ele sabia que a cobra não podia falar com ele, e ela também sabia disso, mas mesmo assim Nagini sibilou algo e foi em direção à cama, e Snape compreendeu o que ela queria dizer. Ele andou até a cama vagarosamente, largando o chá e a poção na mesa de cabeceira. Ele observou o rosto do bruxo das trevas, o homem se contorcia na cama e estava levemente vermelho.
—Ele não parece bem, Nagini... – Snape dirigindo um pequeno olhar pra cobra, ela continuou a olhá-lo, seu corpo sobre Voldemort enquanto observava todos os movimentos de Snape. Severo ainda demorou mais alguns segundos até tocar a testa do com a mão, ela estava quente, muito quente. Snape suspirou – Hey, acorde... – ele chamou suavemente, puxando o corpo do homem e passando a mão por seu rosto – Vamos lá, acorde...
Voldemort sacudiu a cabeça, confuso e sonolento, mas a confusão do sono se foi e ele se afastou de Snape, puxando sua varinha contra o pescoço do homem.
—O que quer aqui, Severo? – perguntou grosseiramente, seus olhos apertados e sua boca contorcida. Teria assustado qualquer um, mas não Severo – Se não sair desse quarto vou matar você, pode ser meu servo mais leal, mas ainda vou matar você.
—Lorde, está doente, com febre, deixe-me ajudá-lo e pode apagar minha memória depois. – Snape não duvidava que Voldemort fosse matá-lo, mas em seu favor, ele sabia que Voldemort não queria isso.
O Lorde relaxou o corpo, tirando a varinha do pescoço de Severo e colocando-a na mesa de cabeceira. Pensando sobre isso, Snape sabia que outra pessoa estaria morta, Voldemort não gostava de aceitar ajuda; Nagini devia saber disso também, mas mesmo assim ela deixou que ele entrasse, ela deve ter reconhecido o som de sua voz ou qualquer coisa... mas não só isso, pra deixar que entrasse no quarto e visse Voldemort tão frágil, ela tinha que confiar nele.
—Primeiro você tem que tirar essas cobertas – Severo falou suavemente, ele não podia acreditar que estava ajudando, mas não podia simplesmente deixar o homem doente na sua frente. Ele puxou as cobertas pra baixo devagar, deixando Voldemort coberto apenas com um lençol – Pronto, agora me diga o que você sente.
—Estou com frio – ele murmurou – Minha cabeça dói. É ruim.
—Eu sei – Snape mordeu o lábio. Droga! O homem parecia tão inocente! – Já vai passar, ok? Eu só preciso ir até o laboratório pegar uma poção para febre...
Snape já tinha se virado quando sentiu uma mão puxá-lo pela manga – Não! –Voldemort não olhava pra ele quando disse isso, ele pensou que não havia problema, ele era ótimo em feitiços de memória e ninguém nunca desconfiaria que tinha apagado isso da mente de Snape. – Fica aqui... por favor... fica aqui... – ele murmurou.
A voz era tão fraquinha, ele parecia tão fraquinho ali. Snape não sabia por que, mas ficou, devia ser a idade, estava transformando-o em um fracote meloso.
—Tudo bem – ele disse, fazendo Voldemort recostar no travesseiro outra vez – Eu não vou sair do quarto, se precisar de mim, grite. – Snape foi até o banheiro e pegou uma toalha seca, depois ele foi até o guarda-roupa para pegar outra das túnicas de seda preta que Voldemort usava pra dormir.
Ele observou todos os movimentos de Snape, sem saber o que ele faria, nervoso por não saber, Voldemort falou com Nagini, a cobra respondeu que Snape não lhe faria mal; mas a resposta não o deixou aliviado. Severo foi até a cama e puxou o lençol de cima de Voldemort devagar, então ele colocou as mãos na borda da túnica para puxá-la pra cima, mas Voldemort se encolheu, e puxou a túnica pra baixo, impedindo Snape de tirá-la.
—Está com vergonha? – Snape sorriu, a ideia divertindo-o, até olhar Voldemort nos olhos, aquilo não era vergonha, aquilo era puro terror. Ele suspirou, Severo não era um homem muito gentil, ou carinhoso e definitivamente não era um homem paciente – Escute – ele disse, sua voz firme e séria não ajudava Voldemort em nada – Vou tirar sua túnica, usar a toalha pra secar o suor e vou vesti-lo novamente. Você pode acreditar ou não. – Snape não esperou nenhuma resposta, não esperou que Voldemort parasse de encará-lo como um coelho encurralado.
Severo puxou seu corpo, fazendo com que soltasse a barra da túnica e começou a puxá-la para cima. Assustado Voldemort se contorceu, tentando se soltar de Snape e alcançar a varinha na cabeceira. Era isso, como pode se esquecer? Tudo tinha um preço, Severo se dispôs a ajudá-lo com a febre e agora queria algo em troca. Amedrontado e sem conseguir qualquer avanço em direção a sua varinha, ele sentiu as lágrimas e soluços saírem vagamente, sem muita consciência de sua própria reação.
—Não... por favor... não... – ele implorou chorando e se contorcendo enquanto Snape lutava pra tirar a túnica.
—Parado! – Severo grunhiu, ele estava bem surpreso por Voldemort ter tanto medo dele, e ficou ainda mais surpreso porque as palavras surtiram efeito e Voldemort parou de se mover instantaneamente, embora o choro continuasse. Ele tirou a túnica, passou a toalha pelo tórax e costas de Voldemort o mais rápido e gentilmente que pode e vesti-o com a túnica seca. – Pronto. – ele falou, e Voldemort ficou olhando-o, o choro cessou.
—O que está pronto? – sussurrou ainda assustado.
—Você.
—Uhum – ele murmurou, as bochechas adquiriram um tom mais forte de vermelho – Você não vai...? – ele se encolheu.
—Eu disse que tiraria sua túnica, secaria o suor e vestiria você de novo. Foi o que eu fiz – Severo suspirou – Agora você pode deitar e dormir.
—O que eu tenho que fazer pra você? – ele sussurrou.
—Me dê sua mão. – Voldemort colocou a mão magra e pálida na dele, Snape segurou-a e deitou-se ao seu lado – Pronto, isso é suficiente. – A quem ele podia enganar? Olhando Voldemort deitado ao seu lado, tenso enquanto esperava alguma movimentação sua, Snape estava morrendo de pena. Sentia-se culpado por isso, então ele pensou em Harry, nos pesadelos que ele compartilhava com Voldemort, e Severo percebeu que podia falar com Potter sobre isso, seja lá qual fosse o pesadelo, fez Draco se preocupar o suficiente para lhe pedir uma poção para Harry, e o mais incrível, fez Voldemort se encolher e tremer com medo.
Voldemort estava de olhos fechados, fingindo que estava dormindo. O Lorde das Trevas aproximou seu corpo de Snape devagar, ele estava com frio e sonolento, se estivesse pensando corretamente jamais teria feito algo do tipo. Nagini sibilou algo sobre sua atitude ridícula, quando Voldemort sibilou pra ela de novo, Snape soltou uma risadinha, ele pode sentir Voldemort tencionar o corpo ao seu lado.
—Eu sei que você não está dormindo. – Snape deu uma risadinha – Vou me esquecer disso amanhã, lembra?
Voldemort não respondeu, ele apenas deixou o corpo pesar contra cama acalmando-se. Snape deixou que a febre passasse, deixou que Voldemort adormecesse e laçou um feitiço de memória. Claro, Nagini podia contar o que tinha acontecido, mas pelo modo ela estava com a cabeça pousada em seu ombro calmamente enquanto Snape realizava os feitiços ele imaginou que ela não contaria. Ele passou a mão pela testa de Voldemort e suspirou.
—Você não vai contar, não é mesmo? – perguntou a Nagini, a cobra o encarava com os grandes olhos amarelos hipnotizantes – Eu espero que isso signifique que não.
Deixando a cobra escorregar por seu braço e se enroscar ao lado de Voldemort, Snape o sacudiu, menos carinhoso e menos íntimo do que da última vez. Voldemort acordou soltando chispas, ele pressionou a varinha contra o pescoço de Snape, Severo sabia muito bem que Voldemort não queria matá-lo, não foi difícil dissuadi-lo da ideia. Ele entregou a poção e chá, formalmente para o Lorde.
—Pode ir agora, Severo. – Foi a resposta que recebeu.
De volta à casa dos Black, Severo aproveitou o tempo com a família Malfoy. Houve um tempo em que ficar tão próximo de Lucio sem poder tocá-lo era doloroso, agora não era nada. Severo não sentia mais nada por Lucio, não no sentido romântico. Severo jamais sentiria de novo, aquela sensação doce e quente, que te faz rir sozinho e chorar na frente dos outros, aquela sensação agradável e suave, ele nunca mais sentiria. Mas havia uma sensação que o acompanharia para o resto da vida, a culpa. Culpa por tudo que fez de errado, que continuava a fazer. Severo era seu pior inimigo, ele se odiava tão intensamente.
Algumas pessoas diziam que era sábio, um sábio mestre de poções. Ah! Ele era um mestre de poções, um dos melhores (talvez o melhor), mas não era sábio. Era inteligente, mas não sábio. Severo tinha certeza que não era sábio, porque estava perto de mais de Dumbledore, porque estava perto de mais de um verdadeiro sábio. Severo gostaria de um pouco de sabedoria emprestada.
Dumbledore... Severo tinha mais de sua confiança do que provavelmente merecia; mas admitia que saber que o homem lhe confiaria a vida deixava-o... feliz. Dumbledore... Dumbledore... se pudesse explicar o que estava acontecendo a ele... se pudesse pedir apenas um conselho...
Severo queria uma solução, queria que alguém lhe dissesse o que era certo. Alguém como Dumbledore, mas não tinha coragem para perguntar, ele já sabia o que Dumbledore iria dizer.
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