Dprince
3 Caminho ao Vale
—Aaaaah! — Hard gemia enquanto carregava toda a bagagem — Já chegamos?
—Não! — respondeu o mago.
—Eu nao aguento mais — o menino arrastava as malas no chão — onde foi que vocês arranjam essas coisas?! Eu pensei que a carroça tivesse sido destruída!
—Ela foi, — respondeu a arqueira sem parar o passo — mas nós voltamos e recuperamos o que sobrou.
—Ótimo! — Hard disse de forma sarcástico — e quem é o gênio que decidiu trazer tijolos a viagem?!
O espadachim enfia a mão em uma das sacolas e remove um pesado livro.
—Esse é meu material de estudo, idiota! — Dann vira os olhos.
—E você precisava mesmo trazer toda a biblioteca?! — Hard arranca outro livro da sacola.
—É essencial para essa viagem!
—Chega! — Rura gritou parando de andar.
—Ela está certa! — o mago colocou a mão na testa — vamos descansar um pouco aqui.
—Tanto faz... — Hard respondeu se jogando no chão.
Em seguida Rura pega uma de suas flechas e finca em um tronco solto. Ela estala os dedos e a flecha pega fogo, criando uma lareira.
—Eu vou procurar por comida! — disse Dann caminho em sentido a árvore mais próximo.
O espadachim fica em silêncio, deitado de costas para a amiga.
—Como está a perna?
—O quê?! — Hard torce o corpo para enxergar a menina — falou alguma coisa?
—Eu perguntei se sua perna estava melhor!
—Ah, é mesmo! — o menino senta e agarra seu gesso com as duas mãos — eu tinha esquecido dessa coisa!
Ele força o gesso até o partir no meio.
—Como você esqueceu? Não estava o incomodando?
—Eu me acostumei! — ele respondeu dando de ombros.
A menina o encarou confusa, como podia ser Hard tão desleixado?
—Hey, — o garoto disse a encarando de volta — como é ser um elfo?!
—Como é?! — Rura pareceu não entender o sentido da pergunta.
—Ahmm, — o menino coça as costas da cabeça como se estivesse caçando palavras — sabe... o que vocês fazem de diferente da gente?
Por um segundo Rura entendeu a pergunta, mesmo que Hard não tenha conseguido achar palavras para perguntá-la.
—Nós somos iguais a vocês — ela disse abaixo a cabeça, era quase patético o jeito que o espadachim tinha para saciar sua curiosidade — a diferença é que vivemos em cidades da florestas ao invés de cidades de concreto.
—Eu nunca vi um elfo antes! — ele disse de forma inocente — achei que vocês eram raros!
—Nós não somos raros, somos comuns! Para cada humanos existe a mesma quantidade de elfos.
—Entendi! — ele respondeu sem emoção — e todos os elfos são arqueiros?
A menina riu, era quase um preconceito chamar todos os elfos de arqueiro.
—Não, existem diferentes elfos, com diferentes armas.
—Então por quê você escolheu o arco?
—Pelo mesmo motivo que você escolheu a sua espada, eu apenas gostei mais do arco!
Foi então que Dann apareceu com uma cesta de frutas nas costas.
—O que vocês estão falando? — ele perguntou curioso.
—Eu estava perguntando para Rura porquê ela escolheu o arco-e-flecha.
Dann encarou a amiga como se esperasse uma resposta.
—E-eu só, gostei da arma.. — ela disse sem graça.
O mago deu de ombros.
—E você, roxinho? Por quê escolheu ser um mago?
Dann respirou fundo antes de responder.
—Me chame assim de novo e eu o queimo vivo.
Rura tampou a boca para não rir.
—Ok, senhor durão, pode me dizer por quê você virou um mago?
—Bom se vocês querem tanto saber, — o menino se sentava no chão enquanto falava — eu não tive escolha, em minha tribo todos se formam para serem magos.
—Sua tribo?! — a menina ressaltou — Quer dizer o pólo norte?
—É verdade! — o espadachim abriu um sorriso — eu tinha esquecido que você veio do polo norte!
—O que você faz aqui? — ela perguntou — tão distante de casa.
—É complicado...
—Descomplique! — Hard respondeu sorrindo enquanto Dann o encarava com ódio.
—Certo! — ele disse sem vontade — Na minha tribo existem dois tipos de pessoas. Os utejs e os altejs. Enquanto os utejs fazem praticamente todos os serviços da tribo. Os altejs comandam e vivem como reis, sem quase nenhuma responsabilidade.
—Parece horrível para os utejs! — comentou Rura!
—E é! Ninguém na tribo quer ser um utejs. Por isso aos treze anos todos os membros fazem um único teste para se tornarem altejs. Se você falhar nesse teste, é o fim, você será para o resto da vida um utejs.
—Que cruel! — a menina simpatizou.
—Deixa eu adivinhar, você falhou no teste? — Hard comentou.
O mago virou os olhos.
— Os altejs são para nós o que os magos de gelo são para vocês. Por isso durante o teste, as crianças da tribo deveriam dominar a magia da água e obviamente a magia do gelo. E tudo deu certo para mim durante as fases de água, mas eu não dominava as habilidades de gelo, ao invés disso eu dominava a magia do fogo.
Os altejs da tribo viram isso como um insulto, uma brincadeira de mau gosto. Como podia uma criança do polo norte dominar a magia do fogo? E como punição eu fui recusado do teste.
—Isso não explica como você veio parar aqui... — o espadachim sussurrou.
Dann o encarou com ainda mais ódio.
—Eu fugi.— ele respondeu seco.
—Vir do polo norte até aqui! — a menina fez uma cara de surpresa — deve ter sido uma jornada dura!
—Foi, mas eu aprendi muito sobre a magia no caminho, inclusive aprendi a dominar a magia da terra e do ar. Se eu tivesse ficado o máximo que eu teria aprendido era a construir um iglu.
—E você não teria nós conhecido! — Hard colocou as mãos sobre a cabeça — acho que a viagem valeu por isso!
Dann apenas ignorou.
—E você, cabelo espetado? Como veio parar aqui?
Hard fez biquinho.
—Você já sabe! Eu sou só um garoto de rua!
—O capitão não o chamaria se você não fosse um guerreiro!
—Ele está certo, — a menina se animou — o capitão viu potencial em cada um de nós, se não ele não teria nós chamado para essa jornada!
Hard esfregou a cabeça outra vez.
—Bom o capitão me chamou depois que eu entrei em uma briga com um guarda...
—Você apanhou de um guarda? — Dann perguntou com um sorriso de canto.
—Apanhar daquele cara?! Nunca!
—O que aconteceu? — perguntou a arqueira cada vez mais curiosa.
—Aquele idiota me acusou de ter roubado a minha espada, eu tentei explicar para ele, mas ele não me ouviu.
—Então você bateu nele?— Dann encurtou a história.
—Eu não tive escolha. Enfim, eu fui levado ao capitão para depor. Eu expliquei a ele que estava em uma jornada, por causa disso, ele acabou me convidando ao grupo.
—Você estava em uma jornada sozinho? — perguntou a arqueira.
—Sim, — o menino respondeu confiante — eu estava indo procurar pelo meu pai!
—Seu pai? — Dann arregalou os olhos — o que aconteceu com ele?
—Bom é... eu não sei... eu nunca cheguei a conhecer ele. Tudo que eu sei é que ele foi um excelente guerreiro que um dia desapareceu, deixando para trás essa espada — Hard agarrou sua arma — e um bebê... — ele apontou para o seu peito.
—Uma jornada para encontrar seu pai! — Dann olhou o espadachim com outros olhos.
—O que você acha que aconteceu com ele? — Rura perguntou.
—Eu não sei! Meu pai não era desse reino, ele era um viajante. E o que o fez sumir, me deixando para trás, deve ter sido importante.
Por um segundo os três ficaram em silêncio.
—Mas eu tenho certeza que ele tem um ótimo motivo! — Hard deu um sorriso sincero — Por isso eu vou perguntar tudo quando o encontrar!
Dann vira sua cabeça para o céu.
—Está começando a escurecer! — ele diz nada contente.
—Vamos acampar aqui! — Hard sugere.
—Não podemos, — Rura se levanta fazendo as malas — o campo é muito aberto. Somos presas fáceis aqui!
—Certo! — o espadachim recolhe as pesadas malas — vamos logo com isso!
E assim os três caminham pelo campo procurando um lugar seguro para descansar. Enquanto eles caminhavam o céu escurecia e com ele vinha uma densa neblina.
—Está começando a ficar frio! — o garoto reclamava.
—Ande mais rápido! — exigiu o mago.
—A neblina está aumentando! — Rura alertou — está difícil de enxergar o caminho.
Dann assumiu a frente.
—moitar laur! — ele gritou batendo seu cajado no chão.
E a sua frente uma chama vermelha surgiu clareando o caminho.
—Me sigam! — ele disse iluminado pela magia.
Com o passar da noite mais a neblina piorava. Os três aventureiros passaram horas caminhando entre a escuridão.
—Assim não dá! — Hard gritava enquanto empurrava as malas — Eu não aguento mais carregar essas coisas!
—Ele está certo! — Rura parou no lugar — eu sinto que estamos andando em círculos.
—E você prefere ficar parada aqui? — Dann opinou.
—Não temos outra escolha!
—Certo! — o mago caminhou até Hard e tirou alguns troncos das malas que ele carregava
—Há! É por isso que estavam tão pesados!
—Quieto! — Dann jogou os troncos no chão — miotra! — ele conjurou o feitiço e em seguidas os troncos estavam em chamas — Fiquem em volta da lareira! Não podemos baixar a guarda!
—Hard descanse, — Rura engatinhou seu arco — Dann e eu ficaremos de tocaia.
O garoto não pensou duas vezes, ele estava tão cansado que se jogou no chão e caiu no sono.
—Eu pensei que ele fosse me convencer de que não queria dormir... — A arqueira disse desapontada.
—Não se confunda! Ele não perderia uma oportunidade para dormir. O sono pra ele é sagrado.
O tempo passou e o frio e a neblina apenas pioraram.
—miotra! — ele gritou e o fogo da lareira aumentou.
—O que significa? — perguntou ela.
—Na minha língua significa fogo!
—E isso ajuda na hora de lançar o feitiço?
—Eu não preciso falar para lançar magias,mas eu gosto... Me ajuda a concentrar!
—Você sente saudade? — ela disse puxando assunto — sente saudades dos seus pais?
—Sinto saudades da minha mãe...
—E do seu pai?
O garoto abaixou a cabeça.
Naquele momento Hard já estava semi-acordado.
—Não!
—Por quê?
—Meu pai é um dos altejs mais respeitados da minha tribo. Por causa disso ele quase nunca passava tempo com a sua família.
—Isso não é motivo para não sentir saudade! — a menina comentou.
—Alguns anos passaram seu eu ver meu pai, ele era pouco presente. Mas ele quis compensar isso estando presente no dia do meu teste. Ele estava lá para aplicar o teste em mim!
Rura abriu a boca surpresa.
—Se não fosse por ele, eu seria um altejs agora!
—Eu sinto muito...
—Não sinta! — o menino cortou a amiga na metade de sua fala — Meu pai é um idiota egoísta, ele nunca me amou, provavelmente ele nem deve ter percebido que eu fugi!
—Como pode falar isso! — Hard levantou furioso — Como pode falar isso do seu próprio pai?!
Rura estranhou a repentina reação do amigo.
—Você não entende... — o mago virou o rosto.
—Não entender o que? Que você abandonou seu pai?
—Abandoná-lo?! — Dann se colocou de pé — Como eu posso ter abandonado alguém que nunca se importou comigo?!
—E você sabe o por quê dele ser ausente? Você sabe se ele também não está triste de estar distante? Sabe da dor que ele teve por vê-lo falhar?! Ou você prefere culpar ele pelos seus FRACASSOS!
—Chega! — a menina gritou.
Rura segurava em sua mão o comedor de sonhos.
—Ele nos seguiu até aqui? — perguntou Dann.
—Minha cabeça! — disse Hard esfregando a testa.
—Temos que ir! — a menina continuou — Vocês chamaram muita atenção!
—É muito tarde! — Dann respondeu se colocando em posição de ataque.
A poucos metros estava parado um gorila branco e preto. A criatura tinha símbolo azuis brilhantes tatuados em seus ombros. Nas costas seis buracos exalavam uma neblina escura.
—Um Yeti?! — Rura gritou assustada — É por isso que está tão frio, por isso a neblina está tão densa. Ele está causando isso!
—O que fazemos! — perguntou Hard.
— Temos que derrubá-lo! — gritou Dann — Se não acabaremos congelados!
—Deixa comigo! — Hard partiu em direção ao monstro.
—Cuidado! — Rura gritou.
Mas antes que o espadachim a desse ouvidos ele acabou sendo jogado a distância por uma cabra.
O animal era Albino, com quase 2 metros de altura a cabra tinha olhos e chifres que brilhavam em azul.
—Yeti não costuma andar sozinho! — a menina explicou.
—Um bote do inverno! — Dann estava surpreso — o que esses dois fazem aqui tão longe?
—Vamos ter que atacá-los — Rura engatinhou sua flecha.
—Miotrair! — o mago gritou e uma grande brasa saiu de seu cajado em direção ao Yeti.
Mas para defender o amigo o bode entrou na frente assombrando um vento gelado que parava o brasa.
Rura não vendo outra opção lançou sua flecha no bode que o acertou na pata esquerda, o fazendo gritar de dor.
O Yeti ficou furioso ao ver o amigo gritar. Então a besta correu em direção a Rura.
—Cuidado! — gritou Dann, mas era tarde demais. O monstro jogou a elfa a metros de distância, na escura neblina.
—Maldito! — ele gritou apontando seu cajado para atacar — Miotra... — mas o bode o interviu. Batendo com força seus chifres no mago o bode o jogo para trás.
Quando se deu conta o Yeti estava.em cima do mago.
Dann esticou seus braços para alcançar seu cajado, mas ele havia o lançado muito longe.
Furioso a besta juntou suas mãos atrás da cabeça, um golpe do Yeti e Dann estaria morto.
Foi no último segundo que Hard surgiu, usando sua espada como escudo, o espadachim impediu o ataque da besta.
—Me da cobertura? — o garoto disse com um sorriso maroto.
—Deixa o bode pra mim! — ele respondeu.
—Então o grandão é meu! — o garoto fez força contra o monstro o jogando para trás.
Dann rolou no chão para perto do cajado.
—Toma essa! — Hard gritou enquanto acertava o Yeti com sua espada.
Mas a criatura aguentou o ataque firme.
—Brockama! — Dann gritou e o chão engoliu o Yeti. O deixando imóvel.
O bode não ficou parado e correu para atacar o mago.
—Cuidado! — E o espadachim pulo na frente do atque usando sua espada como escudo novamente.
—Eu disse... — o mago chacoalhou seu cajado no ar — ...que o bode é meu!
E quando ele o bateu no chão um enorme vento empurrou Hard e o bode para trás.
—Miotra! — ele gritou e uma chama cercou o bode que caiu inconsciente segundos depois.
—Bode do inverno não suporta fogo, — ele explicou — só de estar perto eles desmaiam!
Quando Rura voltou os dois amigos estavam comemorando.
—Eu demorei demais? — ela perguntou.
Horas mais tarde e os três estavam acampando em baixo de várias árvores, seguros de que não seriam incomodados.
Dann estava lendo um de seus livros ao lado da lareira.
—Hey cara, — disse Hard se aproximando — eu só queria me desculpar.
—Tudo bem, ele respondeu sem tirar os olhos do livro, agora você sabe como me senti...
—É, talvez no começo! A verdade é que Rura já havia derrubado o comedor de sonhos quando eu disse aquilo sobre fracasso...
Dann tirou seus olhos do livro.
—Escuta, me desculpa de verdade — Hard continuou — A verdade é que quando eu estava falando aquilo sobre seu pai,na verdade eu estava pensando em mim, e do meu medo de ter sido abandonado porque meu pai não me queria...
O mago sorriu.
—Chega mais perto... — ele disse enquanto tirava seus casaco peludo.
—Calma ae, — o espadachim ficou assustado — você não precisa ficar pelado agora!
—Cala boca, idiota! — Dann removeu todo o seu casaco e mostrou suas costas cheias de cicatrizes.
—Meu pai me visitava pouco, mas quando me visitava ele fazia questão de me marcar!
—Ele fez isso... — Hard disse com um certo nojo.
—Fez! — Dann começou a se vestir outra vez — O fato é, meu pai é um idiota, o maior idiota desse mundo! É mesmo assim, ele não desapareceu quando eu era um bebê. O que só prova que, seja lá o que aconteceu com seu pai, não é culpa dele.
Hard abaixo a cabeça.
—Você acha que um dia vou encontrar ele? — ele perguntou um pouco abalado.
—Eu tenho certeza!
Hard estragava os olhos.
—Obrigado! — o menino correu e abraçou o amigo com força.
—Hey, você dois viram minha flecha amarela... — Rura ao entrar ficou chocada ao ver Hard abraçando Dann quase sem camisa.
—Não é o que parece! — disse o mago corando.
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