Doyle House
1 Miss Guinevere cai da escada
Olivia não sabia o que sentir quando o sangue escapando do corpo de Miss Guinevere sujou seus sapatos. Oras, o cadáver estava em uma distância de poucos centímetros dela, em cima da escada, exatamente no lugar onde ela sentava desde os 4 anos para espiar a janela do primeiro andar, sempre que visitava a tia. Devia ser muito sangue, então, porque a escada também estava toda vermelha. Pingava dos degraus e cheirava mal, como algo férreo. Olivia levantou a barra de seu vestido, puxando até metade de suas coxas, porque ela não queria ter sangue junto à seda verde claro das saias (ela teve que insistir muito para que seu pai o comprasse no ateliê da rua Bowl).
Seu cérebro não funcionava. Ela só sabia que tinha um machado fincado na cabeça de Miss Guinevere (que horror!) e deveria ter sido muito desconfortável morrer daquele jeito. Ou talvez muito rápido. A senhora tinha os olhos azuis abertos, mortos, mas eram tão claros e límpidos que a faziam parecer um peixe... e ela fedia como um. Ah, quanta indelicadeza sua achar um momento como esse tão ridículo.
Só que o que realmente estava fazendo Olivia ficar aterrorizada, era que ela não sentia pena da mulher. Era horrível e uma lástima alguém ser morto daquele jeito, mas pelo menos ela deixaria aqueles pobres coitados dos seus criados que torturava viverem em paz. E com todos os seus membros do corpo intactos. Ora, todos sabiam que Miss Guinevere tinha um sério problema. Ela pendurou duas criadas nuas no galho de uma árvore, pelos pés, e as chicoteou bem ali em seu jardim, no verão passado.
Uma bruxa sanguinária, mas ninguém parecia se lembrar, porque lady Martin tinha acabado de murmurar “quem faria uma coisa dessas? Uma alma tão boa...”, mas Olivia sabia que todos sabiam que Miss Guinevere era o próprio diabo. Era estranha tanta aflição... Ela entendia que o assassinato seria a fofoca da temporada, mas não entendia o porquê das pessoas estarem fingindo, naquele momento, enquanto recolhiam o corpo, que aquela perda era algo ruim.
Todo o salão estava um caos. Estavam todos tão imensamente desesperados para descobrir o assassino que se esqueceram de ir embora, mesmo que os policiais já estivessem gritando desde a porta de entrada do salão para que deixassem o local. Ah, talvez estivessem gritando com ela, Olivia, também. Bom, a pessoa mais próxima de onde estava o que já foi Miss Guinevere era ela. Ugh, os seus sapatos estavam encharcados de sangue. Como tudo aquilo cabia dentro de um corpo? Uns bons metros da escada estavam rubros e pegajosos.
Olivia olhou a sua volta e viu seu pai e seus tios pálidos, sem nem ter forças para tirá-la dali. Então ela foi andando até eles, manchando o tapete de Lady Dinoveur de vermelho com os seus sapatos, sabendo que lady Ascott, sua madrasta, iria repreendê-la por ter sido tão mal educada (uma dama não sujaria o tapete finíssimo de lady D., o mais correto seria que Olivia tivesse seus sapatos limpos, mas ela não sabia como iria limpá-los naquele momento).
— Papai. – Lorde Ascott a olhou em choque quando se aproximou. – Meus pés estão molhados, posso tirar meus sapatos? – Falou sussurrando, mas o homem a empurrou para sentar na cadeira com tanta força que Olivia ficou tonta.
— Ela está muito chocada, percebe-se. Sente aqui, querida, e fique com os seus sapatos. — Olivia achou que seu tom indicava uma ordem. Certo. Manter os sapatos.
Os murmurinhos horrorizados ressoavam pelo salão inteiro, ninguém estava em silêncio. Com toda certeza, esse foi o acontecimento mais chocante da temporada – o que significava que todo mundo iria fofocar e esmiuçar cada segundo daquele baile para o resto da sociedade londrina. Em um instante, todos os convidados se tornariam celebridades, ela sabia. Se a nobreza pudesse ser descrita em uma palavra, Olivia apostaria em tédio. Em conseqüência, era claro que para se livrar desse tédio, toda fofoca era bem vinda. Ah, ela não iria ouvir falar de assunto nenhum além desse durante as próximas trezentas temporadas.
— Que terrível infelicidade. – Olivia disse para as ladies que também estavam sentadas ao seu redor (ela pensou que seria estranho ficar em silêncio naquele momento delicado, onde todos estavam sussurrando desrespeitosamente).
As ladies se entreolharam e Olivia percebeu que estava, por algum motivo, sendo encarada de um jeito muito estranho. Por sorte sua quase amiga, Miss Willoughby, estava ali (elas já haviam trocado mais de duas frases, então Olivia achava que eram amigas).
— Bom – Começou ela – Você com toda certeza sabe que era a única pessoa próxima de Miss Guinevere quando ela caiu. Estava posicionada de um jeito muito esquisito, Miss Ascott.
— Estava descendo as escadas. Fiquei surpresa quando Miss Guinevere caiu ao meu lado. Vocês estavam todos vendo, não estavam?
As senhoras se entreolharam de novo.
— Ah, querida, que tragédia. Ninguém prestava atenção nas escadas, pois a filha do conde Fairfax sofreu um acidente e desmaiou. O barulho foi gigantesco! – Todas as senhoras concordavam com a cabeça. – Então tudo o que vimos foi o corpo de Miss Guinevere aos seus pés...
Ooh, não.
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