Downfall
2 J.
Notas iniciais
Amigos serão amigos quando você está cheio da vida e toda a esperança está perdida. – Mercury
Quando chegaram e se encontraram, cada um foi para um lado. Bem lógico ficar trinta minutos esperando em um ponto para se separarem logo após.
O interessante foi que na verdade, eles só se separaram de Julie. Jeff e Liz estavam, bem, em algum lugar. Damien, Alice e Cookie tinham ido dançar, e agora ali estava ela, sozinha em meio a vários estranhos meio embriagados – e a festa estava apenas começando. Fred a havia acompanhado até o bar, mas no minuto seguinte sumiu. Obviamente um cavalheiro.
Desistiu de tentar achar os outros e se sentou em um dos bancos em frente ao balcão do bar.
Além dela e dos barmen, havia no máximo três pessoas sentadas lá. Uma delas era um homem enchendo a cara e chorando, dizendo algo sobre sentir falta da namorada – ou ao menos tentando, ela não sabia ao certo já que tudo saía enrolado, pausadamente e um pouco fora de ordem. Aparentemente estava um pouco gripado. Isso ou alguém havia ativado um corretor automático tipo os de celulares no cérebro do cara. Uh, isso não seria agradável. Seria algo como “Oh, minha namorada ainda é puta. Não! Eu quis dizer puta! NÃO! PUTA! Droga. Pura”. Acontecia quase sempre.
Aproveitando o open-bar e a ausência da necessidade de apresentar documentos, Julie pediu um Martini de maçã.
Enquanto esperava a bebida ficar pronta, observou os bancos de couro que tinham mais um metro e meio de comprimento já que seus pés não tocavam o chão. Talvez eu precise crescer alguns centímetros, pensou. Depois revirou os olhos, suspirou e quase não percebeu que a estavam chamando.
– Certo, desculpe – disse um garoto sorridente segurando um coquetel, que havia sentado ao seu lado.
– Desculpe, o quê? – respondeu confusa, mas tentando dar um sorriso simpático.
O rapaz que ela só conseguiu identificar que não conhecia a olhou, também um pouco confuso.
– Oh, aquilo não foi uma maneira super eficaz de dispensar um cara que te disse oi...? Sabe, tipo – ele revirou os olhos e suspirou, imitando-a.
– Não! – Julie riu – Não mesmo, desculpe. Eu não havia escutado o seu “oi”, pra ser franca. Estava muito ocupada sentindo o preconceito desse banco para com pessoas de baixa estatura.
Ele sorriu vendo a garota balançar os pés, indicando que eles não tocavam o chão.
– Devo admitir certo alívio. Rejeitar oi’s daquela maneira é um pouco rude – fez uma careta para mostrar que estava brincando. –... E, eu sei como é. Está cada vez mais difícil ser baixo nos dias de hoje.
Julie pareceu atônita novamente. Falou “Com licença” e estudou o rapaz; Podia ver que seus olhos eram castanhos-cor-de-mel agora que alguns holofotes iluminavam o local. Os cabelos possuíam quase a mesma cor, um pouco mais escuros. A pele parecia ter um tom dourado natural, como se tivesse acabado de voltar da praia, mas sem a parte de ficar vermelho, descascar, e tal. Mas também podia ser azul, por outro lado. Essas luzes enganavam bastante. Vestia uma jaqueta de couro preta por cima da blusa cinza e uma calça jeans preta.
A postura estava perfeitamente encaixada no banco, os joelhos se dobravam e os pés encostavam totalmente no chão.
Depois de observá-lo por tempo suficiente, encarou-o incrédula.
– Cara, você tem praticamente dois metros de altura!
Ele olhou para si mesmo e balançou a cabeça, como se dissesse “É, pode ser”, mas acrescentou:
– Você devia ver meus irmãos. Eu sou o menor. – depois pensou por algum tempo e disse – É, com exceção da minha irmã, que tem a sua altura.
O barman entregou a Julie sua pedida. Depois de pegá-la, a garota desviou o olhar para alguns desconhecidos dançando, pensativa, depois encarou o rapaz de novo e disse:
– Deixe-me adivinhar; Doze anos, mais ou menos?
Ele riu.
– Na mosca. Bem, Anthony Rodrigues, prazer em conhecê-la – estendeu a mão.
– Eu sabia. Juliet Miller, igualmente – pegou, balançando-a.
Colocou o copo vazio no balcão e ergueu o dedo pedindo outra dose.
– Então, suponho que você não tenha doze anos, certo? E que tenha idade para beber isso? – Anthony apontou para o copo, sorrindo.
– Bem, eu posso garantir que não tenho doze anos. Apesar de ser difícil de acreditar. Mas, para poupá-lo de toda a adivinhação e etcétera, tenho dezesseis. – disse sorrindo.
– Isso é ótimo. Digo, nem tanto a parte de beber ilegalmente, mas ter dezesseis ainda é legal.
Depois de algum tempo conversando, Julie descobriu que Anthony na verdade era o irmão mais velho de Mona – uma garotinha super fofa que estudava no mesmo colégio que ela e estava quase no primeiro colegial – e sempre passava por lá para dar a ela uma carona em sua moto maneira.
– Jules! – gritou Cookie, tropeçando nas próprias pernas e interrompendo a conversa. Ela chegou um pouco mais perto de Anthony, observando-o com os olhos semicerrados – como se quisesse ter 100% de certeza absoluta do que via.
Ela chamou Julie novamente e colocou a mão em frente à boca, bloqueando a visão de Anthony sobre ela – ou ao menos tentando – e disse:
– Ei Jules, esse não é o garoto bonitinho que faz alguma coisa na sua escola com um violão ou uma... bicicleta...? – falava arrastado, com dificuldade em formar as palavras e definitivamente alto demais, fato que anulou a eficiência de cobrir a boca.
Anthony riu.
Droga, ou ele sabia fazer leitura labial parcial, ou simplesmente não era surdo. Difícil saber.
Julie forçou um sorriso.
– Anthony, essa é minha suposta melhor amiga, Cookie. Cookie, esse é o garoto bonitinho do violão, Anthony.
Ela indicou cada qual com o copo, bebeu e pediu outra rodada para o garçom, tentando ignorar a dor provocada pela vodca que parecia ter descido pura em sua garganta, no caso física, e a psicológica causada pela amiga bêbada.
– Sim, eu me lembro você – ela direcionou o olhar para Anthony – Jules estava te olhando quando...
– Cookie! – gritou para interromper a amiga com boa memória, mas boa mesmo, quer dizer, qual é, ela só tinha visto o cara duas ou três vezes!
Cookie a olhou confusa então Julie acrescentou:
– Veja bem, amorzinho, apesar de enrolado, se você continuar falando, a coisa vai ficar feia pro seu lado depois.
A menina ergueu as mãos como se estivesse se rendendo, pegou uma bandeja com bebidas e a levou até Alice que estava alguns passos à frente e acenou, dando um sorrisinho.
Julie revirou os olhos e balançou a mão, indicando que fossem para longe.
Anthony riu novamente e disse;
– Não sabia que você estava acompanhada.
Ela virou pra trás e pediu para que a trouxessem outra bebida já que Cookie havia levado quase o bar inteiro.
– Na verdade, eu vim com metade da festa. Eles estão... – ela indicou alguns de seus amigos balançando a mão aleatoriamente pelo salão.
– Eles te abandonaram? – perguntou levemente chocado, mas suavizou a expressão com um sorrisinho – Dói, não é?
Julie riu e assentiu.
Anthony fez “tim-tim” – literalmente – e perguntou se podia pagá-la uma bebida quando percebeu que estava sem copo.
“Pagar algo do tipo vai ser difícil já que é open-bar” ela disse.
“Bem, então alguém me roubou vinte dólares” ele deu de ombros. E foi neste ponto que Julie percebeu que o rapaz já estava um pouco bêbado.
De qualquer forma, vai ser divertido, certo, caras?
Errado.
De longe viu Cookie dançando com Fred e no minuto seguinte caída em seus braços. Julie cogitou ser parte de sua coreografia, mas não era isso que a expressão no rosto de Frederick deixava transparecer.
Anthony ainda falava algo, mas seguiu os olhos da garota e perguntou se estava tudo bem.
Sem desviar os olhos de Cookie, ela fez um sinal com a mão para que ele esperasse e levantou, pedindo licença para passar exprimida por entre as pessoas que continuavam dançando como se nada tivesse acontecido – talvez por não terem notado o pequeno circulo de pessoas em volta de sua amiga, talvez por acharem comum, talvez por não ligarem; isso não importava realmente.
Quando se aproximou da pequena aglomeração de pessoas que havia se formado, teve sorte em achar uma parte com pessoas que tinham altura consideravelmente normal – ainda existia alguém assim?!
Ficou na ponta dos pés e conseguiu ver Alice, que abriu caminho para que ela passasse assim que a viu também.
Cookie estava deitada no chão com a cabeça no colo de Fred. Julie se ajoelhou ao seu lado e o garoto colocou o braço em volta de seu ombro, tentando acalmá-la.
– Deixe-a deitada, Fred. As pernas mais altas que a cabeça, lembra-se? – gritou, mais alto que a música – O que aconteceu? Alguém chamou uma ambulância?
– Eu duvido que eles levem menos de quinze minutos para chegar – disse uma voz grossa atrás dela.
Ela se virou e viu um cara alto com cabelos pretos lisos e um piercing na sobrancelha.
– Seu palpite ajudou, obrigada.
Virou o rosto por dois segundos e olhando feio para o garoto do piercing. Anthony apareceu logo atrás dele e disse:
– Bem, talvez possamos levá-la ao hospital no carro dele. Chegaríamos em cinco minutos, no máximo. Ela provavelmente vai recobrar a consciência em alguns minutos no máximo, mas é bom saber o que aconteceu.
Julie olhou para a amiga, que ainda não respirava.
– Ok. – ela levantou – Meu amigo Fred vai conosco, para o caso de nós sermos sequestradas e tal, então ele pode ser sequestrado também.
Ele levantou com a menina inconsciente nos braços.
O garoto do piercing abriu caminho até a saída, seguido por Anthony, Fred e Cookie, Julie e Alice que calculou um lugar sobrando no sequestro já que quem desmaia perde o lugar.
Lá fora, a rua continuava movimentada à 1h35. Os postes de luz ainda fazendo seu trabalho na calçada.
Julie conseguia ver a silhueta da cidade – a sombra dos prédios e da trilha das árvores que ficavam entre os lados mão e contramão da rua, dividindo-os, os carros estacionados, as placas e tudo mais.
Naquela mesma calçada estava o sedan preto do garoto de piercing, um pouco mais à direita da entrada da boate.
Anthony abriu a porta e Julie entrou depois de Alice, ficando no assento do meio. Fred ajeitou Cookie dividindo-a no espaço entre nós para que ela ficasse esticada e por fim entrou também. Lice levantou os joelhos para esticar os pés da garota que ficaram em seu colo.
Os olhos de Julie começaram a ficar mareados vendo a melhor amiga desacordada no carro de um estranho. Ela odiava Charlie ser assim. Quando tinha um problema simplesmente procurava alguma festa com drogas e bebidas, não se preocupava se iria acontecer algo sério ou não quando misturasse algo que não devia, por exemplo – já havia acontecido algumas vezes.
Então viu a menina se mexer.
– Ei, Jules – disse sonolenta – Tire essa cara, mon amour, você não está exatamente me carregando.
– Sabe, – ela secou os olhos com a manga da jaqueta – eu poderia te dar um chute se a posição fosse mais favorável. De qualquer forma, adivinhe! Estamos te levando para o seu lugar favorito no mundo.
Cookie fez um “O” com a boca e acabou bocejando. Depois a olhou como se dissesse você não seria capaz de fazer algo tão horrível. Julie apenas deu de ombros.
Ficou calada observando a estrada enquanto a garota brincava com Amanda e Fred.
“O que você fez? O que aconteceu?” perguntou Frederick.
“Bem, eu apaguei por algum tempo, depois, quando acordei o senhor fortão estava me carregando pra algum lugar, então tirei um cochilo” disse com um sorriso.
Julie revirou os olhos.
Chegaram ao hospital poucos minutos depois.
Cookie ainda estava um pouco tonta e entrou se apoiando em Fred que tinha os braços em volta de sua cintura. Eles se sentaram enquanto Alice fazia uma ficha.
Julie se afastou por um tempo porque odiava chorar e ficar preocupada e odiava as duas coisas juntas. Entre os amigos e ela haviam cinco fileiras de cadeiras na horizontal.
Apoiada na parede observando o pronto-socorro não muito cheio viu Anthony se aproximando. Perguntou se podia sentar na cadeira ao seu lado, ela assentiu com a cabeça.
– Uma vez minha irmã falou sobre uma garota baixinha meio punk que tinha uma queda por bandas com The, essa seria você, ou...?
Julie pensou um pouco na parte do punk, olhou para si mesma e lembrou que o vestido cinza de manga longa que ia até metade das coxas, a meia calça rasgada e o tênis preto cano alto juntos eram considerados meio punk. Ela não era punk, mas eles se vestiam bem.
Depois deu um sorriso desanimado, mas sincero.
– The Killers, The Who, The Fray, The Smiths… Bem, sim, talvez seja eu. Mas eu não sou tão punk assim. Na verdade não sou punk, enfim.
– Isso é ótimo porque eu tenho um cartão de memória com várias coisas desse tipo e também não sou punk. Mas, bastante The. – ele disse, oferecendo um lado de seu fone, que Julie aceitou. – De que mais você gosta?
Ela pensou por um momento, depois respondeu:
– Coisas que comecem com Paramore, Arctic Monkeys, Two Door Cinema Club, essas coisas. E você?
– Eu gosto de ser eclético e gosto de livros. – ele sorriu.
Julie estava pronta para perguntar que tipo de livros, mas o amigo de Anthony apareceu e sentou-se ao lado dele, resmungando algo para o celular em sua orelha – e então o desligou, tirou a expressão carrancuda do rosto e cumprimentou Julie sorrindo.
– Imagino que nós não tenhamos sido apresentados. Eu sou Daniel, mas você pode me chamar de Dan. Prazer em conhecê-la.
– Eu sou Juliet, mas, bem, pode me chamar de Julie. Pronunciar uma letra pode cansar depois que você já falou cinco. – ela sorriu, e acrescentou logo – Obrigada por nos trazer aqui. Obrigada mesmo.
– Ah, sem problemas, esse cara aqui – ele apontou para Anthony – me falou sobre como uma gatinha que ele havia conhecido estava com problemas ou algo assim. Amigos ajudam amigos.
Anthony o olhou como se dissesse “Cara?!” e deu um soco em seu ombro, depois olhou para Julie como se nada tivesse acontecido e disse “Eu não falei exatamente dessa maneira. Quero dizer, falei, mas expliquei melhor”. Ela corou.
– É, eu acho que sim – disse, respondendo a afirmação de Dan depois olhando para o outro lado da sala onde seus amigos estavam e desviando o olhar novamente – Obrigada Anthony.
Ele assentiu com a cabeça e disse “Falando nisso, você pode me chamar de Tony. E, acho que seu amigo talvez possa estar te chamando” ele apontou para Fred que acenava da entrada do corredor que dava para os consultórios, chamando-a. Julie suspirou, pediu para que os novos amigos esperassem um pouco e caminhou até o garoto. Quando olhou para trás novamente viu Tony socando o braço de Daniel e dizendo o que parecia ser outro “Cara?!”
Lá ele explicou que Cookie havia tido uma arritmia cardíaca e mesmo que ela não tenha dito o que usou, bem, era algum tipo de droga – anfetaminas, cocaína, psicotrópicos; poderia ser qualquer um desses –, visto que ela estava totalmente chapada.
Boa, Charlie, pensou.
Depois de ser posta a par da situação, ela o seguiu até a sala em que a amiga estava sendo atendida – primeira à direita do corredor principal.
Fred abriu a porta cor de gelo e indicou para que Julie entrasse. Quando o fez, deu de cara com Charlotte cambaleando pela sala.
– Fica quieta Cookie, droga. – resmungou Alice, mas a garota continuava tropeçando pra lá e pra cá com um sorriso bobo no rosto.
Por falar em Alice, ela estava sentada em uma das poltronas revestidas de couro; entre ela e o cara de branco com um crachá que dizia “Carter M.D.” sentado na outra poltrona de couro apenas havia uma mesa cheia de arquivos bagunçados e porta retratos. Depois que Fred a apresentou ele disse, bem humorado:
“Bem, olá. Eu sou Frank Carter. Sua amiga está chapada, eu preciso saber o que ela usou para ter certeza de que efeito mais pode causar. Como vai?”
– Certo, oi. Juliet. Ahn, claro, ótimo.
Cookie estava agora sentada na cama rindo para as paredes, Julie se aproximou e sentou-se ao lado dela.
– Ei, panaca. Como você está se sentindo? – falou gentilmente.
Ela olhou para Julie e a encarou por um momento, a expressão indo de chapadamente feliz para um tipo confuso de dor, depois novamente feliz, então disse:
– Oi.
Julie semicerrou os olhos, tentando decifrar a garota
– Charlie, o que foi?
– Não me chame assim. Eu estou um pouco... hum...
Subitamente, a garota parou de falar, parou de sorrir; ficou simplesmente imóvel, o olhar perdido.
– Cookie? Cookie!
E então desmaiou novamente, mas não como havia sido com Fred.
Ela caiu totalmente imóvel, os músculos enrijecidos. A pele se empalideceu a tal ponto que assumiu um tom azulado.
Carter apareceu do seu lado e colocou o estetoscópio no peito da garota. Ela começou a se debater com os dentes cerrados, Julie olhou para ele esperando alguma explicação e ele disse “Convulsão” enquanto a deitava de lado, virada de frente para eles.
– Ela vai ficar bem, mas vocês não podem ficar aqui. Quando a situação ficar se tranquilizar vocês serão avisados.
Amanda foi para a porta junto com Fred, esperando que ela os seguisse, o que não aconteceu.
Julie ficou parada, parte porque não sabia como reagir vendo a amiga daquela maneira, inconsciente, impotente; parte porque não queria deixá-la daquela maneira.
De qualquer forma, Frederick a pegou pelos ombros e sussurrou “Ela vai ficar bem, Jules, vamos”, depois a arrastou para o corredor também, fechando a porta do consultório.
Alice segurou sua mão e a apertou gentilmente, e juntos voltaram para a sala de espera.
A pior parte de não saber lidar com problemas em público é ter que lidar com problemas em público.
Estar junto dos amigos definitivamente melhorava as coisas, mas ela sentia as lágrimas querendo escapar e definitivamente não iria chorar na frente deles. Foi novamente para um canto da sala apenas para se sentir um pouco sozinha, apoiou os pés na cadeira, o braço nos joelhos e o rosto entre os braços e chorou.
O.k., ela respirou fundo, vai ficar tudo bem. Ela vai ficar bem, droga, pare com isso. Chorona boboca.
Ouviu alguém sentar-se ao seu lado. Revirou os olhos e secou as lágrimas, com o rosto ainda escondido. Depois espiou discretamente por uma brecha entre seu braço e sua coxa.
– Ahn, eu pensei que você tinha ido embora – falou, se endireitando na cadeira.
– E te deixar sem carona?! – falou espantado, depois suavizando a expressão como já havia feito algumas vezes naquela noite – Bem, meu amigo fez isso. Mas ele volta logo. Fui buscar um café. Quer?
Ele ofereceu um dos copos em suas mãos. Julie aceitou e encarou o chão.
Anthony inclinou a cabeça para olhá-la, analisando-a.
– Você quer me contar o que aconteceu?
Ela hesitou por um momento, ainda de cabeça baixa, depois olhou para ele pensativa.
– Sabe, tecnicamente eu acabei de te conhecer – disse com um sorriso forçado – Um estranho que obrigou o cara do piercing a trazer outros quatro estranhos a um hospital às duas da manhã enquanto tem uma festa rolando. Incomum.
Ele desviou o olhar e deu um sorriso torto com covinhas que o deixava bastante gato até mesmo de perfil.
– Eu sou um estranho de bom coração. Fora que, eu nem estava curtindo aquela festa tanto assim. E – acrescentou depois de uma pausa rápida – o cara do piercing faz tudo por mim.
Julie sorriu também.
– É de se ver. Ainda assim, acho melhor passar um tempo com aqueles caras, – ela apontou para os amigos sentados fileiras à frente – porque eles também fazem tudo por mim e, como rainha, não posso desapontá-los. Talvez possamos conversar em alguma outra festa.
– Ou – apressou-se – você pode me dar seu número. Um pagamento digno desse cara de bom coração. Que, a propósito, faz o bem sem esperar algo em troca. Na maioria das vezes.
A menina riu.
– Ok, é justo.
Ela viu de relance um celular que quase caía de seu bolso, pegou-o, desbloqueou a tela deslizando-o pra cima, salvou o número e o devolveu para Anthony.
Levantou, deu um beijo em sua bochecha e sussurrou “Obrigada” em seu ouvido, depois caminhou até seus amigos.
– Olha só quem deixou o bonitão de boca aberta – disse Alice com um sorrisinho um tanto malicioso.
Fred olhou para trás a tempo de ver o garoto se levantando e sorrindo, triunfante.
– Deixou o cara paradão na sua, hein, Jules?
– Calem a boca, seus manés – ela riu também – Ele me conhece há, vejamos, quatro horas?
– Tempo o suficiente pra deixá-lo paradão na sua – reforçou Lice.
– Calem a boca – Julie repetiu, sorrindo.
Ela os empurrou pro lado para ocupar o lugar do meio, apoiou a cabeça no ombro de Amanda e as pernas no colo de Fred.
– Folgada – disse Amanda enquanto fazia carinho em sua cabeça.
Ela sorriu e a beijou na bochecha também.
Cookie era sua melhor amiga, Fred sabia matemática, Amanda era incrivelmente sociável e Julie beijava bochechas. Juntos eles realmente poderiam ser uma gangue super-poderosa. Mas, ao invés de combater o crime eles só ficaram ali pelo resto da noite, esperando até que a amiga ficasse boa e todos fossem pra casa voando.
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