Doux Rêves, Amère Réalité - Interativa
3 Adieu I

Doux Rêves, Amère Réalité
Adieu I
Olhando a cena a sua frente seu peito doía e as lágrimas chegavam aos seus olhos, mas não queria chorar. Isso só preocuparia e deixaria aquela despedida ainda mais penosa tanto para ela, quanto para sua família. Pollyanna, junto com sua pequena família e melhor amigo, se encontravam em uma rodoviária, para então se despedir da mais velha dos Roux. Demoraria pelo menos, um dia e meio de viagem até Village's Kiss, cidade litorânea onde se encontrava o internato; por isso haviam todos acordados na madrugada. O sol nem estava visível no céu escuro. Se pegasse um avião seria só meia hora de voo, se tudo ocorresse bem, mas sua família não tinha o dinheiro suficiente para pagar. Seu amigo, Arzhel, ainda lhe ofereceu para pagar a viagem, mas Polly prontamente negou, não queria dar mais trabalho ao garoto. Ah, e não se pode esquecer, a garota era muito orgulhosa para aceitar também, e Arzhel sabia muito bem disso.
Por isso se encontrava agora na rodoviária, com malas em mãos e olhos contendo as lágrimas cada vez mais insistentes em escapar. Seus pais se abraçavam, como se para reconfortar um ao outro, os olhos preocupados e sua mãe tinha a face marcada pelas poucas lágrimas que escorriam. Ambos tinham um sorriso forçado estampado nos rostos pálidos. Já seu irmãozinho, Caleb, estava abraçando-a com seus braços ao redor de sua cintura, águas cristalinas escorrendo livremente dos olhos tristonhos; os lábios tremidos e soluços contidos.
— Hey, mon petit. — chamou Polly, fazendo Caleb se afastar um pouco de si, assim podendo passar as suas mãos na face chorosa e limpar as lágrimas. — Não fique assim, vou voltar, lembra?
— E-eu não quero vo-você vá, Polly! — soluçou o menor, voltando a abraçar fortemente a mais velha, esta soltou um suspiro e sorriu um pouco. Abaixando-se, ficou na altura de Caleb e fazendo este a olhar. As suas próprias lágrimas tentando sair de seus olhos azuis.
— Eu te amo, mon petit. E sempre, sempre, vou estar perto de você. Mesmo quando estiver lá no internato, e você pode mandar-me quantas cartas quiser ou telefonar, sim?
O garoto pareceu considerar por um instante as palavras da irmã, enquanto Polly o olhava atentamente; seu coração se partindo ao meio em apenas ver seu irmãozinho naquele estado. Caleb, então, passou os braços magros ao redor da adolescente, pegando a mesma de surpresa por uns segundos, até corresponder ao carinho.
— Tudo bem. Vou escrever e ligar um monte pra você. — ouviu Caleb murmurar, saindo com a voz abafada por estar escondendo o rosto no ombro rosada.
— Estarei aguardando ansiosa. — disse de volta, sorrindo e dando um beijo em cada bochecha do menino, fazendo ele sorrir.
Caleb se soltou da irmã, indo em direção aos pais que estavam apenas observando a troca dos filhos. Eles se aproximaram de Polly, cada um a dando um apertado abraço, com sua mãe dando diversas recomendações, comportamento, entre outras tantas coisas que só uma mãe diria a filha. O sorriso forçado se substituíra por um mais preocupado, isso trouxe outra dor em seu peito. Odiava preocupar as pessoas.
Após se despedir de seus pais, olhou para a última pessoa que se manteve em silêncio o tempo todo. Encostado em uma das paredes brancas, com a cabeça baixa e os cabelos ruivos escondendo seus olhos, assim impedindo a jovem de ver a expressão de seu melhor amigo. Polly se aproximou, um pouco hesitante, para então andar com mais confiança até Arzhel, este que ao ouvir ela se aproximando, levantou a face. A expressão de Arzhel fez com que Polly parasse seu andar, olhando um pouco atordoada.
Arzhel tinha os olhos marejados, repletos de emoção que Polly só pode identificar algumas, como a tristeza, saudades, solidão; mas tinha mais uma que estava tão presente quanto as outras. Algo forte e quente, como brasa fervente, que a fazia se sentir estranha, mas não de uma forma ruim; porém não sabia o que era. Estava confusa e isso deve ter transparecido em seu rosto, pois o dono dos olhos verdes deu um pequeno sorriso, se aproximando da amiga. Passando os braços fortes em torno da forma delicada dela, descansando seu rosto no ombro, aspirando o cheiro de amora e canela que a pequena tinha. Polly parecia estar paralisada por um tempo, até retribuir da melhor forma o abraço forte do mais alto, ainda confusa.
— Vou sentir tanta a sua falta, mon bijou.— Arzhel falou, com a voz abafada e baixa, passando os dedos pelos longos cabelos da jovem. — Você nem sabe o quanto, Polly.
— Eu, eu também sentirei sua falta, Azrhel. — sua voz não passava de um murmuro, as mãos segurando firmemente o casaco cinza do outro. As lágrimas se fazendo presente em seu rosto, depois de tanto tempo tentando contê-las. — Mui-muito mesmo.
Sentiu ser abraçada com mais força e o topo da cabeça ser beijada carinhosamente. Ficaram assim por mais alguns minutos, ambos apenas desfrutando a companhia um do outro; sabendo que logo se separariam. Quando as lágrimas já estavam cessadas, se separaram, com ele passando os dedos pela face um pouco avermelhada da outra, como se quisesse memorizar todos os traços da garota. Seus olhos nunca deixaram o do outro.
— Eu quero lhe dar uma coisa, para se lembrar de mim. — por fim, falou o ruivo tirando do bolso da calça jeans uma caixinha azul cobalto.
Olhando para o objeto por alguns segundos, antes de sorrir e estende-la para Polly, que olhava entre surpresa e curiosa. Pegando com cuidado a caixa, como se ela fosse de vidro, olhou Arzhel e então levantou lentamente a tampa. Ofegou ao ver o que continha lá dentro. Em uma almofadinha, estava um colar de corrente fina e dourada, com um pingente de coração e asas em seus lados. Era singelo e cálido, simples, porém que chamava a atenção pela sua forma.
— Arzhel... — Polly sentiu sua voz morrer, pois estava sem palavras para expressar o que sentia.
Estava admirada, fascinada pela beleza da joia, mesmo não sendo chegada a coisas como essa. Era tão linda e cara, sabia muito bem. Olhou para o amigo que estava aguardando com ansiedade.
— Arzhel, eu não... Não sei o que dizer. Isso deve ter custado caro, eu não sei se pos-
— Aceite. — ele a interrompeu, colocando o dedo sobre os lábios da outra. Sabia que ela ia tentar negá-lo. — Como um presente de despedida, aceite.
— Tudo bem... — suspirou, assentindo e vendo o outro abrir um sorriso maior que os anteriores. Ela sorriu. — Coloque para mim, você vai?
Sorrindo mais largamente, Arzhel pegou o colar e Polly se virou de costas para o amigo, afastando os cabelos para o lado. Sentiu quando a joia fria tocou sua pele, então se virou para Arzhel, tomando um susto ao ver como ambos estavam tão próximos. Sentindo as respirações de ambos se misturarem, o rosto de Polly queimou em constrangimento; os olhos verdes estavam a olhando intensamente, mostrando aquele mesmo sentimento fervente que não sabia dizer o que era. Arzhel se aproximou...
Passageiros do ônibus B317, com destino a Village's Kiss, por favor se dirijam a porta de embarque. O ônibus sairá em dez minutos. Repetindo...
Polly se sobressalteou ao ouvir a voz sair do alto-falante, e ressoando por todo o local. Arzhel suspirou e se afastou da Roux, dando-lhe um sorriso e um último abraço. Pollyanna ainda estava um pouco confusa, mas mesmo assim se despediu do amigo e foi em direção a sua família. Deu-lhes cada um mais um abraço, prometendo que sempre escreveria para eles, principalmente a Caleb; o menininho já estava com a cara chorosa novamente. Entrando na fila de embarque, logo tendo suas malas guardadas e já subia no ônibus, sentando-se um pouco ao fundo e no acento da janela. Afastando a cortina carmim, viu pelo vidro seus pais, Caleb e Arzhel acenarem para si, esta devolveu o gesto, sentindo alguém sentar ao seu lado no mesmo instante que o ônibus começava a andar.
Quando já não podia mais ver os seus entes queridos, parou de acenar, soltando um suspiro. Iria sentir tantas saudades deles. Recostando-se no banco, deu um cumprimento a mulher sentada ao seu lado e sentando-se da melhor forma possível, pois seria uma longa viagem.
—-*-*--
O quarto era grande e muito bem decorado, de cores claras e uma janela grande, por onde passava o sol daquela manhã; a cortina esvoaçava com o vento do verão. Naquele cômodo se encontrava apenas uma pessoa de aparência que muitos descreveriam como fofa, atualmente sentada no meio da confortável cama de edredom rosa. As pernas flexionadas e de encontro ao tronco, os braços pálidos abraçando-os, e com a cabeça pousada nos joelhos.
Seus olhos incomuns, ao mesmo tempo bonitos, vagavam pelo quarto, como se o memorizasse, guardar cada detalhe que havia ali, em sua mente. Desde como o espelho de seu quarto estava pendurado um pouco torto até a prateleira de medalhas e troféus que recebeu. Todos esportivos. Então, seus olhos pousaram para a sua cômoda, onde havia em cima, um único porta-retrato. Seus olhos assumiram um ar triste e melancólico, pareciam arder.
Levantando-se, andou até o porta-retrato, o segurando em suas mãos pequenas. A imagem que via era de duas garotas, tão sorridentes e felizes, que quase era de se ferir seus olhos. Via a si mesma, abraçando a outra garota, seus olhos na foto eram brilhantes, tão diferentes do que eram agora. E ao lado de si, estava a pessoa que, de certa forma, a mudou e fez com que ela se abrisse para o mundo. Aqueles tempos foram os melhores de sua vida.
Mas tudo que é bom, duro pouco, pensou amarga, abraçando a foto. Foi quando ouviu a porta de seu quarto ser aberta, e um miado se fazer presente. Virando, deparou-se com uma mulher de aparência jovem, bonita e com algumas características japonesas, como ela próprio compartilhava. Eram parecidas, mãe e filha.
Pelo canto do olho via um gato branco subir em sua cama.
— Está pronta, Azusa? — perguntou amavelmente a mais velha das duas, se aproximando e fazendo um leve carinho nos cabelos negros arroxeados da menor.
— Sim. — respondeu Azusa com voz baixa, depois de olhar seu quarto mais uma vez. — Só faltava isso.
— Querida... — murmurou, soltando um suspiro ao ver o que sua filha estava a mostrando. O retrato. Os olhos verdes — um pouco puxados — da mulher mostraram a preocupação enquanto observava Azusa, vendo os olhos marejados da mesma.
— Estou bem, mamãe, não se preocupe. — assegurou a jovem ao perceber o estado que a mãe assumia. Não queria preocupa-la mais do que ela já estava se preocupando.
— Se você diz. Vamos, seu pai está nos esperando lá embaixo. — por fim falou, ao ver que não adiantaria insistir no assunto.
Assentindo, Azusa pegou o gato branco que havia entrado junto a sua mãe, e também uma mochila sua, onde colocou o porta-retrato; guardando-o com segurança. Ambas saíram do quarto, passando por um largo corredor, até chegar a escadaria em forma de caracol. O silêncio entre elas era confortável, nenhuma tinha algum assunto a dizer, pelo menos, não naquele momento.
Ao chegar ao final da escadaria, a visão da sua sala, tão ampla e iluminada pelos vidraças, com aquele característico ar aconchegante. Vendo tudo aquilo, e da falta que sentiria de estar ali e junto aos seus pais, fez seu coração apertar; mas ajudou-a também a se lembrar do porque de estar partindo. Seus pais não conseguiam ver sua única e amada filha, antes tão brilhante, se definhando lentamente; reclusando-se dentro de uma concha de dor e sofrimento. Por isso, ambos vieram com a ideia de mandar Azusa para um internato, não por quererem ela longe; mas como pais, queriam o bem de sua criança. Assim, tinham a esperança de que lá, em um lugar diferente e com pessoas novas, talvez poderia trazer de volta aquela menina que conheciam. E a jovem italiana aceitara, sabendo lá no fundo, que talvez precisasse.
Azusa e sua mãe, Euphie, caminhavam até a saída da casa, passando pela porta branca, que a mesmo fora fechada por uma das empregadas; a adolescente italiana acenou para a de uniforme em despedida. Viu sua mãe ir até um homem alto e robusto que estava encostado no carro negro, os cabelos escuros e com alguns fios brancos aparecendo, estavam bem penteados. Azusa foi até eles, parando quando fora envolvida pelos forte braços de seu pai, o mesmo exibindo um sorriso ao mesmo tempo carinhoso e encorajador. Sentiu o gato em suas mãos escapar, afoito.
— Minha menininha, — seu pai começou a dizer, afastando-se um pouco para olhar nos olhos castanhos-vinhos da filha — tão novinha, e já está deixando os seus pais.
Escutou sua mãe soltar uma risadinha ao contemplar a atitude exagerada do marido. Quem conhecesse o sério empresário Louis Nakano, não conseguiria associar o homem brincalhão que estava em sua frente. Já Azusa, estava mais que acostumada com as atitudes de seu pai-coruja, e um pequeno sorriso apareceu em seu rosto, quase imperceptível.
— Eu não sou mais uma menininha, papai. — apenas falou. Suas mãos apertaram com força uma das alças de sua mochila, como se para certificar-se que ainda estava consigo.
— Eu sei, eu sei. Só é difícil ver minha garotinha ir pra longe de mim.
— Querido. — sua mãe colocou uma das mãos finas em cima do ombro largo do marido, como se o reconfortasse.
— Mas é preciso, eu sei. — seu pai dizendo isso, soltou do abraço e mantendo um pequeno sorriso no rosto.
— Eu vou ficar bem, papai. — o sorriso no rosto da mais nova cresceu lentamente, mas não chegava inteiramente aos olhos.
— Vamos? — questionou a mulher quando o silêncio entre eles parecia se tornar estranho com o passar dos segundos. — Se não irmos agora, iremos perder o voo. Ele sai em meia hora.
Ambos pai e filha concordaram, com os adultos indo ao carro, na qual o motorista já estava dentro, esperando para ir; suas coisas no porta-malas. Dando mais uma rápida olhada na casa branca e de dois pisos, os jardins verdes e bem cortados e os canteiros de rosas e tulipas que havia na frente; Azusa entrou no carro, sentando ao lado da mãe. O motorista ligou o carro, logo começando a movimentar-se, a adolescente olhava através do vidro as últimas imagens da sua casa e da floresta perto da mesma. Agora, junto aos pais, seguiria diretamente para o aeroporto, e de lá pegariam um avião — para seu desconforto — e seguiriam viagem até Village's Kiss. No começo, Azusa fora um pouco relutante em ter seus pais a acompanhando, mas depois cedeu, sabendo que só os veria de novo no final de semana.
Percebeu que o seu gato, Ton, se embrenhou em seu colo, ronronado feliz quando sentiu os carinhos da dona. E encostando sua testa no vidro, via as imagens de sua cidade passarem por ela, memorizando tudo; como uma lembrança importante.
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