Doutor Coração(DEGUSTAÇÃO)
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Salvatore
A monotonia das paredes brancas e piso frio deve matar um pouco os pacientes, como se o que vivem não fosse triste o bastante, ainda os torturamos com a constância sem de corredores e salas exatamente iguais.
Por isso insisti tanto para que os quartos de internação tivessem suas janelas todas para o norte onde os pacientes pudessem apreciar algo mais do que sua própria dor.
Quando ainda era apenas um estudando e frequentava a clinica sonhando trabalhar aqui, só pensava nessa mudança, porque os médicos ficavam com as melhores vistas quando podiam deixar suas salas e simplesmente ir até o jardim respirar e admirar a beleza das flores?
Felizmente quando finalmente comecei a trabalhar pude fazer todas as mudanças que quis. Ser filho dos donos da clinica me deu muitas chances, pude viajar o mundo me especializando, pesquisando, pude conhecer os melhores nomes, trocar ideias com mestres e professores, pude me dedicar com todas as minhas forças para me tornar um dos melhores. Sou grato pela chance, ainda que digam o tempo todo que eu devia ter uma vida, eu sei que valeu a pena.
Os passos apressados ecoam pelos corredores até a pequena recepção onde Martina já me aguarda com seu uniforme branco e cabelos presos, Martina parece como sempre, concentrada em minha agenda e horários, apenas ela me acompanha na rotina extenuante na clinica três vezes por semana. No hospital, tenho uma equipe que me acompanha e pode mudar dependendo da escala, mas aqui, somos apenas eu e Martina.
— Bom dia, doutor. – Ela diz se erguendo assim que entro, me acompanha a minha sala uma porta depois e não me espera nem mesmo sentar para começar a falar sem parar. – Martin desmarcou a consulta, disse que está ótimo e que prefere viajar em férias com a esposa a refazer os exames.
—Claro que prefere. – Balanço a cabeça em uma negativa enquanto aperto o botão para ligar o computador e me acomodo em minha cadeira.
— Emiliano quer que ligue para ele. Disse que vai morrer em breve.
— Ele está sempre por um fio. – Dessa vez sorrio. – Estava falando com você e reclamando da Justine?
— Não, acho que dessa vez era da filha, disse que não atendeu seu celular.
— Eu tenho um toque especial só para ignorar Emiliano. – Aviso rindo.
— Eu devia ter um. – Martina faz careta.
—Não, você é o para raio.
— Anos estudando enfermagem e me formei em para raio? – Martina diz em uma careta.
— O melhor para raio em décadas. O que acha disso?
— Muito melhor, agora sim estou orgulhosa dos meus anos de curso e treinamento. – Ela abre sua pasta. – Consultas do dia. Até o meio dia tem quatro consultas, na sua hora de almoço encaixei aquele paciente sem condições de pagar que vai fazer seus pais se arrependerem do investimento em sua educação.
— Paolo é um bom homem. – É minha resposta para a critica embutida em sua fala.
— Dez minutos para um sanduiche que vai entupir suas artérias e então tem quatro retornos de cirurgia e mais dois pacientes. Se tudo der certo, pode ir para seu plantão no hospital em seguida. Na sexta você tem uma cirurgia grande, então tente não inventar nada e dormir depois do plantão.
— Sim senhora. – Digo observando a primeira consulta que será em vinte minutos. – Alice Tarenzi?
—Paciente nova, primeira consulta, mas vem de um tratamento em Roma. Cardiopata há dez anos. Está tudo aí. – Ela aponta o computador com o nariz.
—Obrigado, Martina. Quando ela chegar avise, vou ligar para o meu irmão e se der tempo para o Emiliano.
— Um desfibrilador, é isso que ele pediu. – Ela diz escondendo o riso enquanto caminha para deixar minha sala. – Mande um beijo ao Marco. Diga que ele fez a escolha certa. Jornalismo. Na próxima vida eu acerto.
— Sempre bom dividir o trabalho com alguém que ama o que faz. – Eu a provoco.
— Deve ser mesmo. – Ela ri antes de me acenar e deixar a sala.
Pego o celular e faço a ligação, Marco é mais jovem, mais cheio de sonhos, um romântico e determinado jornalista sempre disposto a desafiar o sistema. Sua paixão é apaixonante.
— Alô! – Ele me cumprimenta com voz de sono, nove da manhã aqui, oito em Londres.
—Desculpe, esqueci que dorme sempre tarde.
—Fui para cama tem duas horas. – Ele me conta. – Tudo bem?
—Tudo, eu ligo mais tarde.
— Não. Conheço você, vai mergulhar no trabalho e não tem mais tempo. Eu estou bem, depois volto a dormir.
—Me conta, como estão as coisas? – Questiono já que ele está disposto a conversar.
— Talvez eu e Christi tenhamos um furo de reportagem, é algo grande e vamos ter que mergulhar aqui em pesquisas para confirmar os fatos e confirmar as coisas antes de publicar, mas.... se der certo, não quero me animar muito, mas se der certo um politico importante vai cair.
— Marco, está se cuidando?
—Sim, não é a Itália, e não estamos metidos com máfia. – Ele ri, reviro os olhos.
—Corruptos e bandidos não tem mais ética que um mafioso, então se cuida e a Christi também.
—Pode deixar, ela está mais animada que eu.
—Claro que está, você a conheceu em uma passeata feminista, ela é tão engajada ou mais que você.
— Muito mais.
— Sem chances de uma visita a família? – Pergunto já sabendo a resposta.
— Depois dessa matéria vamos passar uns dias aí. Christi sente falta de mais ligação com vocês. A família dela está aqui, mas você sabe, eles não aceitam muito nosso modo de vida. Então ela não convive muito com eles.
Ricos e antiquados donos de uma indústria, não aceitam que a filha mora junto com um jornalista e dividem uma minúscula agencia alternativa de notícias. Se recusam a casar e principalmente, ter filhos, mas com uma linda história de amor. Assim que bateu os olhos nela, Marco se apaixonou, passou toda a passeata atrás dela, jogando charme, dizendo tudo que uma feminista lutando por seus direitos não quer ouvir, era seu último dia de férias em Londres e ele simplesmente não voltou para casa só para ficar atrás dela e levou uma semana tentando até que saíram para jantar e meu irmão nunca mais voltou. Foi há cinco anos, mudou toda a vida, abandonou seu emprego em um bom jornal, começou tudo de novo e está feliz. Isso é tudo que importa e ao menos meus pais sabem disso.
— Tem sempre uma matéria na frente. – Me encosto na cadeira e encaro a janela com vista para as janelas da lateral da clinica. Só uma parede e meia dúzia de janelas de vista. Ao menos dá para saber se está frio ou calor, se é dia ou noite, é o bastante.
—Disse o cara que mora dentro de um jaleco de médico.
—É eu sei.
—Devia ter uma vida, Salvatore.
— Salvo vidas, é uma boa maneira de viver, Marco.
—Está certo, acabou comigo, estou humilhado. – Ele dá uma boa gargalhada. – Desculpe, Baby, não queria te acordar. Me fez rir e acordei a Christi.
— Faz um trabalho incrível, Marco, está caçando elogios.
— Sabe que adoro elogios.
— Christi acha que tudo bem ser chamada de baby?
—Acha, acha lindo, ela me chama assim também, sabe disso.
—Sei e acho que isso sim é a verdadeira humilhação.
— Até encontrar o amor, doutor, aí vai ficar bem idiota. Um pouco mais idiota que o normal.
—Obrigado, babaca. – Ele volta a rir. – Sou seu irmão mais velho. Mereço obediência e respeito.
— Não vem com essa. – Marco ri de novo, cinco anos de diferença, mas sempre nos demos muito bem, eu cuidei dele muitas vezes quando meus pais estavam de plantão no mesmo dia. Isso nos uniu muito. – Fala e o coração, o seu, não o dos seus pacientes, como está?
— Batendo no ritmo, artérias livres, bombeamento oportuno.
— Você entendeu. Não vai achar nunca tempo para viver uma história de amor e causar alguma arritmia nesse coração fechado?
—Não. Nem vai ter, estou ocupado demais, o tempo livre gasto estudando. Médicos nunca param.
— O pai e a mãe estão sempre tirando férias.
— Claro, deixam tudo para o doutor sem coração aqui. – Reclamo sem muita convicção.
— Vai chorar? – Marco provoca rindo de novo. – Desculpe, Baby, não vou na sala não, está frio. Christi quer que deixe a cama para falar com você.
— Melhor é voltar a dormir. Me liga quando tiver tempo.
— Você também, sou sempre eu que faço as ligações.
—Marco, se não se lembra, eu acabei de fazer essa ligação. – Me defendo.
— Uma por mês! – Ele me condena. – Te amo, irmão.
—Eu também. Dá um beijo na Christi.
— Com ou sem língua? Aí, baby! Não puxa o edredom, o Salvatore falou que frio mata de ataque cardíaco. – Dessa vez sou eu a rir.
—Volta a dormir, Marco. Me liga se precisar.
—Beijo, irmão.
— Beijo. – Desligo o telefone, ainda tenho uns minutos antes da consulta, contando que seja um dos poucos pacientes pontuais. Nem posso reclamar, se meu telefone toca e tenho uma emergência, deixo todos esperando, então quando se atrasam eu apenas aceito.
Abro a ficha da paciente, isso é algo que preciso rever com meus pais, sempre tão poucas informações, idade, nome, antigo médico, nenhum grande detalhe se não que é cardiopata. Tão jovem, dez anos menos que eu, aos vinte e cinco eu estava nos Estados Unidos, mergulhado em pesquisas e terminando minha formação.
— Bom dia, filho! – Minha mãe surge na sala, invade sem bater, porque ela nunca perde tempo com detalhes, minha mãe é incrível, foi sua paixão pela cardiologia que me fez seguir seus passos, e escolher a mesma especialização.
—Bom dia, mãe. – Ela me beija a testa antes de encarar a tela do computador. – Que pena, tão jovem.
—É, vamos ver o nível. É a próxima paciente.
— Martina disse que abriu mão da sua hora do almoço para atender um paciente carente.
—Mãe, eu vou conversar com uns amigos no hospital, conseguir um encaixe caso tenha algum procedimento e os gastos aqui eu pago do meu bolso e não precisa...
—Ei! – Ela me para com as mãos na cintura e um olhar duro. – Sou a sua mãe, lembra? Uma boa pessoa, que escolheu medicina pensando em salvar vidas. Salvar vidas, não ficar rica.
—Mas ficou! – Eu a lembro e ela dá de ombros.
— Não, só escolhi o marido certo. – Minha mãe ri. – Seu pai herdou a clinica e a tornamos melhor. O que vai durar até você assumir totalmente a clinica encher os quartos de gente que não pode pagar, falir e nos deixar pobres, mas muito orgulhosos. – Trocamos um sorriso.
— Talvez eu faça isso, mãe. – Digo ficando de pé.
— Tem plantão hoje?
—Tenho. – Aviso olhando para o relógio e pensando na paciente que já deve ter chegado.
—Eu e seu pai o esperamos em casa para o café da manhã, queremos falar com você sobre esse seu lado filantrópico.
— Vai ser bom ou ruim?
— Bom.
—Nesse caso estou livre. – Ela me beija o rosto antes de caminhar para a saída.
—Vou atender três dos seus pacientes que não encontraram espaço na sua agenda, qualquer coisa te chamo para tirar dúvidas.
— Obrigado, mãe. O papai está na clinica hoje?
—Lá no primeiro andar, com consultas até as seis da tarde. Não esquece, café da manhã lá em casa.
Ela fecha a porta e volto para o meu lugar, já sei que só os vejo de novo no café da manhã, tomara que seja algo mesmo bom, porque não vou deixar de atender alguém que precisa, eu fiz um juramento e vou cumprir.
Volto a me concentrar na precária ficha da nova paciente quando uma leve batina na porta a anuncia.
—Entre. – Ergo os olhos e vejo uma jovem e frágil figura a adentrar minha sala, me lembra Dom Quixote e me faz sorrir. A triste figura em uma armadura de coragem vem acompanhada de uma jovem senhora que parece prestes a enfrentar gigantes. Quase posso ver a lança em sua mão de punho cerrado e rosto determinado, mas não consigo me concentrar nela, meu olhar procura a jovem de cabelos curtos, olhos redondos e escuros, pele clara e levemente pálida alguma olheira e andar lento.
Quero salva-la. Quero dar a ela a chance de caminhar sob uma linda tarde de sol, quero ver um sorriso genuíno em seu rosto. Quero que seu coração bata ritmado, constante, que o sangue percorra seus órgãos livre, que a vida volte para a delicada jovem que me olha sem qualquer fé.
— Bom dia. – Fico de pé, dou a volta em torno da mesa, aperto sua mão que é fria e pequena, mas que traz qualquer coisa de bom ao meu coração. Depois aperto a mão da sua acompanhante, firme e determinada. Mãe e filha, não consigo achar outra explicação, apenas uma mãe tem esse olhar de guerra diante de um médico. Eu as conheço bem.
—Bom dia doutor Serturini.
— Salvatore, por favor. – Peço a elas indicando as cadeiras. – Se vamos trabalhar juntos, melhor que seja sem tanta cerimônia.
— Obrigada, doutor. – A mãe responde ajudando Alice a se acomodar, sua respiração se altera um pouco pelo esforço, minha sala fica no fim do corredor e acabo de decidir mudar de sala, anoto em um bloco ao lado do computador. Tem uma ótima sala na frente dos elevadores, com uma ante sala e um consultório perfeitos que é usada pela endocrinologia. Acho que eles não vão querer ser meus amigos por muito tempo, mas o melhor para os pacientes é não ter que atravessar o corredor.
— Alice? – Pergunto a jovem que balança a cabeça. – Tome seu tempo para respirar. – Digo a ela me voltando para sua mãe. – A senhora é?
— Carla, sou a mãe da Alice e sou eu quem a acompanha no tratamento desde o inicio.
—Eu imaginei, são parecidas. – Digo sorrindo e me voltando para Alice, ela aquece minha alma. Eu sinto necessidade de ajudar, sei que sinto isso a cada paciente que entra em minha sala, mas ela é tão jovem.
— Tirando a pele bronzeada e a vitalidade, a altura e o peso, ah! E os cabelos também. – Alice tenta sorrir, mas o sorriso morre no meio do caminho. – Sou a sombra do que poderia ser.
— Se é apenas a sombra do que poderia ser o prognóstico é ótimo. – Ela dá um meio sorriso. – Pronta para me contar?
— Alice tem...
—Por favor, Carla, eu sei que quer ajudar, mas gostaria que Alice me contasse.
— É que falo um tanto devagar, acho que sabe o porque.
— Não, mas vai me contar e temos tempo. – Sorrio para a jovem que me sorri de volta. Parece em um estágio avançado demais da doença, isso é de partir o coração mais frio, imagine o meu, feito para sonhar com a cura.
— Eu era uma atleta aos quinze anos, amava correr, foi quando depois de um treino puxado eu desmaiei. – Anoto sempre tudo que acho importante no computador, mas só depois de ouvir tudo, primeiro costumo encarar o paciente nos olhos, descobrir o quanto de verdade tem sem suas falas, por alguma razão que a psicologia ainda estuda, pacientes tem a mania de mentir para seus médicos, uma tolice que não ajuda em nada e muitas vezes, atrapalha o tratamento.
—Um desmaio foi o primeiro sintoma?
—Sim, doutor. Antes eu acho que se sentia algo, confundia com o cansaço dos treinos e da vida corrida de uma adolescente. Não dei importância ao desmaio, minha mãe ainda insistiu para irmos ao hospital, mas não me sentia doente, e apenas na semana seguinte, eu senti um aperto no coração, um cansaço novo, então um novo desmaio e ai busca por respostas começou.
É quase como acontece sempre, primeiro a pessoa foge o máximo que pode, até que sem escolha, procura ajuda.
— Era uma corredora.
— Na verdade não era meu objetivo, era apenas como gostava de me exercitar. – Os olhos brilham com lágrimas que ameaçam os olhos escuros, recordações tristes posso imaginar. – Levou seis meses percorrendo hospitais até um diagnóstico mais específico.
—Que foi?
— Insuficiência cardíaca diastólica. – Ela luta bravamente para manter a dignidade e não cair em lágrimas, já aconteceu tantas vezes.
— Descobriu aos quinze anos.
—Sim. Meu coração está se enrijecendo e não consegue se encher de sangue como deveria.
—Filha, ele sabe. – A mãe sorri e ela apenas continua a me olhar.
— Começamos com a medicação, pareceu ir bem por uns quatro anos, minha vida era bem restritiva, mas ainda era quase uma vida. Terminei o colégio, fiz uns cursos para passar o tempo, não fui a universidade, mas... eu podia passar uma tarde no cinema, ir a um parque caminhar ao ar livre e até estive na praia algumas vezes, mas depois as coisas mudaram.
— Parou de responder a medicação?
— Sim. Temos os exames, todo histórico médico, já fiz uma pequena cirurgia, não funcionou, mudamos de médico, ele me deu um péssimo prognóstico que minha mãe não admitiu e mudamos de médico e no fim, ele tinha razão, aqui estou, dá para ver que o tempo está...
—Seguindo. – Digo a ela. – Sabe que sua vontade de viver é um fator fundamental na sua recuperação?
— Sabemos. – A mãe responde me estendendo três pastas com exames, tratamentos, diagnósticos, laudos, uma infinidade de material que vai exigir umas horas de estudo.
— Aqui tem as receitas médicas? Preciso dos remédios todos que toma no momento. Como estão os rins, faz dialise?
— Não, felizmente temos conseguido evitar. – A mãe seca uma lágrima e sinto a força de Alice maior que a da mãe. Ela remexe uma das pastas que pega de volta da mesa, encontra facilmente a receita mostrando que está acostumada a remexer documentos da filha.
— Esses são os medicamentos. – Leio a receita, parece tudo certo, mas não estão respondendo.
— Por que resolveram me procurar?
— Nos mudamos de Roma para Florença, gosto do ar e queríamos um novo começo. – Carla responde por Alice, procuro seu olhar.
— Gostou da mudança?
—Florença é encantadora da minha janela. – Ela diz em um sorriso de machucar. – Vejo o Dommo, de me esforçar um pouco, posso ver o rio Arno e um pedacinho da ponte Vecchio.
— A ponte dos apaixonados. Meus pais prenderam cadeados nela no passado. – Conto a elas que trocam um sorriso. Alice se arruma na cadeira, cansada de ficar sentada. – Vamos até a outra sala, vou fazer um rápido exame clinico. Martina mediu e pesou você? – Claro que sim, ela nunca falha, os resultados já devem estar na tela do computador.
— Baixa e leve. – Alice responde.
— Tudo sempre tem um lado bom. – Digo quando entramos na sala ao lado.
— Gosta de mulheres baixas e magras? – Ela pergunta para minha surpresa. – Claro que não estou me colocando nessa posição, não sou baixa, apenas parei de crescer antes do que deveria, teria conseguido uns dez centímetros não fosse... a doença. – Ela suspira pelo esforço de se sentar na maca. – Também não sou magra, sou doente.
— Negativa e sem esperanças. Estamos começando mal. – Digo pegando o estetoscópio.
— Já estou terminando, doutor. – Alice diz com certa tristeza e me faz parar no meio do caminho de levar o estetoscópio ao ouvido.
— O que faz aqui, Alice? Eu salvo vidas, não consigo sempre, mas eu não desisto, eu nunca desisto, eu não vou desistir de você, eu vou lutar até o fim seja ele qual for, mas preciso saber se vou lutar sozinho, porque mesmo que seja uma luta solitária, ainda vou lutar, então ganharíamos mais se lutasse comigo. – Não desvio meus olhos do seu um único segundo. Quero que acredite. Ninguém com vinte e cinco anos pode desistir. Eu não aceito desistências. – O que vai ser, vamos lutar juntos?
Ela fica em silencio, parece organizar os pensamentos, me olhar surpresa, vejo algo bonito nascer em seus olhos, uma minúscula chama de esperança nascer nos olhos cansados.
— A melhor coisa de morar em Florença é dormir olhando para a lua, essa noite ela estava cheia, era tão grande e parecia tão perto de mim, como se pudesse toca-la se esticasse a mão, mas eu estava tão cansada que não tentei. – Alice vai viver, vai tocar a lua, esse não é meu trabalho, esse é meu sacerdócio, eu sou o cara que faz corações baterem saudáveis e é o que vamos fazer.
— Está na hora de tentar, Alice. O que acha? Vamos tocar a lua? – Ela continua a me olhar, me enche de esperança, me faz amar meu trabalho, não estamos sozinhos, mas é como se estivéssemos, porque é hora de uma decisão que vai mudar o modo como ela vai ser tratada. – Vamos tocar a lua, Alice?
— Vamos. – Ela responde sorrindo. – Doutor Coração!
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