Double face
2 Cap. 2: Dor, medo e paixão.
Notas iniciais
LIPE
Eu estava quase saindo. Dei mais uma olhada sobre o ombro e vi Amanda assustada.
− Lipe você não vem? − olhei e vi Helen me chamando.
− depois...
Sem pensar duas vezes me escondi atrás da bancada e fiquei escutando a conversa da Amanda e do Leandro. Os outros saíram e fecharam a porta. Fiquei ouvindo, sem olhar nada por medo que me vissem.
− Amanda me entregue essa camiseta desprezível!
−não! Ela é minha! Você não pode tira-la de mim!
Leandro riu e continuou.
− você vai me entregar? Ou quer apanhar um pouco?
Estremeci. Ele disse “apanhar”?
− vamos filinha...
−não me chame de filha seu porco miserável!
Escutei um estalo. Atrevi de olhar. Vi Amanda caída no chão com a mão no rosto chorando indignada, e olhando para o pai. Ele acabara de dar um tapa na cara dela! Me segurei para não ir defende-la daquele monstro. Precisava descobrir o que se passava.
− você sabe que não sou sua filha! Por que insiste em ficar comigo?
− porque você me dá lucro! Mesmo eu te odiando... eu gosto de você!
− você vai me vender de novo? Quer que eu trabalhe como prostituta? Ou talvez que eu seja escrava de um “amiguinho seu”? −ela estava chorando. Fiquei pasmo, ele já a vendeu antes? Será que...?
− não! Dessa vez tem outra coisa para você! Nada a ver com seu corpo... e além do mais... foi só uma vez! E você ganhou um quarto melhor! Agora vai dizer que ninguém queria ter um pai como eu?
− fazer a própria filha vender a virgindade não é uma coisa que um pai faça!
− você mesma disse que eu não sou seu pai! Agora vai mudar de opinião?
Ouve um minuto de silencio.
− o que vai ser dessa vez? − olhei novamente e vi Amanda abraçando o corpo a uns três metros longe do seu “pai”.
− você verá! Agora me de a camiseta. Se não vai ser pior pra você! − ele estava com a voz irritada.
− mas e porque não foi pra São Paulo?
−porque encontrei um velho amigo no aeroporto e pensei: você dá mais lucro!
Olhei novamente. Leandro arrancou a camiseta das mãos de Amanda e foi para as escadas.
− vou ficar com isso até que você se comporte de novo.
Depois que ele sumiu de vista fui em direção á porta. Hesitei, pensei em falar com Amanda. Mas ela não parecia estar em condições de falar com ninguém. Saí e ela nem percebeu minha presença.
Entrei em casa, que ficava em frente ao apartamento dos Senchill. No lado esquerdo tem uma mini cozinha, confeccionada de madeira, com uma janela de vidro atrás, a cozinha tem uns seis metros quadrados, quando termina tem um degrau, descendo o degrau tem a mesa de jantar, um pouco mais ao meu lado tem a TV e o sofá de canto. Atrás da mesa tem uma porta que leva direto ao terraço. Atrás do sofá tem uma escada que se divide uma parte pra cada lado.
− mãe! − chamei. Ela logo desceu da escada segurando a ketrim (minha sobrinha) no colo.
− o que foi filho? Alguma coisa errada? − ela viu minha expressão.
−sim... na verdade é uma pergunta que quero te fazer.
− então diga. − minha mãe se chama Wanda... Wanda Mendelak. Ela tem os cabelos vermelho escuro, olhos marrons, hoje está usando um vestido longo florido, seu calçado não da pra ver. Seus cabelos vão um pouco além de pescoço, estão presos com uma presilha para o lado. E ela é da minha altura− 1,78.
A Ket tem quatro anos, tem o cabelo loiro encaracolado − puxou a mãe, minha cunhada− está usando um vestido azul claro, de pé descalço e chupando bico.
− o Leandro Senchill tem esposa?... quer dizer... o que ouve com ela? Eles se separaram?
Ela pôs a Ket no chão e se aproximou de mim.
−ela deve ter morrido... eu acho. A maioria das pessoas aqui nunca a conheceu... vieram depois; nem eu. Dizem que faz 10 anos que ninguém tem noticia!
− mas você disse que ninguém a conheceu!
− eu disse a maioria. As únicas famílias que eu conheço que moraram sempre aqui são os Senchill e os Kunner.
− a Luli o Ricardo?
− na verdade foi só a Sra. Kunner! Eles herdaram o sobrenome dela. Mas sempre moraram com os pais. A Luli com o pai e o irmão. Que agora estão perdidos por ai!...
− mãe... o pai dela está preso. E o irmão por parte de pai morreu.
−é! Isso mesmo. E o Ricardo sempre morou com o pai e a madrasta. Até que fez 18 anos depois ele veio morar aqui com a Luli porque sabia do sofrimento dela ao morar com a outra parte da família.
− e onde está a Sra. Kunner?
− ela morreu! Ficou num sanatório por algum engano... pois ela era uma pessoa de bem... e logo que saiu foi atropelada intencionalmente. Sem ao menos ver os filhos! A única lembrança real que eles tem dela é a mais de 15 anos.
Nunca tinha ouvido essa história. A Luli e o Ricardo costumam não falar sobre a família. Ocorreu-me um pensamento...
− mãe! Porque a maioria das pessoas aqui perdeu um membro da família?
− você não perdeu ninguém!
− mas eu não conheço o meu pai!
Ela desviou os olhos de mim, a essa altura a Ket já tinha saído da sala.
− ele não é boa pessoa.
− mas e o pai da Jenifer? E o do Tomás?
Por incrível que pareça, minha mãe teve três filhos com maridos diferentes. E fez a pergunta das “crianças sem pais” por que: Amanda não tem mãe, Luli e Ricardo também não, eu não tenho pai, a Helen e a Raquel não tem os dois, elas tem au-pair (uma babá 24 horas), o Luiz Otávio mora com a irmã (seus pais Deus lá sabe onde estão), a Patrícia mora com os avós (os quatro avós numa casa só), a Priscila mora com seus dois irmãos, o Juan mora com uma tia bem maluca, o Igor, pelo que fiquei sabendo hoje, mora com au-pair também. A única que tem pai e mãe por perto é a Ketrin... tomara que continue com eles vivos.
− eles estão casados!
− mas não veem os filhos!
Ela não me respondeu. Já estava saindo quando eu lhe perguntei:
− pelo menos diz por que esse bairro é tão sinistro?
Ela se virou para me encarar.
−esse bairro não é sinistro! A maioria não tem família completa... Mas vive em completa harmonia!_ ela pareceu irritada com minha pergunta, mas depois percebeu que eu estava diferente._ o que ouve?
− eu fui à casa da Amanda... e ela caiu da escada...
−ela rolou escada abaixo? − ela me interrompeu.
− na verdade caiu do parapeito...
− meu Deus! Ela está bem?
− esse é o problema... quando o pai dela ficou sabendo ele não deu importância!
− que estranho... −ela me olhou com cautela − você está mentindo! Lipe isso não se faz. Você deveria ter mais juízo! Falando isso da Amanda para eu pensar que o Sr. Senchill é ruim... − ela fechou a cara e subiu.
Ela tem razão, pensei, ninguém nunca acreditaria. Subi para o meu quarto; ele é sofisticado e sem graça, muito diferente do quarto de Amanda. Peguei um pingente que ela me dera no ano passado. Ele é de cristal e tem forma de coração.
Fui para o apartamento dela. Toquei a campainha, Monica, a empregada da família, atendeu a porta:
− oi Lipe... Tudo bem? Entra.
− oi Monica... a Amanda...?
Ela coçou a cabeça, como se tivesse que pensar pra responder.
− eu acho... que... ela está dormindo. Sobe lá em cima e de uma olhada. O monstro... digo o Sr. Senchill saiu.
Monica é bem legal. Ela tem o corpo um pouco reforçado, cabelos pretos, compridos e crespos; normalmente quando vejo ela, está usando o uniforme de faxineira (ela faz faxina duas vezes por semana lá em casa. na sexta-feira para deixar a casa limpa para o fim de semana, e na segunda-feira para limpar a bagunça feita no sábado e domingo. Nos outros dias nós se viramos). Mas aqui na Amanda ela vem todos os dias, e usa a roupa que quiser. Hoje está de uniforme de taque teu vermelho e tênis de corrida − ela é uma figura!
− valeu Monica!
Subi correndo as escadas, não pensei duas vezes, entrei no quarto sem bater. Ela estava deitada em cima da cama de barriga pra baixo com a cara debaixo do travesseiro. Usava um roupão roxo, pés descalços, seu cabelo úmido estava preso com uma piranha em formato de borboleta. Sentei na cama ao lado dela, passei a mão em seus cabelos. Ela se assustou e pulou pra fora da cama... a uns 2 metros longe de mim.
− calma sou eu! − levantei da cama e ergui as mãos como rendimento. Agora pude ver melhor como ela estava. Por baixo do roupão tem um pijama branco (já está escurecendo) e seu rosto sem maquiagem _ sinal que está realmente péssima. Ela voltou para seu lugar e me mandou sentar novamente.
− desculpe − disse ela delicadamente − achei que fosse...
− seu pai. − terminei.
Ela me olhou nos olhos e deixou escapar uma lagrima.
AMANDA
Lipe ainda continuava a olhar pra mim. Limpei a lagrima em meu rosto. Não aguentei e comecei a pensar no passado. Ah! Como eu queria esquecer... não resisti e comecei a soluçar. Lipe sentou ao meu lado e me abraçou... eu retribui, precisava de colo.
Ele tirou do bolso o pingente que eu lhe dera ano passado.
− se lembra? − perguntou ele.
Fiz que sim com a cabeça e dei um sorriso. Que logo desapareceu. Eu dera esse presente a ele na virada do ano. Nós estávamos na praia... só nós dois.
− você não vai ficar brava? − disse Lipe.
Estremeci.
−por que eu iria ficar? Está pensando em dar isso para alguém? − pensei em Helen.
−estou... você se lembra do que disse?
− sim... dê esse coração para alguém que o merece!
Ele abriu um sorriso.
− então estou pensando em dar esse coração para alguém que gosto muito. − ele estava girando o coração por entra os dedos.
− Helen?
− a Helen é passado! Gosto de outra pessoa...
−vai fundo! − eu disse meio que nervosa e antipática.
Ele olhou pra mim.
− quero sua ajuda! Topa?
− se vira sozinho. − virei a cara pro lado.
− não me diga que está com ciúmes! − ele começou a rir como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
Tentei disfarçar.
− é claro que não! Des de que seja sempre meu amigo− falei com a maior sinceridade que consegui.
Ele começou a rir de novo.
− eu não quero ser seu amigo pra sempre! − agora estava fazendo cara de nojo.
Quase o matei! Ele já está começando a me irritar.
− então quer que eu faça o que? Viaje pra China? Porque não vou conseguir ficar perto de você sabendo que você não quer!
− quer saber! Fiquei sabendo que um cara gosta de você − ele abriu em sorriso torto e ergueu uma sobrancelha, como ele fica lindo desse jeito... ah! − da uma chance pra ele... ai assim... você esquece de vez a nossa amizade. Porque cai entra nós... já tá ficando chato.
− não vou dar chance pra ninguém.
−não pensa em namorar não é?
Olhei pra ele e disse numa voz esganada:
−não! E quer saber... quero que esse cara que gosta de mim suma! Que desapareça da minha vida!
−tem certeza? − ele perguntou em tom de duvida.
− absoluta!
−bom então tá. − ele se levantou abriu um sorriso brincalhão− adeus Amanda... vou sumir da sua vida!
Eu fiquei em pé num pulo.
− Luiz Felipe! − o chamei cautelosa − o que você está insinuando?
Ele chegou mais perto de mim, seu rosto ficou a um palmo de distancia do meu.
−isso...
Dizendo isso ele pôs o pingente em minha mão e me puxou para um beijo. O primeiro beijo nosso...
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