Dose Trovas de Inverno
1 Capítulo 1 - Velhos Fantasmas
inverno
substantivo masculino
1.
estação mais fria do ano, que se situa entre o outono e a primavera [No hemisfério sul, estende-se do solstício de junho (21) ao equinócio de setembro (23); no hemisfério norte, do solstício de dezembro (22) ao equinócio de março (21).
I Capítulo
Trova (da alma) 1
Alma no corpo não tenho:
minha existência é fingida;
sou como o tronco quebrado,
que dá sombra sem ter vida.
Em determinados momentos, confesso ter visto o piano espatifado no chão, era tão pesado, massivo, vê-lo balançar entre as cordas que o prendiam no guindaste, devo dizer, já o previa arrebentado no chão, contudo, a tarefa foi completada sem problemas, e o piano tomou sua posição dentro do meu apartamento no sexto andar, e sendo digno dele, suntuoso, clássico, fez sua entrada triunfal, ainda que essa entrada tenha me custado um valor considerável, mas as divas não são assim mesmo, digo, caprichosas? Rebeldes e incomuns. Contudo outras “rebeldias” também se revelarão ali, e dessa vez não estou falando do instrumento musical, mas a do jovem rapaz de skate que ziguezagueava os cones sinalizadores na calçada e na rua, como se aquilo fosse seu parque particular de diversões, a minha reação, foi a mais rápida possível, repreensiva, gritando a plenos pulmões pelo delinqüente, fazendo-o saber que desaprovava a sua atitude perigosa, enquanto alguns moradores e pedestres observavam. Sua resposta foi um singelo e rápido mostrar de dedo, o do meio, é claro, fazendo meu rosto ferver de ódio, e bufando, serrei os punhos a fim de controlar o meu desejo de avançar-lhe. O garoto então sutilmente desceu do skate, o enfiou em baixo do braço e veio em minha direção.
— Seu pai não lhe deu educação? – Perguntei baixo, porém a fim de fazê-lo ouvir – E o que vai fazer agora? Andar de skate no saguão do prédio, que alias, é particular – Concluí indagando-o e sugestivamente bloqueando sua entrada.
— Para sua primeira pergunta, sim, o meu pai me deu a melhor educação que o dinheiro pode comprar, mas elas não me convenceram – Respondeu com um sorriso cínico – E para sua outra pergunta, eu também moro no prédio, então se você ainda não comprou o saguão de entrada, eu quero passar. – Concluiu arredio esbarrando seu ombro no meu – A propósito – disse-me enquanto andava em direção ao elevador – A porra da rua é pública!
As portas do elevador se abriram e ele entrou, enquanto eu dizia alterado: — MOLEQUE – Fazendo-o entregar sua réplica:
— BIXA! – E as portas fecharam.
Já no meu apartamento sentado em frente ao piano e olhando para as marcas no chão que o antigo fizera, estas, não se alinhavam ao novo, era um pouco menor o de antes, ali, conjeturando sobre tudo o que já toquei antigamente e sobre os pequenos momentos de regozijo que tive, alimentei de forma usual, uma saudade avassaladora; saudades de casa, dos meus pais e meu irmão, eu os havia perdido muito cedo, era jovem, e ainda lembro com angustia perspicaz o gosto do fel na boca, um amargor de café extra-forte, um súbito, uma dor infernal, fora certamente o pior momento da minha vida, sendo ainda mais alimentado pelo sentimento culposo que me rondava o peito. Na noite do acidente, eles vinham ao meu encontro para um jantar comemorativo, e o que era para ser feliz, foi abismal.
Num gesto rápido direcionei as pontas dos meus dedos àquelas teclas lindamente brancas, intocáveis, tentei trazer alguma melodia à tona, mas nada saía, tinha somente um vazio, um imenso e intenso vazio. Girei-me para o lado a fim de desanuviar os pensamentos, e dizia Amim mesmo em voz alta, “abstrai, abstrai, abstrai”, voltei-me ao piano, fechei os olhos e deixei os meus dedos me levarem, e com a sutileza de uma pluma no ar, a música saiu, e por mais melancólica e clichê que ela fosse Chopin Prelúdio nº 4, ao menos saíra.
Doze anos se passaram desde a última vez que toquei um piano, a ferrugem incrustada inicial era notável, mas bastaram apenas alguns minutos para trazer à tona a lição de quem aprende a andar de bicicleta e não se esquece jamais, então toquei, como se nunca tivesse parado. Foram aproximadamente quatro horas tocando e intercalando entre Liszt, Debussy, Mozart e outros, com pequenos intervalos, até o interfone tocar, me lembrando do jantar que eu havia pedido há uns quarenta minutos. Rapidamente calcei um par de alpargatas que ficam sempre à beira da porta de entrada, e saí apressado ao encontro do entregador que já me esperava na portaria, porém chegar até ele tinha um elevador com problemas, e um garoto de conduta horrível, sim! O mesmo que havia me insultado anteriormente.
— Boa Noite! – Disse ele para o meu espanto, enquanto eu entrava no elevador me fazendo olhá-lo brevemente com algum receio. Afinal, algumas horas atrás havíamos encenado um episódio nada agradável na portaria do prédio. A minha vontade era silenciar-me em retaliação a sua postura anterior, mas automaticamente devolvi com um leve acenar, de repente, foi a sua maneira de hastear bandeira branca ao nosso enfrentamento anterior, pensei.
Coloquei-me reto, sem movimentos bruscos e olhares paralelos, a fim de não suscitar qualquer tipo de assunto ou até mesmo um pedido de desculpas, eu, sinceramente não queria ouvir a voz dele, muito menos um pedido de desculpas. Continuei com meu olhar direcionado a porta do elevador se fechando, e posicionei as mãos cruzadas para traz, como um soldado a postos diante um capitão ou coisa do gênero. Porém foi entre o segundo e o primeiro andar que o maldito elevador resolveu emperrar, provocando em mim um enorme descontentamento, afinal, eu não queria passar nenhum minuto a mais como aquele garoto, além dos que já eram contabilizados para descer até o térreo. Foi então que ele obviamente soltou em voz alta:
— Parou! – e me olhou, como se eu tivesse a solução para o problema.
— É pelo jeito sim, merda! – Atei, em seguida me desculpando pelo palavrão.
— Relaxa! – Respondeu ele descontraído.
Peguei o interfone dentro do elevador e liguei para o porteiro informando que o mesmo havia travado em determinado ponto, rapidamente me respondeu que ligaria para qualquer fulano responsável.
— O entregador vai ficar puto com a demora – Retrucou o garoto, como se eu tivesse algum interesse em saber.
— Pois é. – Respondi seco.
— Era você que estava tocando piano né? — “Céus, qual é a parte que esse infeliz não percebeu que não estou a fim de bater papo, muito menos com ele”, pensei. Porém respondi mais uma vez sucinto, tentando encerrar de vez a conversa.
— Sim, era eu.
— Legal, curti bastante deu pra ouvir um pouco do meu apartamento! – Disse ele notavelmente sincero, me trazendo estranheza. Qual era a dele, e como alguém tão estúpido, grosseiro e mal-educado, simplesmente passou a gostar de música clássica? Bruscamente o elevador começou a descer trazendo alívio a minha condição, e não o respondi mais. Fomos praticamente a passos juntos até a portaria, e em simultâneo pagamos e pegamos nossos jantares, e para minha infelicidade, voltamos também no mesmo elevador. Já nesse momento, a minha cabeça só pensava, “o universo está de brincadeira hoje heim”, quando do nada o rapaz resolve intervir novamente no silêncio que eu tentava manter de forma compulsória entre nós.
— Você se importaria de tocar seu piano para eu ouvir enquanto janto? – Disse ele tão rápido e sincero, me pegando desprevenido, sem reação e apenas com uma palavra solta:
— Desculpa? – Indaguei. Foi então que escutei o sinal de parada do elevador, em seguida complementado por ele:
— Seu andar, vamo nessa? – Continuou impertinente, enquanto eu o seguia em direção ao meu apartamento como se dele fosse. Já na porta, eu ainda sem reação, tentei argumentar e sugerir outro dia, ou outra hora, mas isso ainda permanecia somente na minha mente, enquanto eu formulava o que eu iria falar o que dizer, como sair dessa? Tentei balbuciar algumas palavras, e quando dei conta, já havia aberto a porta automaticamente, (é incrível como alguns gestos cotidianos, fazemos sem perceber, algo quase que robótico). Ele então deu um leve sorriso e de seguida acompanhou meus passos. – Sua sala é enorme – Argumentou observador. – A minha talvez seja igual, mas o dom da minha mãe de entulhar coisas, a deixa onde quer que vamos, menor. – Disse ele enquanto discorria as pontas dos dedos numa escultura – em vista da sua, bem menor mesmo! – E voltou seu olhar para o parque em frente ao prédio, parado na janela, segurando sua janta na mão direita, enquanto levava a outra sugestivamente a cortina, tocando-a suavemente como quem quisesse sentir a textura do tecido. – Ah! Olha ele – Atou como uma criança ávida, e foi em direção ao piano centralizado na sala, e antes de juntar-se a ele, quase jogou a comida embalada em cima do sofá. – É lindo, caralho! Bem maior que o de casa. – Afirmou.
Eu ainda tentava de alguma maneira assimilar toda a sua atitude e quanto mais eu tentava mais difícil se tornava, ora, há poucas horas atrás havíamos protagonizado “boas vindas” de novos vizinhos, nada saudável, e embora eu quisesse matá-lo, a sua conduta ali, ou melhor, desde o “boa noite” no elevador, até aquele momento, estava sendo sem dúvidas, educada, e um sugestivo pedido de desculpas, ainda que informal.
— Bacana que gostou, custei comprá-lo, fazia anos que não tocava. – De repente me vi aberto a dizer um pouco sobre mim, mas instantaneamente sobreveio o bloqueio corriqueiro, então me calei. Porém isso de maneira alguma inibiu o rapaz.
— Posso? – Perguntou-me indicando que queria tocá-lo. Titubeei instintivo, afinal, brinquedo bom a gente não empresta, mas em seguida, educadamente acenei positivo. Queria vê-lo dedilhar algo, queria testá-lo, imaginei que serial pueril, como se ainda tomasse lições, entretanto para o meu total engano, tocou, e incrivelmente dançou com os dedos nas teclas do piano entoando Rachmaninoff. Quando fez silêncio na sala após sua investida bem-sucedida, os segundos a seguir eram de espanto; de onde vinha aquilo? Por certo, era outra pessoa, imaginei. – Aprovado? – Perguntou-me com um sorriso de canto de boca. Em seguida levantou-se, apanhou a comida, e sentou no chão de madeira próximo a janela principal da sala, e desembrulhou o pacote ligeiro, dizendo afoito, “que fome”, era frango frito para minha surpresa.
— Tenho refrigerante. – Sugeri gentil. — Ou suco se preferir, e água também! – Eu fiquei de repente estranhamente confuso o que me fez soltar um risinho nasalado e desconcertado, como se eu fosse um adolescente tímido na presença de pessoas estranhas.
— Não, obrigado. – Respondeu educadamente. Neste meio tempo, enquanto ele apreciava o seu pedido, lembrei-me da minha comida, provavelmente já fria em cima da bancada, coloquei em um prato e sentei-me junto a ele num pufe que ficava à beira da mesma janela. Em seguida, me veio à mente, “porque tudo isso está acontecendo?” É surreal, e totalmente sem sentido, e mais ainda, qual era o seu nome? Quando subitamente, como se ele pudesse ler os meus pensamentos:
— Cícero! – Disse me estendendo a mão, retribuindo com um leve ajeitando uma mexa de cabelo que caia na testa. A partir daquele aperto de mão, selava-se uma trégua naquele que fora nosso curto período de guerra.
— O que você faz pra viver?! – Perguntou ele sem papas na língua.
— Sou chef de cozinha, ou como alguns dizem – desdenhei irônico – cozinheiro!
— Que legal, vejo que nosso próximo papo então já tem motivo, digo, cozinhar algo bacana pra eu provar! – afirmou – Porém já antecipo, não sou nenhum expert capaz de te dar alguma estrela Michelin, mas te ofereço meu mais sincero paladar. – E riu finalizando sua última coxa de frango frito, me trazendo mais confusões ainda, afinal, o rapaz arredio de hoje cedo, de skate, e terrivelmente mal educado, não me faria imaginar que fosse capaz de tocar música clássica, ou saber o que significa uma estrela Michelin. No entanto, já que eu estava sendo literalmente invadido dentro de minha própria casa a próxima pergunta seria naturalmente a que me torturava até aquele momento, porque ele havia agido daquela forma antes, e agora demonstrava ser alguém tão infinitamente melhor, mas isso, mais uma vez ficou na minha cabeça mesmo, quando ele em um pulo se pois de pé, dizendo que precisava ir embora.
Quando fechei a porta de entrada seguido de um sucinto, “boa noite” mutuo, direcionei-me lentamente ao sofá da sala, me jogando por completo entre suas almofadas mergulhado curiosamente no jovem; seus traços, fala, na sua interessante inteligência, e sutil, porém notável trejeito na sobrancelha direita, que vez ou outra levantava em resposta a alguma coisa que eu dizia. Cícero! Era impertinente o garoto. Cícero, e vinha mais uma vez seu nome a minha cabeça. Alto, tez branca bochecha levemente corada, e entre elas um alongado nariz fino preenchido por sardas que iam até a altura das covinhas que lhe formavam na face quando sorria, o maxilar assemelhava-se aos dos bustos romanos, proeminente, viril, coberto por uma rala barba acobreada misturada com alguns fios loiros. Os cabelos ondulados que caiam na testa era sugestivamente arrumados, ruivo, formando uma densa malha de fios de cobre. Os olhos eram azuis acinzentados e o olhar era tímido, de garoto, porem era profundamente acusador, aquele olhar que quando te encontra, te constrange, como se você tivesse fazendo ou pensando algo errado. Cabelo de verão, olhos de inverno, era o que eu associava em meus pensamentos, cabelo de verão, olhos inverno, e outra vez o nome vinha, Cícero!
Cochilei e entre pensamentos e sentimentos alheios, em algum momento vislumbrei algo, parecia um sonho furtivo, mas também eram pensamentos, e o propósito dele, um beijo, um abraço, um sentimento desejoso, e quando acordei assustado, como quem tivesse caindo do sofá, imediatamente ri de mim mesmo, daquele mini sonho, daquele desejo tolo e, sobretudo impossível, é um garoto, pensei, não podia ser, obviamente não seria, a idade, ou a diferença dela, o jeito dele, digo, não transmitia absolutamente nada, se não uma qualificada educação, advinda certamente dos estudos de alto padrão que mais cedo, entre as farpas que trocamos, confessou ter sido, o melhor que o dinheiro pode pagar, porém agora, tenho dúvidas. Levantei com algum esforço, dormir no sofá era um hábito antigo, e o pior deles, no outro dia a minha coluna sempre fazia questão de sinalizar que sim.
E de repente um vazio, aquele de sempre, assombrador, à beira de mim, à espreita, a espera de um vacilo, uma pequena distração. Eram os velhos fantasmas, as velhas tristezas e angústias enraizadas como ervas daninha. Sentei com pesar na beira da minha cama, peito cheio, pus o travesseiro entre as pernas e na tentativa de esquecer, lembrei mais ainda. Eram os meus dilemas, as minhas solidões.
“Às vezes parece que você não tem alma”, disse-me um amigo certa vez, “Por hora tenho”, respondi, “contudo à noite em minha casa, ela guarda-se de mim”, concluí, com algum sorriso fingido, zombando de mim mesmo. Na verdade, foram inúmeras as minhas tentativas de desvencilhar-me dos infortúnios que volta e meia me tomavam, psiquiatras, psicólogos, e todo o tipo de medicamento foram tentados, ao menos um, eu ainda tomo, mas somente pelo hábito, porque efeito, sinceramente eu pouco via, ou vejo. Entre pouquíssimos relacionamentos, se é que posso chamar o que tive de relacionamentos, coleciono mais desamores do que qualquer outro sentimento, uma ou duas namoradas em doze anos, sendo que uma delas apelidei desdenhosamente de cheerleader, era insuportável o seu grau de felicidade, porém era maior ainda a minha animosidade, e coitada, não era sua culpa afinal. Nos anos a seguir, tive um breve e atípico envolvimento, o único que fora capaz de suscitar alguma vontade em mim, foi um garçom de um antigo restaurante onde já fui sous chef, me vi por um curto período febril, como as paixonites adolescentes, entretanto não deixei sobreviver por muito tempo, era eu, de praxe.
Dormi com algum esforço, e por fim no dia seguinte, dei inicio ao meu ano sabático. Foram seis, trabalhando sem margem para férias, fins de ano, feriados, aniversários, todos acumulados e sufocados dentro de mim, eu não queria vivenciá-los, não me faziam sentido. A falta dos meus pais e irmão era dolorosamente viva, dia após dia, um luto marcado de, “E se eu tivesse falado isso, ou feito aquilo”, ainda que tal não resolvesse absolutamente nada, mas era uma amarra, um nó cego, atado em arrependimentos e histórias que não vivi com eles, por perdê-los tão drástica e repentinamente. Coloquei meu moletom, e resolvi milagrosamente que daria uma volta no parque em frente ao meu prédio, uma propriedade privada, transitada somente pelos moradores locais, que anualmente pagam uma taxa para mantê-lo. Já na portaria, mais um encontro, era Cícero!
— Bom dia! – Acenei gentil. Ele então riu com uma leve bufada, e saiu em direção aos elevadores, me deixando confuso, mas mentalmente eu gritava CARALHO; esse moleque é bipolar, só pode; e saí acenando para o porteiro.
Enquanto eu andava pelas ruelas do parque distraído com a música que ouvia e irritado tentando aumentar mais o volume dos fones, senti o esbarrão de leve, como quem quisesse sinalizar sua presença, era Cícero.
— Hey!— Disse se achegando e acompanhando meus passos. – Caminhada matinal? – Perguntou entregando-me aquelas encantadoras covinhas na bochecha, me fazendo instantaneamente baixar qualquer guarda armada, mas ainda puto com a atitude hostil de cinco minutos atrás.
— Nunca tive hábito, mas curiosamente hoje, sei lá... Faz pouco tempo que você mudou pra cá? – Perguntei a fim de não deixá-lo perguntar sobre mim, me expor, nunca foi meu forte.
— Meus pais, há três semanas, mas eu cheguei ontem de manhã!
— Claro que sim! – Respondi irônico, na tentativa de lembrá-lo da sua atitude grosseira no dia anterior. Ele apenas me olhou de canto de olho e continuou me acompanhando.
— O que você tá ouvindo? – Disse puxando um dos fones do meu ouvido, e colocando no seu, para minha total perda de paciência.
— Porque você faz isso? – Perguntei parando minha caminhada, e tomando o fone de sua mão, havia muito mais raiva, aquele gesto não fora nada, mas fora a gota d’água e a minha resposta instantânea a sua reiterada invasão.
— Só queria saber qual era a música. – Respondeu ele assustado. Fazendo-me rapidamente odiar o meu tom altivo. – Me desculpe eu não quis parecer rude, mas é que… — Tentei dizer algo sobre o que ele fizera ontem no saguão da entrada, em comparação a sua delicadeza posterior no meu apartamento, e novamente a sua atitude arrogante quinze minutos atrás na portaria, porém silenciei-me, entregando o fone novamente para ele, como um sinal de trégua, mas mais do que isso eu não queria argumentar com um garoto, me fazia parecer um tremendo idiota
— Que isso?! – Perguntou sarcástico, sobre o que eu estava ouvindo.
— Se for pra tirar sarro, devolve! – Respondi impaciente.
— Não tô tirando sarro, só achei estranho – Riu — Shawn Mendes? Vocês tá ouvindo Shawn Mendes – e desatou em risos.
— Ah então você sabe quem é?!
— Claro! Eu tenho dezessete anos, isso não seria normal?! – Respondeu ainda rindo.
— O fato de eu ser mais velho, me proíbe ouvir esse tipo de música?! – Argumentei me sentindo um idoso.
— O fato de você ser mais velho, não é relevante, eu só acho engraçado que um cara como você... Como eu poderia imaginar que alguém que toca Bach, ouve… Sei lá, Taylor Swift. – Finalizou gargalhando do meu gosto pop.
— E porque não?! Um cara que toca música clássica e é mais velho tem que ouvir ou fazer somente coisas do gênero?! E sim, eu também ouço Taylor Swift. – Respondi com raiva interior, e num instante, me vieram às velhas lembranças de escola, os machões, os o isso pode isso não pode, me trazendo momentos de dores que há muito tempo eu já havia me esquecido.
— Outra surpresa! Desatou em risos novamente.
— Bom, devolve o fone. – E puxei bruscamente. – Você não me parece do tipo de pessoa que ouve as minhas músicas. Então não faz sentido compartilhá-la.
— Calma, guarda as presas! Foi mal, eu só estava brincando, e você não é velho – disse ele docemente – você só é mais adulto – risos – Quantos anos você tem?!
— Ótimo, vinte e nove! – respondi seco.
— Nós podíamos tocar umas peças hoje o que acha?!
— Hoje não vai dar! – E nenhum outro dia pensei comigo.
— Tudo bem, outro dia quem sabe. – Disse entregando-me um lado do fone. Eu deveria confrontá-lo? Deveria! E foi na tentativa de falar algo, que escutei uma voz longínqua gritando por ele, um sonoro; “CÍCERO”, fazendo-me olhar para trás, a procura de onde vinha o chamado.
Gêmeo? Um irmão gêmeo? Os meus pensamentos fervilhavam, enquanto eu voltava meus olhos a Cícero, na tentativa de entender o que ocorria.
— É o meu irmão, vou nessa! – E foi correndo de encontro. Na metade do caminho, parou por um instante, e virando-se para mim disse em voz alta num tom atencioso – Eu gosto de pop também Shawny boy – e saiu rindo.
A semelhança absoluta dos dois era provocante. Não pude, pelo menos no momento, notar sequer um traço que os diferisse, eram absurdamente iguais, altura, cabelos, pele, rosto, tudo devidamente duplicado, como uma brincadeira do destino. Foi então aí que a ficha caiu, e que eu, ridiculamente tive vergonha de mim, e, sobretudo da forma como eu estava tratando-o. Afinal, somente agora fazia sentido, o porquê de tantas atitudes díspares em apenas um dia e meio. Eram dois afinal, um; de gênio tediosamente horroroso, o outro, bem, era Cícero, com seus cabelos de verão e olhos de inverno.
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