"Dos estranhos"
1 Capítulo único
Frustração. Esse era o sentimento que mais persistia em seu coração. Estava frustrado. Se sentia frustrado com seu mestre, com os feitiços, com sua capacidade corporal e até mesmo consigo mesmo. Odiava feitiçaria. Odiava porque nunca se mostrou interessado e sempre era taxado por apelidos grosseiros e mal exemplo. Ao contrário dos outros feiticeiros, ele não havia se ligado a um casal para os usar como "família", já que feiticeiros não eram gerados por relações sexuais e sim a morte de alguns outros feiticeiros. Não que eles não pudessem ter essas relações, eles apenas não sentiam essa necessidade.
Os poderes que conseguia dominar, na atualidade, com tamanha facilidade era o tamanho minimo de uma esfera de arcano. Conseguia usar várias rapidamente e também conseguia as controlar de modo a lhe girarem o corpo como um escudo de proteção. A caça aos ursos e até mesmo alguns filhotes de dragões com esse escudo havia se tornado mais fácil. Raramente era atingido pelas garras brutais de um urso ou a cauda venenosa de um filhote de Dragão. Os filhotes não possuíam asas, por isso nunca acabavam por fugir, mas não eram menos ferozes que os dragões adultos. Também conseguia controlar algumas árvores — geralmente as de pouca idade — para prender o dragão e o urso. Mas isso era em tão pouco tempo e gastava tanto o seu físico que a deixava esquecida em sua mente. Ao contrário dos outros feiticeiros, conseguia desviar e pular com mais facilidade. Conseguia escalar árvores rapidamente, até mesmo as retas. Também usava duas adagas — onde elas ficavam presa em um adereço ao lado de suas coxas — onde concentrava o poder arcano nas laminas e começava a recortar seu inimigo. Era um feitiço que aprenderá sozinho e quando fora mostrar ao seu mestre, quase fora espancado por ele.
"Criança tola, não usamos laminas!"
Era um feitiço seu, que aos poucos conseguia aprimorar para se tornar uma arma de arcano. Da ponta de cada lamina, conseguia juntar sua energia para criar esferas controláveis de arcano, mas isso o desgastava de um modo inimaginável.
Além de frustrado, se sentia motivado a mostrar para todos do clã que era realmente capaz, que poderia aprender todas os feitiços, não importando a idade que havia começado. Era hábil, rápido e tinha a extrema paciência para aprender. Também tinha tempo e muita vontade para aprender e isso sempre se tornava a sua vantagem. Mas o que mais o motivava, ou quem, era um humano.
Tecnicamente, humanos não poderiam ter contato com feiticeiros e vice-versa. Eram mundos diferentes e criaturas tão diferentes. Humanos tinham a vida curta e duravam tão pouco. E além de a vida deles serem tão curtas, ainda existia doenças que poderia encurtar muito mais. Feiticeiros tinha uma vida muito mais longa, mas ao contrário dos humanos, eles não reencarnavam, pois não possuíam uma alma inteira e sim apenas pequenos fragmentos.
Nas duas raças distintas, existia lendas sobre cada um.
Na lenda humana, feiticeiros haviam sido criados a base do amor do demônio com uma humana.
Na lenda dos feiticeiros, humanos haviam se originado na junção de muitos fragmentos de almas, logicamente, dos feiticeiros.
Para Yoo, as lendas não passavam de bobagens inventadas para um ser superior ao outro. Se fosse por força, um feiticeiro conseguiria controlar a natureza e se colocar em vantagem a força humana. E se fosse por sentimentos, humanos os teriam de sobra. Para Baek, era tolice a imensa rivalidade entre humanos e feiticeiros, mas estava totalmente por fora quando o assunto era magos contra feiticeiros e vice-versa. Magos eram mais fracos e mais lentos, enquanto que os feiticeiros era mais poderosos e mais ágeis, enquanto que seus poderes acabavam por lhe cansarem.
Haviam se conhecido quando o feiticeiro estava a caçar um javali adulto, correndo como louco atrás do animal dentuço e então tentava o prender com a natureza, mas falhava drasticamente no ato, pois pegara um humano e não um javali! O humano ficava a olhar para o feiticeiro, com a roupa toda escura e o rosto tão infantil.
Na verdade, o humano teria ficado preso ali se não fosse por tanta insistência e tanta gritaria vindo de sua parte, porque o feiticeiro havia virado as costas e o ignorado por completo. Mas acontece que seus gritos haviam espantado todos os animais que seriam alvos de caça, então o feiticeiro acabou por voltar onde o humana estava afim de ou o matar ou o desprender. E ele apostava na primeira alternativa, não na segunda.
Porém como bom feiticeiro, acabou por soltar o humano e o deixar correr para se tornar sua caça, mas o humano apenas se ergueu do chão e limpou a sujeira da roupa e com a coragem dos deuses, ergueu a mão para o feiticeiro e se apresentou como "Baek Gyeom". Incrédulo, o feiticeiro apenas ficou parado o encarando.
"Que espécie de criatura é essa?" Pensou, totalmente abismado.
Depois de algum tempo que o humano ficou a lhe seguir, ambos passaram a conversar sobre a diferença das espécies e as lendas que ambos tinham com cada um. Gyeom ria a todo momento, enquanto Dong apenas ficava incrédulo.
"Qual é o seu nome?" Gyeom havia lhe perguntado, mas não sabia ao certo o que responder.
"Khan. Eles me chamam de Khan."
O humano murmurava algo como "que nome estranho" ou "que coisa comum" e começava a pensar em algo. O feiticeiro quase conseguia ver os pensamentos do humano.
"Yoo Dong Gyun."
E ganhando um novo nome e um amigo, o seu primeiro amigo, ambos começaram a se encontrar todos os dias.
O jovem humano segurava duas pequenas agulhas entre os dedos e as jogava contra o rosto do feiticeiro, fazendo o mais velho o olhar de modo curioso porém frio.
O espirito que sempre acompanhava os feiticeiros fazia as agulhas se desviarem para o solo. Yoo se abaixava e as retirava do chão e caminhava até o humano, onde as entregava na palma da mão do mais novo e sorria para ele. Aquele sorriso frio que fazia Baek se arrepiar de medo. Era sem expressão. Era muito frio.
Ao contrário de tudo o que Gyeom acreditava, o mais velho não era tão diferente dos outros feiticeiros. Ele poderia ser mais fraco, mas certamente era tão frio quanto os outros. E por ter vivido sozinho a vida inteira, isso dificultava a convivência com ele. Dong poderia ser o feiticeiro mais humilde, mas também não se importava muito ao matar qualquer ser vivo a sua frente.
"E é aquele ditado, Gyeom, se me ameaçar uma vez, não haverá a segunda." Era sempre essa frase que o mais velho usava e esse era o maior medo de Gyeom.
Dong raramente ria, mas quando ele ria e gargalhava tão alto como uma criança, Gyeom se derretia e apenas ficava a observar o mais velho. Sempre se pegava observando o modo como os lábios de Dong se moviam em cada palavra. Ou quando a palavra "arcano" era pronunciada e aqueles lábios formavam um rapido biquinho.
Talvez, apenas um pequeno e insignificante talvez, já havia se apegado com o feiticeiro. Havia lhe ensinado a usar adagas e ele havia aprimorado para usar junto com seu poder, fazendo os ataques serem mais violentos e mais rápidos.
Quando treinavam, Dong tinha que parar por um tempo e ficar na mesma posição por algum tempo, pois seu corpo se cansava tão facilmente. Se ele fosse humano, as pessoas ou o chamariam de sedentário ou moribundo.
Para os olhos do feiticeiro, Gyeom era o tipo mais estranho de criatura. Ele comia animais apenas "queimado" pelo fogo e não quando ainda estavam frescos. E seus próprios hábitos de comer animais haviam mudado apenas para ficar perto do humano, o que as vezes lhe irritava e as vezes se sentia feliz. Ele não era um louco psicótico como muitos dos feiticeiros descreviam os humanos. Na verdade, ele era muito estranho porém manso. Ele era muito manso, totalmente manso. Era como um coelho, macio e medroso.
— Qual a sua diferença com os feiticeiros? — Ouvia a pergunta do mais novo enquanto mordiscava uma fruta, cujo nome para os humanos era "laranja".
Olhava para o mais novo.
— Como assim?
— Bem, você diz que não é como eles.
— Sou mais fraco. E tenho menos vocação para ser um feiticeiro, por causa do meu atraso ao interesse. — Passava a língua pelas listras brancas da fruta e ao recolhê-la novamente, focava o olhar nele novamente. — Também dizem que tenho uma alma maior, então sou mais "humano" do que eles.
"Ah, então era por isso as mudanças de humor e de personalidade." Gyeom pensava, desviando o olhar para uma ave que havia pousado.
— E você?
— Não tenho uma doença que encurta a minha vida... Na verdade, nem todos os humanos tem doenças, ok? — Dong ria baixo, anasalado.
— Mas ainda sua vida é muito mais curta que a minha.
Gyeom se aproximava do mais velho, o empurrando para trás e o fazendo cair de costas na grama. Gostava de como o cheiro do mais velho se misturava com a grama ou do modo que ele sempre mantinha uma distância, com medo de ser tocado.
— Então deveria aproveita-lá mais? — O olhar sugestivo para o mais velho passava despercebido pelo mesmo.
De modo falho, Dong o empurrava e acabava por ser preso contra a grama. Rosnava baixo e notava aquilo como uma ameaça, mas temendo usar algum poder e machucá-lo. E Gyeom percebia a hesitação do mais velho, por isso acabava por selar os lábios no dele. O toque gélido da boca do feiticeiro fazia o corpo de Gyeom se arrepiar rapidamente. Era um toque suave, mas muito gélido.
Tarde demais, quando ia se afastar do mais velho, ele lhe empurrava com toda a força e sacava uma das adagas, a forçando contra o pescoço do humano. O olhar lembrava um animal ferido, porém extremamente furioso.
— Dong...
Ele apertava a adaga mais forte contra o humano, rosnando baixo.
— Khan! — Ele gritava, fazendo o olhar do feiticeiro voltar ao normal e, lentamente, ele guardar a arma e se afastar.
Enquanto o feiticeiro se sentava sobre as pernas e passava a lamber a "laranja" novamente, Gyeom se sentava de forma lenta e ficava encarando o outro. Ele havia sido assustador a um segundo atrás e agora estava totalmente focado na laranja.
"Que ser mais estranho é isso?!"
Novamente, se aproximava do mais velho e ficava a centímetros dele. O olhar dele começava a se tornar frio novamente, escurecendo lentamente em sinal de desconfiança. Seria possível que todos os feiticeiros fossem assim?
Dong se erguia e enfiava a metade da fruta na boca, mastigando com agressividade e então anunciava que ia se retirar por hoje, que estava cansado. E quando o humano fora protestar, o feiticeiro já havia se ido.
Sumido no ar.
E isso sempre causava arrepios no mais novo.
Bem, não era todo santo dia que via as pessoas desaparecerem, certo?
Dong estava escondido atrás de uma antiga árvore, com um tronco grosso e raízes tão profundas. Era verdade que seu controle nela era totalmente nulo, já que ainda era um iniciante, mas estava a observar alguns humanos. Humanos que riam e se agarravam loucamente. O cheiro impregnava suas narinas e o faziam querer se afastar, aquilo o irritava e sabia que tipo de relação eles acabariam por ter... Mas tão obscenos!
Quando se virava para a floresta, sentia o cheiro de dragão ou ninho de dragão por perto e se voltava para o local onde os humanos estavam próximos. Não, não era por lá. Voltava a olhar para a floresta, usando o arcano para ver se notava alguma coisa diferente e nada. Dragões eram conhecidos por esconder seus ninhos ou os colocar no topo mais alto, que era muito disputado pela espécie.
Olhava para a árvore alta e começava a escalá-la, onde pulava de galho em galho e logo estava no topo. Sua visão lhe ajudava a notar os sinais vitais de todos os seres. As risadas dos humanos ia se distanciando, mas ainda ecoavam em sua cabeça...
"A risada dele..." O pensamento havia lhe passado tão rápido que sua visão voltou ao normal, onde nada mais avistava com vantagem.
Sim, a risada do humano era boa.
E a companhia era melhor ainda.
Ele não era uma pessoa tola, como também não poderia ser considerado como indefeso. Gyeom era o tipo de humano que nascera com pouca vida, mas era ousado o bastante para não ter medo das coisas. Nem mesmo dele, um ser sem sentimentos.
Fechava os olhos e sentia seu coração, seu próprio coração, bater mais rápido.
Se o pensamento com o humano lhe atordoava a noite, o certo a se fazer seria caçar.
Agora conseguia formar um escudo ao seu redor e até mesmo ao redor de outra pessoa. Caçar dragões era realmente a melhor forma de aprimorar suas habilidades e concentrar seu arcano, o que sempre havia sido sua dificuldade. Por pena, não havia matado o dragão mas sim o ferido superficialmente. O animal parecia ter o mesmo senso e não usará golpes para o machucar... O animal poderia estar querendo apenas brincar com a comida antes ou simplesmente treinar também, devido que ele não era tão grande e poderoso quanto um adulto.
Corria para dentro da floresta e notava que o humano estava no mesmo lugar, com algo entre as mãos. Ele parecia preocupado, mas não exalava medo ou derivados. Na verdade, ele parecia chateado.
Ao chegar perto do humano, torcia o nariz a ave morrendo. A velhice era algo duro para as aves, onde suas asas começavam a perder suas funções e tudo o que lhe restavam era o andar solitário.
"Aquilo que nasceu para voar, jamais gostará de caminhar." Pensava consigo mesmo.
— Ele é tão novo.
"Não, ele não é." Mas não iria dizer isso ao humano, apenas assentia, levemente.
— Gostaria de entender a diferença entre nossas vidas...
Olhava para ele, a sobrancelha levemente erguida e o olhar curioso.
— ... Parece tão complicado uma pequena coisa durar para sempre.
"Nada dura para sempre. Alguns morrem e renascem, outros apenas morrem." Também não diria isso a ele.
Depois de algum tempo em silêncio, Gyeom começava a cavar um pequeno buraco no chão, o preenchia com folhas e colocava a ave ali, deitada. Ele não o cobria, apenas o deixava ali, como em um berço.
O tempo todo, Gyeom olhava para o animal e suspirava baixinho, como se aquilo fosse o fim do mundo... Bem, talvez fosse o fim do humano, que saberia que logo poderia morrer, tão facilmente... Erguia o olhar do chão e encarava o humano.
E ele o encarava de volta, como se isso fosse a coisa mais importante de sua vida.
— Você fugiu ontem.
Assentia, mas logo passava a negar.
Ele ria baixo, quase forçado.
— Posso saber o motivo?
Parava de se mover e até mesmo sua respiração sessava rapidamente.
Sem pensar, coisa que raramente ocorria a feiticeiros, se ajoelhava no chão e o encarava, a ponta de seu nariz quase tocava no dele. O olhar prendia o humano e quase o sugava para o abismo de um feiticeiro.
— Você me beijou.
O humano desviava o olhar, olhando para qualquer lugar menos para o feiticeiro. Ele ficou algum tempo olhando para a ave que ainda agonizava.
— Você me beijou. — Sussurrava próximo ao ouvido do humano, o fazendo cair para trás e fechar os olhos. Os lábios eram comprimidos, formando uma linha reta. — Por quê?
O humano não se movia, apenas ficava ali, o rosto completamente vermelho. Foi então que o feiticeiro tomou o rosto do humano entre as mãos e o selou rapidamente. Os lábios do humano se abriam na surpresa e mal se dava conta de que era exatamente isso que ele queria. Quando sua própria língua, fria, tocava a de Gyeom e os choques começavam a atacar seu estômago, se afastou do humano e apenas o encarou.
— Feiticeiros não tem sentimentos, Gyeom.
O humano se sentava rapidamente, o olhar perdido.
— Posso te machucar.
Ele dava de ombros.
— Seria contra sua vontade? — Ele ousava perguntar.
E como um bom feiticeiro, jamais mentiria.
— Sim.
E então o humano se aproximava, o puxando pelos cabelos de modo agressivo e o atacando nos lábios. Os dentes prendiam o inferior enquanto o humano tratava de segurar uma das mãos do feiticeiro. Ao soltar o lábio do mais velho, ele sorria.
— Sempre gostei dos estranhos.
Se fosse um humano, teria dado risada sobre o "estranho", mas como um feiticeiro faria, apenas guardava em algum local para o revidar em um futuro próximo...
Não agora.
Agora iria aproveitar os lábios do humano e talvez algo a mais, pois o humano exalava sexualidade.
Notas finais
Se tiver algum erro, por favor, me avisem.
Mereço comentários?
Até breve.
Ciao, ciao.
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