Dos Diários de Marian Stanford
1 Despedida antecipada
Notas iniciais
Texto escrito em gaélico, entrada no Diário manuscrito de Marian Stanford.
New York, 26 de julho de 2000
William
Deixo estas palavras aqui para você pois sei que, acaso algo me aconteça, este diário certamente será consultado em busca de informações que possam esclarecer as circunstâncias do ocorrido. Sabes que não sou muito boa com as palavras, mas desta vez irei me esforçar. Talvez assim a Sra. McLoch se orgulhe do trabalho que fez e do tempo que investiu em minha educação.
É difícil para mim coordenar as idéias, tendo em vista tudo o que vem ocorrendo nos últimos anos. A maioria dos fatos já é de seu conhecimento, e a maioria das minhas preocupações também. Mesmo assim, acho interessante que eles sejam colocados aqui de forma mais organizada, pois o peso dos anos atrapalha nossa memória, deixando um fogg sobre as lembranças e confundindo as coisas.
Tenho me sentido muito estranha, William. É como se o mundo todo de repente tivesse virado de cabeça para baixo, mas mesmo assim não me sinto deslocada. Tenho a sensação familiar de que estava destinada a fazer parte de tudo isso, desde a primeira vez em que nos vimos na igreja de minha vila no sul. E que desde então, o que tenho feito, dia após dia, é cumprir o meu destino. Acho que todas as coisas que presenciei, as traições que descobri, os perigos aos quais sobrevivi, os seres que conheci pelo caminho, tudo isso me fez acreditar em destino. E, como se não bastassem todas essas coisas, existem também as profecias. Como não acreditar, William? Quando tantas coisas acontecem ao nosso redor, como estrelas vermelhas no céu, antigos despertando, poderes inesperados retornando ao nosso mundo...?
Antigamente eu tinha uma visão muito simples das coisas: inimigos servem para ser derrubados e aniquilados antes que eles façam isso com você. Assim, para sobreviver neste mundo eu só precisava ser mais forte do que meus inimigos, e eles jamais me pegariam. O tempo me mostrou algo diferente. Força, isoladamente, é incapaz de nos salvar quando nossos próprios autodenominados aliados se voltam contra nós. A decepção com a Camarilla foi algo que corroeu meu coração durante muito tempo. Acho que se você não tivesse me apresentado à Irmandade, não sei se eu estaria tão tranqüila hoje. Talvez tivesse feito algo estúpido em um momento de descontrole, pois minha aversão às intrigas e traições da torre de marfim me fez desprezá-la profundamente, e pensar seriamente em deixá-la. Mas sabes que nunca poderia deixá-lo, então continuaria servindo-o da forma que melhor encontrasse até que uma situação me levasse a um conflito de lealdades... E minha forma de pensar seria descoberta.
Ressenti-me um pouco contra você e Augustus por terem me mantido no escuro por tanto tempo, enquanto a dúvida e a amargura com relação a nossa instituição me amedrontavam e angustiavam. Hoje vejo, porém, que estavam me fortalecendo e preparando, me abrindo os olhos lentamente para a realidade daquilo que enfrentam noite após noite, munidos de um poder ao mesmo tempo imenso e imensamente perigoso. Do mesmo tamanho do alvo que todos nós colocamos em nossas cabeças. Antes achava que seus trabalhos eram em vão: chefiar seres que simplesmente queriam vê-los mortos. Hoje reconheço que é esse poder que os iguala a eles, que os coloca no mesmo patamar de forças, e que faz com que oficialmente eles devam respeitá-los e tomar cuidado redobrado antes de tramar contra vocês. Pergunto-me, porém, se essa mesma visibilidade não incita ainda mais raiva, inveja e violência contra nós. Abaixo minha cabeça, porém, pois percebo que a escolha é estar na frente ou retornar ao exílio. Fazer isso seria abandonar o campo de batalha num momento crucial, em que o mundo está em processo de mudança. Seria tolice nos retirar num momento em que podemos fazer a diferença e tentar moldar uma nova realidade, da forma como a imaginamos.
Saiba, portanto, que vejo tudo com mais clareza hoje, e agradeço por ter me ensinado da melhor forma que poderia: não me dando tudo mastigado, mas me fazendo enxergar por conta própria aquilo que é necessário hoje para que eu possa fazer a diferença. Devo agradecer a todos vocês. Reconheço também que consigo enxergar apenas uma parte das coisas. Que muito ainda está e permanecerá escondido sob muitos véus, talvez para sempre. Com isso não devo mais me preocupar. Que outros o façam, outros como o Robin e aqueles que possuem dons mais adequados.
Sinto-me cercada de inimigos. Não sei em quem confiar, não sei se a pessoa que está ao meu lado é quem eu acredito ser ou não, se é alguém se fazendo passar por ela ou se ela é ela, porém com motivos escusos. Não sei se minha casa será invadida de dia por magos, metamorfos, caçadores, inquisidores, carniçais do sabá ou da própria Camarilla. Não sei, e, sinceramente? Pretendo não saber. Se for me preocupar com essas possibilidades e reagir a elas, estarei perdida para o mundo, e assim estarei fora da batalha. Não quero agir assim. Estaria me tornando igual a muitos outros membros que observam a vida pela janela de suas mansões ou câmeras de segurança. E eu nasci para o vento e a chuva, a terra, a folha, o sangue. Assim, continuo seguindo, lidando com os problemas e as suspeitas quando eles surgem, Creio que me coloquei nas mãos do Destino.
Muitas vezes pensei que estava sendo testada por vocês nesses últimos meses. Que queriam ver o quanto era capaz de suportar, a que e a quem eu era realmente leal, o quanto de seus ensinamentos havia absorvido, quão fortes eram minhas habilidades. Sei que conviver com alguém não basta para testar sua fibra física, moral e intelectual. Senti-me testada. Se for esse realmente o caso, espero ter correspondido ao menos minimamente às expectativas. Devo confessar que muitas vezes me senti confrontada com coisas que estava muito além de minha capacidade, como no caso do lasombra Marcus Vitel. Coordenar um grupo tão heterogêneo, com os quais eu não tinha tanta intimidade, com tantas capacidades potenciais de atritos, em uma empreitada suicida como aquela me pareceu exagero. Não me senti à altura. Tentei fazer o melhor, evitar que pelo menos fôssemos mortos no processo. Ainda hoje não me sinto à altura. Se isso também foi um teste, ele realmente me assustou. Se não foi, agradeço a confiança, mas acho que da próxima vez – se houver uma próxima – vocês procurem alguém mais capacitado para este tipo de coisa, e se não houver, não sei, cuidem dela vocês mesmos ou esqueçam o assunto. Aprendi que há coisas que devem ser deixadas de lado.
Muitas vezes nos últimos anos tive vontade de entregar o cargo de Arconte. Os dilemas aos quais fui submetida, os insultos que tive que engolir em prol da política, as vidas que tive que tirar, tudo isso pesa sobre mim. Não acredito que serei julgada por isso em uma outra ocasião, como alguns acreditam, na Gehenna. Elas apenas pesam. Cada morte, cada frenesi engolido, cada momento de ódio marca meu coração, me enchendo de cicatrizes. Admiro sua capacidade de se elevar sobre essas coisas, acredito que meu caminho também seja esse, mas é um caminho longo, e eu ainda sou jovem nele.
Eu não imaginava que minha existência como sou pudesse ser tão solitária. Por mais rodeada de pessoas que eu possa estar, é como se nenhum deles pudesse penetrar com força na camada de pele, osso e carne que me reveste e me atingir por dentro, atingir o que está no âmago, e compreender. Isso é paradoxal, visto serem nossos sentimentos sempre tão intensos. Penso que me sinto assim mesmo andando em grupos como somos acostumados. O que será dos outros cainitas, que vagam sozinhos através das noites? Quão frios não serão seus pensamentos e corações desbotados, reflexos do que já foram outrora?
Nasci em um momento da história que me protege dessa desilusão. Por não ter conhecido plenamente a força das paixões humanas, não posso ansiar por coisas que não perdi. Meus anseios são outros. Não digo que sou incapaz de amar, pois você mesmo sabe que isso não é verdade. Amamos como os outros seres, porém com a mente. Não deixa de ser amor. É esse amor pelos que me são caros, e que tanto guia meus passos, que me faz lutar a cada dia mais ferozmente por um mundo em que possamos estar em paz, a salvo dos perigos que nos cercam. Não me iludo achando que isso será rápido ou fácil. Apenas sinto que não irei mais desistir, como pensei há alguns meses. Agora eu vou até o fim, seja ele qual for.
Como imaginar ser fácil um processo que envolve tantas coisas? Um Justicar enlouquecido, com uma duplicata passeando por aí, e não é um Justicar qualquer. É Anastaz Di Zagreb, o mago. Como se já não tivéssemos problemas suficientes. Todos os Tremere do Sabá mortos sob uma pedra embaixo de uma igreja no México. O Sabá enxameando pela costa leste, com planos violentos de expansão, em meio a suas renovações políticas. Os cultos da Gehenna, cujo suposto líder é o próprio justicar Tremere, que vem atentando contra a vida dos membros da Camarilla, passando por cima das leis que ele mesmo jurou proteger. As manipulações dos Toreadores na América do Sul. O descobrimento dos artefatos: primeiro o Olho de Hazimel, depois o relógio descoberto por Whitetaker, e posteriormente o artefato que causou aquela loucura no Brasil. A possibilidade de se descobrir a localização do fundador da casa Malkavian. A mera possibilidade de que ele existe. Os estranhos acontecimentos na Escócia: o povo dos sonhos, o diamante. A aparição daqueles seres estranhos em Mônaco, que você foi investigar. O antigo que despertou na ilha, e que está à solta em New Jersey, o inimigo dos Giovanni, matando nossos batedores. A presença de Setitas na cidade... De Setitas que, como Hesha, parecem ter um conhecimento muito grande de alguns dos artefatos mencionados, maior até do que os nossos... E parece ter interesse neles. Na verdade, todos parecem ter interesse neles: metamorfos, magos, cainitas. O que não dizer das sociedades ocultistas humanas? Pergunto-me que papel esses itens possuem neste momento de nossa história. E não devo ser a única.
Mas divago. Existem tantos pensamentos na mente que ainda não desenvolvi, apenas estou citando aleatoriamente aqueles dos quais me recordo, as situações nas quais me encontro mais profundamente envolvida. São estas coisas que povoam meu dia-a-dia, as renovações que vêm ocorrendo em nossos destinos.
Ao menos parei de ter tantos pesadelos. Eles sempre foram uma surpresa para mim, sempre ouvi dizer que vampiros não sonhavam, e quando meus pesadelos começaram eles não se pareciam exatamente como pesadelos. Eles pareciam reais, como coisas que aconteciam de verdade em minha mente, ou como algo que era produzido por forças externas. Até hoje faço indagações a respeito deles. O encapuzado dos meus sonhos queria algo de mim, uma vez ele deixou isso bem claro. Até hoje me pergunto. Acho que poderia ser a espada, mas na época eu já havia me desfeito dela. Pensei se não era o seu antigo dono – o Tremere dos nossos velhos tempos da guerra civil. Se não foi ele quem entrou em meu refúgio e fez rituais sobre os quais até hoje eu não sei nada. Talvez ele tenha descoberto que ela já não me pertence mais e tenha me deixado em paz. Ou talvez não.
De qualquer sorte, acho que o fato de ter realizado a união do sangue me deixa mais tranqüila com relação ao tipo de influência que outros cainitas ou mesmo seres diferentes possam ter sobre mim. Meu maior medo sempre foi ser obrigada a fazer algo contra vocês. Isso justifica minha atual felicidade, coisa que não sentia há muito tempo, uma espécie de confiança no futuro ao lado de vocês que antes não sentia. Será que pode me entender William? O quão importante são para mim? Imagino que sim.
Sangue. A fonte de tudo. A fonte de nossos sentimentos, de nossos laços, de nossas amizades, de nossa paixão e ódio. Sangue me lembra ainda a questão dos Assamitas. Acredito que não temos problemas pessoais com eles. Mas o complicado é que eles parecem ter conosco. Acredito que o fato de uma dissidência do clã ter se juntado a nós – ou ao menos ter expressado esse desejo – acirrará esta secular batalha. Não farei muitos comentários sobre isso. Muitas coisas ainda têm que acontecer. Apenas espero todas as noites não acordar sem cabeça devido ao laço de um garrote.
Não que isso fosse desagradar completamente a todos. Conheço uma pilha de Toreadores que ficaria muito contente. Isso me levanta outra questão. Até quando eles ficarão impunes? Até quando escaparão de todas as investigações sobre as suspeitas que pairam sobre eles? Se eu pudesse abraçar um objetivo na vida, acredito que seria esse: desmascarar essa corja perfumada vestida em seda e cetim, com seus sorrisos falsos, suas piadas e ironias, suas ambições mesquinhas. Afinal, que raios François estava fazendo para que o sabá tivesse tanto interesse em retirá-lo das mãos dos magos? A ponto de eles mechantagearem para conseguir a libertação dele e sua entrega para a seita? Não faz sentido. Por que justo a mim? Alguém que desejaria vê-lo pelas costas? Não encaixa. Simplesmente não encaixa. Madame Guil. François. Worchester. Que segredos escondem de nós, que tramas? Muito conveniente e coincidente sua captura na América do Sul estar associada a um cainita da mesma linhagem. Muito apropriado.
Muito apropriado também o mesmo ter ligações com a seita da Gehenna. Que nos leva de volta a Di Zagreb. Quanto mais penso sobre tudo que tem acontecido, mais visualizo uma enorme teia de aranha tecida para nos enredar, em meio à qual a grande aranha devoradora aguarda, em silêncio, o momento de nos devorar. Se depender de mim, destruirei cada teia a ferro e fogo, cada ângulo, cada ponto de interligação, até que tudo desmorone e só sobrem as cinzas. Nem que sejam as minhas. Mas realmente, o Toreador tinha que estar maluco para fazer o que fez. Ligações com a inquisição? Artefato de um antediluviano? E pior: Malkav? Dormirá realmente o fundador do clã sob a cidade de Salvador? Perguntas, perguntas. Tantas perguntas sem respostas.
Está próximo o fim do mundo, a Gehenna? O julgamento da nossa raça? Talvez. Mas sabe o que acredito? Que o que está por vir realmente é o fim do mundo como o conhecemos. Cheiro no ar grandes mudanças. Elas já estão acontecendo... E temo pelos que se recusam a vê-las, que fecham os olhos, que viram as costas para as evidências, que se enclausuram em suas velhas casas e velhos pensamentos, que não dão espaço para o que há de vir. Temo que sejam engolfados pelo que há de vir.
Lembro-me das velhas palavras vagas, tão citadas ultimamente, do livro de Nod, sobre os Caitiff e sua participação nas mudanças, sobre o papel que hão de representar neste jogo, nesta partida de xadrez entre seres tão cheios de artimanhas que são nossos anciões. Nesta tempestade, temo por Mugambi, que aprendi a respeitar, e que tem estado tão presente nos últimos acontecimentos, sempre honrado, sempre leal. Será que seu papel é mesmo tão crucial assim? O quanto devemos protegê-lo? Será ele realmente instrumento de nosso castigo e destruição? Simplesmente não consigo acreditar nisso. Seria uma grande ironia ir ao chão pela mão de um companheiro. Mas se este é o destino, e ele possui uma visão, um propósito, não há como escapar.
Porque as coisas que têm que acontecer, acontecem. As pessoas que têm que nos acompanhar chegam até nós, como você e o Robin chegaram até seu senhor, como Robert, eu e Frederick chegamos até você, e depois o Miguel e agora o Thomas, como o Sebastian e a Jenny chegaram até mim, como Elizabeth chegou até o Robin. Como você e seu senhor chegaram ao Hans e ao Augustus. Como parece ser o destino de Robert se juntar ainda mais a nós no sangue. Tudo conectado numa cadeia de eventos que, juntos, fazem nossa história e nossa vida chegarem aonde chegaram. Somos fruto dessa cadeia, a ela devemos o que somos. Não fugirei ao que me está reservado; quando certas coisas chegam, por mais que você fuja, bem, elas simplesmente correm mais rápido.
Robert, Miguel, Sebastian, Jenny, Ember. Quer maior prova de que alguns estão destinados a nós? Como seres tão diferentes entre si e de nós conseguem formar um grupo tão harmonioso, com tantas coisas em comum, tantos interesses? E ao mesmo tempo fazer uma ponte entre os tempos? Robert, o mais velho, quase um de nós em idade, em crenças e em poder do sangue, mas ainda assim mais humano; Miguel, que infelizmente foi levado pelo redemoinho de nossa guerra, um ser de dois tempos, unindo a modernidade às antigas tradições; Sebastian, que se equilibra habilmente entre esses dois tempos, mais adaptável, como sempre foi, mesmo antes de se unir ao sangue; Jenny, que possui no coração nossa fúria porém está mais aliada aos tempos atuais, uma pessoa que como eu teve uma nova chance, e agora Thomas, que vive com a mente no tempo em que nós vivemos, e que por isso foi considerado insano... Thomas encontrou a paz entre nós; em meio a nós ele respira o ar dos tempos que não viveu mas que ainda assim estão com ele...
Há tantas coisas que ouvi falar que acontecerão; pergunto-me se elas ainda estão me aguardando mais para frente, em alguma esquina deserta, em um beco escuro, em uma casa abandonada, em um terreno baldio. Whitetaker disse que um dia eu me uniria a magos, metamorfos e seres de sonho para pedir a ele o relógio que está em sua possessão. Por que eu? Por meus contatos? Por ser de meu clã? O que quer dizer o relógio? Teria algo a ver com os Brujah “verdadeiros” e seu controle suposto do tempo? Eles existem de verdade? Alguma vez existiram? O que faríamos com isso? Mais perguntas, perguntas... Tantas coisas girando ao meu redor. A ligação com Jhonathan, e a previsão de que salvarei a vida dele, e que por isso ele salvou a minha na noite de um dos Elísios. É verdade? O que poderia ter acontecido comigo naquela noite? Será que vou saber algum dia? Gostaria de saber. Seria interessante pensar que ele tem essa possibilidade de mexer com o destino, ao mesmo tempo em que é assustador. Ou ele talvez seja apenas mais um instrumento utilizado para cumprir aquilo que está escrito. Alegre-se, Marian! Pensa minha mente. Estás viva, os seus estão em segurança, próximos a você, nada mais importa. O mundo toma conta de si mesmo. Ajude o quanto puder, e o resto se arruma sozinho.
Será? Quero muito poder acreditar.
Queria poder acreditar que as coisas pelas quais passei na Escócia têm relação com tudo isso, as coisas das quais não me lembro exatamente. Como se fosse um sonho do qual se tem apenas lembranças vagas. Um rei dos sonhos. Um lobisomem. Uma espada. Um diamante. Uma aliança. Uma promessa de reencontro. Símbolos, palavras. Tudo tão obscurecido. Onde isso se encaixa na teia, na minha própria teia de aranha? Sim, pois para alguns eu sou a aranha devoradora no centro da teia, e esses fatos são os ângulos e fios de minha própria trama, que está ligada com outras tramas, e assim, trama após trama, fio após fio, o mundo vai se interligando e se tecendo. Sim, conhecer Jhonathan foi útil, nem que tenha sido para desvendar essa estrutura do mundo em minha mente. Nada está isolado. E é nesses fios que ele mexe, puxa e torce para fazer o que faz, para ver o que vê. Pobre Jhonathan. Deve ser uma responsabilidade imensa. Deve ser por isso que ele está sempre de preto.
Porque, porque não me lembro das profecias que me apareceram em sonhos? De que me serve saber e não recordar? Poder ver a estrela vermelha, quando mais ninguém vê? Profetizar assim fica difícil. Já que os poderes resolveram me utilizar como mensageira, bem que podiam ser mais claros. Se estivesse me vendo neste momento, Will, poderias ver meu sorriso tolo, aquele que é tão raro. Neste momento ele está aqui. Acho que os momentos nos quais meu sorriso é mais sincero são aqueles em que estou com você e os outros, e quando rio de mim mesma. Às vezes não há alternativa a não ser rir de si mesmo.
Estou mais feliz, nesta tempestade, do que estive nos últimos anos, os anos da intriga. Sinto que estou fazendo algo que é importante. Tenho um novo lar, você tem uma espada que visualizei para você e que veio ao mundo pelo Miguel, e eu espero que ela lhe seja útil um dia. Nem que seja para lhe recordar dos meus sentimentos se algum dia surgir qualquer sombra de dúvida a respeito. Aquilo que tenho devido a você, Força, Honra e Lealdade, são coisas que não podem mais se apagar, em nome de nada nem de ninguém. Nem mesmo de minha Sobrevivência.
Tantas coisas ainda desejo fazer neste mundo... Tantas coisas a aprender, tantos caminhos a trilhar, todo um mundo de coisas invisíveis aos sentidos comuns, e isso é a ao mesmo tempo tão grandioso e tão assustador. Gostaria realmente de aprender a ajudar o Axel a defender a cidade que aprendi a amar, gostaria de aprender mais sobre o mundo que há dentro de mim e ao meu redor, sobre todos os pormenores e complexidades, ver mais lugares, ver mais gente, aproveitar que estamos o tempo inteiro escorregando entre as garras da morte e fazer valer esse tempo extra que barganhamos a cada dia de nossa existência. Compreender melhor meu sangue, meus poderes, nossa história, a glória de nossa raça, de seres que desafiam o tempo, seres destinados a ver e a mover o tempo.
É muito bom ter você por perto. É muito bom poder ser quem sou e o que sou.
Se estiver lendo esta carta, é porque desapareci ou tornei ao pó da terra sobre a qual andei por tantos anos. Enquanto não vir estas cinzas, não desista. Posso estar em qualquer lugar. Aqui ou em sonhos.
Com o maior amor que posso conceber,
Marian Stanford.
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