Dormir com o passado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Bem, espero que estes anos todos não tenham sido em vão… — murmurou. – Não me vou alongar muito. Como sabes, um dos noivos deve conviver na casa do outro na duração de três meses. A noiva é a última a cumprir este parâmetro, pois após o casamento vai ter que governar a casa do clã do seu marido.
Sim, pai… Eu já sei disso… Quer-me atormentar?, pensava, irritada, sem mostrar qualquer expressão facial.
O seu pai olhou-a fixamente à procura de uma resposta.
— Eu tenho a perfeita noção das minhas obrigações, pai. – respondeu.
— Se assim o é, vou-me retirar para que possas conviver um pouco com o teu predestinado…
Aida viu um sorriso de canto no rosto do seu pai que não lhe agradou nem um pouco. Levantou-se. Não era de boa educação receber um convidado sentada, ainda para mais o seu noivo. Arranjou mais uma vez não só o seu vestido, mas também o cabelo e aguardou.
Naquele momento sentiu-se tal e qual como o antigo ditado diz:
Quem espera, desespera.
E o seu desespero aumentou quando ouviu a voz dele e do seu pai à entrada da porta. Ela conhecia perfeitamente aquela voz. Já não a ouvia há três anos, mas pouco tinha mudado. E a última vez que a tinha ouvido, foi para receber as palavras que mais a magoaram. Sabia que no seu caso não poderia escolher o seu noivo, tal como ele não poderia escolher a sua parceira. Estavam já há séculos predestinados…
Os seus olhos arregalaram-se quando ele finalmente entrou. O cabelo negro, espesso, estava mais longo, caí-lhe sobre os ombros. A expressão nos seus olhos irritantemente verdes estava mais madura, mas também mais arrogante. Os seus ombros estavam mais largos, estava mais alto. Poderia dizer-se que estava um homem…
Mas como é que os meus olhos continuam a absorver tantos detalhes…?, perguntava-se a olhar o homem parado à sua frente.
Ficou sem reação. Não se mexeu. Só o olhou. Não pronunciou uma única palavra. Infelizmente, não se conseguiu recompor e odiou-se no momento.
— Que bom que é ver-te de novo. – saudou-a com um sorriso no rosto.
Cínico…, pensou.
— Quem me dera poder dizer-te o mesmo… — disse Aida.
Conseguiu finalmente recompor-se após ouvir o cinismo na voz dele. Lembrou-se de antigos acontecimentos e aí, a atitude que tinha planejado ter para com ele, finalmente se revelou.
— Ah, não digas isso! Águas passadas não movem moinhos! – falou como se estivesse feliz.
Ele não sentia o que dizia e Aida, melhor do que ninguém, sabia disso. No entanto, renegava tal conhecimento. Decidiu contra-atacar.
— Que bom que é assim. – Aida colocou um falso sorriso no rosto. – Sinto o mesmo. Bem, já que vamos conviver na minha casa – deu enfâse às suas últimas palavras. – agradecia que tivéssemos o menos contacto possível. – colocou-se ao seu lado. – Agora, se me dás licença…
Sabia que mal tocasse o manípulo da porta, o seu punho seria agarrado e toda a frieza que tinha planejado ter, desapareceria. Então aproveitou-se da sua rapidez felina e dirigiu-se para o seu quarto. Até o final do dia, não sairia de lá…
Durante os três meses em que a sua casa foi invadida, Aida pouco se cruzava com o seu pai ou com ele, mas ficava agradecida por isso. Por vezes, nem tanto. Havia certas manhãs em que olhava para o lado da cama vazio e sentia um aperto no peito. Pensava ele que nos três anos que tinham passado aquele sentimento que persistia percorrer as suas veias tinha sido apagado. Enganava-se…
Aqueles meses tinham passado lentamente… Para Aida, até demais… Chegou o dia em que teria que ser ela a invadir a casa dele e enfrentar novamente aquela família. Não se quis despedir do seu pai. Não queria ver aquela expressão de “Finalmente vou-me livrar de ti!” novamente no seu rosto. Dirigiu-se para a sua nova casa num táxi. Queria deixar toda a sua infância, toda a sua adolescência, todo o seu passado naquela casa. Mas como é que poderia fazê-lo se ele iria dormir ao seu lado? Preferiu nem refletir na pergunta. Nem tentou arranjar argumentos.
Chegada à sua futura casa, afastou todos os pensamentos que sobrevoavam a sua mente e preparou-se. Ficou feliz quando o mordomo disse, desculpando-se, que no momento não se encontrava ninguém em casa para a receber. Até suspirou de alívio… Se o Jovem Mestre nem os seus pais estavam presentes, isso só queria dizer uma coisa: estavam com o seu pai. Aida pôs-se a imaginar que tipo de conversa o seu pai poderia ter com ele e com os seus pais. Após alguns dos empregados lhe mostrarem os cantos da casa, Aida refugiou-se no que seria o seu quarto por somente três meses. Ao olhar minuciosamente o quarto deu conta que aquela mulher queria mesmo pô-la à prova. O quarto estava completamente desarrumado, poeirento.
Por isso o mordomo estava tão constrangido quando me deixou neste quarto…, concluiu.
Arrumou o quarto sem mais demoras. Quando a foram avisar de que todos já tinham chegado, pediu apenas que se desculpasse por ela, pois não se estava a sentir muito bem. Na realidade, não estava nada bem. O pó naquele quarto tinha feito com que todos os seus apurados sentidos ficassem um pouco perturbados. Aquela mulher podia ter vencido a batalha de há uns anos atrás, mas certamente não tinha vencido a guerra…
Ao terceiro dia da sua estadia naquela casa, ele fez algo que Aida nunca esperou da sua parte. Ele tinha a noção de que naqueles três meses quase nunca se cruzariam, então decidiu dirigir-se ao quarto dela todas as noites, após o jantar. Disse-lhe ele que dispensava bem o serão que sempre tinha com o seu pai e que preferia ter uma curta conversa com ela. Aida, simplesmente, não acreditou nas palavras que tinham passeado os seus ouvidos. Todos os dias a conversa que tinham durava cerca de meia hora. A única coisa que ele lhe perguntava era como tinha sido o seu dia. Aida relatava tudo o que tinha feito e como a mãe dele lhe queria arruinar a vida. E ele pedia sempre num tom que Aida há muito já tinha esquecido:
— Tem paciência…
Passados alguns dias, Aida atreveu-se a perguntar-lhe sobre o seu dia e a duração das conversas de ambos aumentou. Após muitas tentativas falhadas da parte dele de depositar um leve beijo na testa de Aida, esta permitiu finalmente que ele se despedisse dessa forma todas as noites. No final daqueles três meses, Aida apercebeu-se do que ele tinha tentado fazer. Aida tinha visto um lado dele de que se tinha esquecido há muito. E esqueceu-se devido àquele incidente. Tudo por causa daquele estúpido incidente… Durante aqueles meses, ele tinha tentado refazer a amizade entre eles que se tinha perdido e não só. Confiança. A confiança de que tanto ele sentia falta de ver no olhar de quem nunca tinha deixado de amar. Tinha sido estúpido… Tinha cometido um erro que sabia ser imperdoável. Perguntava-se como é que Aida conseguia conviver com ele, conversar, rir até. Apesar do seu esforço, já não tinha esperanças. Essas tinham-se desvanecido quando o seu pai lhe disse que não a poderia ver até ser necessário cumprir os parâmetros do matrimónio. Embora já tivesse a maioridade perante a lei, nos clãs as leis eram muito diferentes. Só estavam livres e poderiam mandar na sua vida quando casassem. Mesmo assim, ele não se perdoava por nem ao menos ter escapado de casa por umas horas para se desculpar.
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