Dormindo com o Inimigo

6 Relembrando o Passado


Notas iniciais
Olá! Adivinhem quem ressuscitou das cinzas? Eu mesma! Minna-san, mil desculpas pela demora em postar o capítulo. Nunca mais eu vou dizer que não vou demorar tanto pra postar o próximo, porque isso não está funcionando kkkkkkkkkkkkkk Mas prometo muitas emoções nesse capítulo, principalmente no final. O capítulo ficou meio grandinho, espero que não se importem. Boa leitura!

Haruka e Otoya ensaiaram até a hora do jantar, mas mesmo assim a música estava longe de estar pronta. Preocupados, eles decidiram que primeiro jantariam e depois resolveriam o que iriam fazer.

À mesa do jantar, todos riam e conversavam descontraidamente, brincando uns com os outros e se divertindo. Mas Otoya não entrou na brincadeira. Na verdade, ele nem prestava atenção ao que diziam, apenas murmurava uma resposta ou outra quando alguém se dirigia à ele.

Se lembrar daquele dia o havia deixado deprimido, e para não descontar nos amigos, sentou-se um pouco mais afastado deles, sob a desculpa de que iria continuar com o trabalho após o jantar e não queria perder a concentração.

Havia uma cadeira vaga entre ele e Ai, e quando Tokiya se sentou ali todos o olharam, espantados.

– O que está fazendo aqui? Você nunca janta com a gente.

Perguntou o bluenette, franzindo as sobrancelhas.

– Ah, os meus amigos estão particularmente chatos hoje...

– Só hoje? – Comentou Masato, fazendo todos rirem. Mas Tokiya não deu bola e continuou.

– ... Então eu resolvi vir fazer companhia pra vocês, pra variar. Mas se estiver incomodando eu saio.

Disse inocentemente.

Ren olhou para Otoya.

– Tudo bem pra você, Otoya? Senão a gente bota ele pra correr.

Mas Otoya não prestava atenção à conversa, na verdade nem tinha percebido que Tokiya estava sentado ao seu lado, só reagiu quando ouviu seu nome ser pronunciado.

– Hã? Botar quem pra correr?

Só então que ele percebeu o Ichinose ao seu lado, mas para espanto de todos, ele nem ligou.

– Ah, oi Tokiya. Tudo bem, gente. Deixa ele aí.

Todos eles se entreolharam, atônitos, e Reiji fez o gesto tão conhecido entre eles que indicava reunião de grupo. Imediatamente cadeiras se arrastaram e todos se levantaram, achegando-se mais perto uns dos outros e se abraçando pelos ombros, fazendo uma grande roda por cima da mesa.

Syo: — “Oi, Tokiya”?

Masato: — Como assim?

Cecil: — Ele nem corou!

Ranmaru: — Ele nem surtou!

Natsuki: — Ele não parece bem.

Reiji: — O que será que aconteceu?

Ai: — Alguém tem que perguntar.

Camus: — Quem?

Silêncio...

Reiji: — Ran-Ran, vai você.

Ranmaru: — Por que eu?

Syo: — Essa sua cara medonha vai fazer ele falar rapidinho. Há-há-há!

Todos: — Dããã!!

Syo: — Tsk. Vocês não sabem brincar!

Ren: — Cecil, vai você.

Natsuki: — Quando você for levar o jantar do Hayato você pode chamar ele pra ir com você.

Cecil: — Ok!

Ao término da reunião, todos voltaram aos seus lugares. Tokiya olhava para eles com uma sobrancelha erguida.

– “Fala sério, eles ainda fazem isso?”

Mas ele sabia muito bem o assunto da “reunião”. Na verdade, tinha sido por esse mesmo motivo que ele tinha ido até ali, ao invés de ficar com seus amigos. Ele se negava a admitir, mas estava preocupado com Otoya. A cena que presenciara mais cedo não saía de sua cabeça.

Como o ruivo parecia completamente alheio à sua presença, ele se dirigiu à Haruka, que sentava à frente de Otoya.

– Você também é nova, não é?

A menina arregalou os olhos e quase se engasgou ao perceber que Tokiya falava com ela. Ela sabia muito bem que era ele que Otoya não queria que ela conhecesse, porque ele poderia ser grosso com ela.

– S-sim. Sou Haruka Nanami, muito prazer.

Mesmo com medo, decidiu ser simpática com ele. Mas podia jurar que ao dizer “muito prazer”, uma faísca saiu de seus olhos semicerrados.

– Tokiya Ichinose. O prazer é meu.

Ele podia sentir qualquer coisa, menos “prazer” em conhecê-la, e isso ela pode ver muito bem. Apesar de sorrir por fora, seus olhos pareciam dizer “O que você ainda está fazendo aqui? Suma!”.

Ela não era burra, tinha percebido o quanto Otoya ficara enciumado durante a aula de dança, e apostava qualquer coisa que Tokiya estava sentindo ciúmes dela por ter dançado com Otoya.

Decidindo prezar por sua integridade física, ela terminou o jantar rapidamente e se levantou, dirigindo-se à Otoya.

– Ittoki-kun, eu vou para o meu quarto, tentar terminar a música, está bem?

– Ah, tudo bem. Qualquer coisa eu te mando uma mensagem.

Nanami sentiu um calafrio com o olhar gélido de Tokiya sobre ela quando Otoya mencionou que pegara o seu número de telefone. Ela saiu rapidamente.

– Já estão trocando números de telefone?

Perguntou acidamente ao ruivo, que o olhou com incredulidade, não percebendo o que acabara de ocorrer ali.

– O que que tem? Ela é minha parceira nas aulas de música e nós temos um trabalho importante para entregar amanhã. Por falar nisso, estou avisando já que se você quiser dormir vá para outro quarto, eu vou ficar quase a noite toda ensaiando a minha música.

O ruivo se levantou de súbito ao terminar de falar, mas sentou-se novamente ao pensar em um motivo razoável para a pergunta indiscreta do Ichinose. O olhou com divertimento e disse em tom baixo, apenas para o moreno escutar.

– Não me diga que ficou com C-I-Ú-M-E?

Ele riu alto com o olhar mortal que Tokiya lhe lançou. Irritado, o Ichinose pegou sua bandeja e saiu sem dizer uma palavra.

– Ei, não precisa fugir! Era brincadeira!

– Suas brincadeiras não têm graça nenhuma!

Disse, sem se virar e sentando-se em outra mesa, solitário.

Os demais presenciaram, sem entender, a pequena discussão dos dois. Percebendo que Otoya poderia sair da mesa a qualquer momento, olharam inquisidores para Cecil, que entendeu o recado.

– Otoya, eu vou levar o jantar do Hayato. Vem comigo?

– Claro.

Assim que a refeição do amigo estava pronta, eles se dirigiram para o quarto. Ao olhar para trás, Cecil recebeu vários sinais de “positivo”, afim de encorajá-lo.

oOo

O parque de diversões estava lotado. Famílias felizes passeavam com suas crianças que olhavam atentas à todas as novidades, chamando a atenção dos pais por qualquer coisa sem importância. Dentre essas várias famílias, uma se destacava. Mas engana-se quem pensa que esse destaque era devido à imensa alegria do casal de levar seus filhos para passear, mas sim pela falta dela.

O casal ia atrás, o pai, de cara fechada, mostrava todo o seu descontentamento por estar em um lugar daqueles quando tinha tantas outras coisas importantes para fazer. A mãe, de semblante sério, visivelmente aborrecida com o marido por este não aproveitar os poucos momentos que passava em companhia dos filhos.

Os filhos gêmeos, de apenas 5 anos, corriam na frente. O mais novo, completamente alheio ao humor dos pais, corria alegremente de brinquedo em brinquedo, puxando o mais velho pela mão. A cada vez que algum lhe chamava atenção, olhava para o mesmo com os olhinhos brilhando e dizia, eufórico.

– Nii-san! Nii-san! Vamos nesse?

O mais velho, por sua vez, apenas sorria e acompanhava o irmão de bom grado. Mas, diferentemente de seu irmãozinho, ele percebia o descontentamento dos pais. Na verdade, sabia exatamente o motivo.

Ele sabia que o pai não era do tipo que largava o que tinha para fazer simplesmente para desfrutar da companhia de seus filhos, mas quando o irmãozinho lhe dissera, um dia antes, que tinha vontade de ir à um parque de diversões, não pensou duas vezes em pedir para que os pais os levassem. Viu a contrariedade nos olhos do pai quando a mãe lhe respondeu que sim, que ela e seu pai os levariam na tarde do outro dia.

Mesmo que o pai tenha ficado aborrecido, ele não ligava. Tudo o que importava para ele era o sorriso do seu otouto, pois assim como todos os irmãos gêmeos, eles eram muito ligados e a alegria de um era ver um sorriso na face do outro.

Sabia que o pai preferia estar trabalhando neste momento do que passeando com eles, e o fato de seu progenitor sequer tentar esconder isso o entristecia. Mas nada o entristeceu mais do que a cena que as duas crianças presenciaram durante o lanche.

– Quanto tempo mais vocês vão me fazer perder aqui nesse lugar?

Reclamou o homem, visivelmente irritado. Os pequenos se olharam assustados pelo tom ríspido do pai, o mais novo sem entender o motivo de tanta irritação.

– Querido! Não fale assim na frente das crianças!

Repreendeu a mãe, lançando ao marido seu melhor olhar reprovador.

– Dane-se se eles ouvirem! Eu estou de saco cheio de você ficar mimando esses moleques! Nós já conversamos sobre isso, você não pode fazer tudo que eles querem!

– Eu não faço tudo que eles querem! Eu imponho limites à eles!

– Claro que sim! – Debochou. – Foi só o Tokiya vir com essa história de parque de diversões que você já foi logo fazendo a vontade dele.

Ele olhou acusadoramente para o mais velho, como se tudo isso fosse culpa dele.

– É claro! Se eu não fizesse isso eles sequer veriam a sua cara hoje! Quanto tempo faz que você não sai com eles? É tão difícil pra você passar um pouco de tempo com seus filhos?

Eles aumentavam cada vez mais o tom de voz, chamando mais atenção para si. Os meninos olhavam assustados de um para outro, os sanduíches pela metade esquecidos em seus pratos.

O pai tomou fôlego para falar novamente, mas foi cortado pela esposa.

– Você não percebe que eles querem a sua atenção também?

– PAREM DE BRIGAR!!!!

Todos olharam assustados para o menino mais novo, que já escondia o rosto nas mãos e começava a soluçar. Os dois adultos de arrependeram por terem dito tudo aquilo na frente dos filhos, a mãe mais que o pai.

– Hayato... Desculpa, meu amor. A mamãe não queria brigar com o papai.

Ela se inclinou e pegou o filho mais novo no colo. O menino agarrou sua camiseta e escondeu o rosto em seu peito, chorando mais alto. A mãe olhava raivosa para o marido, por culpa de sua ignorância seu pequeno agora estava chorando.

Quando a criança se acalmou, a mulher o colocou no chão e olhou para o filho mais velho.

– Tokiya, querido, vai ali naquela barraca comprar um doce pra vocês?

– Vocês vão continuar brigando?

Perguntou Tokiya sem rodeios.

– N-não! Claro que não! Nós só vamos conversar, ok?

O menino assentiu e ela lhe deu algumas moedas.

– Vamos, otouto.

Segurou na mãozinha de seu irmão e o guiou até a barraca de doces e cada um escolheu um.

– Nii-san?

– Hum?

– Por que eles brigaram?

O mais velho abaixou os olhos. Estava irritado, decepcionado e magoado, e talvez num dia normal jamais daria essa resposta para o seu irmãozinho. Mas hoje não era um dia normal.

– O papai não gosta da gente.

O mais novo arregalou os olhos e novas lágrimas brotaram em seus olhos. Nesse momento, a mãe se aproximou deles.

– Já compraram os doces? Nós estamos indo embora.

Ao ver a mãe, Hayato correu para os seus braços e ela lhe segurou no colo.

– Querido, por que está chorando? Já está tudo bem.

– Por que o papai não gosta da gente?

Ela olhou assustada para o menino, em seguida para Tokiya.

– O que você disse a ele?

– A verdade.

– Tokiya! V-

– Por que estão demorando? Vamos embora logo!

Reclamou o pai, com a voz irritada. A mãe não disse mais nada, apenas olhou para o filho mais velho com aquele olhar “Nós vamos conversar quando chegarmos em casa.”.

Mal sabiam eles que essa conversa nunca aconteceria.

Hayato abriu os olhos assustado e fechou-os logo em seguida ao sentir a terrível dor de cabeça. Gemeu e levou as mãos às laterais, apertando os olhos quando a dor vinha em ondas mais fortes.

Quando esta dissipou um pouco, ele abriu os olhos novamente.

Estava em seu quarto, deitado em sua cama. Cecil devia tê-lo trazido. Pela escuridão do quarto, constatou que já era noite. Tentou se sentar na cama, mas sentia-se tonto e enjoado, efeitos colaterais de seu remédio. Mas ele não ligava mais, as dores já faziam parte de sua rotina.

Deitou-se novamente, recordando seu sonho. Acontecera há tantos anos atrás, mas toda vez que sonhava com esse dia acordava com os olhos úmidos. Dessa vez não era diferente.

Uma lágrima solitária caiu no travesseiro ao se recordar de como Tokiya era diferente com ele quando eram crianças. Era carinhoso e gentil, sempre fazia tudo o que ele queria. Cuidava dele, o alegrava quando estava triste. Era o irmão mais velho perfeito.

Sentia falta daquele Tokiya, que sabia sorrir e divertir as pessoas, que passava mais tempo com ele, que brincava com ele.

Frustrado, enxugou as lágrimas.

– Chorar não vai trazer o antigo Tokiya de volta. Preciso parar de ter esses sonhos.

Se desligando momentaneamente do passado, tentou lembrar o que aconteceu mais cedo. Conseguiu sem muito esforço.

– Oh, droga! Eu desmaiei na frente de todo mundo.

Tivera tanto cuidado para que os amigos pensassem que seu problema não era tão grave quanto realmente era, e agora estava tudo perdido.

Como sempre acontecia quando tinha uma crise, um sentimento de inutilidade se apossou dele, pois nesse estado, sequer podia descer para jantar. Dependia de Cecil até para conseguir se alimentar. Imaginava que daqui a pouco o amigo traria sua refeição.

Como se adivinhasse que Hayato pensava nele, Cecil entrou com uma bandeja de comida em mãos.

– Oi, adivinha quem veio te visitar?

Ele olhou ansiosamente para a porta. Quem teria se dado o trabalho de ir até lá na hora do jantar? Surpreso, viu Otoya entrar timidamente no quarto e abriu um grande sorriso.

– Ittoki-kun! Que visita agradável!

– Como você está, Ichinose-san?

Ele deu de ombros enquanto Cecil colocava a bandeja na cama.

– Isso aqui não é nada. Já estive pior, acredite.

Ele arrumou o guardanapo e comeu com vontade, parando apenas enquanto falava.

– Obrigado por me visitar, Ittoki-kun. Estou realmente feliz.

– Por favor, me chame de Otoya.

Pediu o ruivo, sentando-se na cama de Cecil, sendo imitado pelo mesmo.

– Ok. E você pode me chamar de Hayato.

Ele olhou sério para Cecil.

– O pessoal perguntou alguma coisa?

– Você deu um grande susto em todo mundo, o que você acha?

Hayato fez uma careta.

– Isso não é bom. Quer dizer que vão me encher de perguntas depois.

Cecil deu um sorrisinho divertido.

– Eu acho que não. Quando você estava na enfermaria, o Tokiya pediu para o Reiji dizer a todos que não te perguntassem nada, que seria pior.

Hayato suspirou aliviado e mandou um agradecimento mental ao irmão.

– Tokiya pediu pra te falar que ele ligou para o seu pai, para avisá-lo sobre você.

À menção de seu pai, Hayato recordou-se de seu sonho e fechou a acara, desgostoso.

– Não tinha necessidade. Não entendo porque o Tokiya faz essas coisas, se é ele que fica reclamando depois.

Otoya não estava entendendo nada daquela conversa, então resolveu se meter no assunto.

– Do que o Tokiya reclama?

Cecil deixou que Hayato respondesse.

– É que toda vez que ele liga pra casa pra contar que eu passei mal, ele vem me visitar.

O ruivo continuou sem entender. Ao ver que sua explicação não tinha sido suficiente, Hayato continuou.

– Tokiya não se dá bem com o nosso pai.

Uma luz de compreensão brilhou nos olhos do Ittoki. Mas então uma nova dúvida lhe surgiu.

– Por quê?

Ao proferir a dúvida, percebeu que estava sendo indiscreto e disse, sem jeito.

– Desculpa, eu não quis ser intrometido. Não é da minha conta, afinal.

– Tudo bem.

Ele disse apenas.

Um silêncio constrangedor caiu sobre o quarto, e Cecil aproveitou-o para tentar descobrir o que afligia o ruivo.

– O que aconteceu, Otoya?

Perguntou diretamente.

– Nada, por quê?

Otoya devolveu a pergunta, fingindo surpresa.

– É que você está diferente hoje. Parece cabisbaixo. Nem se importou quando Tokiya sentou do seu lado.

– Eu disse antes, não queria perder a concentração, só isso.

Cecil olhou com ceticismo para ele.

– É sério, Cecil. Não é nada.

O ruivo insistiu.

– O Tokiya jantou com vocês?

Perguntou Hayato, entranhando a atitude do irmão.

– Sim. Sentou do lado do Otoya e ele nem ligou!

Hayato olhou interrogativamente para ele.

– E por que ele deveria ligar?

Cecil olhou-o com uma mistura de surpresa e divertimento.

– Você nunca percebeu!?

– Percebi o quê?

– Cecil, não...!

Implorou Otoya, percebendo o rumo que a conversa tomara. Mas o indiano fingiu que não ouviu sua súplica.

– O Otoya é apaixonado pelo Tokiya.

Otoya teria achado a expressão de Hayato muito engraçada, se não estivesse morrendo de vergonha. O Ichinose o olhava com descrença, e Otoya imaginou que ele estava achando-o um louco por amar alguém tão antissocial como Tokiya.

– Você gosta do meu irmão?

Essa simples pergunta confirmou as suspeitas do ruivo. Sim, Hayato achava-o um louco.

– Não é um simples gostar. Otoya ama, venera, idolatra o seu irmão.

Respondeu o indiano, fazendo o ruivo ficar mais envergonhado ainda. Os dois amigos caíram na gargalhada com a vergonha de Otoya, que nesse momento queria cavar um buraco no chão e se esconder.

Sem jeito, ele se levantou e apontou para a porta do banheiro.

– Gente, eu vou ali no banheiro me matar e já volto, tá?

Aos poucos, os outros dois pararam de rir e Cecil segurou o braço de Otoya, impedindo-o de se afastar.

– Calma aí, não precisa fugir. Nós vamos parar de tirar sarro de você, está bem?

O ruivo assentiu e se sentou na cama novamente, sendo abraçado pelo ombro por Cecil. Otoya o olhou de lado.

– Se vocês começarem a rir de novo, eu vou quebrar a sua cara.

– Há, há, há! Está bem, nós não vamos rir, né, Hayato?

– Pelo menos não enquanto você estiver aqui.

O ruivo estreitou os olhos e Hayato ergueu as mãos em frente ao corpo, em defesa.

– Calma aí, cara, é brincadeira.

– Vocês estão muito engraçadinhos hoje.

Comentou o ruivo. Os outros dois riram novamente, mas ao receber um olhar mortal do ruivo, pararam imediatamente. Hayato voltou a comer e Cecil, ainda abraçando seus ombros, olhou para o outro lado, assobiando baixinho.

Apesar de aparentar calma, Cecil estava frustrado, já fazia muito tempo que estavam ali e ainda não tinha conseguido fazer o amigo desabafar seus problemas. Mas ele era seu amigo, e não ia desistir de tentar ajudá-lo.

O cérebro de Cecil trabalhava a mil, tentando achar algum jeito de encontrar a misteriosa ferida. Já sabia que não se tratava de Tokiya, pois ele agira dentro do esperado sobre o assunto. Teria que voltar no tempo e falar de todos os assuntos possíveis para ver qual mexia mais com ele. Só esperava sair dali ileso, pois com o humor do Ittoki não sabia se era seguro tocar em alguns assuntos.

– Ei Otoya, lembra de quando éramos adolescentes?

Otoya estranhou Cecil ter levantado aquele assunto naquele momento. Hayato também olhou-o, curioso, e Cecil fez um gesto quase imperceptível com a mão, pedindo para que ele ficasse quieto. O Ichinose obedeceu.

– Se lembro! Mas por que isso agora?

– Lembra que nós éramos grudados como irmãos?

Otoya sorriu nostálgico.

– Você me chamava de onii-san...

Lembrou-se o ruivo.

– É! E lembra que nós não tínhamos segredos um com o outro? Contávamos tudo um para o outro.

Cecil percebeu o olhar de culpa nos olhos do amigo. Otoya com certeza tinha um segredo. Mas ele fingiu que não viu e continuou.

– Lembra também das tardes que passávamos na sua casa? Tocávamos até o anoitecer. Ou até aquele nojento do seu padrasto chegar.

O desconforto de Otoya foi visível e Cecil percebeu que era isso que o incomodava. Algo relacionado a seu padrasto.

– Eu tinha tanta raiva dele! Lembra aquela vez que ele achou que eu também era gay só por que era seu amigo?

Ele sentiu Otoya retesar o corpo, e se preparou psicologicamente para receber um soco a qualquer momento.

– E a sua mãe! Lembra da bronca que ela deu nele nesse dia? Foi o máximo! A sua mãe era demais, era tão-

– PARA!!

Cecil afastou-se devagar, finalmente tinha conseguido fazer com que ele explodisse.

Otoya tampava os ouvidos, não querendo mais ouvir o que o outro dizia. Não queria mais relembrar aqueles dias, nem de seu padrasto, nem de sua mãe, nem de ninguém. Só queria ficar em paz, era tão difícil para Cecil entender isso?

Mas em meio a seus pensamentos, não chegou a perceber quando as lágrimas começaram a cair em seu rosto novamente. Quando percebeu, apenas dobrou as pernas e escondeu o rosto em seus joelhos, soluçando audivelmente.

Os outros dois o olhavam espantados com o choro repentino do ruivo. Cecil esperava que ele fosse explodir, não que fosse desabar desse jeito. Silenciosamente, sentou do seu lado e abraçou-o pelos ombros gentilmente. Para sua surpresa, Otoya desfez-se de sua posição e abraçou-o de volta, enterrando o rosto em seu peito, chorando copiosamente.

Hayato apenas assistia à cena, sem saber o que fazer. Mal conhecia Otoya e se sentia um pouco desconfortável em estar ali. Então apenas ficou quieto, fazendo de conta que não estava presente.

Muito tempo se passou, e os braços de Cecil já estavam ficando dormentes quando o choro de Otoya finalmente cessou. O ruivo ainda ficou algum tempo abraçado ao amigo, em silêncio, apenas suspirando ocasionalmente. Quando se afastou, seu rosto e olhos estavam muito vermelhos e manchados pelas lágrimas. Ao ver a camisa de Cecil molhada na altura do peito, olhou-o sem jeito.

– D-desculpe por isso...

Disse enxugando o rosto e os olhos. Sentia-se muito melhor agora, mais leve e menos mal-humorado.

– Otoya...

– Eu vou contar.

Declarou, para a surpresa dos dois. Estava cansado, fisicamente e psicologicamente, e sentia que ia enlouquecer se não desabafasse.

– Hayato, promete que não conta pra ninguém?

– Pode confiar em mim.

Otoya suspirou e Cecil ajeitou-se na cama, preparando-se para ouvir atentamente.

oOo

Na mesa do refeitório, os outros já estavam ficando impacientes com a demora de Cecil.

– Já faz horas que eles estão lá e nada.

Reclamou Syo.

– Quanta impaciência, chibi*.

Provocou Ai, sabendo o quanto o apelido irritava o menor.

– Chibi é sua vó! Para de me chamar assim.

– Não posso fazer nada se você é baixinho.

– Eu não sou baixinho!!

Gritou o Kurusu, fazendo os amigos rirem.

– Syo, admita, você sempre vai ser o baixinho do grupo, não importa o que você faça.

Concordou Ranmaru, recebendo um chute de Reiji por debaixo da mesa.

– Ai!!

– O que foi?

Perguntou Camus.

– O Reiji me chutou.

– Reiji, por que você chutou ele?

Reiji, que sentava ao lado de Syo, esticou o braço e deu alguns tapinhas em suas costas.

– Porque ele fica desanimando o Syo. Só porque ele está condenado a ser praticamente um anão o resto da vida não quer dizer que vocês precisam ficar lembrando disso o tempo todo, e- argh!

Ele foi interrompido por um soco forte na cabeça dado por Syo, que tinha uma veia saltada em sua testa.

– Você tá me defendendo ou concordando com ele, idiota?

Eles continuaram a conversar e brincar uns com os outros, até que Tokiya novamente se aproxima da mesa deles.

– Era bom demais pra ser verdade.

Resmungou Ranmaru, ao ver o colega se aproximando.

– Cadê o Cecil?

Perguntou Tokiya, sem se sentar.

– Ele foi levar o jantar do Hayato.

Quem respondeu foi Reiji. Tokiya assentiu, agradecendo mentalmente ao Aijima por cuidar de seu irmão. Sem dizer mais nada, ele dá as costas ao demais e se afasta.

– Hã, Tokiya o...

Mas o Ichinose não dá atenção para o que quer que fosse que Reiji ia dizer.

– ...Otoya também está lá...

Ele continua baixinho, somente para ele.

oOo

Cecil e Hayato estavam em choque. Cecil, por conhecer Otoya há mais tempo do que Hayato, se sentia mais indignado pelo que acabara de saber. Nem em mil anos poderia imaginar que o amigo passara por tudo aquilo.

– Otoya... eu sinto muito...

Otoya apenas baixou o olhar.

– Por favor, não contem pra ninguém... Não quero que sintam pena de mim.

– Pode confiar em nós, seu segredo está seguro conosco.

Prometeu Cecil, olhando para Hayato, que confirmou com um aceno de cabeça.

Os três se assustam quando a porta se abre de repente. Tokiya entra e se espanta ao ver Otoya ali, com o rosto marcado de lágrimas novamente. Mas ao olhar atentamente, percebe que não era só ele, seu irmão e Cecil também tinham lágrimas nos olhos.

O que será que tinha acontecido, ele se perguntou. Sentiu-se estranho ao ver Otoya chorando novamente, não era normal o ruivo demonstrar sentimentalismo na frente dos outros. Mas tratou de esconder seus próprios sentimentos, adotando sua postura arrogante de sempre.

– Nossa, morreu alguém?

Cecil e Hayato olharam instintivamente para Otoya, que já havia se livrado de sua melancolia e adquirido seu mau-humor de antes, emanando agora uma aura assassina.

– Ainda não.

Respondeu simplesmente. Os olhos de ambos se encontraram, e eles ficaram se encarando por um longo tempo, até que Otoya quebrou o contato visual.

– Pessoal, eu preciso descansar. Até amanhã.

Os outros dois se despediram e quando Otoya saiu, Cecil olhou fulminantemente para Tokiya.

– Eu não sabia que ele estava aqui.

Justificou o Ichinose, antes que começassem as acusações. Cecil suavizou o olhar ao perceber que o outro estava sendo sincero.

– Como você está, Hayato?

Perguntou ao irmão mais novo, sem sair de seu lugar ao lado da porta.

– Bem. Por que você ligou pro nosso pai?

– Pro seu pai? – Hayato revirou os olhos. – Porque é minha obrigação avisar a ele dessas coisas, mesmo que eu não goste.

Hayato suspirou. Não entendia qual era a birra de Tokiya com o pai deles, e achava que essa atitude de Tokiya de não considerá-lo mais seu pai era muito infantil.

– Até quando você vai continuar com isso?

– Até ele parar de... Bem, não importa.

Ele se virou para sair, com essa confusão tinha até esquecido o que queria falar com Cecil. Mas hesitou ao pegar a maçaneta. Se virou novamente e fitou o indiano.

– Cecil, o que houve com o Otoya?

Este foi pego de surpresa pela pergunta do Ichinose.

– Por que você quer saber?

Perguntou desconfiado.

– Eu...

Tokiya se perguntou se deveria mesmo contar à Cecil o que vira à tarde. Talvez não fosse uma boa ideia, este não acreditaria que ele não tinha intenção de ferir Otoya dessa vez.

– ...não é nada. Deixa pra lá.

Ele se virou novamente e saiu, sem hesitar dessa vez.

oOo

Pov Tokiya On

Se antes eu estava me sentindo afetado pelo que vira à tarde, agora eu sentia como se algo comprimisse meu coração. Era perceptível que algo estava errado com Otoya e, querendo ou não, eu estava sim preocupado com ele. Eu o conhecia a tempo suficiente para saber que não era normal vê-lo chorando duas vezes no mesmo dia.

Entrei silenciosamente no quarto, pensando que Otoya já estivesse dormindo, mas me enganei. Ele estava sentado na cama, de costas para a porta, dedilhando seu violão.

A melodia que ele tocava era animada, o que com certeza não se encaixava em seu estado de espírito. Sua postura indicava claramente seu desânimo, e seu corpo parecia emanar uma grande tristeza.

Não sabia o que fazer. Eu deveria tentar confortá-lo? Mas como? Eu sequer sabia o que estava acontecendo com ele. Mas sentia que devia tentar fazê-lo se sentir melhor, então tentei puxar conversa com ele.

– É a música para o seu trabalho?

Nunca, nunca na sua vida tente falar com uma pessoa que não sabe que você o observa. Conselho de amigo.

Otoya se assustou tanto comigo que puxou a corda do instrumento com força, fazendo a mesma se arrebentar e ricochetear em seus dedos, fazendo-o dar um grito de dor. Segurando os dedos feridos, ele olhou para mim com os olhos arregalados e a respiração entrecortada pelo susto. Ok, não foi uma boa tentativa de puxar conversa, eu admito.

– Tokiya!! Quer me matar de susto!?

– D-desculpa! Eu devia ter avisado que estava aqui.

Otoya deixou o violão em cima da cama e foi até o banheiro.

– Está me seguindo, por acaso?

Questionou aborrecido, enquanto lavava e fazia um pequeno curativo em seus cortes. Ergui uma sobrancelha, resignado. Eu, seguindo ele? Até parece!

– Esse quarto também é meu, esqueceu?

– O Ai me disse que você nunca almoça ou janta com eles.

Ponto pra ele. Por que mesmo eu tive aquela ideia idiota de jantar com eles?

– E daí? Não posso comer com meus amigos?

– Pode. Mas não acha muito estranho você ter sentado justo do meu lado quando tinha várias cadeiras vazias do outro lado da mesa, bem longe de mim?

Ele voltou do banheiro, com os ferimentos devidamente tratados, e se encostou na lateral da porta, me olhando com um ar irritante de superioridade.

– Admita, você está me seguindo.

Seu olhar penetrante não me deixou mentir mais. Sim, eu estava seguindo ele, estava preocupado com ele. Por algum motivo vê-lo chorando me deixara apreensivo, angustiado. Mais que tudo, eu queria que ele voltasse ao seu normal. Aquele Otoya frágil e sentimental não era a pessoa que se tornara meu rival ao longo dos anos. Admito que também queria saber o motivo de sua dor, saber o que lhe afligia. Mas não queria que ele soubesse.

Percebi que tinha demorado tempo demais para responder, e vi um sorriso triunfante brincar em seus lábios. Ao que tudo indicara, ele tinha tomado o "quem cala, consente" como resposta.

Sem dizer nada, ele foi até seu armário e pegou uma caixinha de tamanho médio e abriu, revelando vários jogos de cordas para vários tipos de instrumentos. Selecionou a que serviria para o violão e começou o processo de troca da corda arrebentada.

Agora que ele já sabia da minha presença ali e parecia ter se acalmado, resolvi tentar outra vez.

– Então, esse não é o seu violão, é? É emprestado?

Ele parou de se mover e olhou mortalmente para mim.

– E isso é da sua conta?

Ok, pergunta errada.

– Não.

Decidindo que seria melhor deixá-lo em paz, deitei de costas em minha cama, com as mãos atrás da cabeça, me sentindo frustrado pela minha tentativa ridícula de aproximação.

Ele se sentou de costas para mim e continuou a troca da corda. Eu o observava curioso. Apesar de estar quieto, sua linguagem corporal me dizia que ele queria conversar comigo. Ele me olhava com o canto do olho e parecia inquieto, como se estivesse tendo uma discussão interna.

Admito que isso estava me divertindo. Ele parecia nervoso por algum motivo, talvez porque pela primeira vez na vida eu iniciei uma conversa com ele.

Ele abriu a boca para falar e eu apurei os ouvidos para ouvir. Mas ele apenas respirou fundo e, seja lá o que fosse dizer, aparentemente havia desistido.

Soltei um pequeno riso com o seu visível desconforto e fechei os olhos. Já que ele não queria conversar, eu iria dormir. Mas assim que fechei os olhos, ele falou.

– Ele foi quebrado.

Me sentei na cama novamente, surpreso. Ele continuava de costas para mim, mas tinha parado o que estava fazendo. Suas mãos estavam depositadas em sua perna, e ele as fitava, perdido em pensamentos. Parece que eu o fiz se lembrar de algo ruim. Parabéns, Tokiya!

Mas o que ele disse me deixou mais apreensivo, pois ele dissera "Ele foi quebrado" e não "Eu quebrei ele", o que sugeria que outra pessoa tinha quebrado o instrumento, e não ele. Mas, quem faria isso? Não parecia ter sido um acidente, senão ele não ficaria tão deprimido ao falar disso. Cheguei à conclusão de que alguém o tinha quebrado de propósito, provavelmente para lhe ferir, já que todos sabiam o quanto o objeto era importante para ele.

De repente percebi que estava tocando em um assunto delicado e fiquei sem jeito.

– Hum... Você não precisa realmente falar sobre isso... Eu só perguntei pra puxar conversa...

– Eu sei...

Ele se levantou e abriu a porta que dava acesso à varanda do nosso quarto, saiu e ficou lá fora, olhando para o nada. Céus, como ele estava lindo! A luz da lua refletia em seus cabelos, deixando-os com uma tonalidade única, contrastando com sua pele alva.

Me sentia estranhamente atraído por ele, as lembranças da outra noite estavam mais vívidas do que nunca.

Percebi assustado que já não o olhava mais com os mesmos olhos de quando era adolescente. Quando foi que isso mudou? Naquela noite? Não pode ser, foi só uma noite de sexo! Não conseguia entender como aquela noite podia ter me afetado tanto assim, a ponto de agora estar desejando o homem à minha frente.

Senti meu coração acelerar e me censurei por olhá-lo daquela forma. Por mais que ele me atraísse, eu tinha que me manter afastado dele.

Mas por mais que meu cérebro mandasse me afastar dele, meu corpo dizia exatamente o contrário. Ele praticamente tinha vontade própria, e antes mesmo que eu me desse conta, já estava na varanda, de pé ao seu lado, olhando em seus olhos interrogativos.

– O que aconteceu com você?

Perguntei, não aguentando mais lembrar daquela cena à tarde. Ele suspirou, irritado.

– Aff... Até você? Ah, já sei, você estava no quarto do Cecil até agora, né?

– Sim.

Respondi, confuso. O que isso tinha a ver?

– Olha, seja lá o que o Cecil tenha te falado, não é verd-

– O Cecil não me disse nada.

Cortei-o bruscamente. Não podia mais esconder dele, estava no meu limite. Otoya me olhava com confusão.

– Eu vi você.

– Como assim me viu?

– Hoje, à tarde.

Ele arregalou os olhos. Rapidamente tentei me explicar.

– Eu estava no banheiro e ouvi quando você entrou. Quando começou a tocar, não resisti e-

– Você estava me espionando!??

– Não-

– O que você viu?

Hesitei. Eu já imaginava que ele a ficar furioso, devia ter ficado quieto. Será que eu devia mentir, tentar contornar a situação, fazer ele pensar que eu não tinha visto nada de mais?

– O. Que. Você. Viu?

Ele perguntou pausadamente, e mais uma vez seus olhos novamente me obrigaram a dizer a verdade.

– Tudo.

Ele revirou os olhos e se apoiou na grade da varanda.

– Ah, ótimo! Vai lá, pode começar a zoar.

Normalmente era isso o que eu faria, mas estava completamente constrangido. Me sentia como se tivesse invadindo seu espaço, sua privacidade. Pela primeira vez na vida, não sentia vontade de discutir com ele. Surpreendentemente, me ouvi dizendo:

– Me desculpe.

Ele me olhou intrigado. Provavelmente achava que era mais uma das minhas pegadinhas.

– É sério, Otoya. Eu não devia ter te espionado, me desculpe.

– Nossa, por que será que eu não acredito em você?

– Eu estou falando sério! Eu estou arrependido de verdade!

Mas ele apenas levantou uma sobrancelha com ceticismo. Não acreditara em uma palavra que eu dissera.

– O que eu preciso fazer pra você acreditar em mim?

Me senti surpreso pelas minhas próprias palavras. Por que era tão importante que ele acreditasse em mim? Que ele me contasse seus problemas? Ah, se eu soubesse!

Ele riu zombeteiro e disse com sarcasmo:

– Quem sabe se você me desse um abraço nós poderíamos de repente nos tornar melhores amigos e eu poderia até acreditar em você.

Ele gargalhou alto, rindo do próprio sarcasmo. Mas seu riso morreu em sua garganta de repente quando eu o puxei ao meu encontro, envolvendo-o em meus braços.

Eu não controlava mais meu corpo. Todo aquele papo de "eu o desprezo" sumira completamente da minha cabeça.

Pov Tokiya Off

Pov Otoya On

Fiquei estático. Não ousava me mover. Não ousava sequer respirar.

Deus! Tokiya estava... estava... me abraçando! E não era um simples abraço pelo ombro, seus braços envolviam meu corpo e me puxavam para si. Eu sentia que poderia ter um ataque cardíaco a qualquer instante, devido ao ritmo frenético do meu coração.

Eu falei brincando, não imaginava que ele fosse mesmo me abraçar. Mas agora que ele estava, tinha medo de me mexer ou fazer qualquer barulho que o fizesse perceber o que ele estava fazendo.

Nunca tinha percebido o quanto Tokiya era mais alto que eu. Minha cabeça estava depositada confortavelmente na curvatura de seu pescoço. Seu corpo era tão aconchegante, os braços que me envolviam me aqueciam rapidamente. Pude ouvir um coração batendo alto e rápido. Era o meu ou o dele? Não sabia dizer, talvez fossem os dois.

Eu queria corresponder ao seu gesto, abraçá-lo de volta, mas tinha medo. Depois de muito tempo, criei coragem e abracei-o devagar. Surpreendentemente, ele não se afastou, e não pude evitar de corar quando ele me apertou mais em seus braços.

Não conseguia acreditar que isso estava realmente acontecendo. Eu não sei o que tinha acontecido com Tokiya, mas queria que ele permanecesse assim.

Ah, quantas vezes eu sonhara com isso. Quantas vezes sonhei em sentir o seu cheiro? Respirei profundamente, sentindo sua fragrância natural. Era tão... Espere, eu conheço esse cheiro. De onde? Não faz muito tempo que o senti.

Fechei os olhos, recordando do momento em que senti o perfume pela primeira vez. O quarto que eu usava na boate veio imediatamente à minha mente, e a silhueta de um corpo masculino era visível contra a luz fraca do local.

Abri os olhos assustado. Não era possível! Meu coração bateu mais forte, dessa vez de medo. Tokiya percebeu minha inquietação e desfez o abraço, se afastando um pouco de mim. Sua silhueta contra a luz da lua era a mesma de minhas lembranças. Imaginei uma máscara azul em seu rosto e não tive mais dúvidas.

– O que houve?

Sua voz, que eu tanto havia gostado! Como não tinha percebido antes? Droga, como sou idiota!

– Era você...

Sussurrei baixinho. Ele franziu a sobrancelha confuso.

– O quê?

Eu o olhei diretamente nos olhos.

– Era você, na boate!

Tokiya arregalou os olhos e pude ver o medo bem no fundo deles.

Notas finais
*Chibi: literalmente, significa pequeno. Tcharam! E agora, o que o Tokiya vai fazer? Bom, espero que tenham gostado do capítulo o suficiente pra me deixarem um comentário bem divoso ;) Beijinhos da Hime, até a próxima!