Dormindo com o Inimigo
9 As lembranças de Tokiya
Notas iniciais
Tokiya imediatamente começou a suar frio e seu corpo se retesou. À sua frente se encontrava a única pessoa que lhe causava qualquer tipo de medo e aflição, e também a pessoa que ele mais odiava.
Hideki Ichinose olhou-o com desdém, como se não estivesse olhando para seu próprio filho.
— Onde ele está? – Perguntou com sua voz grave e imponente.
Faziam muitos meses que eles não se viam, mas a atitude fria do homem não surpreendeu Tokiya nem um pouco. Há muitos anos eles deixaram de se relacionar como pai e filho, e, sinceramente, pelo tipo de pai que ele era, Tokiya não lamentava nem um pouco.
— Na sala de exames. – Respondeu.
Seu pai assentiu e sentou-se na cadeira à sua frente, cruzou os braços e fechou os olhos, ignorando completamente a presença do jovem.
Um silêncio constrangedor se abateu sobre eles e Tokiya sentiu um impulso quase irresistível de sair de perto daquele homem. Era possível sentir a tensão no ar, e se ela fosse visível, teriam a forma de faíscas prestes a explodir.
Muito tempo depois, quando suas pernas se cansaram, Tokiya sentou-se também, e quem o olhasse notaria pela sua posição que ele estava preparado para fugir a qualquer movimento inesperado de Hideki.
Ele observou o pai detalhadamente, suas feições contraídas lembravam muito as dele próprio. As rugas ao redor dos olhos e da boca indicavam o peso dos anos sobre ele, mas se não fosse por isso, ele seria exatamente idêntico à Tokiya.
— Acabou de olhar?
Perguntou Hideki, fazendo Tokiya dar um pulo de susto. Ele abriu os olhos e encarou o filho acidamente.
— Saia, está incomodando. – Ordenou.
Não precisou de uma segunda ordem. Imediatamente Tokiya levantou-se e foi se sentar do outro lado da sala, em um lugar de onde poderia enxergar caso o doutor viesse.
Fechou os olhos e abaixou a cabeça. Reencontrar seu pai sempre lhe trazia as mais dolorosas lembranças.
oOo
Acordei com um som desconhecido.
Bip-bip-bip
Mas não liguei para nada, nem para o som, nem para todas as coisas que sentia que estavam coladas em meu corpo. Perdi a conta de quantas vezes dormi e acordei com o mesmo barulho. Até que uma hora ele começou a ficar irritante e eu não consegui mais ignorá-lo.
Abri os olhos devagar. Inicialmente, eles arderam pelo contraste com a luz. Olhei para os lados sem mover a cabeça e estranhei o local de paredes e móveis brancos. Do lado da minha cama, uma mulher com roupas também brancas estava de costas para mim. Ao se virar, ela se assustou ao me ver de olhos abertos, mas em seguida sorriu gentilmente.
— Finalmente você acordou, Tokiya.
— “Finalmente?” – Pensei. Há quanto tempo eu estava ali? E onde era “ali”? Daí que eu me toquei: paredes brancas, roupas brancas...
— Eu estou num hospital? – Concluí. Estranhei minha própria voz, pois ela estava rouca e irreconhecível.
— Sim. – Ela respondeu – Meu nome é Akari, eu estou cuidando de você.
Analisei Akari dos pés à cabeça, desconfiado. Mas ela parecia uma boa pessoa e o sorriso dela lembrava o de minha mãe. Só então dei a falta dela.
— Cadê a mamãe?
Ela hesitou.
— Hã... eu não... quer dizer... sua família logo chegará aqui. Não se preocupe, está bem? — Ela sorriu novamente e afagou meus cabelos. Várias perguntas rondaram minha mente, mas tinha a impressão de que Akari não ia responder.
— Minha cabeça dói. – Reclamei, fazendo uma careta. Ela riu, mas era um riso simpático.
— Estranho seria se não estivesse doendo. Vou te dar um remédio e logo você vai estar novo em folha.
— Tá bom. – Concordei.
Mas nada estava “bom”. Eu queria saber onde estava minha família. Não queria ficar sozinho naquele lugar estranho.
— Quando a mamãe vai vir? – Questionei-a novamente depois de um tempo.
Ela se sentou na minha cama, depositando sua mão na minha cabeça.
— Fique calmo, Tokiya, eles vão chegar logo. Olha, vamos fazer o seguinte, eu vou ficar aqui com você até alguém aparecer, está bem? — Assenti um pouco relutante, mas era melhor que ficar sozinho.
Fiquei cinco dias me recuperando no hospital, e em todo esse tempo meus pais e Hayato não foram me ver. Tias, primos, avós apareciam quase todo dia, mas ninguém me dizia o que estava acontecendo. Eu fazia perguntas como “O que aconteceu?”, “Por que eu estou no hospital?”, “Cadê meus pais e meu irmão?”, mas ninguém me dizia nada! Cada dia que passei naquele hospital fora angustiante pela falta de informação dos adultos. Eu sabia que eles sabiam e não queriam me dizer. Isso aumentava mais minha frustração.
Até que eu fui para casa.
Naquele dia, minha tia foi me buscar no hospital. Quando chegamos, saí afobado do carro e corri para a sala, esperando ver meu pai sentado no sofá como de costume.
Ele estava lá, e quando lembro desse dia, preferiria que não estivesse.
Com alegria, corri para ele.
— Papai!
Abracei-o pela cintura, mas ele não correspondeu meu abraço.
— Por que papai? Por que não foi me ver no hospital? Eu estava com tanto medo!
Mas ele apenas olhou para minha tia.
— Misako, tire ele daqui. – Disse friamente.
— O que eu fiz? – Perguntei sem entender seu tom frio.
— Vamos, Tokiya.
Acompanhei minha tia, mesmo relutante. Ela me levou para o quarto que eu dividia com Hayato. Quando entramos, percebi que ele não estava lá.
— Tia, o que está acontecendo? Cadê o Hayato e a mamãe? Por que eu estava no hospital?
Ela me guiou até a cama e nos sentamos.
— Você não lembra de nada?
— Hu-hum. — Neguei. — Eu lembro que... estávamos no parque. O papai estava bravo. Ele e a mamãe brigaram. Não lembro mais nada depois disso.
Minha tia suspirou pesadamente.
— Vocês sofreram um acidente.
— Acidente?? Acidente... de carro? — perguntei, espantado.
— Sim, acidente de carro. Um caminhão tentou uma ultrapassagem numa curva e bateu de frente com vocês. Seu pai não pode fazer nada pra evitar. Por sorte você e seu pai saíram praticamente ilesos.
Ela afagou meus cabelos. Eu estava espantado demais para fazer qualquer outra pergunta, então esperei que ela me dissesse. Ela parecia prestes a chorar, e demorou muito pra continuar.
— Hayato está no hospital. Ele... ele está em coma.
A palavra soou estranha para mim.
— O que é coma?
— É quando uma pessoa dorme e não consegue mais acordar, mas continua viva.
— E quando ele vai acordar?
— Esse é o problema do coma. Ninguém sabe quando a pessoa vai acordar, ou se vai acordar.
Eu estava completamente sem reação. Meu irmão num hospital, em um sono do qual poderia nunca mais acordar? Aquilo parecia absurdo para mim. Sem saber o que dizer, fiquei apenas olhando para minha tia com cara de espanto e medo. Quando ela percebeu que eu não ia dizer nada, ela continuou.
— Você pode ir vê-lo quando quiser, eu levo você.
— Hn. – Assenti. – E a mamãe?
Ela desviou os olhos, e meu coração se apertou. Estava com um péssimo pressentimento.
— Tia... por favor, me fala a verdade. Faz dias que pergunto dela pra todo mundo, mas ninguém me fala nada. Eu quero saber...
Ela olhou pra mim, os olhos cheios de lágrimas.
De repente a ficha caiu e eu entendi. Entendi porque todos se recusavam a me falar dela, porque todos evitavam o assunto. Meu coração doía como se uma mão o apertasse, e logo as lágrimas vieram aos meus olhos. Antes que elas se derramassem, encolhi os joelhos, colocando os pés em cima da cama, e escondi o rosto. Não chorei descontroladamente, não gritei, não me desesperei. Apenas deixei que as lágrimas caíssem, sem fazer som algum.
— Tokiya...
Ela tocou meu ombro, e minha primeira reação foi afastá-la com um gesto brusco.
— Por favor... sai...
— Querido...
— SAI!!
Eu não queria que ela me visse chorando, pois um homem não deve nunca demonstrar fraqueza na frente dos outros. Era isso que haviam me ensinado.
Ouvi seus passos e a porta se fechar quando ela saiu, então eu desabei. Encolhi-me na cama e deixei tudo transbordar para fora de mim.
Minha mãe querida, eu nunca mais a veria. Quando pensei nisso, um sentimento de desespero se apoderou de mim. Como seria de agora em diante? Como poderia suportar a falta que ela faria? Minha agonia era tanta que meu peito sufocava. Queria vê-la, queria abraçá-la, sentir seu calor e seu carinho.
Não era justo! Por que isso tinha que ter acontecido? Não conseguia aceitar.
Muitas horas se passaram e eu continuei deitado, em algum momento puxei um travesseiro e o abracei. Minha força há muito me abandonara e eu só fiquei ali, deitado, soluçando em silêncio.
Quando a noite caiu, ouvi a porta se abrir. Era meu pai.
Sentei-me novamente.
— Papai...
Chamei-o, mas ele não se aproximou de mim.
— Você já sabe, não é?
Assenti, tentando enxugar as lágrimas que teimavam em cair de meus olhos. Ele se aproximou e sentou do meu lado, esticou o braço e abraçou meus ombros, mas não havia carinho em suas atitudes. Seu olhar era frio.
— É tudo culpa sua.
Declarou, olhando para a frente. Arregalei os olhos. Que absurdo era aquele que ele dizia?
— O- o que eu fiz?
— Se estivéssemos em casa, ela ainda estaria viva. Se você não tivesse pedido a ela que levasse vocês ao parque, ela estaria aqui agora, e Hayato também.
— P-papai... eu... não... isso...
Fiquei desconcertado. Meu pai estava me acusando de ser responsável pelo acidente. A pessoa que devia me consolar estava me causando mais dor. Aquilo era demais para suportar.
Tentei me desvencilhar de seu abraço, queria sair dali, mas ele apertou sua mão em volta do meu braço, não permitindo que eu me afastasse.
— Seu irmão corre o risco de nunca mais acordar. Pode ser que ele morra naquela cama de hospital enquanto você está aqui, quente e confortável na sua. – Ele olhou para mim. – Agora viva com essa culpa.
Ele me largou e saiu. E eu voltei a chorar.
oOo
Os dias que se seguiram foram terríveis. Tinha medo de encontrar meu pai, então me isolei em meu quarto. Só saía para comer, e isso quando papai não estava em casa. Se ele estivesse, eu esperava ele se recolher para poder comer.
Minha tia ia lá de vez em quando, ver como eu estava. Na última visita, ela percebeu que eu não estava nada bem ali. Ouvi quando ela discutiu com meu pai, e me fechei no quarto, me escondendo embaixo da coberta. Depois de um tempo a porta se abriu e eu tremi. Quem era, minha tia ou meu pai?
— “Por favor, que seja a minha tia...” – Supliquei.
Uma mão tocou meu ombro e eu me encolhi.
— Tokiya?
A voz doce de minha tia chegou até mim e eu retirei a coberta.
— Tia!
Exclamei aliviado e a abracei.
— Por favor, tia, me leva daqui!
— O quê? – Ela ficou confusa.
— Não aguento mais ficar aqui. Me leva pra sua casa, por favor! – Implorei, começando a chorar novamente. Nesses dias, chorar era uma coisa que eu não conseguia mais controlar, as lágrimas iam e vinham a hora que queriam e não importava meu esforço, eu não conseguia contê-las.
— Shh...
Ela tentou me acalmar. Me afastou um pouco de si e analisou meu rosto.
— Você tem muitas olheiras para uma criança de cinco anos. O que seu pai tem feito com você?
Eu apenas escondi o rosto nas mãos. Essa atitude já foi suficiente para ela.
— Está bem. Eu vou levar você daqui. Você não fica aqui nem mais um dia! Arrume suas roupas, vou falar com seu pai.
Ela demorou. Eu sabia que dentro do meu guarda-roupa tinha uma mala grande. Arrumei-a com minhas roupas e pertences que eu julgava necessários. Quando terminei, abri a porta e ouvi o final da conversa deles.
— Por mim, pode levá-lo. Eu não o quero mais nessa casa.
— Como você pode tratar seu próprio filho assim? Pois eu vou levá-lo sim, e se depender de mim, você nunca mais vai machucá-lo!
Ela voltou para meu quarto e eu permaneci na porta. Ela se espantou quando me viu, mas não disse nada.
— Já terminei. – Disse apenas.
Ela sorriu, entrou no meu quarto e pegou minha mala. Passamos pela sala e dei uma última olhada em meu pai. Ele não me olhou de volta.
oOo
Demorei para me acostumar a viver com minha tia. Não que fosse ruim viver lá, mas eu tinha consciência de que lá não era a minha casa. Me sentia um estranho, um intruso. Minha tia fazia de tudo para me deixar confortável, mas não importava o que ela fizesse, eu sentia como se a estivesse atrapalhando em sua rotina. Então eu me trancava no quarto, e às vezes ficava o dia todo encolhido na cama.
Quando meu luto passou, criei coragem para visitar Hayato no hospital. Minha tia, claro, não se opôs. Chegando lá, conheci o doutor Terashima, o médico que cuidava de meu irmão. Ele não era muito alto, tinha cabelo preto e não possuía barba. Ele me recebeu com um sorriso no rosto.
— Finalmente estou te conhecendo, Tokiya. Sua tia fala tanto de você que eu sinto como se te conhecesse há anos! Hahaha
Ele estendeu a mão para mim, mas eu apenas me encolhi atrás das pernas de minha tia. Ela se desculpou por minha atitude.
— Desculpe por isso, doutor. Ele tem passado momentos difíceis.
— Não tem problema. — Ele me olhou. — Vamos ver Hayato?
Assenti, e não larguei a mão de minha tia até chegarmos no quarto.
Quando entrei e o vi deitado e cheio de aparelhos ligados nele, um nó se formou em minha garganta.
“- Seu irmão corre o risco de nunca mais acordar. Pode ser que ele morra naquela cama de hospital enquanto você está aqui, quente e confortável na sua. Agora viva com essa culpa.”
As palavras acusatórias de meu pai vieram imediatamente na minha cabeça e novamente não consegui segurar o choro. Hesitante, fui até ele e o abracei, tomando cuidado com o respirador.
— Hayato... desculpa... – Minha voz tremeu.
Chorei alto e incontidamente. Os soluços chacoalhavam meu corpo. Em algum momento, senti a mão de minha tia em meu ombro, mas não dei importância. Ela não tentou me parar, não tentou me tirar de cima dele, apenas queria mostrar que estava ali, que eu não estava sozinho.
Em meu choro, descarreguei toda a dor, sofrimento, angústia e solidão que me preenchiam. Tudo que eu queria era que Hayato abrisse os olhos e me desse aquele sorriso cheio de alegria por me ver, mas ele continuava imerso em seu sono profundo.
Depois de horas daquele jeito, meus pulmões finalmente se cansaram e as lágrimas desenfreadas cessaram.
Quando saí de cima de Hayato, o lençol que o cobria tinha uma grande mancha úmida. Olhei para minha tia, ela também tinha o rosto coberto de lágrimas.
— Tia... — Disse enquanto limpava meu rosto. — Eu posso deitar ao lado dele?
— A cama é grande, então acho que não tem problema.
Deitei ao seu lado e ouvi minha tia sair. Aproveitei esse momento para afagar os cabelos do meu otouto.
— Você vai ficar bem. O seu nii-san está aqui. Eu sempre vou ficar ao seu lado. Eu prometo.
oOo
Confesso que essa promessa foi bem difícil de manter. No começo tudo ia bem, eu ia ao hospital todos os dias, levava flores e colocava em sua cabeceira, levava livros que ele gostava e ficava horas lendo para ele — sim, com cinco anos eu já sabia ler. Ali era meu refúgio, ficar ao lado dele era a única alegria que me restara.
Ficar em casa era muito solitário. Minha tia trabalhava o dia todo, e contratou uma mulher para cuidar de mim. Eu não confiava muito nela – a essa altura eu não confiava em ninguém, pra ser sincero – então sempre acabava pedindo para ela me deixar no hospital quase o dia todo.
Apesar de minha vida ter melhorado bastante desde que me mudei, ainda sentia um buraco dentro de mim cada vez que eu pensava em meu pai. A criança de cinco anos que eu era, era incapaz de compreender o que se passava na cabeça dele para me tratar assim. Mesmo que todos dissessem que eu não havia feito nada de errado, tudo o que ele me dissera naquele dia me fizeram acreditar que eu era realmente culpado pelo acidente, mesmo que essa ideia fosse ridícula, vindo de uma mente totalmente deturpada.
Eu ainda tinha esperança de que meu pai percebesse o quanto eu estava sofrendo, que ele viesse me buscar e dissesse que tudo ia ficar bem, que ele ia cuidar de mim, que sentia muito por tudo que ele disse e que nada daquilo era verdade.
Criança tola. Claro que esse dia nunca chegou.
Dois anos se passaram desde que eu o vira pela última vez.
Agora eu tinha sete anos, e já frequentava o segundo ano da escola primária. A escola era legal, não que eu tivesse amigos, pois eu me tornara uma criança desconfiada, quieta e isolada. Mas havia um grupo de garotos na minha sala que conversavam comigo ocasionalmente, me chamavam pra almoçar com eles e às vezes me faziam sorrir. Isso era o mais próximo de uma amizade que eu tinha.
Eles queriam ser cantores quando crescessem e, coincidência ou não, eu descobrira nas aulas de música que eu tinha vocação para cantar. Pouco tempo depois, minha tia me matriculou num curso de piano e em pouco tempo, eu já dominava o instrumento.
Com todas essas coisas novas acontecendo na minha vida, minhas visitas ao hospital diminuíram, às vezes ficava quase uma semana sem ver Hayato. Um dia fui ao hospital e o doutor Terashima me chamou para tomar um café com ele.
— Sabe Tokiya, eu sempre fui muito sincero com você. – Ele me olhou firmemente.
Balancei a cabeça, concordando. Não estava gostando do rumo daquela conversa.
— O que houve, doutor?
— Apesar de ser apenas uma criança – ele continuou – você tem maturidade para entender assuntos complexos. – Puxei o ar para falar, mas ele ergueu a mão, interrompendo. – Por isso, sinto que posso confiar em você e te falar a verdade sobre o estado de saúde do seu irmão.
Esperei que ele continuasse.
— Hayato teve uma piora significativa. – Arregalei os olhos. – Ele não responde mais a estímulos verbais, e está sem atividade cerebral há alguns dias.
— Ele vai...
— Nós não sabemos. – Ele suspirou. – Mas... eu queria te pedir para se preparar para o pior.
Abaixei a cabeça e olhei para o nada. Meu irmãozinho estava morrendo e eu não podia fazer nada por ele.
— Minha tia já sabe?
— Já. Ela me pediu para te contar, porque sentiu que não ia aguentar te dar mais uma notícia dessas.
Assenti. Não deve ter sido nada fácil pra ela me contar sobre a morte de minha mãe, então, eu dei razão à ela de não me contar sobre Hayato.
— Está bem. Obrigado pela sinceridade, doutor.
Fui até o quarto de Hayato, sentei-me em minha cadeira ao lado de sua cabeceira. Segurei sua mão e repousei minha testa sobre ela, fazendo uma prece.
— Você não pode morrer... Lembra o que a mamãe falava? Somos conectados, eu sinto sua dor e você sente a minha. Se você morrer, vai ser como se uma parte de mim morresse também. Não me deixe, otouto...
Comecei a cantarolar uma música para ele. Uma música que nem eu mesmo conhecia.
— Humm... hum-hum, hum-hum-hum, hum-hum-hummmm...
Ergui a cabeça. Eu não conhecia aquela música porque EU a estava criando naquele momento. Corri até minha mochila, peguei caderno e lápis e comecei a escrevê-la. Ao terminar o esboço, sorri para meu irmão.
— Otouto, essa é a SUA música!
Beijei sua testa e saí apressado.
oOo
Você deve estar pensando: ele foi pra casa. Errado. Voltei para a escola.
Era fim de tarde, quase no fim das aulas extracurriculares. Por sorte, o porteiro me deixou entrar e a sala de música estava vazia. No armário havia um gravador, peguei-o e coloquei em cima do piano. Em minha mochila, peguei a partitura que havia escrito no hospital e coloquei-o em seu lugar. Liguei o gravador e toquei. A letra saiu na hora, não havia escrito nem ensaiado, veio da minha alma.
Mou nakanakute ii yo sono mama de ii
Não precisa mais chorar, somente fique como está
Kimi wo mamorasete hoshiinda
Eu quero proteger você
Dakedo shinjiru yume de areba
Se temos um sonho em que ambos acreditamos
Ano hi no taiyou yori
Definitivamente
Zettai ni sugoku kirei na
Mais que o sol naquele dia
Nanairo wo furaserareru
Sete cores vão brilhar
Sekai ni
Para o mundo
Desliguei o gravador, espantado comigo mesmo. De onde veio essa letra?
— É isso aí! Tenho que terminar até amanhã.
Isso era praticamente impossível, mas eu consegui a tempo de a escola fechar. Peguei o CD com a música que eu gravara, arrumei minha mochila, e ao abrir a porta, me assustei com um menino que estava atrás dela.
— Ahh!
Gritamos.
— Que susto! – Ele disse.
— Eu que digo isso! – Respondi, zangado. – Por que estava me espionando?
— Ouvi o som do piano, achei bonito. – Ele respondeu simplesmente. – A música que cantou era muito bonita também. Qual o nome dela?
— Ainda não tem nome. – Falei rápido, estava com pressa. – Olha, eu preciso ir.
E passei correndo por ele.
— Qual é o seu nome? – Ele gritou. Me virei e continuei andando de costas.
— Tokiya Ichinose.
— Muito prazer, Ichinose-kun. Eu sou Otoya Ittoki.
Ele acenou e eu respondi com um gesto que lembrava um aceno. Dei as costas a ele e corri para casa.
oOo
No outro dia fui para a escola só porque minha tia me obrigou. O que eu queria mesmo era ir para o hospital e cantar para Hayato a música que escrevera para ele. Parecia ridículo, mas eu sentia como se ela pudesse fazer com que ele melhorasse. Mas tive que aguentar aquelas aulas chatas e intermináveis.
Logo na primeira aula, uma surpresa. Um aluno novo, o menino que me espionou na sala de música. Como era mesmo o nome dele?
— Pessoal, hoje temos um aluno novo. Se apresente, por favor.
— Olá, meu nome é Otoya Ittoki. É um prazer estudar com vocês. – Ele se curvou.
O professor apontou a cadeira atrás de mim para que ele se sentasse. Ao me ver, ele sorriu. Eu virei o rosto.
No intervalo da primeira aula, todos os meus amigos se aproximaram e se apresentaram à Otoya.
— De que escola você veio? – Perguntou Cecil.
— Eu vim daquela que tem atrás da estação de trem. – Cecil balançou a cabeça, mostrando que tinha reconhecido.
— E por que você veio pra cá? – Perguntou curioso, pois aquela escola era muito melhor que essa.
— Uns garotos começaram a me perseguir, daí minha mãe achou melhor me transferir pra cá.
Ótimo, um filhinho da mamãe. Revirei os olhos. Reiji se aproximou e se apresentou também.
— Aposto que eles tinham inveja de algo que você sabe fazer. – Adivinhou Reiji.
— Como você sabe? – Otoya se espantou.
— Ah, isso acontece o tempo todo com a gente. Nós também somos perseguidos às vezes, mas nós somos muitos, então ninguém se mete com a gente. Hahaha
— Todos nós somos melhores amigos. – Cecil apontou todos eles. — Se você quiser, pode almoçar com a gente.
— Claro, vou adorar! Minha mãe fez muito almoço pra mim, então vou dividir com vocês.
Aquela conversa estava me irritando. Quando me levantei pra ir ao banheiro, Reiji falou para mim.
— Ei, não vai se apresentar?
Olhei para ele.
— Nós já nos conhecemos.
Reiji olhou confuso para Otoya, e ele esclareceu.
— Nos conhecemos ontem, na sala de música. Ele estava tocando piano, e escreveu uma música incrível!
— Cala a boca! – Gritei com ele, tarde demais. Todos me olharam, espantados.
— Você sabe escrever músicas? – Indagou Ren. Olhei zangado para Otoya.
— Olha o que você fez. – E para Ren. — Isso não é da sua conta, entendeu? Não é da conta de ninguém!
Masato manifestou-se.
— Também não precisa ser grosso! – E para Otoya. – Não liga, ele é assim com todo mundo.
Irritado, peguei meu material e me sentei do outro lado da sala. Todos os meus “amigos” se sentaram em volta de Otoya e eu podia ouvir o que eles diziam.
— O que eu fiz? – Ele perguntou.
— Nós não sabíamos que ele tocava. Deve ter sido por isso que ele ficou bravo. – Respondeu Syo.
— Ele não gosta de falar sobre a vida dele. – Continuou Cecil.
— Por quê? Se eu tivesse a voz dele ia querer que todos ouvissem. – Podia sentir os olhos de todos sobre as minhas costas.
— Ele canta? – Indagou Ai, surpreso.
Minha raiva por Otoya aumentou. Que parte do “ele não gosta de falar sobre a vida dele” ele não entendeu??
— Ei, eu estou ouvindo. – Falei sem olhar para eles.
— E daí? – Desdenhou Ranmaru. Ele não ia muito com a minha cara. Mas felizmente eles mudaram de assunto e me deixaram em paz.
Na saída, o sinal mal tocou e eu saí correndo. Ao chegar no portão da escola, minha tia estava me esperando.
— Tia! Você não foi trabalhar? – Perguntei já entrando no carro.
— Eu pedi pra sair mais cedo. Vou te levar pro hospital.
Chegamos e fomos rapidamente ao quarto de Hayato. O doutor Terashima estava lá.
— Oi, doutor. – Minha tia cumprimentou.
— Olá. – Ele respondeu e sorriu. – Tokiya, tenho que te perguntar uma coisa. O que você fez ontem?
Estranhei a pergunta.
— Como assim?
— Hayato está muito melhor do que estava antes de você vir. A atividade cerebral retornou muito mais intensa do que estava antes. Acho que foi algo que você disse a ele.
Arregalei os olhos.
— Ele... melhorou? – O doutor assentiu.
Me aproximei de Hayato e apertei sua mão.
— Vocês podem me deixar sozinho?
Os dois concordaram e saíram.
— Otouto, você ouviu o que eu disse ontem? Você... melhorou por mim?
A alegria enchia meu peito a ponto de quase transbordar.
— Eu terminei a sua música.
Rapidamente, peguei um toca-CDs portátil que eu havia pegado escondido da minha tia e apertei o play. O CD já estava lá dentro.
Encostei minha testa na dele e cantei junto com a música. Enquanto ela tocava, encontrei o nome perfeito para ela: Nanairo no Compass. Porque era assim que eu me sentia naquele momento, como se tudo à minha volta fosse colorido.
Quando ela terminou, abri os olhos com nossas testas ainda unidas e tive uma surpresa. Meu irmãozinho estava olhando para mim.
— Hayato! Você acordou!
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