Dormindo com o Inimigo
8 Angústia
Notas iniciais
— Era você, na boate!
Otoya se afastou ligeiramente do maior, tremendo dos pés à cabeça.
— "Ele sabe o meu segredo...!"
Se Tokiya resolvesse contar para alguém poderia estragar sua futura carreira como ídolo.
— "Não era pra ser assim! Isso devia ter ficado no passado!"
Pensou com angústia. Tinha entrado na Academia contente por finalmente ter conseguido deixar seu passado para trás e poder começar uma vida nova. Mas agora, estava mais uma vez sendo assombrado por ele.
O silêncio do mais velho apenas aumentava sua angústia.
— Você não vai dizer nada?
Perguntou o ruivo.
Tokiya percebeu pelo seu olhar e por sua voz trêmula o quanto o menor estava assustado. Ficou mais um longo tempo em silêncio, e Otoya se perguntou o que estaria passando em sua cabeça. Mas por fim, ele falou.
— Não vou negar. Era eu, sim.
O ruivo cerrou os maxilares, nervoso.
— Por que não me contou?
— Eu não pretendia te contar.
Os olhos de Tokiya estavam neutros e era impossível dizer o que ele estava sentindo naquele momento.
Nervoso, Otoya voltou para o quarto enquanto Tokiya permaneceu na varanda, observando a aflição do mais novo. Ele andava pelo quarto passando as mãos pelo cabelo repetidas vezes, bagunçando-os no processo. Por fim, ele virou-se e olhou-o profundamente.
— Por quê?
Indagou o ruivo, mas Tokiya não respondeu de imediato. Ele entrou novamente no quarto e fechou a porta de vidro que levava à varanda. Mas ele não se virou para Otoya, ficou ali, parado, encarando seu reflexo na porta.
— Pra quê? – Respondeu, impassível. — Pra mim não foi nada mais que uma noite de sexo. Não tem sentido ficar relembrando daquela noite.
Ele viu através do reflexo a dor nos olhos do ruivo. Em sua mente, apenas uma frase se repetia:
“- Tokiya foi o único homem que eu já amei.” ¹
Foi o que Otoya dissera naquela noite, e desde que se reencontraram, o moreno não conseguira esquecer essas palavras. Agora, elas o torturavam, pois ele sabia que havia acabado de magoá-lo. Mas sabia também que era necessário.
— Naquela noite, você sabia que era eu?
Questionou Otoya, encarando Tokiya pelo reflexo. O moreno desviou o olhar e fitou o céu escuro, aparentemente ignorando a pergunta do mais novo.
Otoya se sentiu completamente insignificante.
— “Olha pra ele... Tão calmo e indiferente, como se fosse um assunto sem a mínima importância. Será que eu não significo nada pra ele depois daquilo? Depois da minha confissão? Será que ele ao menos se lembra dela?”
O silêncio de Tokiya começou a incomodá-lo, e, antes de falar, Otoya limpou a garganta para evitar que sua voz falhasse.
— Tokiya?
Isso pareceu retirar o moreno do transe. Ele se virou lentamente e olhou-o com total indiferença.
— Sabia.
O ruivo sentiu uma pontada dolorosa no peito. Essa simples e única palavra foi capaz de arrasá-lo por dentro.
— Mas... então, por quê...?
— Por que mesmo sabendo quem você era eu acabei transando com você?
O menor assentiu. Tokiya deu de ombros.
— Nem eu sei. Talvez tenha sido por curiosidade, quem sabe? A possibilidade de te reencontrar novamente nunca passou pela minha cabeça, se eu tivesse a mínima ideia de que isso ia acontecer eu não teria feito aquilo.
O menor lutou contra as lágrimas que queriam vir aos seus olhos diante das palavras frias de Tokiya, mas não iria chorar dessa vez. O Ichinose viu seus olhos marejarem e a força que o menor fez para conter as lágrimas e admirou a força de vontade do outro de não chorar diante de palavras tão cruéis.
Otoya o olhava profundamente com seus olhos marejados, a decepção era palpável em seu olhar.
— Então é isso, não é?
Sua voz estava embargada, e ele não conseguiu parar uma lágrima solitária que teimou em rolar por sua face.
— Você... me odeia mesmo...
Tokiya abaixou o olhar, não queria vê-lo chorando pela terceira vez naquele dia.
— Eu acho melhor ir dormir em outro quarto.
Decidiu, imaginando que Otoya ia querer ficar sozinho. Não esperou pela resposta dele e se dirigiu à porta.
Otoya observou Tokiya ir em direção à saída e se desesperou. Tinha a sensação de que se o deixasse sair o perderia para sempre.
— "O que eu faço? Não posso deixá-lo sair!"
Então lembrou-se de um conselho que Masato lhe dera anteriormente.
“- E por que não aproveitou a situação? Por que não se jogou em cima dele e usou seu charme para seduzi-lo? É o que eu teria feito.” ²
Decidiu que esse era o momento, não tinha mais nada a perder, afinal. Não fazia mais sentido esconder seus sentimentos quando Tokiya já sabia de tudo. E se não fizesse agora, nunca mais teria coragem.
Decidido, correu atrás de Tokiya, que já estava a um passo da saída. Passou seus braços em volta de seu peito, em um abraço apertado que o impedia de continuar andando.
— Não vai...
Implorou. Sua voz estava abafada, seu rosto, colado contra suas costas.
Por um momento, Tokiya ficara sem reação, permanecia parado com os olhos arregalados. Em suas costas, sentia algo batendo forte. Era o coração de Otoya, que batia enlouquecido diante de seu repentino ato de coragem.
— E-ei....
— Não vai!
Repetiu a súplica, mais alto dessa vez. Tokiya fez força para soltar-se, mas os braços à sua volta pareciam de chumbo.
— Otoya, pare com isso. Me solte.
Pegou em seus pulsos firmemente, tentando se soltar, mas os braços resistiam. Ficaram lutando em silêncio por vários minutos, até que os braços de Otoya se cansaram e ele cedeu. Tokiya abaixou-os e soltou-os delicadamente, mas assim que os soltou sentiu seus pulsos serem rodeados pelas mãos fracas, em uma tentativa débil e inútil de continuar prendendo-o ali.
Tokiya suspirou e virou-se.
— Otoya...
Foi pego totalmente de surpresa quando Otoya usou as mãos que estavam fechadas em seus pulsos para empurrá-lo contra a parede. Seu rosto estava completamente diferente de alguns instantes atrás. Era aquele Otoya, o que ele conhecera na boate. Seus olhos irradiavam determinação, e, por um momento, ele sentiu medo.
— O que está fazendo?
Perguntou, com indignação e surpresa. Otoya sorriu com presunção.
— Não vou deixar você fugir. Lembra de como me desejou naquela noite? “Sei que consigo seduzi-lo novamente.” – Pensou a última parte.
— Você está ficando louco.
Tokiya tentou se soltar, mas Otoya aumentou a força empregada em seus braços e usou seu corpo para prendê-lo mais à parede. Aproximou seus lábios do ouvido do maior e sussurrou.
— Estou? Me diz, Tokiya, quantas vezes você sonhou com aquela noite?
Ao terminar de falar, lambeu o lóbulo de sua orelha, causando-lhe arrepios involuntários.
— Otoya, para!!
— Você não se excita quando lembra dos meus gemidos? Ou da sensação de estar dentro de mim, se movendo com força?
Tokiya estava totalmente abismado.
— O quê? Eu não vou transar com você, Ittoki, se é o que está pretendendo. Pare com isso!
Disse, tentando afastar Otoya de perto de si. Mas o ruivo não se abalou com a frieza de suas palavras e olhou-o com luxúria, aproximando tanto seus rostos que Tokiya chegou a pensar que ele iria lhe beijar. Mas Otoya parou a alguns centímetros, fitando sua boca com desejo.
— E por que não? Não quer sentir aquele prazer outra vez?
O coração de ambos batia acelerado, e ambos podiam ouvir os batimentos do outro.
— Você também me quer. Me beija, Tokiya.
Mesmo que Tokiya lutasse, Otoya podia sentir o volume entre suas pernas, que não o deixava mentir. Sabia que se continuasse investindo uma hora ele cederia. Rapidamente, levou suas mãos ao seu rosto, pronto para beijá-lo, quando um barulho alto de celular tocando assustou aos dois.
Era o celular de Tokiya, que aproveitou o momento de distração e se afastou do ruivo, que ainda permanecia imóvel, não acreditando em sua incrível falta de sorte.
O moreno olhou o visor e franziu o cenho, achando estranho aquela pessoa ligar para ele naquele horário.
— O que aconteceu?
Perguntou, dispensando os rodeios.
— Vem aqui agora! – A voz de Cecil estava agoniada. – É o Hayato, ele não está nada bem.
O Ichinose arregalou os olhos e desligou o aparelho, saindo rapidamente sem olhar para o ruivo.
Otoya ainda estava pasmo com o que acontecera e com o que tivera coragem de fazer. Passado o momento de choque inicial, um sentimento de raiva se apossou dele. Realmente a palavra “sorte” não existia em seu dicionário. Frustrado, ele chutou o pé de sua cama para extravasar os sentimentos ruins, mas se arrependeu disso amargamente ao sentir a pontada de dor em seus dedos do pé.
Resmungando de dor, deitou-se em sua cama. Mal tendo relaxado o corpo, seu celular vibra e ele atende. Era Haruka.
— Alô...
— Ittoki-kun, a sala de música está livre agora, vamos ensaiar a nossa música?
Ele se esquecera totalmente disso e se repreendeu mentalmente.
— Claro! Eu já estou descendo.
Foi ao banheiro, lavou o rosto, pegou o violão que havia emprestado e saiu.
oOo
Dor.
Escuridão.
Medo.
O menino de apenas 5 anos se perguntava o que havia acontecido. Lembrava-se apenas de estar dentro do carro, eles estavam voltando para casa e seu pai ainda estava muito bravo. Tentou abrir os olhos, mas eles pareciam ter perdido a força. Tentou se mover, mas não conseguia mover um músculo sequer.
Com desespero, tentou chamar a mãe, mas apenas um débil e fraco gemido escapou de seus lábios.
— "M-mamãe..." — Chamou-a mentalmente.
Ao longe ouviu a sirene do que pareciam ser várias ambulâncias. Elas ficavam cada vez mais altas, à medida que iam se aproximando.
De repente tudo virou uma confusão ao seu redor. Muitos passos e pessoas falando ao mesmo tempo.
— Senhor, perdemos a mulher...
Ouviu alguém dizer, e outro homem resmungou:
— Droga! E os outros ocupantes?
— O motorista está com um corte profundo na cabeça, provavelmente pelos estilhaços do para-brisa. Fora isso, parece estar bem. Os dois meninos estão inconscientes. Um deles está com um olho inchado e o braço direito quebrado, o outro não tem ferimentos aparentes.
— Imobilizem o motorista, vamos ter que cortar o teto para tirá-los.
Por um momento e os homens se afastaram. Finalmente eles haviam feito silêncio, pensou Hayato. Mas isso durou poucos minutos apenas, pois um barulho ensurdecedor de ferro retorcido fez-se ouvir. Isso fazia sua cabeça doer muito e ele soltou outro fraco gemido em resmungo.
Alguém parecera ter ouvido, pois disse:
— Um dos meninos está consciente! Me ajudem a tirá-lo daqui!
Mas ao contrário do que Hayato queria, eles fizeram mais barulho ainda, fazendo sua cabeça quase explodir de dor.
Depois de um tempo, ele pode sentir a brisa do fim de tarde em seu rosto. Deduziu que o haviam tirado do carro, mas ele não havia sentido nenhum toque em sua pele.
— “Estranho... Como eles me tiraram sem me tocar? Será que são mágicos?” – pensou, em sua inocência de criança.
Mas sentiu quando alguém tocou em seu rosto.
— Ei, garoto, consegue abrir os olhos?
Hayato fez um esforço enorme, mas conseguiu abri-los. Bom, pelo menos um deles, já que o outro insistia em ficar fechado.
Pela primeira vez, teve a oportunidade de olhar à volta. Parecia uma cena de filme. O carro que antes ocupava agora era só um monte de ferro retorcido e irreconhecível. Sua família ainda estava lá dentro, todos com os olhos fechados, inconscientes. Na cabeça de sua mãe havia muito sangue e ele ficou assustado com essa visão.
Sentindo a agitação do menino, o médico que cuidava dele colocou-se em sua frente, bloqueando sua visão.
— Fique calmo, está tudo bem. Eles só estão dormindo.
O médico sorria gentilmente, acariciando levemente seus cabelos. De trás dele, outro médico se aproximou.
— Como ele está?
— Ele quebrou o braço e, pelo olho inchado, deve ter batido a cabeça.
O segundo médico olhou preocupado para o braço do menino, estava torcido estranhamente e parecia ter se quebrado em vários lugares.
— Precisamos colocar o braço no lugar.
O primeiro médico se virou para Hayato.
— Nós vamos ter que mexer no seu braço e isso vai doer um pouco. Seja forte, está bem?
— Umm... – ele conseguiu resmungar.
Viu um dos médicos segurar a parte de cima de seu braço e o outro esticar a parte de baixo repentinamente, mas, ao contrário do que o médico dissera, ele não sentira dor. Os dois homens estranharam a falta de reação do menino.
— Você não está sentindo dor?
— Hu-hum... – Negou.
Os dois médicos se olharam preocupados. Um deles tirou uma chave de um dos bolsos e cutucou a pele de seu braço.
— Sente isso?
— Não... – Conseguiu dizer em um sussurro.
O segundo médico correu até a ambulância.
— Precisamos levar o menino primeiro, agora!
— O que houve, capitão? – Perguntou o enfermeiro, já descendo da ambulância para ajudar a subir a maca.
— O menino lesionou a espinha. Está tetraplégico.
oOo
Cecil acordou com os resmungos de dor de Hayato. Ainda embriagado pelo sono, inicialmente não deu bola, mas quando sua consciência retornou, pulou rapidamente da cama, correndo até a cama do amigo.
— Hayato! Está tudo bem?
Ele estava virado para a parede. Constatando que o rapaz estava dormindo, ficou em dúvida se devia acordá-lo ou não. Decidindo que não deveria arriscar, colocou a mão levemente em seu ombro e o chacoalhou.
— Ei, Hayato...
O Ichinose abriu os olhos, assustado com o sonho que tivera. Era a primeira vez que tinha lembranças daquele dia, mas não tinha dúvidas de que elas eram reais.
Ele engoliu em seco, lágrimas se formando em seus olhos, lágrimas de choque, de terror. Terror em relembrar o dia mais doloroso de sua vida.
— Ei, o que houve?
— C-Cecil...
Ele tentou se virar, mas uma dor horrível em suas costas o fez encolher o corpo, reprimindo um grito agudo por ser quase de madrugada.
— Hayato!
Cecil amparou-o, mas não sabia o que fazer.
— O que eu faço? O que eu faço??
Desesperou-se.
— Chame o nii-san...
Disse Hayato, entredentes.
Cecil correu até seu criado-mudo e pegou o celular de cima do mesmo. Suas mãos tremiam de nervosismo e achar o número de Tokiya entre tantos outros foi uma tarefa ridiculamente difícil.
Tokiya não demorou a atender, o que fez Cecil suspirar aliviado.
— O que aconteceu? – Perguntou a voz do outro lado da linha.
— Vem aqui agora!— Cecil quase gritou, agoniado. – É o Hayato, ele não está nada bem.
Tokiya simplesmente desligou e menos de dois minutos depois já estava entrando no quarto.
— O que aconteceu? – Repetiu, se aproximando da cama de Hayato e se ajoelhando ao seu lado.
— Eu estava dormindo e acordei com os resmungos dele. Ele parece estar sentindo muita dor.
Tokiya colocou a mão em sua testa, mas ele não tinha febre.
— Hayato, suas costas que estão doendo?
— S-sim...
— O que ele tem, Tokiya?
O Ichinose mais velho pensou por alguns instantes.
— A lesão dele deve ter inchado na queda. Isso já aconteceu outras vezes. Vou ter que levá-lo ao hospital.
— Eu te ajudo. Vou chamar a ambulância e avisar o diretor.
Tokiya suspirou.
— Obrigado, Cecil.
Assim que Cecil se retirou, Tokiya levantou-se.
— Hayato, você consegue deitar de costas?
— E-eu... acho que sim...
Tokiya ajudou-o a se virar lentamente. Em pé, observou-o contorcer a face em dor e agonia, suprimindo os gritos e gemidos. Hayato sempre fora assim, nunca deixava transparecer tudo o que sentia. Sabia que a dor que ele sentia era dez vezes maior do que a que ele demonstrava.
Algum tempo depois, Cecil retornou com os médicos, que traziam com eles uma maca. Tudo no mais completo silêncio.
Os dois estudantes assistiram os médicos colocarem o rapaz na maca e imobilizá-lo. Em pouco tempo, já estavam na ambulância, rumo ao hospital. Só então Tokiya lembrou-se de ligar para o médico de Hayato, e praguejou mentalmente. Procurou em seu celular o número do doutor e ligou para ele.
— Alô, doutor Terashima? É Tokiya Ichinose. – Ouviu o doutor falar do outro lado da linha e respondeu. – Sim, ele está sendo levado para o hospital. – Novamente uma pausa. – Ok. Obrigado, doutor.
E desligou.
Um longo tempo se passou até a ambulância parar. A enfermeira que os acompanhava abriu as portas traseiras, e, junto com o médico, desceram a maca, encaminhando-o para dentro do hospital. O doutor Terashima chegou logo em seguida, pois morava perto do hospital.
— Tokiya. – Chamou-o. Os dois eram conhecidos de longa data, pois fora o doutor que sempre cuidara de seu irmão.
— Ah, doutor. Que bom que o senhor veio rápido. Ele teve uma queda hoje, e acordou no meio da noite com muita dor.
— Hum... A lesão deve ter sofrido uma luxação, como das outras vezes.
— Foi o que eu pensei também, por isso o trouxe.
— Você fez bem. Eu vou examiná-lo agora, fique aqui, eu venho falar com você quando terminarmos.
O doutor se afastou e Tokiya se sentou em um dos muitos sofás. Sabia que agora esperaria por longas horas.
Mas havia outra coisa que ele devia fazer, e, tenso, pegou o celular e discou um número.
— Alô?
— ... – Tokiya hesitou. – Pai?
oOo
— Ittoki-kun?
Chamou Haruka, pela terceira vez naquela noite. Eles se encontravam na sala de música, ela no piano, ele no violão.
— Hum? – Perguntou distraidamente.
— H-hum... Desculpa perguntar, mas... você está bem?
— Claro! – Respondeu, talvez um pouco rápido demais. – Eu estou ótimo. Por que?
— Você parece um pouco... distraído...
Em todos os ensaios, ele errara as notas da música.
— Isso é impressão sua. Há-há-há – Ele riu de constrangimento, pois Haruka não podia saber do motivo da sua distração.
Haruka olhou para ele por um longo momento, não acreditando nele nem por um segundo.
— Se você diz... – De repente ela apontou para o pé dele, dizendo: — Ittoki-kun, sangue!
— Hã? – Ele olhou para onde ela apontava, o dedo que ele havia batido na cama. – AHHHHHH!!!!!!!
Gritou ao ver a enorme quantidade de sague acumulada em seu dedo.
— QUANTO SANGUE!!! EU VOU MORRER, NANAMIIIII!!!!!!!
Haruka inclinou a cabeça desacreditada, Otoya tinha medo de sangue! Quem diria...
— C-calma, Ittoki-kun... – Ela ria, sem graça. – Vamos passar um remédio e logo vai parar o sangramento.
Ela foi até o banheiro e pegou o kit de primeiros socorros. Pegou uma gaze e retirou o sangue acumulado, em seguida pegou o spray desinfetante e espirrou sem economia.
— AAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!! ISSO ARDEEEE!!!!!!!
Haruka estava rindo por dentro da reação infantil de Otoya.
— Calma, calma. Já vai passar.
Ela assoprou o machucado – um corte minúsculo e pouco profundo – e colocou um band-aid em cima.
— Prontinho. Olha só: sem sangue!
Ela deu uma batidinha carinhosa no topo de sua cabeça, como se estivesse falando com uma criança, e não aguentou mais, caindo na gargalhada. Otoya a acompanhou, mas não disse a ela que fizera todo o drama de propósito, apenas para que ela esquecesse o assunto anterior. Ela não precisava saber disso, precisava?
oOo
Na sala de espera do hospital, Tokiya tentava cochilar um pouco, pois ainda não dormira nada aquela noite, graças à Otoya. Ele estava prestes a se deixar levar e se arrependia disso. Otoya quase conseguira seduzi-lo. Tinha medo de pensar no que teria acontecido se o celular não tivesse tocado.
Mas além disso, outra coisa o perturbava e o impedia de dormir. Na ambulância, a caminho para o hospital, Hayato lhe contou algo que o chocou de verdade. Fechando os olhos, ele recordou a conversa.
Dentro da ambulância, os dois irmãos permaneciam quietos, até o mais novo quebrar o silêncio.
— Tokiya...? – Chamou o irmão mais novo.
— Hum?
Quando Tokiya o olhou, Hayato olhou para a parede da ambulância e o mais velho estranhou essa atitude. Algo o estava perturbando.
— O que houve?
— E-eu...
Começou, mas parou. Lágrimas voltaram a brotar de seus olhos e Tokiya sabia que não era de dor que ele chorava.
— E-ei... Hayato... Por que está chorando? – Ele se aproximou mais do irmão. Nunca soubera lidar com pessoas chorando.
Mas Hayato permaneceu quieto, estava tentando controlar as lágrimas.
— Hayato... – Disse com uma voz suave, estranha até para sim mesmo. Hayato olhou-o surpreso, pois há muito tempo não usava esse tom de voz com ele. – Conte para o seu nii-san.
O irmão mais novo arregalou os olhos, surpreso. Tokiya o proibira de chamá-lo assim fazia muitos anos, e isso o deixou extremamente feliz.
— Nii-san... – Repetiu, maravilhado com o som das palavras que não usava há muito tempo. – Nii-san... – Ele riu, e Tokiya riu com ele, inclinando o corpo e acariciando seus cabelos. Hayato parecia uma criança, a criança que ele fora um dia, puro e inocente, que se alegrava com qualquer coisa que ele dizia, e a atitude de Tokiya era uma forma de acalmá-lo, pois sabia que ir para o hospital o assustava muito.
— Eu... – Começou Hayato. – Eu me lembrei, nii-san... Eu lembrei... daquele dia. O dia do acidente.
A expressão de Tokiya era de surpresa.
— Você... você estava acordado?
— U-hum... Eu vi... o carro destruído, os médicos... a mamãe... – Um soluço agoniado escapou do fundo de sua garganta e Tokiya colocou seu dedo sob seus lábios.
— Shh... Não pense mais nisso, está bem?
Mas o irmão continuou a chorar e, sem que ele percebesse, uma lágrima escapou de seus olhos. Ele a enxugou rapidamente, sem que Hayato a visse.
Ele nunca poderia imaginar que Hayato tivesse visto o que aconteceu após o acidente. Muitos anos depois, ele próprio vira as fotos e ficara chocado. Podia entender agora porque o irmão estava tão perturbado.
Ouvindo passos ao seu redor, senta-se direito na cadeira ao pensar que seria o doutor Terashima. Mas o homem que estava à sua frente definitivamente não era o doutor.
Era muito parecido com Tokiya, olhos e cabelos azuis, alto e de pose arrogante. Usava um bonito terno preto e a combinação com os óculos lhe dava um ar superior.
Tokiya se levantou, tenso, pois à sua frente estava a única pessoa no mundo que lhe causava medo.
— “Pai...”
Fale com o autor